11 de out de 2015

O Caro Dinheiro, o Comportamentalismo Insuficiente e o Moralismo Barato: uma resposta a Samy Dana

Mesmo não sendo um leitor assíduo da Folha de São Paulo e de seu colunismo, tive, graças a um compartilhamento do amigo Marcos Lannes, editor-chefe e blogueiro de Minuto Produtivo, a oportunidade de ler o mais recente artigo de Samy Dana, economista (e, naturalmente, colunista sobre o assunto Economia) e professor da FGV.

Não era, todavia, apenas sobre Economia que o articulista versava no escrito em questão, mas principalmente sobre educação de crianças e jovens, tema ao qual este articulista, enquanto professor, acaba naturalmente não podendo se furtar.

Sob o título de Usar mesada como recompensa é risco para a formação dos seus filhos, a tese de Dana é clara sobre o que este articulista que digita chamaria de "comportamentalismo monetário", isto é, a ideia e a prática de promover mudanças comportamentais em crianças por meio do dinheiro ou de sua ausência. Será, contudo, que sua legitimidade é tão notável quanto sua clareza?

O comportamentalismo insuficiente, mas mal explicado

Após começar dissertando muito bem sobre os desafios dos pais ao tentarem ensinar aos filhos como lidar com o dinheiro, o professor da FGV vai ao ponto ao explicar a ideia que criticaria:
Você já deve ter visto ou ouvido falar a respeito de uma "planilha educativa" que viralizou na internet em 2013. Um casal que mora em Rondônia resolveu adotar uma estratégia diferente para dar a mesada aos dois filhos, de 6 e 8 anos, respectivamente.
A ideia foi montar uma planilha com uma lista de penalidades financeiras que as crianças estariam sujeitas em caso de desobediência ou mau comportamento. A mesada dos dois era de R$ 50, mas atitudes como fazer refeições fora da mesa, reclamar para ir à escola ou desobedecer os pais poderiam render descontos de R$ 0,25 a R$ 3,00. Ao final do mês, a quantia real da mesada ia depender da quantidade de punições, ou seja, quanto melhor o comportamento, maior a mesada.
Resumidamente, o que o pós-doutor em Business nos mostra nesse excerto é um exemplo de educação infantil tipicamente behaviorista, baseada na corrente psicológica que tem como principais expoentes Watson, Pavlov e, mais notoriamente, F. B. Skinner, e como conceitos de maior destaque o Condicionamento Respondente (desenvolvido principalmente pelos dois primeiros) e Condicionamento Operante (desenvolvido por Skinner).

Não é muito difícil para qualquer um que tenha levado a Psicologia da Educação a sério (ou nem tanto) mesmo que por apenas um curto semestre universitário entender que, como toda corrente de pensamento, o Comportamentalismo (ou Behaviorismo, como prefiram) tem suas virtudes e seus vícios, assim como os têm a Gestalt, o Construtivismo e a Psicanálise, apenas para ficar com os exemplos mais famosos. 

Apesar de ser criticada por diversas correntes pelo seu reducionismo ao desprezar, em seus estudos, os aspectos cognitivos que influenciam o comportamento, não há como se negar, por exemplo, que os comportamentalistas nos legaram uma série de noções importantes sobre a relação entre estímulos (S) e respostas (R), especialmente quando foi graças ao Cão de Pavlov e aos experimentos de Watson que se passou a perceber como comportamentos essencialmente biológicos podem ser controlados por fatores ambientes e psicológicos - ou seja, como os S podem modificar, condicionar, manipular as R -, que comportamentos não necessariamente são genéticos e que, portanto, certos S geram determinados R, o que pode ser utilizado para diversos fins, quer benéficos (e.g., auxiliar na educação infantil), quer maléficos (e.g., manipular pessoas para progressivamente perderem o senso de moralidade e fazerem tudo o que lhes for ordenado).

Dana, porém, acaba por reduzir toda a teoria comportamentalista a uma espécie de opção dos imediatistas:
Em psicologia comportamental, a prática é bem conhecida e chamada de estímulo-resposta. A cada tarefa concluída, a criança recebe uma recompensa. No exemplo dado, cada atitude de bom comportamento representa maior possibilidade da mesada integral. A técnica pode até ter eficácia para ter crianças muito bem comportadas em casa, mas será que esse tipo de didática realmente vale a pena?
O resultado imediato pode ser suficiente para convencer outros pais de que o método é interessante, mas é preciso analisar a questão pelo lado crítico. O grande problema desse tipo de ensino é o risco de as crianças assimilarem bons valores, obrigações e comportamento adequado a recompensas. E se a mesada, fator de motivação de tudo isso, for retirada? Como prever qual será o comportamento das crianças diante de tarefas básicas se não houver dinheiro no começo do mês?
Antes de tudo, cabe frisar que, para boa parte dos comportamentalistas (os clássicos, principalmente, adeptos do Condicionamento Respondente do experimento de Pavlov), o segredo para o sucesso educacional não necessariamente passa por nunca retirar o estímulo, mas sim por retirá-lo progressivamente, de modo a que a resposta continue pelo maior tempo possível mesmo sem qualquer tipo de estímulo, transformando-se em um comportamento internalizado, o que é justamente o maior objetivo de uma educação infantil que vise formar crianças bem comportadas.

Além disso, há um problema intrínseco à argumentação de Dana: como saber, a partir de uma tabela divulgada na internet, que a educação dada pelos pais às crianças é de base puramente behaviorista? Por que não é possível, por exemplo, que os pais estejam associando estímulo-resposta a conceitos de outras teorias psicológicas mesmo sem saber, que é o que muitos pais acabam fazendo ao enfrentarem o desafio que é educar crianças, ou, melhor ainda, seres humanos que viverão em um mundo que se torna cada vez mais complexo e cada vez menos receptivo aos pouco adaptáveis?

Mais ainda: se a educação de base puramente comportamentalista (o que não temos dados suficientes para afirmar com segurança que de fato ocorre nesse caso) é um risco, o que diremos, então, da proposta do professor da FGV?

Educação por princípios... princípios do século

Segundo o doutor em ADM, "distribuir recompensas pode ser uma forma de incentivo em algumas situações, mas transformar isso em regra para tudo é um risco muito grande a longo prazo". Lógica indefectível, como deve ocorrer com todo argumento pautado em lógica.

O que não se sustenta, entretanto, é a alternativa que Dana propõe ao comportamentalismo rastaquera:
Bom comportamento é uma questão de princípios, a criança não pode esperar uma recompensa por isso. Se essa mensagem é a que fica impressa ao longo de sua formação, como adulta, ela desejará ser recompensada por qualquer atitude positiva que tenha em sociedade. 
O professor da FGV é, como muitos brasileiros, o adepto do lema "educar para princípios e por princípios". Tal slogan pode parecer muito nobre e totalmente exequível, mas uma análise mais atenta nos mostrará que a conversa pode muito bem ser outra.

Percebam: por mais que seja virtuoso tentar educar uma criança baseando-se em princípios, o problema intrínseco a esse tipo de educação é que, na realidade, o próprio conceito de princípios assim como os princípios são tão frágeis e flutuantes que, muitas vezes, até mesmo adultos que foram educados por pessoas que indiscutivelmente não eram sem princípios têm sérias dificuldades até mesmo em compreendê-los, quem dirá ao aplicá-los no mundo real.

Princípios, por mais que sejam necessários para o convívio em sociedade e por mais que, portanto, precisem ser cultivados desde cedo, são desafiadores para todos não apenas porque muitas vezes é impossível cumpri-los, mas também porque é necessária uma imensa maturidade para compreender não só sua essência como, outrossim, que e porque muitas vezes são esquecidos em nome de justificativas muito boas e de razões não tão boas assim.

Seguindo o mesmo raciocínio reducionista de Dana, ou melhor, o raciocínio endossado por muitos de que seguir um método educacional necessariamente excluir seguir outros simultaneamente, pode-se argumentar, então, que a educação por e para princípios também é um risco, posto que nem todas as individualidades são capazes de suportar um mundo em que os seus princípios não sejam respeitados integralmente, por mais que isto seja impossível, o que poderia gerar uma geração de ressentidos que, munidos de blogs e vlogs na internet e de milhares de fãs, espalham o ódio a favor de um mundo melhor, preterindo o humano real e pensando, sempre, no ideal intangível que, inevitavelmente, não será alcançado e perpetuará esse ciclo interminável de ódio e loucura.

Does that ring any bells?

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Se acreditou algum dia em "educação por princípios", esse dia certamente era um de princípios do século. Mantém, na plataforma WordPress, o blog Apoliticamente Incorreto.

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