21 de jan de 2014

Eu, Apolítico - O curioso (aliás, curiosíssimo) caso de Rachel Sheherazade... e da "nova direita brasileira" (Ou: A volta das perguntas que não foram)

Rachel Sheherazade: Jornalismo "de direita"?
Sim, amigos leitores. Depois de muito tempo (mais especificamente, desde o Carnaval de 2013), sinto-me obrigado a voltar a falar da figura sempre polêmica de Rachel Sheherazade, jornalista sbtana (muito gata, por sinal) que, como diria um nobre amigo, dia-sim-e-o-outro-também irrita os mais diversos grupos de fanáticos ideológicos, desde neo-ateus a feministas, marxistas que não assumem o Marxismo, marxistas declarados, secularistas, defensores da causa LGBT et caterva.

Não é difícil de se prever, então, o número imenso de ataques que a jornalista sofre, Facebook afora, por parte desses grupos, incluindo, aliás, ataques de ditos "filósofos" sem ideologia mas que, estranhamente, só aparentam discordar do esquerdismo mais radical na questão do método para construir o "mundo melhor" - o que quer que isto signifique na linguagem progressista. A onda mais recente, por exemplo, foi causada pela notícia de que os colegas de redação e de emissora de Sheherazade sentiriam vergonha de trabalhar com esta, posto que tem uma "postura muito opinativa", expressando "pensamentos com os quais nem todos concordam".

Traduzindo, o que Sheherazade faz, então, é expressar as opiniões de que a mídia progressista, em geral, não gosta, e, com isso, além de ganhar o rótulo de "direitista conservadora alienada homofóbica racista machista transfóbica gordofóbica ateofóbica cristã evangélica", cativar para si um público que, na verdade, se sente pessimamente representado não só pela política mas também pela mídia brasileira, muito pusilânime para sequer cogitar a possibilidade de existirem jornalistas com opinião própria, quanto mais a possibilidade de esses jornalistas expressarem essa opinião para o grande público.

Não vou, apesar disso, gastar saliva - no caso, caracteres - demonstrando o totalitarismo do tipo de pessoa (ou seja, do militante "por um mundo melhor", do "progressista" do progresso inalcançável) que, com essa espécie de boicote sorrateiro, tenta, na verdade, retirar dos órgãos de mídia qualquer tipo de pensamento que fuja à cartilha que o totalitarista resolveu seguir, pois, com brilhantismo, homens declaradamente de direita (e com fama bem maior e bem melhor entre a própria direita que a deste blogueiro anti-direitista) como Rodrigo Constantino, Luciano Henrique Ayan e, mais recentemente, Flávio Morgenstern já o fizeram cada um a seu modo e cada um com o seu tamanho de texto, indo desde o brevíssimo Constantino ao elaboradíssimo Morgenstern.

Ocorre, porém, que, em todos esses textos, apesar de uma abordagem perfeita do papelão protagonizado pelas esquerdas (mais uma vez, diga-se de passagem), faltou ainda abordar o outro lado do espectro: O papelão da direita política. O que quero dizer com isso? Explico já. Vamos, então, aos trabalhos.

Um problema de definição: O fanatismo de direita 

Olavo de Carvalho sobre a "nova direita brasileira"
Diz o filósofo campinense Olavo de Carvalho em seu O Mínimo que você precisa saber para não ser um Idiota, assim como em diversas outras oportunidades, que a melhor forma de reconhecer um fanático de qualquer tipo, em especial o fanático ideológico, é ver como ele se porta perante as atitudes de outras pessoas, ou seja, como ele lida com a divergência de opinião, de crença e do escambau-a-quatro que, por uma razão óbvia de existirem, sempre, indivíduos com as mais diversas experiências de vida, sempre existirão. Nos termos olavianos:
O que o fanático nega aos demais seres humanos é o direito de definir-se nos seus próprios termos, de explicar-se segundo suas próprias categorias. Só valem os termos dele, as categorias do pensamento partidário. Para ele, em suma, você não existe como indivíduo real e independente. Só existe como tipo: "amigo" ou "inimigo". Uma vez definido como "inimigo", você se torna, para todos os fins, idêntico e indiscernível de todos os demais "inimigos", por mais estranhos e repelentes que você próprio os julgue.
Isto significa, então, que, antes da fervorosidade pura e simples, o que caracteriza um real fanático e o que o diferencia de um mero entusiasmado é, de fato, o grau de cegueira que aquele tem em relação a tudo e todos que pareçam não se enquadrar nas categorias com as quais ele está acostumado a pensar. Só que, ao contrário do que ocorre no artigo linkado, Olavo, normalmente, não para por aí e põe em jogo outro elemento essencial: o fanático não hesita, em benefício de seus fins político-ideológicos, em enquadrar dentro do seu esquema de pensamento todo e qualquer indivíduo que venha a divulgar opiniões para a plateia, seja ele filósofo de fato (e, provavelmente, um não-adepto de ideologias), analista político especializado, professor escolar, cronista, articulista ou mesmo ÂNCORA DE UM PROGRAMA DE TV VISTO PELO BRASIL EM MASSA.

Dito isto, cabem duas perguntas aos direitistas que defendem a jornalista de todo esquerdismo e incitam outras pessoas a defendê-la dizendo que Sheherazade seria, na verdade, um verdadeiro pilar da direita e do conservadorismo¹ dentro do jornalismo brasileiro: Vocês já viram ou ouviram, por algum acaso, Rachel Sheherazade se declarar "de direita" ou mesmo "conservadora"? E mais: Vocês pensaram na possibilidade de que, como boa parte do jornalismo brasileiro, Rachel, na verdade, não tenha lido boa parte da literatura direitista e conservadora e, portanto, NÃO SAIBA DIREITO o que significa ser, de fato, um direitista e conservador?

Não pensem, entretanto, que indago-lhes sobre isso por puro preciosismo. De forma alguma. O detalhe é que, quando se navega por muito tempo no Facebook, vê-se, na verdade, que o número de pessoas influentes na mídia que os direitistas dizem ser de direita mas que, na verdade, negam ou mesmo repudiam totalmente este rótulo quando indagados sobre o assunto é um tanto maior, tanto em notoriedade quanto em termos de números mesmo, do que os que o aceitam e o abraçam. Para se ter uma dimensão do problema, entre os famosos que já foram chamados de direita e negaram ou mesmo simplesmente não confirmaram esta informação, vemos gente como o mais influente sociólogo anti-Cotas no Brasil, Demétrio Magnoli - que chegou, inclusive, a dar entrevista se dizendo de esquerda -, a própria Rachel Sheherazade, o jornalista Luiz Carlos Prates (também do SBT) e os roqueiros Lobão Elétrico e Roger Moreira (ex-Ultraje a Rigor), este último, aliás, tendo dito, em hangout com Lobão e Danilo Gentili, que se alinharia ao centro se fosse forçado a escolher, para si, uma ideologia política.² Enquanto isso, entre os que confirmaram ser de direita, ao menos do que eu saiba, estão apenas os articulistas Olavo de Carvalho, Rodrigo Constantino e Reinaldo Azevedo, bem menos conhecidos do que os outros cinco e do que deveriam.

Percebe-se, então, que, para quem diz adotar a prudência perante os fatos, essa parcela do conservadorismo facebookiano (e lembro sempre, não uso "conservador" como xingamento de forma alguma), quando da definição de seus próprios aliados políticos, não parece ser muito prudente. Isto, no entanto, é apenas a ponta do iceberg de todo o papelão da direita facebookiana. Sim, amigo leitor, o pior ainda está por vir. Vamos, então, a ele.

A direita e a "luta contra si mesmo" (Ou: A demanda injusta e totalitarista da opinião única)

Tendo explicado, então, o problema de se enquadrar um famoso ideologicamente sem consultá-lo sobre o assunto (problema este, aliás, quase insignificante perante o próximo que tratarei), falta explicar um problema que geralmente ocorre depois de a maioria dos membros do grupo ideológico que se julga privilegiado pelas opiniões do famoso enquadrado reconhecê-lo como seu representante legítimo.

Ocorre que, como já dito de diversas formas por mim, por Olavo de Carvalho e, fora deste artigo, também por Francisco Razzo, por Gustavo Nogy e pelo libertário radical Joel Pinheiro da Fonseca (contra quem só posso, até o momento, usar o fato de ele ser libertário e nada mais), o que o fanático de qualquer tipo de seita não consegue perceber é não só que existe vida fora de sua crença, mas que mesmo pessoas que compartilham com ele a mesma crença podem, sim, ter opiniões muito diferentes sobre assuntos diferentes. Um católico, por exemplo, pode ou não considerar válido o Concílio Vaticano II, dependendo, lógico, do modo como interpreta a tradição (essencial, aliás, para o entendimento do Catecismo católico como um todo) e mesmo o próprio livro sagrado. Do mesmo modo, protestantes podem divergir quanto à legitimidade de trabalhar para ter lucro³, ateus podem divergir quanto à  importância de se legalizar o Aborto ou o Casamento Gay e assim sucessivamente.

O problema é que, como também já dito aqui, Rachel Sheherazade não foi, de forma alguma, consultada previamente sobre suas crenças políticas. A única coisa que se poderia afirmar sobre ela, diga-se de passagem, é que seu pensamento é, legitimamente, um pensamento tipicamente evangélico, pois esta crença, a religiosa, era a única que ela havia assumido publicamente.

Aconteceu, então, o que era previsível. Após um comentário no Jornal do SBT sobre a sociedade "machista" e "patriarcal", Rachel se viu diante do fogo cruzado: Uns, totalmente abobalhados pela ideologia, consideraram-na "traidora da causa" (qualquer que esta fosse, pois a direita política brasileira, até hoje, também por falta de espaço midiático, não mostrou a que veio), enquanto outros, hipnotizados pelas ideias previamente espalhadas pela "musa da direita"*, sequer toleraram, em seus blogs e páginas de Facebook, as críticas que, naturalmente, surgiram contra a opinião sheherazadiana. O que se demonstrou com isso foi, justamente, o que todo analista político de direita ou mesmo mero ex-militante de esquerda já percebeu: que a direita ainda está, em termos de estratégia política, engatinhando, enquanto a esquerda, mais experiente, disso se aproveita para continuar com ridicularizações infantiloides e acusações vigaristas (conhecem a do "nazismo de direita"?**). Eis o mistério da fé direitista na superioridade de suas teorias econômicas como chave única para o sucesso garantido.

O leitor, então, poderia me perguntar: Como a direita conservadora deve resolver isso? Eu, por enquanto, não darei todo um esquema, mas apenas um conselho, pois o melhor a se fazer, nesses casos, é cada vez mais adotar justamente o princípio que esses ditos conservadores já dizem adotar: a prudência.

Sobre o Autor: Octavius é graduando em Letras, mas também faz suas excursões, ocasionalmente, pelas bandas da Filosofia. Até pensou em virar à direita, mas foi frustrado pela (in)capacidade cognitiva de alguns de seus membros. Na briga entre as duas ideologias, aliás, torce mais e mais por uma geração apolítica.

NOVOS PODCASTS:

60º Podcast de Octavius: Eleições 2014 - A opinião de um Apolítico (Ou: Direita é a mãe!)

¹Detalhe: Não foi justamente a esquerda quem primeiro chamou Sheherazade de "reacionária" e "representante do ultra-conservadorismo brasileiro"? Falta, então, autonomia à direita de Facebook para distinguir entre quem são seus afins e quem a esquerda diz serem seus afins?

²Aliás, do que eu saiba, o próprio Danilo Gentili TAMBÉM NÃO DISSE, até hoje, se era ou não de direita.

³Sobre isso, aliás, um ótimo livro é "A ética protestante e o espírito do capitalismo", do sociólogo Max Weber, talvez o único deles, aliás, que realmente preste. Lá, o leitor poderá entender um pouco melhor o quão conflitantes eram e ainda são as visões sobre o trabalho de religiões como o Luteranismo, o Calvinismo, o Metodismo e o Anabatismo, todos, pelo menos em tese, cristãos.

*Nota: Até concordo com o "musa", mas não com o "da direita". Simplesmente não.

**No post anterior, um anônimo, muito provavelmente esquerdista, reclamou que, em seu post sobre o nazismo ser de esquerda, Luciano Ayan se esqueceu do conselho dos "historiadores sérios" de "analisar o nazismo na prática". Cabem, então, duas perguntas:
1- Desde quando somos obrigados a nos pautar no que historiadores escandalosamente progressistas (e, portanto, tendenciosos) falam para analisar a lógica do nazismo?
2- O que Marx diria sobre essa separação BIZARRA entre práxis e teoria?

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