31 de dez de 2013

The End - 2013 (E o fim próximo de "O Homem e a Crítica")

Bom, queridos amigos leitores, é isso. Assim se acaba o ano de 2013, talvez o ano em que este blog tenha passado pelo maior número de grandes polêmicas desde a sua criação, incluindo os posts sobre Sakamoto, Ghiraldelli e Bernardo Lopes. Venho aqui, então, para, assim como em 2011 e 2012, para agradecer-lhes por toda a audiência que me deram (quase 40000 views, um crescimento espetacular desde o fim do ano passado), pelos debates que tivemos e por vossa paciência, que espero ainda ter, por causa da minha mudança de estilo de escrita neste ano, com textos mais longos.

Falando nisso, já votaram na enquete para escolher o nome do novo blog? Se não o fizeram, então votem, para finalmente sabermos quem substituirá "O Homem e a Crítica". Até o momento, o vencedor é "Apoliticamente Incorreto", apesar de não ter mais a maioria absoluta dos votos.

Enfim, despeço-me por aqui e, novamente, agradeço-lhes pela confiança no peixe que aqui vendo. Até 2014, amigos leitores!

Sobre o Autor: Octavius é graduando em Letras e, apesar do cansaço mental em 2013, tenta se deslocar pela estrada da Filosofia. Postaria uma apologia à mudança pessoal ou mundial em 2014, mas não é progressista nem revolucionário, além de não curtir essas viadagens.

NOVOS PODCASTS:

57º Podcast de Octavius: Dialeticando com Pondé - A Filosofia Adulterada
58º Podcast de Octavius: Por que ler Machado de Assis?

25 de dez de 2013

O Mínimo que Bernardo Lopes precisa saber para não ser um Idiota - O show de falácias de um Lanterna Verde

É, meus amigos, finalmente vou encarar um dos membros da semi-famosa Tropa Lanterna Verde, que é, basicamente, uma congregação de neo-ateus (e um cristão moderadíssimo, Alexandre Mansinho, um dos poucos membros lúcidos da Tropa, apesar de menos lúcido do que deveria) cuja raiva pela religião, como típico de todo neo-ateu, ultrapassa o limite do razoável e os motiva a fazerem vídeos em que igualam "agredir gays" a "não permitir casamento civil igualitário" ou em que sugerem que a existência de anti-militância contra movimentos sociais é fruto pura e simplesmente da intolerância de alguns de seus membros, e não da própria natureza segregatória desses movimentos.

É também uma característica comum a quase todos (senão a todos) esses membros o ódio patológico pela figura de Olavo de Carvalho, que, segundo eles, a partir do momento em que se torna um best-seller em um país que NÃO LÊ, também se torna uma ameaça bem maior do que a mentalidade totalitária do PT ou até mesmo que os próprios religiosos que tanto combatem.

Enfim, considerando isso, não é de se surpreender, então, que venham, desses membros, ataques contra a figura do filósofo (baseados, como quase todo ataque conhecido a Olavo, no famoso "diz-que-me-diz"ou em uma ou outra falha esporádica do filósofo em assuntos QUE NÃO SÃO FILOSÓFICOS), sendo o mais recente deles produzido pelo "Nerd Cético", também conhecido por Bernardo Lopes, um dos líderes dessa congregação neo-ateísta.

Neste ataque, intitulado "O Mínimo que você precisa saber para não ser um Idiota", em óbvia paródia ao conhecido livro homônimo de Olavo, obra esta que o cético de boteco, em hangout posterior ao seu vídeo (não me lembro em que ponto, creio que pouco antes do 40º minuto), admite não ter lido, Bernardo faz uma série de afirmações muito interessantes de serem analisadas, além de dar provas,em seu vídeo, de que não leu mesmo a obra, visto que este está estruturado de maneira completamente divergente daquela, cujo título sequer foi escolhido por Olavo, mas pelo editor, Felipe Moura Brasil, não com intenções dogmáticas, mas como uma espécie de provocação ao leitor, e, em especial, ao leitor acostumado à literatura (se é que é digna deste nome) politicamente correta.

Estes detalhes mais profundos sobre o livro em si, entretanto, pretendo abordar em outra oportunidade, pois o que me interessa é, realmente, analisar as falácias de Bernardo. Vamos, então, aos trabalhos.

Bernardo como deseducador retórico

A primeira das 14 frases (de analfabeto funcional) que o neo-ateu posta é a seguinte:

"1- Ad hominem não é argumento"

Certa feita, em um de seus vídeos, o famoso Conde (cuja vida intelectual por hora se limita a xingar muito Francisco Razzo de "conservador em torre de marfim") disse, sobre Yuri Grecco, outro dos líderes da manada de céticos de boteco, que este tinha uma "cultura de wikipédia". Pelo visto, nem essa Bernardo consegue ter, visto que, até mesmo na tripudiada Wikipédia, lê-se que "uma falácia é um argumento logicamente inconsistente, sem fundamento, inválido ou falho na tentativa de provar eficazmente o que alega."

Isto significa que, sendo o ARGUMENTUM (frise-se: ARGUMENTUM) ad hominem uma falácia, isto não o exclui, mas sim o inclui no rol dos argumentos, apesar de logicamente inválidos. O que Bernardo faz, então, é pura e simples distorção da realidade e demonstração de completo desconhecimento de qualquer estudo mais apurado sobre as retóricas grega e latina.

Esta, porém, é apenas a ponta do iceberg. Em seguida, nosso nada ilustre lanterna verde brasileiro, pensando ter descoberto a América, afirma que:

"2- Professor precisa ser formado"

Com isto, sem perceber, Bernardo coloca como mentirosas as carreiras de grandes literatos brasileiros como Machado de Assis, jornalista SEM FORMAÇÃO, e Guimarães Rosa, diplomata SEM FORMAÇÃO. O cético também descarta a existência intelectual de Mário Ferreira dos Santos, filósofo brasileiro sem formação e, quiçá, um dos maiores comentadores já existentes da obra de Nietzsche (um fato para quem tenha lido Assim Falava Zaratustra na versão prefaciada e comentada pelo filósofo brasileiro), que também NÃO TINHA FORMAÇÃO em Filosofia (Aliás, Nietzsche, se formos analisar, seria hoje formado no que chamaríamos de um curso de Letras, ou, talvez, de Letras Clássicas).

Quanto ao professor, este tipo de imbecilidade só é proferida por dois tipos de pessoas: Os que acham que formação é documento (e, não, não é, só é para áreas técnicas, o que não é o caso, por exemplo, de Filosofia ou Letras) ou os que, como dito em outro post meu, veem a educação pela ótica mussoliniana e, portanto, fascista. Aliás, que me perdoem os leitores, mas minto, pois há um terceiro tipo: aqueles que, por não terem passado por uma licenciatura, não conhecem as bizarrices intelectuais a serem aceitas pelos futuros professores, que, muitas vezes, só se capacitam para dar aulas dando aulas, e não "por formação".

Tudo isto, entretanto, é apenas a primeira seção das bizarrices de um dito cético. Agora é que a coisa começa a pegar fogo.

Bernardo como mitômano

Um mitômano, como creio que sabem os amigos leitores e o próprio "nerd cético", é aquele que, de tanto mentir (e mentir com convicção), passa a crer na própria mentira. Parece ser isto o que acontece com Bernardo nas afirmações seguintes, distorções descaradas do pensamento de Olavo espalhadas por seus desafetos, dentre eles o próprio Bernardo:

"3- Vermelho é só uma cor"

Segundo o nosso genial cientista político, vermelho passou a ser apenas o que antes do comunismo era, ou seja, uma cor primária. Pois é, espero que os membros do PCB, do PSTU, do PCO e do próprio PT não o ouçam dizer isto, nem as duas próximas frases, ainda mais absurdas.

PS: Isto não significa, é lógico, que tudo que tem vermelho é comunista, mas o próprio Olavo não disse isso até que se prove o contrário.

"4- Comunismo respira com aparelhos"
"5- Teorias da conspiração sem fundamentos são papo furado"

Aqui, também, Bernardo demonstra seu completo desconhecimento de tudo que se refere a comunismo e mesmo ao livro que parodia, pois, em um dos artigos lá constantes, Olavo nos mostra um trecho das memórias de George Soros (se bem me lembro), em que este se declara um internacionalista a todo custo, inclusive ao custo de financiar movimentos comunistas por todo o mundo.

Do mesmo modo, ao reclamar de "teorias conspiratórias", Bernardo também demonstra não ter o menor conhecimento sobre o Foro de São Paulo, cujas atas estão disponíveis na internet para qualquer um que queira examiná-las. De fato, concordo com o dito cético quanto a teorias conspiratórias sem fundamento (um pleonasmo, diga-se de passagem). Mas esta teoria, de conspiratória, nada tem.

"6- AIDS não é teoria da conspiração". 

Mais mentirosa, porém, é a frase acima, sobre a qual apenas pergunto ao nosso amigo cético (que, segundo seu próprio companheiro de tropa, Maestro Bogs, deveria, por definição, procurar as evidências daquilo que diz): Quando Olavo afirmou isso? Em que contexto? Com quais intenções? Para quem?

Para um cético, nosso amigo é um bom mitômano. Hora de mudar de assunto, no entanto e pelo menos momentaneamente, visto que as falácias bernardianas têm muitas subdivisões.

Reductio ad absurdum

"7- Combustíveis fósseis existem"
"8- Reconheça seu erro".

Em seguida, nas frases acima, Bernardo, como todo aquele que, assim como seus companheiros, sente medo patológico por Olavo, aproveita-se de duas falhas momentâneas e que nada têm a ver com Filosofia propriamente dita para, então, tentar, porcamente, reduzir o filósofo campinense à condição de idiota.

Para quem muito falou sobre falácias na primeira frase, porém, é estranho que o "nerd cético" (que, como vemos, de cético nada tem) seja um adepto tão fervoroso (característica que não combina com o ceticismo) da redução ao absurdo, ou reductio ad absurdum, falácia em que se pega o que o oponente falou de impróprio (ao menos aparentemente) e se usa como motivo para ridicularizar todo o seu pensamento. Mais uma vez, uma simples consulta ao artigo sobre falácias da Wikipédia é mais do que suficiente, pois, lá, lemos que: 
"É importante observar que o simples fato de alguém cometer uma falácia não invalida toda a sua argumentação [...] A falácia invalida imediatamente o argumento no qual ela ocorre, o que significa que só esse argumento específico será descartado da argumentação, mas pode haver outros argumentos que tenham sucesso".
Pelo visto, então, e até que se prove o contrário, está claro que nem mesmo cultura wikipédica há em Bernardo. O mais grave, entretanto, ainda está por vir. Voltemos, então, à mitomania.

O império contra-ataca - A volta das mentiras que não foram

Voltando, então, à mitomania, vemos um claro exemplo de mentira e distorção na nona falácia bernardiana:

"9- Gays não são superpoderosos"

Ao dizer isso, Bernardo afirma, logo em seguida, que "Não existe ditadura gay". De fato, não existe, nem Olavo disse isso. Isto não significa, entretanto, que a preocupação deva deixar de existir, especialmente porque, em nome das "minorias" (o que quer que isso signifique, pois eu mesmo achei que entendesse essa palavra dentro da língua progressista, mas não entendo), está se calando até mesmo um humorista cuja audiência sequer chega a 5 pontos no auge. Isto fora, como bem explicado por Flavio Morgenstern, o minarquista uspiano, a hipersensibilização, um dos fenômenos mais comuns na democracia socialista brasileira, em que se blinda as minorias de todos os lados sem mesmo consultar-lhes sobre isso, criada em torno dos gays pela famigerada PLC 122. Ou seja, não existe ditadura gay... ainda.

Mais bizarra, porém, é a próxima afirmação:

"10 - Cristãos NÃO SÃO COITADINHOS"

Esta afirmação, por si só, seria o óbvio ululante, visto que nenhum grupo é coitadinho, pois, a não ser no caso de pessoas com graves deficiências mentais, não existem coitadinhos (a não ser na cabeça de um rousseauniano). O que se segue, porém, é o absurdo. Bernardo afirma, sem citar qualquer fonte histórica, que o Cristianismo "mais perseguiu do que foi perseguido".

Caro Bernardo, vamos deixar as coisas bem claras: Por mais ateu que eu seja ou por mais neo-ateu que você seja, negar os 300 anos de perseguição romana-pagã aos cristãos e os mais de 1300 anos de perseguição muçulmana a cristãos no Oriente Médio, perseguição esta que dura até hoje (isto fora a perseguição no Japão, na China e nos países comunistas e ex-comunistas), e, com base nisso, afirmar que cristãos mais perseguiram do que foram perseguidos não é  nada mais do que mentira pura e simples, e mentira das mais deslavadas. Parece, então, que não é só seu ouvinte que precisa aprender muito para não ser idiota, não?

"11- Viva a Revolução Francesa!"

Falando ainda em Cristianismo, o "nerd cético", então, reproduz a mentira mais deslavada de todos os tempos, também reproduzida por seu comparsa Yuri Grecco e refutada por Conde, a de que nossos valores morais atuais existem graças à revolução francesa. Quanto a isto, não há muito o que falar fora do já dito por Conde: Ao afirmar que liberdade, justiça e igualdade foram introduzidas pela Revolução Francesa, afirma-se também, categoricamente, que estes conceitos não eram sequer discutidos antes desse período. Isso não só se desmente lendo OS FILÓSOFOS INSPIRADORES da Revolução (Diderot, Rousseau e Voltaire) como também qualquer obra clássica grega ou latina, nas quais se discute muitos conceitos melhor do que qualquer Foucault ou Ponty por aí.

Há, porém, o que se indagar quanto à frase em si: Como um cético pode vir com a cara mais deslavada do mundo dizer que tem orgulho de uma Revolução que, em poucos meses, ceifou mais de 40 mil vidas com a guilhotina? (17 mil só durante o Terror)

Após isto, Bernardo vem com a mesma apelação do item 9:

"12- Marx não tem superpoderes"

De fato, Marx não é superpoderoso, assim como Aristóteles, Agostinho, Tomás de Aquino, Descartes e Kant também não eram. Detalhe: Estes cinco foram, talvez, os filósofos mais influentes da história, tendo influenciado inclusive o modus vivendi dos homens posteriores a eles (Aristóteles na Grécia e em Roma e nas ciências por muitíssimos séculos, Agostinho e Tomás na era Medieval, Descartes e Kant na Modernidade). Tem certeza, então, ó CÉTICO, de que Marx está morto?

Por fim, mais uma distorção:

"13- Geocentrismo = caô"

E Olavo nunca disse o contrário. Do que eu saiba, aliás, o que Olavo diz, e que está CERTO, é que não existem provas cabais para se provar a teoria heliocêntrica ou qualquer outra teoria sobre o Universo, pois isto não é verificável para humanos.

E mais uma distorção e uma mostra de desconhecimento:

"14- Nunca houve ditadura comunista no Brasil."

Nem é isso que se diz. O que se diz é que, sem a intervenção militar, o risco de um golpe era iminente. Ou será que não era, apesar de a esquerda já estar armada no Brasil da época, do apoio cubano e soviético e de todo o cenário de caos no país com as guerrilhas? Investigue, "cético", investigue.

Vemos, então, que, para um cético, Bernardo tem muitas certezas, e que, para um nerd, falta estudo. Poderíamos dizer, então, que, como cético, Bernardo é um neo-ateu medíocre, e, como debatedor, Bernardo é um estudante mediano de Ensino Fundamental. Como contestador de Olavo, então, o "nerd cético" teria muito futuro como sósia de Emir Sader.

NOTA: Não espero resposta a este post, mas, caso ela venha, será apreciada como qualquer outra foi em oportunidades anteriores.

Sobre o Autor: Octavius é graduando em Letras e, melhor do que muitos "céticos", caminha pela estrada da Filosofia. É ateu e até acreditaria piamente no fim da religião como panaceia mundial, mas deixou de crer nessas histórias da carochinha há algum tempo. Faria sátira de O Mínimo que você precisa saber para não ser um Idiota, mas, ao contrário de Bernardo Lopes, leu o livro em questão.

21 de dez de 2013

Manifesto Musista (Ou: Memórias Póstumas de um jovem Pós-Moderno)

   "Eu não aceito o termo “evolução” se a) ele pressupor melhorias no que diz respeito à natureza  humana e b) se ele pressupor, em consequência disso, que o passado é menos valioso que o presente e o presente menos que o futuro."
(Francisco Razzo, historiador da Filosofia e destruidor de egos pós-modernos)

Amigos leitores, devo dizer-lhes que cheguei, bem recentemente, a uma conclusão que mudará as vossas vidas completamente. Não, minto, não chega a tanto, mas que seria muito legal, ah, isso sim.

Enfim, de qualquer maneira, venho por meio deste lhes convocar a, assim como Homero em Odisseia e em Ilíada, pedir que as musas lhes cedam inspiração artística e intelectual sempre que forem escrever, ler, pensar, raciocinar, especular, hipotetizar, desenhar, pintar ou praticar qualquer outra atividade que requeira mais do que dois neurônios ativos no cérebro, ou seja, qualquer daquelas atividades que só se pode apreciar adequadamente fora da escola ou da universidade, como, por exemplo, estudar seriamente ou empreender uma reflexão filosófica minimamente descompromissada dos academicismos e dos ideologismos de quinta.

Por que, porém, faço este pedido? Tentarei explicar nas próximas linhas.

Foi pedindo inspiração das musas que o já citado Homero, como todos sabemos, escreveu nada menos do que as duas obras citadas e, provavelmente, mais um sem-número de obras perdidas ao longo da história (isto, lógico, considerando que o poeta grego realmente tenha existido). Do mesmo modo, gênios como Sófocles (Édipo Rei e Antígona não me deixam mentir), Eurípides (Medeia, talvez a segunda peça mais genial de todo o teatro, perdendo apenas para Édipo Rei) e Ésquilo (Os Persas, Sete contra Tebas, etc) não só escreveram algumas das obras mais geniais e mais influentes da Literatura como também, com o auxílio das Musas, criaram, apenas, o que hoje conhecemos por "Teatro".

Obviamente, estas Musas não são nada mais do que metáforas muito bem construídas por toda uma tradição grega que, mais tarde, viria também a dar origem a outros gênios, desta vez na Filosofia (e também na Poesia e em outros tipos de arte), como Heráclito, Parmênides, Zenão de Eleia, Sócrates, Platão, Aristóteles, Diógenes, Epicuro, Plotino, entre outros. Tal tradição se pautava, na verdade, em valores impensáveis para o homem cada vez mais "pós-moderno" - e, portanto, cada vez menos inteligente e, ao mesmo tempo, mais confiante naquilo que não têm, ou seja, na própria inteligência- e, agora, cotidianamente mais convencido a "lutar por um mundo melhor" e a "militar pela igualdade" (o que quer que isto signifique).

Um dos valores que nos pode parecer mais absurdo, curiosamente, era justamente a descrença no livre-arbítrio, algo que faria qualquer cristão, islâmico, marxista, neo-ateu ou qualquer outra espécie de religioso pós-grego ficar de cabelos em pé e com cara de nojo. Ocorre, entretanto, que, ao lermos as obras daquele período, o que vemos é precisamente que, sem esse valor, não seria possível que escritos como os que compõem a Trilogia dos Labdácidas/ Tebana (Édipo, Édipo em Colono, Antígona), ainda hoje tidos como obras canônicas (no sentido atribuído pela Teoria da Literatura ao termo) e mesmo como um dos modelos para qualquer produção teatral de alto nível, tivessem sido pensados e transmitidos para o papel.

Afinal, mesmo a maldição dos Labdácidas em si é totalmente baseada na luta dos líderes de Tebas contra o inescapável destino. De Laio (pai de Édipo) a Antígona (filha de Édipo que dele cuida durante o asilo em Colono), o que vemos nas peças são uma série de tentativas falhas por parte dos personagens de subverter os rumos preditos pelos oráculos a suas vidas. Enquanto Laio, para evitar ser destronado e ter seu leito profanado pelo filho, Édipo, o manda para longe da cidade e termina por morrer sem descobrir que seu plano falhou (pois foi morto pelo mesmo filho sem saber), Antígona, a última dos Labdácidas, acaba por selar seu destino ao desafiar o poder político de Creonte, irmão de Jocasta (sua mãe e avó ao mesmo tempo), seu tio e rei de Tebas após a abdicação de Édipo, e enterrar um de seus irmãos, Polinices, que o havia desafiado assim como a outro dos filhos de Édipo, Etéocles, na querela pelo controle político de Tebas. O próprio Édipo, antes, ao presumir que seus pais eram os reis de outra cidade que o tinham criado e fugir para Tebas para escapar do oráculo maldito, termina, também, por dar razão ao destino.

Por mais que isto possa parecer injusto ao olho acostumado pela visão cristã e, principalmente, pela visão progressista, é justamente essa impossibilidade de fuga do destino, como vemos, que não só foi um dos como também foi o principal alicerce filosófico sobre o qual se construiu a primeira grande "escola literária" (na falta de melhor termo) do Ocidente, mais tarde brilhantemente explicada por Aristóteles em sua Poética. (Há também, nesta obra, uma longa explicação sobre a Lei das Três Unidades, sobre e contra a qual todo o teatro ocidental acabou sendo construído, mas isto não é pertinente ao tópico. Quem quiser saber mais, o livro é de fácil acesso em muitas livrarias).

Acontece, que, por mais incrível que possa parecer, a real relevância artística e filosófica grega (e, consequentemente, das "Musas") não está no que foi construído por atenienses e outros por mais de um milênio. Afinal, de certo modo, quase todos os valores e todo o conhecimento que valiam para os gregos como verdadeiros não o são mais atualmente - sorry, Aristóteles, talvez o maior gênio humano de todos os tempos, mas tua Física e tua Biologia já eram, assim como a Lei das Três Unidades -, assim como, definitivamente, o cenário atual difere, e muito, daquele da época . 

É isso, contudo, que faz os gregos tão importantes na história: foi justamente a tentativa de refutá-los, alcançá-los, superá-los ou até mesmo simplesmente complementá-los que construiu o que hoje se chama (e se odeia) de "civilização ocidental". Os romanos, na sanha de igualarem  o status de sua cultura com o da cultura grega, produziram nada menos que Virgílio (e sua Eneida, obra obrigatória para romanófilos), Horácio, Sêneca, Cícero, Júlio César, Plauto, Lívio Andrônico, entre outros.

Os cristãos, por sua vez, já admitindo e defendendo o livre-arbítrio e, ao mesmo tempo, aceitando e desafiando uma série de paradigmas, especialmente filósoficos, gregos, têm um histórico inquestionável e que inclui, entre outros, um hall de verdadeiros gênios da Filosofia, como Santo Agostinho (o platonista cristão), São Tomás de Aquino (o cristão aristotélico), Descartes (um dos principais co-fundadores da Modernidade), Galileu, Lutero, Calvino, Wesley, Kant, Chesterton, e a lista continua longamente. Na arte, também, podemos citar Gaudi, Da Vinci, Dante, Petrarca e Michelângelo e não descer a maiores minudências.

Para desafiar este último grupo, assim como voltar e desafiar aos gregos, temos pensadores das mais variadas correntes, indo desde os fraquíssimos foucaultianismo, marxismo e desconstrucionismo aos filósofos mais bem fundamentados, como Schopenhauer (que me desculpem os hegelianos, mas é este o maior filósofo alemão dos séculos XVIII e XIX), Spinoza, Nietzsche (que, mesmo assim, não é um décimo do filósofo que é Schopenhauer),  Voltaire, Diderot, Popper, entre outros.

Quando falamos em arte, então, teríamos uma lista interminável, indo desde a sofisticação britânica de Shakespeare (um dos primeiros grandes desafios à Lei das Três Unidades) ao trágico carioca de Nelson Rodrigues, passando também pelo realismo machadiano, pelo teatro beckettiano, pelo proselitismo comunista barato de Brecht, pelo terror de Poe, pela embriaguez e pelo ópio baudelairianos e por um sem-número de escritores e artistas que, ao mesmo tempo em que desafiavam explicitamente os paradigmas gregos de arte, também tinham, vez sim, outra vez também, que se curvar e reverenciar (e referenciar) à cultura clássica inspiradora, em grande parte, de suas obras.

Entretanto, apenas relatar estes fatos a vós, digníssimos leitores, não basta. É preciso também saber explicar como os gregos conseguiram ser dignos de tal louvor em termos culturais e, consequentemente, porque peço a vós um regresso às Musas.

Primeiro, é preciso lembrar que vivemos, segundo um bando de sociólogos, psicólogos e filósofos de auto-ajuda que não têm mais o que fazer alguns filósofos e sociólogos, na Pós-Modernidade, era em que, sobre o pretexto de que todas as grandes teorias que explicavam o homem foram provadas erradas, se procura justificar, incessantemente, a preguiça intelectual da maioria dos estudantes e, ainda mais, louvar a estes por isso, visto que não estão "caindo em extremismos", "se entregando a falsas dicotomias" ou alguma outra lorota do tipo. Neste tipo de era, então, é praticamente impossível tentar pregar qualquer valor sem ser tachado, imediatamente, de "mente atrasada" (como se o mais novo fosse sempre o melhor), "extremista", "radical", "ideólogo" (uma das maiores pataquadas pós-modernas, aliás, que tratarei de destruir em breve) ou, caso se seja religioso, "fundamentalista" - adjetivo, aliás, dos mais vagos dentro da nova linguagem progressista.

Ocorre, porém, que, ao contrário do que os pós-moderninhos convenientemente quiseram esquecer, SÓ SE PRODUZ CULTURA COM VALORES FIRMES E CLAROS. E isto pode ser confirmado com uma simples comparação. Dos filósofos da "pós-modernidade" (e, leia-se, dos que fazem filosofia em seus moldes, não em moldes mais antigos), quantos poderiam ser considerados dignos de estar entre os maiores da história, como aconteceu com os filósofos gregos, cristãos e até mesmo com os iluministas? Quantos dos escritores de nossa era, também, conseguiriam uma vaga no tão cobiçado "cânone literário" ao lado de gênios como Machado de Assis, Cruz e Sousa, Gil Vicente, Camões, Edgar Allan Poe, Ralph Waldo Emerson, Racine, Mallarmé, Victor Hugo, Baudelaire, Dostoiévski, Tolstói, Wilde, Dickens, Shakespeare et cetera?

A resposta, ao menos por enquanto, e acredito que enquanto durar toda esta lorota, é óbvia: NENHUM. Não haveria senso, afinal, em anexar ao grandioso o medíocre, assim como não o há em rebaixar o grandioso ao nível da mediocridade. Proclamo, então, que a única solução para esta era tão cheia de orgulho pelo que não têm e por se adaptar a todo jargão ideológico criado pelas Academias universitárias mundo afora (inclusive ao jargão de que tudo é "ideologia" ou "reconstrução e desconstrução por meio da linguagem") é, justa e ironicamente, uma volta ao passado e uma reconciliação sincera com as belas Musas que inspiraram não apenas os gregos, mas também tudo aquilo que se chama, ou pelo menos que se chamava antes da pós-modernidade "pós-moderninha", alta cultura.

Enfim, classicistas de todo o mundo, uni-vos! (Afinal, o que na pós-modernidade não termina com uma frase de efeito?)

Sobre o Autor: Octavius é graduando em Letras e, nada pós-modernamente, tenta se deslocar pelos caminhos da Filosofia. Colocaria uma descrição pós-moderna neste espaço final se levasse esta era a sério. Só escreve nesta freguesia porque as outras ficam "pós-modernando" demais para seu gosto.

13 de dez de 2013

Eu, Apolítico - Educação como um direito - Ponderações Primeiras (ou: Prolegomenos a toda reflexão educacional futura)

(Aviso 1 - Aos linguistas aplicados, pedagogos "pogrecistas" e afins: Este post não se destina a defender os vossos pontos de vista e nem a ser uma defesa politicamente correta ao "direito à educação". Mesmo que acabe sendo, aliás, acreditem, não foi por vossa causa. Quero que se danem seus tecnicismos inúteis e suas teorias revolucionárias sobre como a educação deve ser uma forma de dar ao aluno "uma visão crítica sobre o mundo", pois o que quero aqui é uma discussão séria, e não um proselitismo ideológico do mais baixo nível filosófico).

(Aviso 2 - Aos kantianos: Ainda não tive o privilégio de ler o seu filósofo predileto, mas, do pouco que conheço sobre suas obras, "Prolegomenos a toda metafísica futura" é nada mais nada menos do que uma espécie de "prólogo" à filosofia de Kant. Uso "prolegomenos", então, como um sinônimo mais sofisticado de "prólogo", ou seja, como uma ferramenta linguística, não como ponto de discussão filosófica. E, não se preocupem, não pretendo fazer grandes discussões filosóficas sobre Kant antes de lê-lo, pois reconheço minha atual inaptidão para tal empreendimento).

(Aviso 3 - Dados estes avisos, partamos ao texto de fato e de direito, mas não necessariamente de direita).

Dizem os estudiosos da Retórica Antiga, muito corretamente, que afirmar que a veracidade (ou não) de uma proposição depende de quantas pessoas acreditam nesta proposição não é argumentação, mas uma espécie de falácia lógica denominada argumentum ad popullum (sobre o qual comentarei futuramente, ou talvez até já tenha comentado) em Latim e, em português, "Apelo ao Povo". De fato, ao se analisar friamente os fatos, não há como negar que esses estudiosos estejam certos, e um exemplo bem claro disso é "a educação É um direito de todos", frase propagada aos quatros ventos por qualquer militante progressista vagabundo e que, realmente, tem o apoio da maioria do povo, mas, mesmo assim, é, pelo menos no terreno da lógica, extremamente INCORRETA, pois, sendo realista, a educação NÃO É um direito.

O leitor, espantado, deve estar se perguntando: "Mas como assim? Esse louco está negando que as pessoas podem se educar no Brasil?". Quanto a isso, peço calma ao leitor e começo a explicar porque, de fato, o problema da educação como direito não pertence ao plano do "ser", mas sim do "dever ser". Vamos, então, aos trabalhos.

Definição primeira - O que é "direito"?

Para discutir se a educação é ou não um direito, há, primeiro, de se definir o que se entende, ou o que é possível entender, quando se fala que "algo é um direito de alguém".

Primeiro, o problema em que se cai ao se tentar definir o que é um direito é que, na verdade, não existe direito que não precise ser cobrado de outrem. Parafraseando o filósofo Olavo de Carvalho, quando o Estado concede direitos a um cidadão ou a um grupo, esta benesse, inevitavelmente, deverá ser cobrada de outros cidadãos e de outros grupos. Quanto mais se cede direitos às mulheres, por exemplo, maiores deverão ser as concessões feitas por parte tanto das mulheres que não queiram esses direitos quanto por parte dos homens. Ou, falando de direitos que afetam mais diretamente o lado financeiro, quanto mais "direitos fundamentais" ou programas sociais um governo criar ou se incumbir de fornecer aos seus cidadãos, mais estes terão de pagar impostos para que seja possível aos governantes arcar com os custos necessários para a cessão dessas benesses.

Com a educação, então, não é diferente: Para que a educação pública, gratuita e de qualidade seja um direito de todos e um direito ACESSÍVEL a todos, há, então, a necessidade de que seres humanos façam, primeiro, concessões entre si e formem grupos coesos capaz de fornecer essa educação. Depois, é necessário que se estabeleça uma autoridade maior (no caso, um poder temporal, neste caso o Estado) à qual todos deverão se submeter, inclusive financeiramente, e que ficará incumbida de fazer os direitos serem garantidos a todos que deles queiram usufruir. Por último, é preciso, então, que tanto os que querem usufruir desses direitos quanto os que não querem entrem em comum acordo e paguem um "x" de dinheiro que será destinado a cobrir todos os custos necessários para que esta benesse entre em vigor.

Isto significa, na prática, que a educação como um direito depende, basicamente, de três movimentos coletivos que precisam ser absolutamente espontâneos: A formação de uma sociedade, a aceitação de um "contrato social" comum a todos e a concordância de todos em sustentar um Estado (vindo desse "contrato social") que fornecerá os direitos e determinará os deveres a serem seguidos por todos. O problema é que, ao tratarmos de seres humanos, não há como prevermos, com certeza absoluta, que essas três condições serão, indubitavelmente, cumpridas em algum tempo, muito menos que durarão eternamente. Não existe, portanto, como afirmar que "a educação É um direito", mas sim que, na nossa sociedade e em outras de cultura análoga, "a educação ESTÁ um direito", dado o seu caráter tão efêmero (o que não combina com a noção do "ser") quanto o é o caráter do homem.

Há, também, um segundo problema: Para que um direito exista, é obrigatório um alicerce que o legitime. Há, então, dentro dos estudos em Direito, duas grandes teorias sobre como um direito é legitimado: A jusnaturalista, que prega a existência de direitos naturais ao homem, ou seja, que prescindem de qualquer juízo de valor subjetivo ou de qualquer aprovação estatal ou social, e a juspositivista, que, por sua vez, tende a considerar como um direito humano apenas aquilo que é positivado pela sociedade, ou seja, que é legitimado perante todo o grupo. 

Cai-se, então, de novo, em um problema: Enquanto,  para a vertente juspositivista, se depende das três condições acima e, portanto, educação continuaria não sendo um direito, mas estando um direito (pois dependerá de como cada Estado lida com o tema), para qualquer vertente jusnaturalista conhecida, a educação, definitivamente, não é um direito, pois, se tomarmos como verdadeira a vertente mais tradicional, veremos que apenas a vida e a liberdade são direitos inalienáveis, enquanto, para a vertente que se baseia nos escritos do liberal John Locke, o único "direito natural" adicionado aos outros dois seria o de propriedade privada, e não o de educação, especialmente "pública, gratuita e de qualidade".
"Teu cu que 'educação é um direito'" - Locke para militonto "pogrecista"
Creio ter demonstrado, então, que, de qualquer modo, educação não É um direito, mas ESTÁ, em nossa sociedade e em outras, um direito. Pode-se, então, ir para outra questão, que é: Será que a educação escolar "pública, gratuita e de qualidade" (uma impossibilidade lógica segundo o minarquista uspiano Flávio Morgenstern) deve CONTINUAR a ser um direito de todos? 

Definição segunda - Qual é a função  da educação escolar?

Para responder a essa outra questão, entretanto, é necessário entrar, agora, em uma definição não do que é a educação, mas de qual deve ser sua função perante a sociedade em que está inserida, ou seja, qual deve ser o papel da educação escolar pública no grupo social que a exige.
Deve-se ter em mente, então e antes de tudo, que, ao contrário do que se pode pensar, não existe, até o momento presente, real consenso quanto a qual deve ser a função da educação, e que, portanto, existem várias vertentes, muitas vezes com vieses extremamente conflitantes e quase dicotômicos entre si, dispostas a não só explicar como também a determinar como uma determinada sociedade, ou mesmo como a humanidade em si, deve encarar a educação dentro do seu seio.

Sem entrar em maiores detalhes (que talvez aborde futuramente, afinal isto é apenas um prólogo), existem, basicamente, três linhas de filosofia educacional mais creditadas por pedagogos e profissionais da educação em geral. A primeira, claramente mais conservadora - e não uso o termo "conservador" aqui com qualquer acepção pejorativa, mas com o respeito necessário a uma escola de pensamento seríssima e filosoficamente sólida -, prega que a função da educação, e principalmente da educação escolar, em pauta neste texto, é a de formar indivíduos que, além de bons profissionais, estejam em sintonia com a moral social. À escola, então, caberia o papel de sistematizar os conhecimentos e as crenças morais de determinada sociedade e reproduzi-las para os alunos de modo a que estes pudessem, se não crer neles como corretos e inquestionáveis, compreendê-los e serem capazes de utilizá-los em sua vida cotidiana. Para teorias educacionais que sejam derivadas dessa vertente, então, não cabe à educação uma função redentora, mas sim fazer o aluno compreender o funcionamento do mundo em que vive e da sociedade em que está inserido.

Radicalmente contrário a este tipo de pensamento, por sua vez, é o segundo segmento, este sim declaradamente revolucionário e crente no poder redentor da educação, visto que crê piamente que, além de a educação dever ter "função social" - o que, como diria o sempre genial Francisco Razzo, historiador da filosofia pragmatista-jamesiano, significa, a priori, o mesmo que nada, pois o ser humano, em essência, já é um ser social -, ela deve, também, ser uma forma de o aluno "enxergar criticamente o mundo" e, por meio dos conhecimentos adquiridos (se é que adquire algum), "intervir na realidade". Trocando em miúdos, para o seguidor desse tipo de esquizofrenia, digo, dessa filosofia, a função da educação é ensinar o aluno que, como há problemas no mundo e como esses problemas são culpa do "sistema opressor", este (o aluno) deve, então, ser educado por uma escola patrocinada por esse mesmo "sistema opressor" para mudar o mundo, em um movimento político-ideológico por parte dos militantes desse sistema que fica entre o esquizofrênico e o puramente cretino.

Por fim, uma terceira vertente, um tanto menos famosa do que as outras duas mas provavelmente bem mais embasada filosoficamente do que a segunda, prega que a educação, ainda que escolar, deve servir, na verdade, como uma forma de ajudar o aluno a alcançar, o máximo possível, o pensamento autônomo e, com isso, exercer da forma como achar mais apropriado o seu julgamento sobre o mundo e sobre o conhecimento científico-filosófico previamente estabelecido e caminhar, então, rumo à liberdade de pensamento e ao pensamento independente (creio que, com meu ideal cético de educação, esteja mais alinhado a esta vertente do que às outras, mas isto é outra conversa).

Pode-se perceber, então, que, até agora, sobre a educação SER um direito, achamos já dois problemas: definir o que é um direito e definir qual deve ser a função da educação escolar. Entretanto, não são definições, mas sim distorções, os fatores decisivos para se concluir, na verdade, se a educação escolar DEVE continuar sendo um direito de todos (e considero, aqui, que o Estado, mesmo que se minimize, não irá acabar. Sorry, anarcaps, deixo nosso papo para outro dia). Vejamos o porquê disso.

Novilíngua Maldita - Educação como revolução, direito como obrigação

É, então, hora de pensar se a educação deve continuar a ser, no Brasil, um direito ou não, considerando, como dito anteriormente, que o fim do Estado não está próximo e que, portanto, os parâmetros educacionais a serem seguidos dependerão deste. 

Curiosamente, é justamente por estarmos falando de Brasil, e não de qualquer outro lugar, que a polêmica se instala. Não é difícil para qualquer um que tenha o mínimo de discernimento e de vergonha na cara - ou seja, quem não é o professor Roberto Romano, ilustre intérprete da obra de Diderot que, assim como seu interpretado muitas vezes fez, resolveu dar uma de canalha e negar o óbvio, ou, melhor dizendo, a clara doutrinação marxista-progressista (e o predomínio desse tipo de gente) dentro de universidades - ver que, de fato, nossa vertente de filosofia educacional é justamente a segunda. Afinal, sob a esparrela de que "não existe neutralidade na língua" e que, PORTANTO, "ser neutro é apoiar o status quo" (uma gigantesca petição de princípio, diga-se de passagem), nossos pedagogos e professores em geral insistem em inculcar nos jovens a mentalidade revolucionária de que é completamente leal, justo e honrado usar a educação cedida por um Estado construído originalmente por conservadores para mudar (ou, na língua maldita dos progressistas, "desconstruir") a cultura dominante e, com isso, derrubar justamente os valores daqueles que primeiro cederam a educação e que, de fato e de direito, também construíram o paradigma civilizacional de seus pretensos algozes.

Para nossa educação, então, educar é revolucionar, o que deixaria qualquer Ferdinand de Saussure boquiaberto, tamanho o entendimento demonstrado por essas pessoas sobre porque "educar" e "revolucionar" são signos linguísticos completamente diferentes e, portanto, não podem ser "sinonimizados" sob pena de se perder completamente o sentido de cada uma das palavras.

Saussure ao observar a genialidade linguística do brasileiro posta em prática
Isto, entretanto, não seria, em si, um problema. Afinal, se a educação é um direito, e não um dever do cidadão, tenho a opção de seguir minha vida normalmente sem ser educado pelo padrão MEC de (des)qualidade, certo? Não, definitivamente não, pois há, além de "educar = revolucionar", um outro movimento novilinguístico interessantíssimo: Iguala-se, no Brasil, "direito individual" não a "dever do Estado", mas sim a "obrigação do indivíduo". Deste modo, o indivíduo não só tem acesso à educação estatal, mas também não pode fugir dela em qualquer fase de sua vida, a não ser em raríssimas exceções, para obter um diploma que, reza a lenda, demonstrará sua aptidão a exercer certa função na sociedade. O já citado Saussure já se revira no túmulo com as proezas sígnicas brasileiras.

Fica claro, então, que, vendo os fatos por esta perspectiva, a educação pública e gratuita (que me desculpem, mas duvido muito do "de qualidade") claramente não deve ser um direito, certo? Afinal, isto significaria, necessariamente, que seríamos praticamente obrigados a ver nossos filhos sendo doutrinados para a revolução, não é?

Pois é, leitor, o caso é justamente o contrário. Ao invés de ser a saída mais nobre para o caso, tirar o direito de educação gratuita das pessoas, na verdade, é justamente fugir ao real problema. O problema, entretanto, não é que pessoas tenham direito a ter educação. Afinal, de uma maneira ou outra, este direito, de fato, é o que permite a muitas pessoas, especialmente as mais pobres, não só o trabalhar, mas também o ascender dentro da empresa ou da organização em que estão, posto que, quando mais formadas e mais competentes, melhores serão suas chances. 

O real problema, amigo leitor, é, de fato, que, com sua ótica  beirando ao pior dos fascismos ("Tudo no Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado" lhes soa familiar, certo?), o que o Estado brasileiro faz de errado é, na verdade, não deixar outra alternativa viável ser testada, de livre e espontânea vontade, pelas pessoas. E isso, ao contrário do que se pode pensar, não é um sinal de boa intenção ou de preocupação real com o povo, mas sim a demonstração inequívoca de uma mentalidade não só autoritária, mas também TOTALITÁRIA. Tirar das pessoas o direito à educação pelo Estado, entretanto, não só não as ajuda a serem autônomas como também lhes tira, na verdade, uma via possível para a ascensão social. Creio ter mostrado, então, suficientes razões para poder afirmar, ao menos momentaneamente, que não se deve encarar a educação como poder redentor e OBRIGAR o povo a seguir o modelo de educação escolar estatal e travestir isso de "direito" (a não ser que se tenha intenções revolucionárias), mas que também não é a ausência de educação como direito que magicamente trará a autonomia das pessoas ante o Estado.

Sobre o Autor: Octavius é graduando em Letras e percorre, ainda timidamente, a trilha da Filosofia, enquanto manda uma banana à Pedabobagem progressista. Até acreditaria no direito à educação como medida redentora, mas precisa, primeiro, passar a crer em redenção.

NOVOS PODCASTS:

55º Podcast de Octavius - Nelson Rodrigues: Primeiras Impressões

4 de dez de 2013

Notas Mensais - Novembro - Dezembro 2013

Inspirado em uma ideia inovadora de meu amigo Gustavo Nogy, do blog Ad Hominem - Humanidades e outras falácias, resolvi postar, para a posterioridade e para quem não vier a ver na hora, algumas de minhas notas facebookianas, em especial as um tanto mais extensas. Já esta data, 04/12/2013, foi escolhida por meu blog ter sido fundado em um dia 04, o de Fevereiro de 2011, o que fará com que, no aniversário de 3 anos, quando mudar de plataforma, este tipo de post ser um dos inaugurais e garantidamente constantes (a não ser, claro, que eu perca o acesso à Internet).

Enfim, vamos às notas, que falarão, hoje, na ordem, sobre Cientificismo (sobre o qual ainda falarei neste blog), Humor (sobre o qual já falei no blog por diversas vezes), Linguística (ainda a comentar mais profundamente) e Gregório Duvivier (sobre o qual espero NÃO mais comentar por estas bandas).


PS: A explicação só será dada esta vez. Nas outras, linkarei este post (ou não).

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"Infelizmente, no Brasil, o cientificismo está "moralizado", está como uma coisa que não presta, que não deve ser levada a sério, que é uma visão reducionista das coisas."
É, no Brasil e em qualquer lugar do mundo em que as pessoas tenham mais de um neurônio ativo no cérebro. Aliás, existe um lugar específico em que o cientificismo é levado a sério: Na cabeça de cientificistazinho burro que acha que "só através da ciência a gente vai alcançar a evolução da nossa sociedade", como se a ciência tivesse qualquer pretensão de se envolver nesse tipo de patacoada.

E, sobre o uso do termo "evolução", Darwin não curtiu isso.

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  Humor: O império esquerdista contra-ataca

Caros controladores do riso alheio, entendam de uma vez: O brasileiro não se "acomoda com a situação" ou é "racista, machista, homofóbico, transfóbico e ateofóbico" por rir do conteúdo A, B ou C ou por fazer piadas com quem quer que seja. Esse tipo de juízo é, no máximo, uma pseudo-psicanálise furada - a ideia de que é o riso é um dos elementos que nos define - aliada a uma petição de princípio cretina - a petição de que, se eu rio de uma piada com o grupo X, logo sou contra este grupo.

O brasileiro, na verdade, se acomoda com a situação por três motivos, que podem estar interligados ou não: É frouxo demais para se arriscar a perder o que tem, não tem ímpeto revolucionário (nem precisa ter, na verdade) e SABE que, por mais que se faça, a estrutura do poder no Brasil, dominada pelo paternalismo esquerdista, não permitirá nada fora do Estado e, principalmente, nada MELHOR do que o Estado, fazendo com que qualquer esforço fora dessa mesma estrutura de poder para ir mudando a situação aos poucos se torne, ao fim e ao cabo, inútil.

O detalhe é que, em um país como este, mobilização só adianta se for para mudar o sistema de cabo a rabo, e o brasileiro não tem o mínimo preparo para fazer isso sem ser iludido por alguém metido a messias, algo de que a grande maioria dos brasileiros também têm consciência. Percebe-se, então, que quem age aqui não é a "indução à alienação pelo humor", mas a voz da prudência e do bom senso.

Já quanto aos preconceitos listados, eu, defensor das Cotas Raciais, já afirmei isso peremptoriamente e não me arrependo: não somos racistas. O mesmo vale para "homofóbicos" ou qualquer outro adjetivo de denotação negativa. Podemos, sim, ter preconceito contra alguma coisa, só que não como bloco coeso, mas sim como indivíduos incoerentes por natureza e que, por questões tanto naturais quanto culturais E individuais, não têm como pensar o mesmo sobre todas as pessoas, quaisquer que sejam suas características físicas ou psicológicas.

É óbvio que há, no Brasil, racistas, homofóbicos, machistas e tudo o mais que queiram, mas daí a dizer que a entidade "brasileiro", usada para representar a grande massa da população, é composta por esse tipo de gente é fazer uma generalização apressada e que sequer pode ser provada, visto que não há como medir, sem incorrer em algum vício, o grau de preconceito contra algum grupo de uma massa de 190 milhões de pessoas, o que faz com que essas afirmações ("Somos racistas, homofóbicos, etc") sejam todas não-falseáveis e, por isso, impossíveis de serem colocadas sob qualquer investigação séria e minimamente fiável.

Esse tipo de frase, portanto, é puro apelo emocional de quinta e nada mais. Aliás, minto, é algo mais sim, é a tentativa por parte de certos grupelhos de inspiração totalitária de, progressivamente, ir criando o ambiente para o que eles querem instalar: Uma sociedade de fracos que precisam, desesperadamente, recorrer a todo tipo de censura possível e imaginável até mesmo quando meramente cogitam que alguém pense mal deles. E, não se enganem, ditar como deve ser feito o humor ou mesmo do que as pessoas devem ou não rir não só é um dos primeiros passos para a construção dessa sociedade, mas também é um dos alicerces ideológicos para alcançar esse fim.

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"Esse babaquara Olavo de Carvalho nunca ouviu falar em Linguística como ciência, não sabe quem é Saussure e mto menos Joaquim Matoso Câmara Júnior."
Percebe-se que um babaca desses não leu um artigo sequer do Olavo e já veio falar merda. Cidadão, permita-me esclarecer-lhe: Olavo tanto não sabe quem é Saussure que se apropria de sua noção de signo melhor do que muito estudante de Letras por aí. Se não o fizesse, não poderia afirmar, por exemplo, que, com nosso "método" educacional de boteco, os novos alunos passaram a desconhecer o real sentido das palavras e a crer, piamente, nos sentidos que seus professores, tendenciosos para a esquerda até o último grau, lhes incutiam, e que é justamente isso que faz com que um debiloide possa, por exemplo, criar uma página e fazer um meme chamando Roger Scruton, filósofo conservador aliado às ideias de Winston Churchill, de fascista, ou mesmo que certos sites ditos pragmáticos chamem alguém como Constantino de "a extrema-direita conservadora brasileira".

Então, não, "babaquara", Olavo de Carvalho tem outros defeitos, mas, definitivamente, não padece desse mal que você citou (isso, é lógico, aceitando que Linguística seja ciência e que Linguística seja igual a Sociolinguística, o que não é verdadeiro).

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O estulto (assim falaria um velho amigo) Gregório Duvivier, ao justificar mais um espantalho, desta vez seu, contra a chamada "extrema-direita brasileira" (que nada tem de extrema nem de bem organizada politicamente), posta o seguinte comentário:
"A coluna de hoje tem suscitado a revolta dos que não entenderam, a revolta dos que entenderam e se sentiram ofendidos, e muitas perguntas sobre minha real opinião sobre o assunto. Aí vai: acho nobre o surgimento de um partido sem "caciques políticos", isto é, que surja unicamente da vontade popular, como é o caso do Partido Novo. No entanto, não concordo com os ideais utilizados, nem com os padrinhos adotados. Não concordo com o Constantino, com o Von Mises, não concordo com o conceito de Estado Mínimo - e acho que nesse aspecto o partido novo é velho. Sou a favor de um estado presente, não só na saúde e na educação, mas na cultura e no mercado. Isso não significa que eu seja marxista, stalinista, petista ou lulista. Significa simplesmente que ainda acredito na necessidade do Estado fomentar, proteger, intervir. Sonho com mais projetos culturais incentivados pelo governo, mais escolas, mais teatros e hospitais públicos, e de melhor qualidade, mesmo que isso signifique mais impostos. Talvez o velho seja eu, já que o liberalismo e o libertarianismo estão "super em voga". A vantagem é que eles pregam a liberdade de expressão e nisso a gente concorda. Então, pelo menos, discordem educadamente, senão fica contraditório"
Primeiro de tudo, dada a forma pré-ginasial como a ironia de sua coluna, assim como a daquela escrita pelo "cumpanhero" Antônio Prata semanas antes, foi construída linguisticamente, é de se surpreender que realmente exista alguém que não saiba qual é a real opinião de Duvivier sobre o assunto. Este tipo de pessoa, aliás, é extremamente previsível: Diz que luta pela "pluralidade democrática" e pela "liberdade de expressão", mas não consegue sequer conceber, sem todo esse espanto, um partido que fuja do que pensa ser a política. Como já disse em outra oportunidade, nessa sobre o filho de Mário Prata, essa noção de "pluralidade política" é de dar inveja a qualquer Stalin.

Em segundo lugar, é muito fácil dizer "não concordo com x ou y" e simplesmente soltar um espantalho pessimamente construído linguisticamente, e depois se surpreender com "a raiva de quem entendeu". O difícil é escrever um texto formal mostrando do que discorda e com o que concorda - visto que é impossível discordar 100% de alguém. O citado Constantino, por exemplo, não precisou de sarcasmo do maternal para destruir tanto Prata quanto Duvivier, este, aliás, duas vezes seguidas. Ou será que falta ao namorado da ainda mais "intelequitual" Clarice Lispector, digo, Falcão, a capacidade sináptica para debater a sério?

Depois, o comediante faz, talvez, sua piada mais genial até o momento presente: Afirma querer um Estado "mais presente na cultura", por meio de "mais impostos". Dear Duvivier, já ouviu falar de "mecenato"? Pois é, eu já, e sei muito bem o que acontece nesse sistema: Financia-se um artista para que este faça certo trabalho, desde que este trabalha NÃO AFETE A IMAGEM DO MECENAS, ou, melhor dizendo, de quem paga o artista. O que levaria Gregório a pensar, então, que o Estado brasileiro, dominado por socialistas de mente totalitária, faria diferente e daria ao artista total liberdade criativa?

Aliás, desculpem, minto, está aí a Literatura Russa de 1920 a 1989 para provar que estou errado... ops, desculpem, engano meu de novo, não está.

E, sim, senhor Gregório Duvivier, o velho aqui é o senhor, e isto é provado ao percebermos que, dos mais de 30 partidos existentes "in terra brasilis", NENHUM defende Liberalismo ou Libertarianismo. E, olha que curioso, muitos partidos têm, como ídolo-mor, Getúlio Vargas, político dos anos 1920. Se isto não for velhice, perdi a noção de tempo.

Estar "velho", entretanto, não significa que você esteja errado (isso, aliás, foi uma falácia lógica por sua parte, visto que a idade de uma ideia não importa em nada para sua veracidade). O que lhe faz estar errado é a lógica, senhor Duvivier, e a sua mais pura falta de embasamento filosófico para fazer qualquer acusação digna a um partido cujo único erro, ao que me consta, é pensar à direita da extremíssima-esquerda.

Por fim, e para encerrar mais um blá-blá-blá progressista, o comediante de porta de esquina, ops, digo, "dos Fundos" nos pede para que discordemos educadamente dele, senão "fica contraditório" com a "liberdade de expressão". Mas, ora, Gregório, não é mais contraditório ainda com a liberdade de expressão, segundo sua ótica (que está ERRADA, diga-se de passagem, pois discordar educadamente ou não não tem a ver com liberdade de expressão), produzir um espantalho miserável do outro lado e dar mais uma arma para totalitários continuarem a tratar quem deles discorda como um simples atraso de vida?

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Sobre o Autor: Octavius é graduando em Letras e, ainda timidamente, tenta se deslocar pelas trilhas da Filosofia e do Comentário Político. Quando se achava o melhor e mais inteligente dos escritores, conheceu o pessoal do Ad Hominem (e muitos outros). Quando se achava o pior e mais burro escrevente, conheceu Duvivier (et caterva).