11 de nov de 2013

O dia em que quase dei razão a Paulo Ghiraldelli Jr. (Ou: Muito Antônio para pouca Prata)

Sim, amigos leitores, o título não me deixa mentir: Quase cheguei a dar razão, nesta data, a Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo progressista até a medula que, apesar disso, insiste em dizer que não é "nem de esquerda, nem de direita". 

Paulo Ghiraldelli Jr. aprendendo que "não é de direita nem de esquerda"
A questão é que, apesar de defender, entre outras coisas, a bizarrice de que se deva ler um filósofo conservador sem considerá-lo como conservador, ou seja, desprezando não só uma parte importante como também ESSENCIAL para entender todo seu pensamento - assim como, para entender o pensamento de um marxista como Sartre, é necessário sempre ter em mente que este parte de premissas marxistas em tudo o que faça filosoficamente. Ghiraldelli, ao jogar isso fora, basicamente propõe, tanto para o conservador quanto para o marxista, uma leitura apenas superficial, não aprofundada -, o filósofo de São Paulo, em um de seus mais recentes artigos, diz, espertamente, que "Não podíamos ter destruído o ensino médio como fizemos." Pena, porém, que a sensatez do artigo pare por aí. Por que digo isso? É melhor explicar desde o começo.

Homem de Prata, Literatura de Plástico, Filosofia de Latão

Antônio Prata, o relativistinha camarada (mas pode chamar de "cumpanhero")
Há alguns domingos, o escritor e colunista da Folha de São Paulo Antônio Prata, filho de Mário Prata, escreveu, em parcas e porcas linhas de uma ironia pré-ginasial, que havia "virado à direita". Como era de se esperar, os que leram reagiram das mais diversas formas, indo desde contestações e apoios de quem não entendeu a ironia a respostas simplesmente brilhantes como a de Rodrigo Constantino. Vendo, porém, que simplesmente não iria conseguir dar sequer um terço de uma resposta digna a seus críticos, Prata preferiu agir como todo bom militante de esquerda e tratou toda sua patuleia, indistintamente, como se ela não tivesse compreendido absolutamente nada de suas geniais pregações marxistas de boteco. Em sua segunda coluna, aproveitou também para, como se vê a seguir, rotular seus oponentes políticos:

"Na crônica de domingo, achei que havia carregado o bastante nas tintas retrógradas para que a sátira ficasse evidente. Descrevi um quadro que, pensava eu, só poderia ser pintado por um paranoico delirante."

Ou seja, para Prata, quem pintasse o quadro citado em seu artigo de forma alguma poderia estar certo (o que, aliás, contraria até mesmo a lei da probabilidade) e, além disso, seria apenas um conspiracionista maluco. Lamentavelmente, porém, o que o colunista fez foi simplesmente uma revisita a uma das táticas mais filosoficamente escroques da esquerda, tanto brasileira quanto mundial: desmerecer, por meio do ridículo e da ironia, um discurso que sequer apresentam dignamente ao seu leitor. Não, dear Antônio Prata, ser de direita não se resume a ser "politicamente incorreto", nem a ser "reacionário". Este tipo de coisa, aliás, seria mais um espantalho, só que do conservadorismo, linha filosófica ainda mais desconhecida a esse tipo de desonesto intelectual.

O problema maior, entretanto, não foi o texto de Antônio Prata. Afinal, como já dito, essa é uma tática velha e facilmente vencível da esquerda: é só mandar a ironia de volta com o dobro de força. O problema maior, aqui, é um dito filósofo querer defender esse tipo de desinformação. No começo de seu artigo, o freireano nos diz que:

" Como filósofo que é também professor, estou acostumado a ter a maior paciência do mundo para explicar as coisas, mas isso em sala de aula. Fora dela, tenho por princípios atender meus leitores, e eles não são estúpidos. Explicar piada, isso não! Isso me deixa não mais com raiva, mas deprimido."

Sim, Paulo, de fato, o que seria de nós, seus leitores, sem suas filosofices de sempre? Eu mesmo confesso que, se não fosse por você, meu blog teria perdido pelo menos umas 200 visualizações, principalmente porque seria um texto a menos que eu teria destrinchado por estas bandas. Se bem que, se for por esse critério, prefiro Leonardo Sakamoto, que é tão progressista quanto e rende bem mais audiência.

Mas, em seguida, Paulo prefere deixar o quão ofendido está de lado e explica-nos a situação de Prata:

"Antônio Prata fez um artigo irônico, dizendo que havia se convertido à direita, e então usou dos jargões que vemos na imprensa e no senso comum, que caracterizam a direita política. São frases que não raro saem da boca de Reinaldo de Azevedo e seus imitadores (até na filosofia existe agora imitadores dele!). Aquela parafernália toda contra minorias, contra qualquer tipo de Welfare State e, é claro, aquele ódio obsessivo e completamente anacrônico ao tal do comunismo."

Voltando ao tom de seriedade, o que o Mestre dos Magos da Filosofia Brasileira (porque, sempre que preciso, seu conhecimento filosófico desaparece) faz é, assim como Prata, recriar o mesmo velho e batido espantalho defendido pela esquerda contra a direita. Aliás, muito curiosamente, para quem não é "nem de direita, nem de esquerda", Paulo comprou muito facilmente duas das premissas mais vendidas pela atual esquerda: A de que social-democracia não é um sistema de bomba-relógio e a de que, como a URSS já caiu e apesar de Cuba e Coreia do Norte ainda se manterem mesmo que porcamente, o comunismo já não existe mais. Gostaria muito de ver, então, qual seria a reação de Paulo em uma reunião do PCO ou do PCB. Ou melhor: Será que ele ou algum dos outros geniais teóricos do progressismo teriam de coragem de encarar um norte-coreano ou um cubano e dizer-lhe, contra toda evidência, que, na verdade, ele vive em um sistema que não mais existe?

Esta, entretanto, é apenas uma parte do erro ghiraldelliano. A outra, por incrível que pareça, é mais capciosa de perceber à primeira visão.

Paulo Freire para estressados 

"Não podíamos ter destruído o ensino médio como fizemos."

Sim, leitor, é hora de voltar à frase das primeiras linhas do texto. Desta vez, no entanto, é hora de colocar a citação completa:

"Não podíamos ter destruído o ensino médio como fizemos. Mas fizemos isso. Entre outros, o resultado é que temos, hoje, jornalistas que podem advogar a barbárie e serem levados a sério, e quando um articulista mais sofisticado como Prata lança uma piada, um número grande de leitores do jornal (meu Deus, trata-se do leitor da Folha!) é incapaz de perceber o ridículo do discurso da direita, e então acha que realmente alguém que não é o militante estereotipado, pode falar seriamente o texto bárbaro."

Eis a prova definitiva de que "de boas intenções, o inferno está cheio" (se existir o inferno, óbvio, que deve ser perto da sede de algum DA). Ao mesmo tempo em que fala o óbvio ao dizer que o Ensino Médio não poderia, de forma alguma, estar como está, o esotérico da UFRRJ destila todo seu esquerdismo contra o que convencionou, sem explicação prévia, chamar de direita, e ainda chamou erradamente, pois a maioria dos pontos ali trata mais do eixo conservador-liberal-progressista do que de esquerda-centro-direita, reiterando o ponto de vista de Prata de que apenas o que a esquerda ou o que os progressistas - aquelas pessoas que, como diria Flávio Morgenstern em um de seus artigos sobre Leonardo Sakamoto, são de esquerda mas não admitem - falam é que pode ser considerado como pronunciável. A noção de pluralidade política de Paulo e de Prata é  de dar inveja a qualquer Stalin.

O relevante para esta parte, todavia, vem no final do artigo, quando o Mestre dos Magos da UFRRJ, do alto de seu esoterismo barato, afirma peremptoriamente que:

"Sinceramente, caso o professor da escola pública não volte a ganhar um salário que dê para ele viver, não vamos ter nenhum outro mecanismo para evitar a barbárie a que estamos chegando."

Cabe, aqui, uma explicação: Ghiraldelli é, sem nenhum pudor, um dos que defendem a baboseira materialista dialética e doutrinária aplicada à educação pelo ainda mais esotérico Paulo Freire, teórico que, como previsível, é conhecido pelo quê? Bingo, pelo seu marxismo mais do que declarado! (E, ainda assim, Ghiraldelli "não tem ideologias". Imagino se tivesse.)

Isto significa que, apesar de nossa sistema já ser obviamente freireano e de NÃO DAR CERTO (o que foi provado já em outros países de métodos similares), o filósofo de São Paulo ainda pretende iludir seus leitores ao dizer que, na verdade, o problema é exclusivamente financeiro. Lamentavelmente, para ele, o maior pedagogo brasileiro desde a Proclamação da República, Arthur Rizzi Ribeiro, já demonstrou aqui, por a + b + c + todo o alfabeto que isto é, na verdade, um grande embuste. Como bem dito por Arthur:

"Apesar de concordar que investimento na educação e pragmatismo no que tange a “passar os conteúdos” são extremamente necessários, penso que Ghiraldelli nos dá a entender que é “só isso que falta”. Com isso, ele acaba por nos passar algo que detesto, que é uma perspectiva DINHEIRISTA da educação, como se investir e equipar escolas fosse justamente o que falta à nossa educação."

O detalhe é que, como bem posto pelo pedagogo guaçuíense:

"Ghiraldelli passa a noção de que o sucesso educativo passa diretamente pela política, e que apenas pagando o salário direitinho, e ensinando o proposto, “everything’s gonna be ok!”. Paulo, no entanto, não parece estar disposto a rever o mais importante, justamente aquilo que na educação antecede a política, a sua filosofia."

E isto se dá, principalmente, porque, para rever esta filosofia, e rever sua própria filosofia educacional, Paulo se veria forçado a tirar  máscara e admitir, de uma vez por todas, que seu antigo marxismo, na verdade, ainda não saiu dele. Isto, no entanto, quod erat demonstratum (como queríamos demonstrar), pode ser provado, na verdade, em quase qualquer um de seus artigos ou mesmo já na primeira metade do artigo aqui analisado.


Sobre o autor: Octavius é graduando em Letras, mas caminha, ocasionalmente, pelas bandas da Filosofia. Acreditaria no "poder redentor" e na "função social" da educação, mas parou de acreditar em histórias da carochinha há muitos anos. Quis dar uma "guinada à esquerda", mas leu o artigo de Antônio Prata e voltou ao ceticismo.

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