3 de nov de 2013

Freiresia (Ou: Porque, de fato, a educação não precisa nem deve necessariamente ter função social)

Como eu talvez tenha adiantado indiretamente em um certo famoso post de meses atrás, existem, dentro das universidades brasileiras ou não, e em especial nos chamados cursos de Ciências Humanas - que cada vez mais constato que, na maioria dos casos, de "ciências" só têm o nome - um conjunto de ideias aparentemente intransponíveis e impenetráveis, mas, de fato, apenas intocáveis. Algumas delas são as de que tudo no mundo é subjetivismo e ideologia (o que já anularia, por exemplo, a própria nomenclatura ciência), de que opressor e oprimido são categorias que necessariamente existem e que independem, para isso, do contexto que se está analisando(ou seja, ciência marxista e, portanto, viciada; logo, não é ciência) e a de que absolutamente todo tipo de discurso que se opõe ao esquerdismo radical do partido de estrela vermelha é necessariamente "de direita", "ultraconservador", "reacionário" e "fascista", apesar de não se definir direito qualquer um dos quatro termos usados.

Estas, porém, apesar de serem ideias interessantes de se desmontar, não serão tema deste texto. O que quero discutir hoje é uma ideia fascinante e impensável para a maior parte da classe universitária: A de que educação, oh!, não precisa nem deve ter função social. Fogo posto, vamos aos trabalhos.

A Inspiração - Francisco Razzo contra a trupe de Paulo Freire (e derivados)

Antes, porém, de começar a falar sobre o tema, é necessário falar, como sempre fiz, de que fonte ou de que lugar tirei inspiração para falar sobre a educação. A questão é que, apesar de eu já vir pensando nessas ideias há algum tempo, foi um texto de Francisco Razzo, um caro amigo e co-autor do blog Ad Hominem, o que acendeu a fagulha final. No texto em questão, Pra não dizer que eu realmente não falei de flores, o mais novo intérprete da filosofia de William James comete o que, talvez, seja o pior pecado dentro de qualquer faculdade em que se diz formar professores. Hereticamente, Razzo conta ter dito a colegas seus de profissão que:
“a última coisa do ensino de filosofia é sua função social; e, vou mais longe, a educação também não deveria ter isso como preocupação”.
Isto, nos diz o blogueiro, gerou, por parte de seus colegas, falando de um modo putaqueopariumente eufemístico, digamos, uma leve frustração, sendo que um dos supracitados, inclusive, afirma ter encontrado no freirege (o que desafia os dogmas do freireanismo) fortes sinais de esquizofrenia.

Enfim, dizem que um louco adora projetar sua loucura em outrem, mas isso não tem relevância. O que tem relevância, porém, é como Francisco justifica sua ousada e "freirética" assertiva. Primeiro, diz o que deveria ser óbvio: qualquer coisa que envolva seres humanos em processo interativo terá, necessariamente, função social, já que nada se desenvolve para usufruto puro e simples de seu criador. O caso é que, mesmo antes de almas iluminadas pela descoberta da verdade progressista enunciarem isso, a educação já tinha, sim, função social, exatamente porque era voltada a seres humanos.

Esta, entretanto, seria uma objeção, apesar de totalmente pautada na lógica, ainda muito pueril. Digo isto porque este é um típico caso em que, mesmo que não estejamos lidando com literatura, em que o estranhamento é conditio sine qua non para sua existência, também ocorre que a distorção do sentido original das palavras, neste caso, para um projeto de poder, especialmente ao considerarmos que os maiores expoentes defensores dessa ideia no Brasil (Paulo Freire, Marcos Bagno, Sírio Possenti et cetera) são marxistas e/ou progressistas roxos e declarados. É também pensando nisso, então, que o historiador da filosofia (pois não acha adequado ser chamado de filósofo) completa nos informado que:
"Na verdade, o que se mascara por trás dessa ideia de 'função social da educação' é uma das mais corrosivas e perniciosas concepções de ensino: sua politização ideológica manifestada na noção de escola aberta para vida (formar cidadãos conscientes com senso crítico etc etc)! A crença — ou ingenuidade? — da maioria dos meus colegas deriva da noção de que nós professores devemos fazer, em última instância, a molecada se 'engajar politicamente'. "
E que:
"'Social', neste contexto ideológico, significa não outra coisa senão o 'engajamento contra o neoliberalismo e o moralismo do Ocidente'."
Veem, amigos leitores? O que Razzo faz, e muito bem, é a precisa denúncia de que, no país dos petralhas, parafraseando Reinaldo Azevedo, e, principalmente, no país em que a elite intelectual e midiática tem claro viés pró-esquerda, quando não esquerdista assumido, deve-se tomar muito cuidado quando se fala que algo deve ter função social, pois, por mais nuances de significado que tenha o termo "social", ele, em contexto de militância, é quase que invariavelmente usado para designar justamente o que essa elite socialista quer que designe, ou seja, tudo o que se alinhe com o ideal revolucionário, e, estranhamente, se desalinhe com as aspirações, desejos e necessidades do proletário, que, na maioria das vezes, ironicamente, demonstra entender bem mais sobre política do que os tais que desejam "retirá-lo de sua ignorância causada pela ideologia da classe dominante" (como se, óbvio, o mesmo não tivesse ocorrido nos regimes genocido-marxistas, só que de forma muito pior e, dentro do regime, praticamente irreversível.

Enfim, o caso é que essa refutação, apesar de genial e precisa, não é a única possível e imaginável. Há, pelo menos, uma segunda via para levar os crentes no bagno-freireanismo à loucura. Vamos, então, a ela.

O adendo: A educação como meio (ou: Utilitarismos de quinta)

Para conseguirmos penetrar no pensamento de quem diz que função social não só deve ser como é uma característica inerente à educação, devemos ver como a maioria dessas pessoas reformularia a frase para torná-la mais clara: Ao invés de dizer "A educação deve ter função social", passam a dizer "A educação deve ser útil para a sociedade" ou "A educação deve ter utilidade visível para a sociedade".

Vemos, então, que, guardadas as devidas proporções, pode-se afirmar que, para este tipo de mentalidade, função e utilidade, apesar de serem dois signos diferentes, carregam a mesma significação, ou seja, têm, entre si, relação de sinonímia absoluta. Porém, fora o fato de isto contrariar até mesmo um dos conceitos mais básicos da ciência que dizem defender- o de que não é necessária a existência de dois signos (união de significante, plano material, com significado, plano ideal) para designar o mesmo objeto ou ideia -, a Linguística, não haveria qualquer problema, pois, até que se provasse o contrário, seria apenas uma visão sobre educação em conflito com tantas outras que pululam por aí.

Ocorre, entretanto, que, ao se declararem educadores, muitos professores não só esquecem de buscar evidências para fundamentar ou falsear essa visão educacional como também passam a se considerar como detentores da chave para a mudança, e, portanto, do "bem absoluto" (apesar de, segundo eles, sequer existirem noções absolutas) que deve ser estendido a toda humanidade, concorde ela com isso ou não.

Sendo assim, ao se considerarem os portadores do remédio universal, o que esses professores fazem, na verdade, é propagar um utilitarismo de quinta categoria, visto que, por mais que neguem, associam, inevitavelmente, o útil (ou funcional) ao bom, ao que trará a solução suprema. Não interessa, aqui, se esta utilidade será social ou individual: um utilitarista nunca se tornará menos utilitarista por ser, parafraseando o filósofo pucano Luiz Felipe Pondé, "uma pessoa do bem, uma pessoa ética". Muito pelo contrário, aliás: Ideologizar a educação para fins sociais e formar pessoas com este pensamento é só mais uma forma de desconsiderar completamente o que forma a sociedade, mesmo sendo inseparável dela: o indivíduo.

Sobre o autor: Octavius é graduando em Letras, mas prefere perambular sem rumo pela trilha da Filosofia, pois não estará exercendo "função social". Defende os utilitarismos de quinta apenas às sextas, durante o Happy Hour, ou quando está em ambiente acadêmico. Escreve apenas nesta freguesia, pois as outras o consideraram "de extrema-direita".

2 comentários:

  1. OK não iria comentar nada até a ultima frase, pois apesar de gostar de teoria educacional meus estudos sobre o assunto ainda não passaram as questões relativas aos parâmetros espaciais do local de ensino (O que me faz completamente contra o Homeschooling, porem isso é assunto pra outro momento e do qual gostaria de ouvir mais o pessoal que tem opiniões favoráveis a isso), porem não sei se é presunção minha mais vc meio que colocou o "indivíduo" como o formador primordial da sociedade, se for isso não seria uma simplificação muito grande para essa ideia, principalmente tendo em mente que o "indivíduo" é uma coisa bem mais nova que "As sociedades"?
    É só uma pergunta pois fiquei meio confuso.

    ResponderExcluir
  2. "se é presunção minha mais vc meio que colocou o "indivíduo" como o formador primordial da sociedade, se for isso não seria uma simplificação muito grande para essa ideia, principalmente tendo em mente que o "indivíduo" é uma coisa bem mais nova que "As sociedades"?"

    Encare indivíduo como todo representante da individualidade, Antonio. Não existe sociedade sã e sustentável sem que se deixe o individual florescer em meio ao coletivo.

    ResponderExcluir