29 de out de 2013

Manifesto do Nada na Terra do Nunca: Um recorte

"De boas aqui rindo de suas esquerdadas" - Lobão sobre militonto "pogrecista"
"Leia, antes de bater".

É com esta sensata recomendação que se inicia a orelha do mais novo livro de João Luiz Woerdenbag Filho, o famoso roqueiro Lobão, Manifesto do Nada na Terra do Nunca. Confesso que, antes de lê-lo, tinha, de seu autor, a pior visão possível, já que não conhecia suas músicas e só o tinha ouvido, em uma entrevista, uma vez na Rádio Jovem Pan (2011, se bem me lembro), sendo que, na feita, disparava contra o funk em uma postura totalmente anti-eclética, algo que, para o Octavius da época, era inconcebível.

Sou réu confesso, também, no que se refere a preconceito contra roqueiros. Após ter visto, em diversos ambientes, esse tipo de fã em sua versão mais pseudointelectualizada criticando funkeiros, sertanejos, pagodeiros e evangélicos por não se encaixarem em seu ideal pouco sofisticado de conhecimento e crítica de mundo - que se resume, in fact, a proselitismo antirreligioso barato aliado a idolatria por determinada banda ou músico -, não consigo mais não ter, de um fã desse estilo musical, uma preconcepção no mínimo pessimista.

JLW Filho, porém, é diferente. Em seu livro, o que vemos (e que comentarei com mais detalhes adiante) não são textos frouxos, fúteis e repletos da mais porca idolatria musical disfarçada de cultura. A música, aliás, e por incrível que pareça, é apenas um elemento secundário no contexto do Manifesto. O que temos, na verdade, são capítulos que, com linguagem acessível, estilo irreverente e único e coragem hoje só superada, talvez, pela de Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino e Olavo de Carvalho, constroem, juntos, o mais sofisticado protesto intelectual dos últimos tempos contra a infantilização política e a venda do esquerdismo em geral como a nova "indulgência", com a qual se conquistaria uma vaga no céu dos puros e moralmente melhores.

Digressão Primeira - Sobre o recorte

Antes, porém, de começar a me aprofundar no livro do autodeclarado reacionário, quero discursar sobre o recorte, gênero que pretendo utilizar daqui por diante quando for resenhar livros. Não sei se já existe como gênero autônomo, mas, basicamente, o recorte octaviano tem por objetivo ser uma espécie de resenha cujo foco é a análise linguística, filosófica e/ou política da obra que estiver sendo contemplada. O que o diferencia da resenha em si? Deixo essas ortodoxias para meus leitores e para os linguistas textuais, responsáveis por esse tipo de sistematização. Enfim, retomemos.

A Genética do Nunca

Quando fala sobre a Terra do Nunca (obviamente, terra brasilis) em Viagem ao coração do Brasil (capítulo 6), Lobão a descreve como uma sina que consiste em haver, de um lado,

 "A luta titânica de um povo que, numa alegria perturbadora, disputa palmo a palmo com a impossibilidade seu pedaço de existência, enquanto de outro prevalecem, intactos, incólumes, perenes e gloriosos, os pilares da nossa ruína" (p. 171-172)

Trocando em miúdos, o que Lobão faz é, na verdade, uma nada superficial Genética do Nunca, ou seja, um exame apurado não só de como se formou mas também de como está, atualmente, tanto o Brasil profundo quanto não tão profundo assim: enquanto protoditadores preferem se preocupar com qual será a próxima imposição "democrática" que será anunciada ao povo - diga-se de passagem, "democratização da mídia" está bem próxima - este, do alto de sua petulância (sqn), prefere se preocupar com tópicos secundários como família, filhos, trabalho e gastos da casa a gastar seu tempo com tamanhas iluministices partidário-ideológicas.

A Fenomenologia do Nada

Tal Genética, porém, é apenas um quarto importante do bolo. Os outros três quartos e a cereja, definitivamente, se mostram quando Lobão faz um acertado diagnóstico do modus operandi da consciência tupiniquim: "Amamos a pobreza" (p. 21) e nossa elite intelectual cria todo tipo de teoria, das mais tresloucadas às mais aparentemente sensatas, para que este platonismo de boteco não venha a perecer. O sagaz roqueiro, então, desnuda os resultados dessa prática:

"Isso gerou uma forma singular de autoengano: nos achamos especiais através dos nossos piores defeitos. Com esses defeitos, criamos uma cosmogonia em que o brasileiro é um ser gentil, sorridente, pacífico, malemolente (o suingue da raça) e único no mundo" (p. 21)

O problema dessa visão, todavia, só é completamente desnudado dois parágrafos depois, quando Lobão começa a lançar uma série de perguntas que o inspiraram em seu livro e que podem ser resumidas em uma só: Afinal, por que temos tanto orgulho do fracasso e tanta vergonha de qualquer mínima tentativa de se obter um pouco mais de sucesso, ou mesmo um pouco menos de insucesso?

Manifesto do Nada na Terra do Nunca para Alguém
  
Segunda Digressão - Detalhismo

O leitor mais atento e/ou mais birrento poderia questionar porque não reproduzi uma a uma das perguntas colocadas pelo "matricida". Respondo que, apesar de mais detalhista, isto ainda é uma resenha e, portanto, meu único objetivo é justamente instigá-lo, amigo leitor, a ler por si mesmo e a tirar suas próprias conclusões, o que também faço em outras situações (aliás, em quase todas). Queixa respondida, regressemos ao que tem pertinácia.

Letra e música do nacionalismo furado

Outro elemento importante no livro de Lobão é a constante manifestação, aliás extremamente pertinente, contra a conhecida - e idolatrada mais do que fundamentalisticamente pela intelligentzia esquerdista brasileira - MPB, descrita no livro como uma sigla de proveta originária de um ultranacionalismo modernista rançoso e de um senso de realidade, como bem pontua o "reacionário", delirante e derivado do Nada em que o Nunca se foi meter..

A consequência mais imediatamente grave dessa filosofice de boteco, porém, foi sentida, de acordo com o "metralhadora giratória", não pelo povo em si (que, convenhamos, só sente isso anos depois, ao perceber que, mesmo com tanta pretensão de conversa, perdeu de WO), mas pelos roqueiros, que, ainda hoje, são tidos pela elite musical cacoética e caquética como "antinacionalistas" ou "vendidos ao americanismo", ou qualquer coisa do tipo - o que, convenhamos, não significa, é lógico, que a apologia furada à revolta que fazem moleques de 15 anos contra tudo que não seja rock seja legítima ou sequer lógica. Aliás, é curioso como o que mostram, na maior parte das vezes, é um revanchismo tosco e profundamente baseado no desconhecimento histórico, pois acusam a todos, a não ser aos clássicos (pois desses, invariavelmente, levariam um verdadeiro sopapo cultural), de "alienados" e "vendidos para os modismos imperialistas americanos". Coerência mandou um abraço.

Ainda neste tema musical, mais curioso ainda é que, ao contrário da maioria dos roqueiros da mídia, que andam mais para "carolas estatizados", como diria o próprio Lobão, o reacionário, apesar de ter ganhado esta alcunha, acaba de certa forma defendendo o funk, talvez o ritmo atualmente mais repudiado inclusive pelos "universitários", outra grife repudiada (e que Lobão repudia também), de seus detratores. Após ousar dizer que, nas atuais circunstâncias, o funk seria o ritmo mais genuíno produzido pelo morro e fora dele, o roqueiro espera as críticas:

"Alguns de vocês podem pular indignados da poltrona, ter um acesso apoplético, voar na minha carótida e vociferar: 'Mas o funk é grotesco, sexista, violento, obsceno, tem letras horríveis, de articulação gramatical que beira dialetos neolíticos [...]' " (p. 47)

E as destrói com apenas duas frases:

"Isso é fato, mas existe uma coisa inegável: é o único, entre todos os outros aqui mencionados, verdadeiro. Ainda não foi reciclado, reinventado, regurgitado, muito menos aprovado pelo intelectual de esquerda." (p. 47)

Quanto ao restante da crítica musical, só resta a mim dizer isto: PCB (Partido do Chico Buarque) não curtiu Manifesto do Nada na Terra do Nunca.

Chico Buarque antes e depois de "Manifesto do Nada na Terra do Nunca"
 Dito isto, voltemos à crítica política propriamente dita.

Investigação acerca da falta de entendimento político do brasileiro

Outro elemento recorrente e importante no Manifesto de JLW Filho é a análise direta e sincera não só de quão desinteressado e inepto o brasileira está para exercer sua cidadania mas também de como o próprio agora reacionário sentia-se órgão de ideologias dignas de serem seguidas (se é que elas existem, rs). Em Confesso a vocês: Sou uma besta quadrada (capítulo 7), Lobão, como nos fala no título, confessa que:

"Durante os muitos anos da minha formação, e até bem pouco tempo atrás, tive uma postura bastante ambígua em relação a uma série de conceitos e ideias sem nunca ter me preocupado muito com esse desleixo ontológico." (p. 175)

Esse "desleixo ontológico" a que o matricida se refere é o fato de ele próprio, por muito tempo, não se preocupar com a qual ideologia uma ideia pertencia, mas sim com o quão potencialmente boa e/ou benéfica parecia. O detalhe é que, assim como eu e muitos outros depois dele, o que Lobão descobriu foi como este comportamento pode, na verdade, servir de arma para projetos de poder capitaneados por corruptos e psicopatas.

Por mais que eu mesmo seja a favor das Cotas Raciais como ação isolada - e aqui discordo do roqueiro e de muitos amigos direitistas, mas prometo articular minha discordância apenas em outra feita -, por exemplo, sou obrigado a reconhecer que, vindo da estrela vermelha, esse projeto seria generoso demais para vir gratuitamente e isoladamente, sem fazer parte de um projeto maior de poder, como de fato faz. O que Lobão descobriu, e eu também, é que não é porque um discurso se diz pró-minorias que ele não pode ser, na verdade, apenas mais um instrumento na busca esquerdista pelo poder político (pois a hegemonia cultural eles já ganharam há décadas). Nesse sentido, então, fica ainda mais legítima a ideia de que toda ideia mal formulada deve, invariavelmente, ser vulnerável ao questionamento.

Acredito, contudo, que a insistência  do brasileiro, especialmente universitário, em se recusar a maiores especulações políticas está em uma das perguntas inspiradoras do Manifesto: Afinal, "Por que ser tão reativo a qualquer ideia que não seja a oficial aceita nos meios intelectuais?" (p. 21) e, em especial, que não seja televisionada no jornal das 20h?

Concluindo

Enfim, estas foram apenas algumas das considerações possíveis para este bom livro. Poderia, também, ter abordado a visão do papel do indivíduo perante o coletivo ou as críticas de Lobão à antropofagia modernista de Oswald de Andrade, ou mesmo ter exposto mais de suas boas críticas à MPB e ao espírito "Semana de 1922" do intelectual e do artista brasileiros, mas prefiro deixar isto para que o curioso leitor leia por si mesmo e aprecie esta obra que não pode ser descrita como algo menos do que um grande protesto literário contra a indigência intelectual em vigor em terras tupiniquins.

Sobre o Autor: Octavius é graduando em Letras e desliza, ocasionalmente, pelos caminhos da filosofia. Desprezava Lobão, Constantino, Tio Rei e Olavo, mas conheceu seus detratores. É considerado "de direita" desde que, pela primeira vez, questionou publicamente os dogmas progressistas.

6 comentários:

  1. "mas pelos roqueiros, que, ainda hoje, são tidos pela elite musical cacoética e caquética como "antinacionalistas" ou "vendidos ao americanismo", ou qualquer coisa do tipo" AH! Esse era o discurso da Bossa Nova contra o Rock nos anos 60. Porem isso deixou de ser verdade desde os anos 60. Tanto que na nossa lista de melhores alguns metade dos 25 primeiros tem u bom pé no rock.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Albúns! Não alguns.

      Excluir
    2. Até concordo, anônimo, mas, acredite, já ouvi esse tipo de coisa. E já ouvi isso de roqueiros contra outros também, rs.

      Falando nisso, quem é você? rs

      Excluir
    3. Bem então existem roqueiros que bem não sabem a historia do que estão tocando (O que é uma pena, pois as atividades artística necessitam de uma bela bagagem para ser exercidas).

      Bem acho que você suspeita que sou eu. Bem vamos ver se vc entende a minhas 5 dicas.
      1 - Gosto mais de Blues do que Rock.
      2 - Porem minha real paixão acima de tudo é o cinema.
      3 - Sou muito chato no referente a fontes históricas e a maneira como esse campo é estudado.
      4 - Estudo para ser da mesma profissão do personagem principal de "The Fountainhead" da "Ayn Rand".
      5 - Depois de tanto te encher seus textos não são mais tão longos.

      P.S. - Acho que vc deveria ler seus textos de 6/8 messes atrás, pois sinceramente acho que eles são mais bem escritos que os atuais (Apesar de longos muito longos), pois parece que vc perdeu o gosto de escrever para gerar um debate minimamente construtivo, o que acaba gerando um grande problema pois essa escrita acaba se esvaziando e simplesmente vira uma polêmica boba. (Por isso não citei mais nada do texto alem desse texto específico) e sinceramente espero que leve a critica para um lado positivo e que talvez consigamos reatar alguma debate de certa qualidade. Abraços.

      Excluir
    4. Desculpa a redundância do P.S. To morrendo de sono e não reviso as coisas que escrevo na net ai acaba ficando um pouco travado.

      Excluir
  2. Se você é o Antonio, seu português está irreconhecível, mas, quanto a meus textos, por ser meu leitor, você já deve ter percebido que os textos oscilam de vez em quando, apesar de eu estar recebendo mais respostas positivas quanto à estética do que há 6 ou 8 meses.

    Ass: Octavius

    ResponderExcluir