27 de out de 2013

Falácias: Falsa Dicotomia / Falso Dilema

Olá, amigos leitores, e este é mais um post sobre falácias deste blogueiro que vos escreve, lembrando sempre que adota-se, nestes posts, a definição de Octavius (2013) sobre falácias, ou seja, de que falácias são "todo tipo de argumento enganoso, o típico argumento que, para uma visão menos atenta e apenas estrutural, parece estar correto, mas que tem alguma falha lógica ou semântica em sua constituição ou em sua conclusão.".

Enfim, veremos hoje a muito comentada mas quase sempre mal-contextualizada Falácia da Falsa Dicotomia ou do Falso Dilema ou ainda da Bifurcação. Basicamente, esta falácia consiste em apontar como possíveis e inevitavelmente divergentes apenas dois caminhos que podem ser, na verdade, convergentes, corretos de maneiras diferentes ou ambos errados. 

Muito abstrato, amigo leitor? Então vamos aos trabalhos (BIAL, 2001) e aos exemplos.

Um primeiro exemplo muito comum nas mídias em geral e até mesmo no meio acadêmico é o seguinte:

FALÁCIA I: "Quando se fala em direitos dos gays, dos negros, dos ateus e de outras minorias, temos, basicamente, a seguinte oposição: De um lado, vemos o discurso religioso contra esses direitos, e de outro vemos o discurso dos Direitos Humanos legitimando-os."

Obviamente, a fala não é exatamente essa, mas a ideia central está descrita perfeitamente. Segundo esse discurso, quando se fala, por exemplo, sobre casamento gay, um dos alegados "direitos das minorias" - apesar de não se explicitar o que se entende por direito e se realmente todos os membros da minoria em questão desejam isso -, haveria, supostamente, uma oposição entre o discurso religioso, anti-casamento gay, e o discurso dos Direitos Humanos, pró-casamento gay. Quando examinamos, porém, a Declaração Universal dos Direitos Humanos (disponível em muitos sites diferentes na Internet, inclusive em PDF), vemos que este não é bem o caso. Peguemos, primeiro, a questão de oposição já natural entre Direitos Humanos e discurso religioso. No artigo 18º, vemos, por exemplo, que:

"Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião;
este direito implica a liberdade de mudar de religião ou de convicção, assim como a liberdade de
manifestar a religião ou convicção, sozinho ou em comum, tanto em público como em privado, pelo
ensino, pela prática, pelo culto e pelos ritos."
 
Ou seja, a manifestação de convicção religiosa, ou o próprio discurso religioso em si, não são, per se, contrários aos direitos humanos, mas sim condições sem as quais esses direitos não seriam plenamente cumpridos. Isto significa que, ao contrário do que pensam alguns iluminados seres cujos conhecimentos sobre laicidade estão limitados ao livro escolar e nada mais, cercear discurso religioso não é lutar pela liberdade, manter a laicidade do Estado ou assegurar o cumprimento dos Direitos Humanos, mas sim contribuir para, progressivamente, derrubar todo esse cabedal de conceitos em que se apoia a civilização ocidental.

Creio, assim, ter demonstrado a falsa dicotomia entre o discurso dos Direitos Humanos e a existência de um discurso religioso. Resta, então, mostrar a falsa oposição entre discurso religioso e discurso dos Direitos Humanos no que tange ao casamento entre homossexuais (ao qual, note-se, sou favorável, antes que venham me acusar de crimes que não cometo neste post). 

O caso é que, para desfazer esse ledo engano, é preciso lembrar que, ao se opor ao casamento gay, o discurso religioso se baseia principalmente em uma concepção de família tradicional e ainda vigente de que só se constrói uma família a partir da união civil e/ou espiritual entre um homem e uma mulher. Curiosamente, há, no 3º parágrafo do 16º Artigo da já citada carta, algo curioso sobre a família. Diz-se que:

"3. A família é o elemento natural e fundamental da sociedade e tem direito à proteção desta e do Estado"

Considerando que o texto da Declaração é de 1948, uma época em que sequer se ponderava sobre outras concepções possíveis para a palavra "família", não é muito difícil perceber que este parágrafo em questão, na verdade, legitima grandemente o discurso religioso, pois parte da mesma definição dada por este para o elemento família. Isto significa que, a não ser que uma nova Declaração tenha sido escrita nos últimos anos e não tenhamos sido avisados, esta dicotomia também não existe.

Há, porém, uma outra dicotomia mais grave do que essa, e ainda mais recorrente tanto na mídia quanto no meio acadêmico (!!!): a de que religião (ou fé) e ciência são indissociáveis, ou seja, de que uma coisa não pode auxiliar a outra ou a ela se misturar. O discurso seria, mais ou menos, o seguinte:

FALÁCIA II: "Seguinte, seu crentelho criacionista que acredita que o homem veio do barro, o papo é reto: Ou ciência, ou religião. As duas não se bicam, e o caso Galileu prova isso."

Fora o fato de que nem todo crente é criacionista ou acredita que o homem veio do barro, e que Galileu não foi preso por suas ideias físicas, mas sim por sua impostura intelectual contra homens mais poderosos e por suas ideias metafísicas - Gleiser em "A Dança do Universo" (1997, se bem me lembro) elucida muito bem este ponto -, esse discurso de dicotomia entre a ciência e a fé, ou, melhor dizendo, entre ser cientista e ter fé em algum tipo de ser absoluto que tudo rege e tudo vê cai por terra ao vermos que dois dos homens que mais mudaram as ciências no último século, Mendel e Lemaitre, eram religiosos fervorosos e profundos conhecedores de suas doutrinas. Poderíamos citar, também, o Dr. Francis Collins, geneticista cristão responsável pelo Projeto Genoma, entre tantos outros, incluindo o "catolicão" Descartes, um dos principais responsáveis pelo advento da Modernidade e, junto com ela, do MÉTODO CIENTÍFICO. E então, será mesmo que essa oposição existe?
 
"As contas me dizem que parece que você... é mó lesadão, rçrç" - Marcelo Gleiser para militonto "pogrecista"
Enfim, that's all there is to it. É isso que tenho a vos falar sobre falsas dicotomias, e espero ter ajudado-lhes a detectá-las com mais sapiência e facilidade doravante. De qualquer forma, posto, em seguida, mais alguns exemplos e mando-lhes meu forte abraço, amigos leitores.

FALÁCIA III: "Como assim você é ateu e moralista ao mesmo tempo? Ora, mas se isso é coisa dos religiosos retrógrados!" (Como se, para ser ateu, despreocupação com a preservação de conceitos morais úteis fosse conditio sine qua non)

FALÁCIA IV: "É corinthiano e sabe português? Poser!" (Nem preciso dizer, correto?)

FALÁCIA V: "Lê Olavo de Carvalho, mas é um cara legal" (Frase dita, geralmente, pelos que não leram nem querem ler. Falsa dicotomia e pré-concepções negativas, para completar, rs)

Sobre o autor: Octavius é graduando em Letras e percorre, tortuosamente, os caminhos da Filosofia. Foi progressista e antirreligioso até descobrir como a crença no Estado pode levar ao fim da compra livre do sorvete de que tanto gosta. Escreve apenas neste blog porque foi considerado, felizmente, "muito fascista e retrógrado" por outras freguesias.

2 comentários:

  1. O ateu pode defender sim a preservação de valores morais, mas como você mesmo disse, pela sua utilidade, não por questão do valor dos valores em si mesmo.
    "úteis"

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