21 de ago de 2013

Eu, Apolítico - Mídia, Superficialidade e Liberdade

Globo: A gente finge que não quer ver por aqui
Já há algum tempo, venho notando uma relação no mínimo curiosa entre militantes ideológicos de todos os tipos e as chamadas "grandes mídias", representadas, em especial, pela tão ofendida e injuriada Rede Globo de Televisão. O que acontece é que os mesmos que acusam as mídia tradicionais de serem tendenciosas e de manipularem os fatos - o que, convenhamos, é logicamente impossível, pois o que se pode mudar não é o fato ocorrido, mas a visão que dele se tem - não hesitam, todavia, em seguir quase dogmaticamente pseudo-filósofos que só fazem incitar o ódio entre classes, cientistas políticos que chamam de "povo" menos de 2% da população e/ou jornalistas cuja capacidade intelectual se limita a dar-lhes a capacidade de escrever imbecilidades como "Ostentação deveria ser crime previsto no Código Penal" (e isso tudo sem descer a minudências).

Mais estranha, entretanto, é a aceitação sem análise prévia de posições tomadas pela mídia quando esta promove ataques claramente superficiais contra pessoas ou instituições odiadas por esse tipo de palpiteiro calhorda. Acha que estou exagerando ou "manipulando os fatos", amigo leitor? Vejamos, então, se não foste "vítima" (e as aspas aí estão porque não acredito em vítimas no processo intelectual, mas isso explico em outra ocasião) da superficialidade da mídia, ou talvez de seus próprios dogmatismos e fundamentalismos.

Os Nascituros e o Aborto da inteligência brasileira

Creio não lhe ser difícil, leitor antenado e cético, lembrar-se do famoso e polêmico Estatuto do Nascituro, a que a blogosfera progressista et caterva apelidou, no auge de sua genialidade, de "Bolsa-Estupro" (só se for o estupro intelectual contra os progressistas e ideólogos de butique, talvez o único estupro aceitável) por causa do que constava no 13º artigo do já citado projeto, em que, pelo que se falava, a mulher praticamente ganharia para ser estuprada, o que até fez com que muitos "jênios pogrecistas e liberaus" ironizassem e propusessem que brasileiras fingissem terem sido estupradas para poderem ganhar "um dinheiro fácil".

Ao me recordar de que, mesmo para poder abortar, uma mulher precisaria levar consigo um exame de corpo de delito comprovando o estupro, percebi que a história estava ligeiramente estranha e resolvi, por conta própria, investigar mais sobre o estatuto, facílimo de achar na internet (e já linkado acima). Eis, então, que me deparo com o famoso artigo, que dispõe o seguinte:


Art. 13. O nascituro concebido em decorrência de estupro terá assegurado os seguintes direitos, ressalvados o disposto no Art. 128 do Código Penal Brasileiro:
I – direito à assistência pré-natal, com acompanhamento psicológico da mãe;
II – direito de ser encaminhado à adoção, caso a mãe assim o deseje.
§ 1º Identificado o genitor do nascituro ou da criança já nascida, será este responsável por pensão alimentícia nos termos da lei.
§ 2º Na hipótese de a mãe vítima de estupro não dispor de meios econômicos suficientes para cuidar da vida, da saúde do desenvolvimento e da educação da criança, o Estado arcará com os custos respectivos até que venha a ser identificado e responsabilizado por pensão o genitor ou venha a ser adotada a criança, se assim for da vontade da mãe.


Nada entendeu, amigo leitor? Vamos, portanto, por partes:

Primeiro: A lei NÃO PROÍBE a vítima de estupro de recorrer ao Aborto, pois diz que o direito do feto à vida é inviolável fora o que consta no Art. 128 do CP, que justamente regulamenta as situações em que o Aborto é permitido.

Segundo: Sabem quanto dinheiro a mãe do nascituro receberá? Se receber - pois, enquanto nascituro, a criança precisa mais de exames e acompanhamento constante, o que, como disposto nos artigos anteriores, será oferecido gratuitamente pelo Estado, do que de dinheiro propriamente -, será uma quantia ínfima, pois todos os serviços ali listados são públicos e, portanto, gratuitos, o que permite que o gasto para manter a criança com vida seja mínimo. Assim sendo, não, não passa sequer perto de uma bolsa-estupro.

Entende, amigo leitor? A questão é que, ao invés de abrir uma discussão com argumentos honestos para se ser contrário a esse estatuto, como, por exemplo, o fato de que, ao colocar o feto como categoria jurídica, torna praticamente impossível a legalização do Aborto e esteriliza ainda mais o debate sobre o tema, tanto a grande mídia quanto a esgotosfera alternativa preferiram bater em espantalho e recorrer às velhas ofensas de sempre aos apoiadores do projeto, dentre elas a de "fundamentalista religioso", também direcionada aos que apoiaram aquilo (e aquele) sobre o que falarei no próximo tópico, em que nossa mídia inteira demonstrou, por todas as letras do alfabeto, sua superficialidade e desonestidade intelectual.

Direitos Humanos e hipócritas desumanos (ou: Sobre a "Cura Gay" e outras mentiras)

Marco Feliciano "esbanjando homofobia ao propor a Cura Gay"
Sim,  está aí, em uma só imagem com legenda, o maior conjunto de mentiras inventado e disseminado pelas mídias nos últimos 10 ou 15 anos. Se você, que me lê, acreditou sinceramente na história do "homofóbico inFeliciano que propôs a cura gay" e ainda se considera cético, meu amigo, digo que ou está sendo desonesto e já tinha opinião formada de antemão sobre a figura de Marco Feliciano - e, como você acha que ser cético é se posicionar contra a "opressão cristã",  suponho que deve ter formulado sua genial opinião apenas com base no pentecostalismo declarado do pastor - ou precisa realmente estudar um pouco mais sobre o ceticismo. Bom, enfim, não me preocupo com você, leitor, mas com os fatos. Vamos, então, a eles.

Primeiro, as acusações sobre a homofobia feliciana, que fizeram um bando de neo-ateus e similares semi-letrados desperdiçarem sola de sapato indo ao Congresso Nacional protestar contra um fato já consumado antes mesmo de essas pessoas sequer saberem o significado da sigla CDHM, foram baseadas em frases retiradas descaradamente de seu contexto e em uma homofobia flutuante, que pode significar desde agressões a homossexuais (algo justo) a discordâncias ideológicas contra gays militantes, algo típico da chamada novilíngua, em que se remove ou se ressignifica palavras para restringir o pensamento e a expressão.

Só com isso, já seria possível perceber que, de fato, havia alguma peça que não se encaixava na história de desamor entre neo-ateus + militantes gays e o supracitado pastor. Eis que surge, então, o chamado Projeto de Decreto Constitucional 234 de 2011, ou, trocando em miúdos, a famosa "Cura Gay", e me faz dar razão total a Feliciano.

O caso é que, além de o PDC não ter sido proposto por Feliciano, mas pelo deputado João Campos, o apelido "Cura Gay" só se justificaria se o projeto em si de fato propusesse algum tipo de tratamento a gays ou se obrigasse psicólogos a  tratá-los, o que não é o caso. Na verdade, o que o PDC 234/11 faz é, simplesmente, como dito já em suas primeiras linhas, sustar a aplicação do parágrafo único do artigo 3º e o artigo 4º, pautando-se no fato de que:

O Conselho Federal de Psicologia, ao restringir o trabalho dos profissionais e o direito da pessoa de receber orientação profissional, por intermédio do questionado ato normativo, extrapolou o seu poder regulamentar.

Ou seja, por mais controverso que fosse o sustar dos dois artigos, isto teria sido feito apenas como correção de um caso em que um órgão do Executivo (CFP) interferiu em ações que eram da alçada do Legislativo. Assim sendo, o nome "Cura Gay" já seria injustificado.

Há, no entanto, um outro argumento sendo usado, e ele toma por base o seguinte parágrafo único do Artigo 3º, sustado pelo PDC 234/11:

Parágrafo único - Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades

Baseando-se nisso, alguns disseram que o nome está sim justificado, pois, ao anular o parágrafo que fala de cura das homossexualidades, o PDC estaria abrindo um precedente para que esse tipo de procedimento fosse mais uma vez empreendido pela Psicologia e desejado, por exemplo, por pais "homofóbicos" -novamente, o que quer que isto signifique nessa novilíngua plástica e ao mesmo tempo tão restritiva dos militantes progressistas - que quisessem ver seus filhos "se livrando desse mal".

O detalhe é que não só é consenso para Psicologia a inutilidade de coagir alguém a se curar ou se tratar, o que seria informado a esses pais pela maioria dos psicólogos, como também, além de a maioria dos psicólogos ser progressista (o que significa que provavelmente vão se recusar, mesmo que possam, a tentar qualquer tipo de cura ou tratamento), o significado de "cura" e "tratamento" não é o mesmo, sendo aquela aplicada a doenças e este a casos de reversão de comportamentos e similares. Tanto por isso, não há cura para a timidez ou para os Transtornos Obsessivos Compulsivos, mas há tratamento para ambos. 

Sendo assim, apesar de a proibição de "cura gay" também ter sido sustada por essa medida, o que poderia ser facilmente resolvido com uma reformulação do PDC, como a que sugere Luciano Ayan e que incluiria um foco ainda maior na liberdade de escolha do paciente, o nome "Cura Gay", assim como toda a campanha da mídia contra a figura de Marco Feliciano, são apenas novos espantalhos. 

É perceptível, então, que, fora os jogos e malabarismos linguísticos mais eficazes até que os contidos nos artigos de Noam Chomsky sobre guerra e terrorismo, a superficialidade da mídia continua a mesma de sempre - e, neste caso, até mais perigosa, pois envolve a imagem de um homem público e conhecido.

"Então você quer dizer que os jornalistas brasileiros são melhores sofistas do que eu?"
Mesmo com tudo isso dito, resta ainda uma pergunta crucial: Se a mídia pode ser uma fonte tão grande de desinformação e se toda ela o está fazendo, qual seria a razão, então, para prezar valores como a liberdade de imprensa e de expressão das mídias? 

Censura, uma falácia

Explico-me: a questão é que, mesmo que eu efetivamente acreditasse que todas as mídias são absolutamente mentirosas - o que é logicamente impossível, visto que é impossível mentir 100% das vezes -, isso não seria nenhuma garantia de que qualquer coisa que eu tenha falado em meu texto seja verdade ou seja uma prova de honestidade, além de não ser a postura intelectual de quem informa o que realmente importa na questão.

O fato é que, meu amigo leitor, para aqueles que defendem suas ideias dogmaticamente, e que não têm disposição mental para exercer o mínimo de ceticismo em relação ao mundo e até mesmo a si mesmos, o que importa não são os fatos, mas sim como os fatos se encaixam às suas próprias ideias. Citando este mesmo artigo como exemplo, haveria pelo menos dois tipos de pessoas em quem nada do que eu dissesse surtiria qualquer efeito: Aquelas que rejeitam sistematicamente qualquer proposição (um pouco mais) conservadora e aquelas que rejeitam sistematicamente qualquer proposição progressista - isto, lógico, excluindo aqueles pouquíssimos que se tornaram dependentes das minhas opiniões e que por elas esperam antes de formarem a própria opinião, mas isto é outra história.

Por que isto aconteceria? Porque, de um lado, haveria pessoas que já estariam condicionadas a rejeitar tudo o que eu tivesse escrito, e, de outro, pessoas que aceitariam todo o escrito apenas porque lhes serve. Tendo em vista isso, e considerando que a grande massa das pessoas opera assim, de nada adianta cobrar da mídia a total honestidade e a profundidade intelectual ao dar uma notícia, pois isso, além de não dar audiência alguma, seria como dizer palavras ao vento.

O que acontece é que meu foco aqui não é na informação dada, mas na interação entre leitor e informação. Ou seja, isto significa que, segundo esta linha de pensamento, o problema não está no informador, mas no informado, e o problema só deixará de existir se o leitor dos textos (e considero, aqui, texto como qualquer unidade coesa e coerente de informação) for exposto aos mais diversos pontos de vista.

Concluindo, por maior e mais inerente que seja a superficialidade das mídias, retirar sua liberdade, ao contrário do que pensam os militantes anti-Globo e outros seres bizarros, como os que propõem a "democratização dos meios de comunicação" (o que quer que isso signifique), não é nem será a solução, pois o problema não está nos textos lidos, mas na preguiça mental e na falta de exercitar o ceticismo de alguns leitores. Eis a razão, portanto, de, na imensa maioria dos casos, a censura não passar de falácia.

NOVOS PODCASTS:

40º Podcast de Octavius: Divulgação
41º Podcast de Octavius: Feliciano no Avião
42º Podcast de Octavius: Lógica e Propaganda
43º Podcast de Octavius: A Modernidade foi superada?
44º Podcast de Octavius: Em defesa do moralismo
45º Podcast de Octavius: Objetividade é o que há
46º Podcast de Octavius: Algumas considerações sobre o estágio atual de esquizofrenia do brasileiro
47º Podcast de Octavius: Mais um embuste comunista
 

3 comentários:

  1. Um elogio depois de um tempo bom seu podcast sobre a modernidade até o momento em que você foi falar do individualismo. Vc já leu "A Arte Moderna" do "Gulio Carlo Argan"? É extremamente interessante. Sobre o superamos ou não a modernidade essa questão começou com o maldito pós-modernismo na arquitetura e no urbanismo, quando um bando de colegas de profissionais começaram a pensar na idia de que o projeto em que os modernistas pensavam a sociedade falhou, pois não foi capaz de alterar a sociedade da maneira como pensa e portanto depois deste momento é necessário pensar em um novo ideal de sociedade e para isso o caminho seria a arquitetura e o urbanismo pós-modernos. O problema foi que muita gente não entendeu isso muito bem e ficou tacando asneiras sobre pós-modernidade por todos os cantos. Alem disso acho muito difícil superar a modernidade sem antes superar o espaço no qual ela ocorre, e como nossas cidades ainda são muito próximas das primeiras cidades modernas ou seja as que surgiram logo após as revoltas com o modelo liberal em 1848, ou seja ainda vivemos na modernidade.

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  2. E sobre o post, caro leitor, NADA? Pqp, isso é que é se preocupar com o periférico, rsrssrsrsrs

    Por falar nisso, nemly e nemlerey, pois deve ser autor marxistóide.

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  3. "UM VERDADEIRO PENSADOR
    Argan: nem a militância maculou sua agudeza crítica"
    Isso foi escrito pela VEJA! Ou seja se seu problema for ele ser marxista e isso interferir fortemente em sua obra pode ficar di boas, pois se até eles que veen comunismo em um copo de água acho ele um cara sensato quando escreve sobre arte, quem somos nos para descordar. KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK. Até

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