3 de jul de 2013

Falácias: Declive Escorregadio

Olá, amigos leitores, e este é mais um de meus textos sobre as famosas Falácias, lembrando sempre que, segundo OCTAVIUS (2013) - vulgo: myself - " falácia é todo tipo de argumento enganoso, o típico argumento que, para uma visão menos atenta e apenas estrutural, parece estar correto, mas que tem alguma falha lógica ou semântica em sua constituição ou em sua conclusão." (sim, eu sou foda e sei disso, rsrs).

Desta vez, quero falar sobre a famosa Falácia da Derrapagem, mais conhecida como Declive Escorregadio. No caso, pega-se um determinado evento que pode ocorrer (ou que ocorre) e se afirma, sem provas, que, caso ele ocorra (ou quando ele ocorrer), haverá consequências ruins para um ou para todos os homens. 

Como sempre faço para clarificar esse tipo de conceito, vou exemplificar. Uma das circunstâncias em que mais se vê o uso da derrapagem é quando se faz o apelo ao conceito de "panis et circenses", aquele imortalizado no Brasil pelos Mutantes e por causa do qual se diz frases como esta:

FALÁCIA I: "Ei, você, pare de assistir ao futebol na Globo, pois isso é uma tática do governo para te alienar da política e para te manter como gado, o que vai te fazer ser pobre para sempre! VENHA PARA MARX, IRMÃO!!!"


Apesar de, confesso, a parte em ALL CAPS ter sido um adendo meu (e isso se justifica porque a maioria que discursa assim é marxista confessa ou não), não me é incomum tanto ler no Facebook quanto ouvir na vida real esse tipo de frase. No caso, e com o contexto de hoje, o que se afirma aí é que o fato de haver certos tipos de entretenimento de massa é em si uma arma do governo para que "o povo" - sempre essa entidade misteriosa - progressivamente se distancie da política e cada vez mais busque apenas esse tipo de entretenimento.

O problema com esse tipo de lógica é que, além de existirem as vozes divergentes à do governo e de essas também se usarem de ferramentas de entretenimento para disseminar seus discursos, se acaba caindo em algo do tipo "Se assistir ao futebol, tornar-se-á um alienado". O erro deste tipo de afirmação é que não há, de fato, relação necessária entre gostar do entretenimento disponível e estar desinteressado pela política - apesar de aquilo realmente poder ser um indício disto -, pois alguém pode não gostar de política por muitas outras razões, dentre elas a desilusão progressiva com os políticos e com a forma pela qual se faz política no Brasil. Não há, do mesmo jeito, qualquer ligação entre "alienação" e pobreza, pois esta é causada na maior parte das vezes por falta de oportunidades no mercado de trabalho, falta de sorte (pois, para ser rico, é só necessário ganhar um prêmio máximo na loteria, rs) ou mesmo falta de disposição para o trabalho.

Esse discurso com declive escorregadio, porém, nega esse fato e associa ao evento "assistir ao futebol" a consequência "ser alienado" e a esta a consequência "ser pobre" sem qualquer tipo de prova, seja com base em fatos, seja com base em retórica. Assim sendo, quando ouvir falar nesse ou em qualquer outro tipo de "panis et circenses", amigo leitor, e quiser testar a honestidade intelectual de seu interlocutor, pergunte, por exemplo, sobre suas convicções políticas e sobre como as adquiriu. Garanto-lhe que a mudança não foi de mentalidade, foi apenas de guru espiritual.

Mas, enfim, voltemos às falácias. Aqui vão mais alguns exemplos possivelmente mais didáticos:

FALÁCIA II: "Mas como assim você não quer que seja aprovada uma lei contra a Homofobia? Se ela não for aprovada, toda a população LGBT eventualmente vai morrer, e isso tudo por causa da homofobia" (O declive aqui se dá porque, além de uma lei contra a Homofobia não impedir crimes de ódio, mas apenas puni-los e reprimi-los, não há evidências de que, sem esta, todos os LGBTs morreriam, quanto mais de que morreriam por motivos de ódio)

FALÁCIA III: "Cara, como assim você não vai nas manifestações da Revolução de 13? Se não for, a corrupção vai continuar no Brasil e nunca teremos educação e saúde!" (Além de, tecnicamente, já termos educação e saúde, pois essa é uma obrigação de todos os países signatários da Declaração dos Direitos Humanos, não é porque alguém se manifesta que a corrupção acaba. Aliás, será mesmo que é possível eliminar completamente a corrupção humana?)

Bom, pessoal, esses foram os exemplos que eu consegui pinçar. Espero, então, que tenha conseguido, com algum deles, passar a mensagem de que só há declive escorregadio quando se afirma, sem evidências, que um evento ocasionará outros que não mantém com ele correlação necessária. Deve-se tomar cuidado, porém, para não chamar de declive escorregadio o que tem correlação, o que tem evidências e o que não se aprecia (se é que me entendem).

Enfim, despeço-me por aqui e até mais, amigos.

ADENDO: Novo podcast:
18º Podcast de Octavius: Copas e Recopas

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