10 de jul de 2013

De Cara com o Fera - Resposta a PH, o Lobo liberal de esquerda

Boa noite, amigos leitores, e este é mais um dos nossos papos aqui pelo blog.

Lembram-se daquele artigo que escrevi sobre a entrevista de Sua Excelência, o Deputado Federal Jean Wyllys (PSOL-RJ), a Antônio Abujamra no Provocações? (Links para a entrevista: aqui, aqui e aqui). Pois é, um pouco depois de eu ter publicado esse artigo, meu nobre amigo PH Wolf disse-me que faria uma resposta a ele. Pedi, então, que a postasse como comentário (ou comentários) no supracitado artigo para que pudéssemos promover, depois de muito tempo, um novo debate entre mim e um leitor do blog, coisa que só havia acontecido uma vez no post sobre a entrevista de Luiz Felipe Pondé à revista VEJA em 2011 - texto este que, confesso, me arrependi de escrever, apesar de ter-me dado inspiração para uma série (em andamento) no blog.

Ocorreu que, depois de alguns dias e contratempos, incluindo o fato de perder a primeira versão de sua resposta, e de eu não mais esperar por esta, o Lobo liberal de esquerda colocou, em meu blog, seis comentários detalhados com suas críticas  a meu artigo (começa aqui) e com muitos pontos interessantes extra-artigo sobre os quais quero comentar. Resolvi, então, replicar em forma de post no blog com aquele velho esquema de refutação que comecei a usar em um dos posts sobre a renúncia de Bento XVI.

Vamos, então, aos trabalhos. Antes, porém, de começarmos, devo avisá-los de que estou debatendo com um bissexual e com alguém que diz ter acompanhado o trabalho do deputado em quem, hoje, votaria. Sabem o que quer dizer isso, amigos leitores? NADA. Mesmo que ele declaradamente estivesse militando em causa própria, ou seja, se fosse um wyllysiette, isso em nada desmereceria sua resposta, pois não é o fato de alguém militar em causa própria que desmerece seus argumentos. O que, sim, desmerece uma causa ou uma argumentação é usar-se da mentira ou da censura para defendê-la.

Digo isto porque, apesar de dever ser algo óbvio, muitas pessoas, tanto conservadoras quanto liberais, utilizam-se desse argumento mentiroso para desequilibrar o oponente e/ou para desmerecer seus argumentos. O detalhe é que, como diria algum filósofo cínico, se bem me lembro, "a verdade é a verdade até nos lábios de um louco". Não sei se chegaremos aqui à verdade, mas espero, sim, que cheguemos ao melhor entendimento.

Enfim, voltando ao pertinente para este - e não outros - post, Wolf começa sua resposta:

Finalmente um artigo aqui nessa página que mexeu com os meus brios o suficiente para demandar uma longa resposta minha. Para alguém que costuma detonar opiniões preguiçosas com veneno e provocações certeiras, sempre embasado na mais indefectível lógica (independentemente de eu concordar ou não com as conclusões), esse artigo me decepcionou.

Confesso que, apesar dos pesares, esta parte me deixou particularmente feliz, pois significa que, ao contrário do que penso, consigo provocar pelo menos uma ou duas pessoas de modo a fazê-las reagir, seja para cumprimentar-me, seja para refutar-me. Isto, porém, é irrelevante. O que é relevante é a razão pela qual Wolf reagiu, que é a seguinte:

Aqui o que se vê é um veneno genérico, pouco mais do que um festival de xingamentos preconceituosos (nenhum deles homofóbico, é preciso dizer, é sempre no estilo "esquerda = autoritário" ou "ex BBB = burro, fútil, intelectófobo"), rancores de uma má vontade Olavodecarvalhiana e questões colocadas com o mesmo tipo de opinião preguiçosa que tanto costuma criticar. Definitivamente não é o seu estilo.


Eis, nesta parte, o primeiro erro. Apesar de eu ter colocado as palavras "BBB" e "intelectófobo" - termo este que não pode ser associado necessariamente à burrice e à futilidade, pois não é a complexidade de um raciocínio a única razão pela qual se deve apreciá-lo, o que significa que este "salto de fé" foi do Lobo liberal, não meu -, nunca fiz essa correlação apontada, pois não examinei todos os ex-BBBs para saber se são fúteis e burros ou não. Aliás, sequer disse que Wyllys é burro, exatamente porque não acredito em burrice em política. Acredito, sim, em utilitarismo egoísta e em preguiça de pensar, mas isto não vem ao caso.

Do mesmo jeito, também não coloquei relação de sinonímia entre esquerda e autoritarismo, exatamente porque estou rebatendo as objeções de um LIBERAL DE ESQUERDA. Reclamei, sim, do autoritarismo politicamente correto que Wyllys representa, aquele que coloca como "fascista" e "retrógrado" o que não lhe agrada, mas é óbvio que, como um ex-marxista e como um estudante autônomo (na medida do possível, frise-se) de Filosofia, é minha obrigação saber que há esquerda, e esquerda inteligente, fora desse e de outros tipos de autoritarismo. Convenhamos, no entanto, que esse tipo de pessoa é rara tanto na internet quanto na vida real brasileiras (rsrs).

Este, porém, foi só um prelúdio. Em seguida, o poeta carioca reclama de que

A análise já começa fazendo uma correlação entre a reclamação sobre uma juventude não-politizada (não é nada, não é nada, mas é bom frisar que a entrevista foi gravada antes que as manifestações tomassem conta do país) e o seu posicionamento contrário à bancada evangélica na política, querendo dar a entender que o próprio deputado sofreria, em certo ponto, do mesmo problema, como se fosse um hipócrita. 

E não retiro essa acusação, pois, baseando-me em uma análise feita por um amigo sociólogo comum a ambos (se eu estiver certo), vejo esta bancada como a representação da politização, ou melhor, da vontade de participar ativamente da política, por parte de um setor da população, e um setor representativo demograficamente, que é o dos evangélicos. 

É lógico que, como ateu e como alguém que tende mais a posturas liberais do que a posturas conservadoras em costumes, tenho uma série de discordâncias com os evangélicos e seus representantes, mas, ao contrário de Sua Excelência, eu parei de tentar fazer deles monstros morais e passei a debater um pouco mais honestamente sobre diversos assuntos, coisa que o ilustre deputado também deveria fazer, pois democracia não se resume apenas a permitir a existência de uma bancada evangélica - que, sim, pode e, nas atuais circunstâncias, deve existir e ser ativa, especialmente por serem o último bastião de oposição ao politicamente correto e seu autoritarismo progressista -, mas também a respeitar quem dela faz parte e ouvir, sem ataques baratos e apelações medíocres, seus argumentos, algo que, em várias entrevistas, Jean Wyllys deixou de fazer ao chamá-los, por várias vezes, de "extremistas fundamentalistas".

(Aliás, acusações veladas abundam nesse artigo. Praticamente todo final de parágrafo são conclusões exageradas, beirando o declive escorregadio, tiradas a partir das colocações de Jean Wyllys dando a entender que ele é um fascista esquerdocrata e totalitário, como se defender suas posições com veemência fosse o equivalente a não tolerar opiniões contrárias)

Primeiro que eu trocaria "esquerdocrata" por "esquerdopata", mas tudo bem, essa eu deixo passar.

Segundo, Wolf fala em declive escorregadio, mas não dá sequer um exemplo disso. Uso aqui, então, o princípio amplamente divulgado por Hitchens (apesar de este desrespeitá-lo muitas vezes durante sua vida intelectual): O que pode ser afirmado sem evidências pode ser descartado sem evidências.

Terceiro, fato, quem defende veementemente uma opinião não é um totalitário. Agora, que chamar alguém de fascista, acobertador de pedófilos e assassino só porque este é o líder espiritual de uma instituição que não se curva aos argumentos wyllysianos é um indício, ah, meu amigo, isso é. E isso não é "respeito à diversidade", Wolf. Chame do que quiser, menos de "respeito" e similares.

O Lobo, então, prossegue:

Segue-se então toda uma ladainha sobre o que seria o Estado Laico e porque a posição de Jean Wyllys seria contraditória.

Ladainha, convenhamos, que é VERDADEIRA. Aliás, só seria ladainha se fosse falso, oras.

Ora, por mais que a sua definição seja correta, Jean Wyllys sabe muito bem disso.

E eu sei que ele sabe, por isso o achincalho. Isso se chama guerra política, meu amigo, e deve-se desmascarar mentirosos antes que eles façam das suas mentiras as verdades, mesmo que, como Wyllys dá a entender sobre si mesmo, não creiam em verdades absolutas.

Tanto que a oposição que ele faz à agenda da bancada evangélica é feita pelos trâmites democráticos.

Do que eu saiba, incitar o ódio contra um grupo numeroso da população que segue uma instituição que não concorda com os argumentos pró-gay não está nesses trâmites. E, sim, como se vê na reportagem que linkei parágrafos acima, ele faz isso sim.

Ele sabe muito bem que os deputados ali eleitos não exercem suas prerrogativas de forma ilegal, e suas divergências são de caráter ideológico, não religioso. Ele discorda radicalmente das posições e decisões da bancada evangélica, da mesma forma que a bancada evangélica discorda ideologicamente da bancada homossexual.

Como dito antes, eu sei que ele sabe e eu sei quais são as discordâncias dele, só que não lhe é permitido incitar o ódio e difamar grupos simplesmente por ser um defensor das minorias - aliás, ainda bem que o Congresso ainda não se converteu à religião wyllysianista, senão até essa concessão ele teria. Agora, pergunta: Que bancada homossexual? Ué, mas os ativistas LGBTs não são vítimas de difamação por eles, os felicianos e bolsonaros da vida?

A não ser que você esteja sugerindo que essa discordância dos evangélicos seja, por si, homofóbica, nao dá pra esculhambar o posicionamento de Jean Wyllys a respeito de forma tão simplista.

Repito o que disse em todos os parágrafos acima.

Claro que ele lamenta (e eu também, por sinal) que tantos elejam seus representantes pelo simples fato de serem pastores.

E essa lamentação é baseada em provas concretas ou apenas em palpitaria?

Porém, ele reconhece (e eu também, de novo) que faz parte do jogo democrático.

Oh, Wolf, então você chama quem não louva suas ideias de "fascista retrógrado" também? Afinal, do que eu saiba, você REALMENTE reconhece que as divergências fazem parte do jogo democrático e tenta respondê-las com argumentos. Já Wyllys responde, como se vê em vários de seus tweets, entre eles os supracitados e vários outros, com ameaças de processo e com difamações e escárnio. Novamente, democracia também se trata de respeito, e isso Sua Excelência não demonstra em suas declarações.

Eleger alguém por ser da mesma religião (ou do mesmo time de futebol, orientação sexual ou qualquer coisa que não seja um motivo propriamente político) é uma tristeza.

Pena que isto, nobre amigo, nada mais signifique do que um salto de fé, especialmente porque você sequer definiu o que é político. Aliás, se formos pegar a definição propagada pelo sempre sensato filósofo Mário Sérgio Cortella, chegaremos à conclusão de que mesmo o futebol com os amigos é um ato político, pois é um ato de interação com a comunidade. Agora, se vier falando de política como política ideológica, desculpe, mas foi esta que me tornou apolítico e anti-ideológico, e é desta que fujo toda vez que debato, pois ela, por mais que se esforce, é, por essência, um reducionismo drástico e um barateamento do debate de ideias e da busca por soluções para problemas. Por incrível que pareça, do pouco que investiguei, boa parte do "povo" - ah, essa entidade sempre invocada mas também tão pouco delimitada - tem plena consciência disso, mesmo que não use tais termos para demonstrar seu desprezo por "política".

E esse fenômeno, muito mais do que a possível existência de uma ala da população que efetivamente concorde com as propostas dessa bancada, é sim fruto de uma população não-politizada, de modo que, curiosamente, há mesmo uma relação entre as duas partes da entrevista, quem diria?

E qual seria esta relação é uma coisa  que até agora, confesso, não descobri. O que descobri, porém, é que uma população evangélica que elege pastores evangélicos porque estes defendem ideais EVANGÉLICOS provavelmente o faz por não-politização. Que me desculpe o Wolf, mas este raciocínio é tão fantástico quanto o próximo, que é sobre Gramscismo:

O parágrafo sobre a citação de Gramsci nem merece réplica. Uma coisa que foi colocada como uma declaração de amor à democracia (mudar o que tem que ser mudado de dentro, ou seja, sem desrespeitar os processos democráticos, sem atropelar as leis, através do confronto com opiniões contrárias e pelo convencimento) é interpretado como uma atitude autoritária e de censura. 

Na verdade, uma coisa que foi colocada como forma heterodoxa de revolução - pois Wyllys apenas negou a forma de revolução de Marx e não a revolução em si, que também pode ser cultural -, que é esse espírito de adaptar as instituições às vontades de um grupo político específico, foi interpretada exatamente como isso mesmo. Existe uma tênue diferença entre defender a liberdade e defender a mudança. Na primeira situação, pensa-se antes de tudo em preservar os direitos individuais e a democracia. Já no segundo caso, pode-se pensar em qualquer coisa antes dos direitos individuais e da democracia.

E existe, também, uma grande diferença entre revolução marxista e revolução gramsciana. Nesta, apela-se para o irrealismo de achar que, de alguma forma, é mais leal tirar a liberdade das pessoas do que matá-las em nome de um mundo melhor. Naquela, assume-se os riscos necessários para que "a solução" para os problemas venha, e isso inclui, sim, óbitos. Ou seja, Gramsci é nada mais do que a versão mais pacifista e desleal do Marxismo, mas com uma roupagem "cool" que é capaz de atrair para si pessoas como Wyllys que, ao contrário do que demonstram em seus atos, não querem assumir os riscos de um confronto armado, mas não descartam o confronto cultural. 

Mas, enfim, tudo isto é apenas masturbação mental de ex-marxista. O caso é que, mesmo assim, a fala continua sendo revolucionária e a atitude de Wyllys também. Pena, para Wolf, que, ao contrário do que ele disse, eu não afirmei, em momento algum, que Wyllys estava sendo autoritário ao usar Gramsci. O que eu disse é que os céticos ao Marxismo Cultural deveriam ficar de olhos abertos. E essa afirmação, que me desculpem os que vão me chamar de Olavette, eu banco. Assim como banco, também, o que falarei sobre a fala de Wolf acerca de Wyllys x Clodovil a seguir:

Eis que surge a figura de Clodovil Hernandes. Sem apontar sequer que o nome apareceu por reconhecimento do próprio Jean Wyllys, ao ser apontado por Abujamra como o primeiro deputado assumidamente gay do país, o artigo distorce a fala de Jean Wyllys de forma assombrosa. 

Na verdade, ao contrário do que diz o Lobo liberal, além de ser inútil apontar que Jean Wyllys falou isso em "reconhecimento" - mérito que é completamente destruído por sua posterior defecação oral -, não houve qualquer distorção da fala do deputado. O fato é que, em uma paráfrase, quase exata, o que Wyllys disse foi: "Com todo respeito que eu devo a ele, eu acho que o Clodovil tinha muita 'homofobia internalizada', que ele não se gostava como gay e que, por ele, ele seria heterossexual". O problema com a fala de Wyllys é que este não separou "ser gay" de "ser militante das causas homossexuais", como, aliás, nunca faz. O detalhe é que, de fato, "dar a bunda" não é ato revolucionário, ou não foi nos últimos, sei lá, 10 mil anos. Revolucionário (e burro) é, sim, chamar quem não ache isso de homofóbico.

entrevistado lembra ao apresentador que Clodovil, homossexual assumido, veio antes dele, apenas não pregava a luta pelos direitos homossexuais como bandeira pessoal. E isso é verdade mesmo. Clodovil tinha outras prioridades. 

Pena que, para desgosto do nosso amigo liberal, não foi com esse tom que Wyllys falou sobre Clodovil, nem foi apenas isso que falou. Como já dito antes, o que Wyllys fez foi associar a não-militância ao não-amor próprio e à homofobia, sendo que alhos e bugalhos nada tem a ver. 

A chamada "homofobia internalizada" (colocada por Jean Wyllys a título de especulação, tanto que o próprio Abujamra discordou e não houve tentativa de discutir a questão, ficou por isso mesmo) é, simplesmente, fruto de dezenas e dezenas de declarações que o próprio Clodovil deu em sua vida pública, de que muitas vezes sentia repulsa por sua própria homossexualidade, mesmo porque ela confrontava com os valores morais do mesmo. 

Curiosamente, a única declaração de que ouvi falar nesse sentido foi a de que Clodovil não sentia orgulho de ser gay, mas sim de ser quem era, o que não denota homofobia. Como o crítico literário carioca não nos deu maiores detalhes, fiquemos, por hora, com essa declaração, afinal, tio Hitchens tá vendo essa zoera, Wolf, se é que me entende.

Isso não foi colocado como acusação, mas como um simples fato que coloca Jean Wyllys como o primeiro homossexual militante da causa a assumir uma cadeira no congresso.

E, lógico, para exaltar a nobreza do nobre deputado que, sem dúvida, é o maior herói que já existiu no Congresso. Ah, Wyllys, se eu não conhecesse gente dessa laia, eu até comprava.

Aliás, Wolf mesmo parece ter comprado nos trechos seguintes:

Em seguida é examinada a declaração sobre sua dificuldade de se impor como homossexual em um congresso em quase sua totalidade heterossexual (ou heteronormativo, para quem curte o jargão). 

Não curto jargão, mas nem é essa a questão. O que foi discutido, sim, é o ônus de ser um militante da causa gay em um Congresso que, muito curiosamente, vêm se demonstrando cada dia mais aberto a discutir  e a apoiar irrestritamente os militantes gays, a não ser quando, OH, os evangélicos (!!!) apresentam divergências. É, deve ser mesmo uma vida muito difícil para Wyllys ter que conviver com o contraditório. Se chamou um homem velho e até certo ponto passivo de pedófilo homofóbico, imagino o que não diz, em "off", para seus ilustres colegas felicianos.

O processo de subalternação das minorias é um fato histórico

Fato, mas o que ele disse é que o Congresso não se acostumou a discutir o país pelo ponto de vista minoritário. Pena, para ele, que o Congresso, desde 1990, pelo menos, é dos representantes do povo que se organizou para lá colocá-los. Se os gays não o fizeram, não é culpa dos congressistas.

em todo lugar, e os homossexuais estão longe de superá-lo, muito mais longe ainda do que os negros e as mulheres, mesmo porque, ao contrário desses últimos, que somam, em oposição a homens e brancos, metade (ou mais) da população brasileira, homossexuais são uma minoria de fato. Não é mimimi do deputado, é o que ele sofre (e vê amigos, companheiros e desconhecidos sofrerem) na pele dia a dia.

Que Wolf me perdoe, mas, além de o conceito de minoria aplicado ser o sociológico, não o numérico, a partir do momento em que, com uma retórica balofa digna dos habitantes da Itaguaí de O Alienista, o deputado acusa o país de homofóbico e se põe na posição de vítima da "sociedade opressora", é sim mimimi. Afinal, uma coisa é dizer que há atos de Homofobia no Brasil. Outra, por exemplo, é dizer, ou mesmo sugerir, que, por isso, toda a sociedade seja homofóbica. E outra, pior ainda, é banalizar o termo "em nome do mundo melhor", e o que mais vejo Wyllys fazer são os dois últimos. Este recado vale, também, para o excerto abaixo:

Não como um filme sessão da tarde em que todos dão sinais inequívocos de desrespeito com xingamentos dublados e estereotipados, mas como uma sensação de desconforto constante, sobretudo das alas mais conservadoras da população (e do congresso, não tenha dúvida), para quem a homossexualidade é, ainda, considerada um desvio de caráter, ou mesmo uma abominação.

E a este aqui:

Muitos congressistas, embora não tenham criado esse processo, são responsáveis sim por disseminá-lo, inclusive no Congresso, como se vê em inúmeras declarações de fácil acesso pelo youtube.

Mas, não é aqui que a resposta acaba (e, aliás, ainda demorará um pouco). Wolf também nos diz que

A sua analogia com culpar os ateus pelos crimes de Mao é falsa. Mais correto seria comparar com culpar os Maoístas, mesmo os pacíficos.

Tio Hitchens vai te assombrar, e eu vou te dizer que, pelo contrário, a analogia é válida, pois, além de Mao ser ateu, o que eu disse é fato, pois o processo de subalternação de minorias, como você mesmo disse, é HISTÓRICO, portanto não recente. Além disso, os congressistas, convenhamos, têm zero ou pouca influência sobre o pensamento da população. Francamente, seria mais efetivo e talvez até mais honesto fazer como Gilberto Felisberto Vasconcellos e culpar a telenovela por tudo. Afinal, esta sim, pelo menos em tese, tem um maior alcance e uma maior influência.

Wolf também mostra seu descontentamento com uma outra fala minha e diz que

E chega a ser triste ver aqui o velho argumento de que "há temas mais prioritários, como saúde, educação, etc. Mesmo por que, à parte o uso dessa estratégia batida de se desviar de assuntos concretos delicados, a defesa dos direitos humanos e o combate aos preconceitos é sim parte do tema educação (e segurança pública, tendo em vista os crime de ódio que ainda hoje acontecem com frequência, sobretudo no Brasil Profundo citado pelo deputado, mas - por que será? - não por esse artigo.)

Pois é, concordo, mas, para seu desgosto, Wolf, não foi esse o argumento que usei. O que disse é que o Congresso funciona, sim, na base da representatividade, e que, apesar de deverem sim se preocupar com temas delicados - e nunca neguei que o tema merecesse apreciação, só inferi, assumo, que não é Wyllys o homem que deve ser o propagador dessas discussões, especialmente porque este não sabe discutir com um mínimo de honestidade intelectual, ou pelo menos não aparenta isso -, os congressistas, sem nenhuma voz que os levante, tenderão, naturalmente, a discutir temas mais relevantes para a sobrevivência do país, o que não está necessariamente errado, pois, do que eu saiba, o problema da fome no Brasil, por exemplo, é bem mais relevante do que os pretensos direitos humanos defendidos por Wyllys e por outros da mesma militância. 

Fora isso, e também em resposta ao trecho seguinte:

E educação é o tema seguinte. A educação para a diversidade. Me demorar aqui seria me repetir, basta apontar que aqui está um belo exemplo do que eu falei anteriormente sobre as acusações preconceituosas ao deputado, como se ele fosse averso à diversidade de opiniões, o que não é verdade. 

Além de eu já ter mostrado o sempre válido exemplo do Papa, vale sempre lembrar que, pelo menos na sociedade moderna e contemporânea, a função da educação pública - e isso lhe pode ser confirmado até mesmo pelos mais marxistas da pedagogia - não é brigar "por direitos humanos" ou "por politicamente (in)correto", mas sim reproduzir o sistema de crenças sociais e científicas e repassá-lo às crianças e aos jovens. Falar que educação inclui algo a mais que isso é salto de fé ou mentalidade revolucionária.

Aliás, falando em educação, o poeta carioca, depois disso, entrou em um ponto muito interessante. Apesar de ter concordado comigo quando rechacei Wyllys por este ter usado o velho truque "o grupo mais odiado da história", ele reclama da

má vontade do artigo pelo fato de o deputado não trazer "mais do que retórica" para provar sua alegação, como se isso fosse uma falha.

Na verdade, se ele tivesse trazido boa retórica, não reclamaria. Aqui, confesso, esqueci de adjetivar a retórica como "frouxa" e/ou "falaciosa".

Porém, a reclamação não termina aqui. Wolf também aponta que

o autor do artigo se esquece do contexto linguístico da entrevista. Não se trata de um debate formal. Nem mesmo de um programa de entrevistas formal, como seria no programa da Marília Gabriela, por exemplo. "Provocações" tem um formato que não só não inibe esse tipo de alegação como o estimula. É mister colocar pontos polêmicos e apresentá-los, mesmo quando postos de forma assertiva, como questionamentos, como frases lançadas no ar para se pensar a respeito. Sobretudo como uma porta para que tentemos ver o mundo de outra forma, para que nós, os telespectadores, pensemos, ainda que por um instante, sobre a possibilidade de estarmos errados em nossas certezas mesquinhas, quaisquer que elas sejam. Não há a menor obrigação de se embasar as opiniões ali apresentadas com dados, estatísticas ou o que seja, mesmo por conta da curta duração da entrevista. Quem quiser, que o faça, tudo bem. Mas o programa (e o entrevistado sabe disso muito bem) serve, como o nome diz, para Provocar. E Jean Wyllys dá, para quem se interessar, fortes embasamentos em outras entrevistas e artigos.

Reconheço que este argumento é bom, mas o detalhe é que o Lobo da esquerda se esquece de que há também o contexto extra-linguístico da entrevista. Afinal, esta não foi feita com Seu Zé da Padaria ou Seu Joaquim da Quitanda, mas com um Deputado Federal, com um homem público, cujas afirmações, para todos os efeitos, têm sim muita importância para a sociedade em geral, apesar de sua visibilidade ser menor do que deveria. O caso é que, apesar de ser uma entrevista relaxada e provocante, não custaria nada ao deputado, assim como também não faz nas redes sociais, medir suas palavras e ponderar que, apesar de estar, como diz o próprio entrevistador, "na televisão mais livre do Brasil", ele ainda está lá como Deputado Federal e como homem influente no debate político público no país

Há, entretanto, outros problemas apontados pelo carioca:

Seguimos então para o que, ao meu ver, é o ponto mais fraco do artigo inteiro. A implicância com o uso do termo "homofobia”, já esboçada no comentário sobre Clodovil. Por onde começar? Vamos à definição do termo que o artigo dá. Homofobia seria apenas o "ódio ou repulsa a homossexuais". Essa definição de dicionário, além de besta, não é a utilizada pelo deputado em nenhum momento na entrevista.

Quase. O detalhe é que minha implicância não é tanto com o uso do termo, mas, parafraseando nosso amigo Guilherme Tomishiyo em seu brilhante vídeo sobre o artigo de J.R. Guzzo (pena que ele não brilhe no Facebook metade do que o faz em seus vídeos), com a banalização do termo e exatamente com a não-definição do que é Homofobia, o que permite aos seus inimigos políticos que desmascarem suas fraudes e ponham na mesa a sua definição de homofobia, que nada contém de errado apesar da reclamação de Wolf, especialmente porque é uma definição bem mais clara do que a por ele apontada, que seria

algo muito mais amplo. Fala de toda forma de ato ou sentimento discriminatório em relação a homossexuais ou à homossexualidade.

Sorte nossa, no entanto, que Wolf clarifica depois ao dizer que isso seria

Perceba. Não é "ser contra a prática", mas tratar alguém diferente por conta disso.

Azar nosso, porém, que o tratamento diferente

engloba todos os atos discriminatórios, desde piadinhas sem graça (que machucam de verdade, não nos iludamos) até as vias de fato, como espancar ou matar alguém por ser homossexual.

Ou seja, essa nova definição seria o fim de muitos humoristas e a consolidação de muita babaquice politicamente correta. Venhamos e convenhamos, isso, na prática, seria chamar qualquer coisa de Homofobia e seria tratar gays como bons selvagens. Lamentavelmente (ou afortunadamente), Rousseau, assim como "Deus" - mesmo ateu, escolho o lamentavelmente para este, e peço para que meus amigos cristãos não encarem isto como mais do que um uso conveniente para a frase nietzscheniana -, está morto. Fora isso, essa ampliação extremamente indevida daria sim espaço para frouxos "frouxearem" e processarem deus-e-o-mundo por "ato discriminatório", o que, com o tempo, tornaria a sociedade ainda mais chata do que já é.

Mas, para Wolf, o primeiro problema real em tudo isso é que

Esse sentido mais amplo do vocábulo já está cristalizado na nossa sociedade e é legitimizado pelo uso popular. Acusar o Jean Wyllys de "especulação difamatória" por não se ater ao sentido conveniente de dicionário é um erro que eu poderia esperar de um sociólogo, economista ou mesmo um filósofo. 

E não reclamar disso, meu amigo, é um erro político, exatamente porque a filosofia de hoje (que Wyllys divulga com fervor), mesmo tendo, teoricamente, menos de 20 anos, já está mais caduca do que minha tataravó se estivesse viva. Aliás, gostaria de saber, como avaliar o uso popular quando o que se fez foi impor, goela abaixo, uma nova definição? Ainda mais, será que "o povo" realmente se preocupa com tais assuntos?

Pelo visto, eu deveria saber e não deveria mais errar, pois, segundo o próprio Wolf, estudo Letras e:

A língua, com suas variações tanto diacrônicas quanto sincrônicas, é seu objeto de estudo. Um erro básico desses vindo de você é simplesmente imperdoável. Se eu quisesse colocar aquele indefectível vídeo do Caetano xingando a burrice do interlocutor nessa minha resposta, eu o colocaria aqui.

Assim como é a língua, e não a religião cristã, o objeto de estudo do papa da Sócio - para os menos íntimos, Sociolinguística, que estuda as relações entre língua e sociedade e cujo pai mais famoso é William Labov -, Marcos Bagno, mas, mesmo assim, este, além de sequer permitir grandes contestações a suas ideias, ainda comete erros dignos do primário sobre a tradição cristã, que critica duramente. Além disso, quem estuda "a língua em suas variações diacrônicas e sincrônicas" são, em sua maior parte, linguistas, sociolinguistas, psicolinguistas, outros derivados da Linguística e quem compara obras literárias linguisticamente. Como não faço nada disso em minhas pesquisas, não é esse meu objeto de estudo.

Fora isso, sendo um pouco mais rigoroso, eu diria que o pessoal de Letras, no geral, temos um grande problema: somos os especialistas em tudo sem ter estudado nada mais do que Foucault apud Psicólogo x da Educação, Bordieu apud Marcos Bagno (e Bagno apud Erros conceituais) e Saussure apud Fiorin. Eu, com essa silepse, não tiro o corpo fora. O que faço, sem nenhuma silepse gramatical, porém, é tentar pelo menos mudar a mim mesmo e dizer, com orgulho, que não palpito no que não conheço, o que não é o caso da carreira parlamentar do LINGUISTA Wyllys, voltando ao pertinente.

Já o segundo problema real, este mais grave, é que

não é esse o único erro do parágrafo, nem o mais grave. Você dá a entender que preferir filhos hétero a homossexuais, salvo eventuais casos movidos por ódio, é pura questão de preferência. Falsa dicotomia. Preferência as pessoas têm por ter um filho loiro ou de cabelos castanhos. Há muitos motivos pelos quais alguém preferiria ter um filho hétero, a maioria deles de natureza homofóbica, segundo a definição mais geral que eu apresentei. Exemplos: "homossexualidade é doença, é falta de vergonha na cara; é imoral; é promiscuidade; eu quero um filho "homem"; E isso se vê nas reações das pessoas ao descobrirem que seus filhos são homossexuais. Uns espancam, uns expulsam de casa, uns até tentam aceitar o "defeito" do filho, o que não deixa de ser um passo contra uma homofobia internalizada de fato. Mas quase sempre é um desgosto na família, e um desgosto profundo. Por que há uma visão extremamente arraigada em grande parte da sociedade de que, de um jeito ou de outro, homossexualidade é feio. Pouquíssimos são os que prefeririam ter um filho hétero por um motivo não-homofóbico como "não gostaria que ele sofresse o que eu vejo os homossexuais sofrendo por aí."

Aqui, que me desculpe Wolf, o que houve foi um gigante salto de fé, pois o que eu disse foi que não há necessária relação entre preferir filhos hétero e homofobia, o que é fato. Devemos nos lembrar (como já fiz aqui e aqui) de que, no Brasil, a regra jurídica diz que todos são inocentes, e não culpados, até que se prove o contrário. Portanto, tentar colocar no mesmo balaio, como fez o deputado, mera preferência e atos reais de preconceitos é retórica barata e nada  mais. Dizer que o que eu fiz foi "falsa dicotomia" - o que não tem nada a ver com o assunto, sejamos honestos - e que uma preferência, até que se prove o contrário, não é uma preferência não é a música de Gabi Amaranthos, mas, se botar na vitrine da retórica, não vai valer nem R$ 1,99.

Mais ao fim, Wolf repete a mesma ladainha sobre a conduta do deputado ser apenas de discordância veemente e não de intolerância e reclama que

Em seguida, vem o comentário sobre "religiões, preconceitos e bancos". Sim, uma pergunta provocadora da parte de Abujamra. Sim, uma resposta provocadora do entrevistado. Não uma defesa de tese, mas uma, de novo, provocação. A não-compreensão dessa palavra como pano de fundo e textura de toda a entrevista é o que causa a maior parte dos espantos por sua parte. Não se trata de provar que religiões e bancos são uma união que estraga o mundo, mas de colocar isso como possibilidade, e a presença do Banco do Vaticano (mais ainda, a acusação, que, até onde eu sei, teve bases sólidas para ser feita) são exemplos que sugerem - não provam - essa possibilidade. 

e que

Por fim o artigo, sem reconhecer o caráter poético da questão sobre reencarnação, descasca em cima da resposta do deputado sobre querer viver em "um mundo justo". Clichês à parte (e se eu tenho uma crítica à resposta é justamente esse cliché desnecessário e incoerente com o que fora uma entrevista cheia de pontos provocadores de fato), o artigo aproveita para dar mais uma alfinetada gratuita no pensamento de esquerda, citando o Stalinismo (e o nazismo, mais isso é outra questão) como resultados das últimas tentativas de se fazer um mundo justo. Isso quer dizer que devemos parar de tentar? Que devemos deixar o mundo como está e pronto? Ou apenas questionar o que deu certo e o que não deu, pensar por que essas tentativas falharam e evitar cometer os mesmos erros? Porque em nenhum momento se trata de demonstrar fervor religioso a uma ideologia política inevitavelmente ditatorial. De novo, a defesa fervorosa de ideias é confundida com a intolerância às ideias contrárias. 

Quanto à primeira resposta, por mais que existam bases sólidas, o fato de alguém ser acusado de algo prova contra ele um grande pedaço de NADA, pois acusação não é prova de culpa. Pensar diferente disso é endossar que "onde há fumaça, há fogo", que é um raciocínio bem mais provocador e bem mais instigante, convenhamos, do que toda a entrevista do deputado.

Quanto à segunda resposta, reconheço sim o caráter poético, só que o desprezo. Reconheço também a provocação da entrevista, só que sou um "escarniador". Por fim, reconheço sim que o mundo pode ficar melhor, só não acho que  ajude nisso chamar velhos decrépitos e, até que se prove o contrário, limpos no sentido moral, de pedófilos homofóbicos. 

Aliás, a penúltima parte interessante é uma reclamação de que

quanto à religiosidade composta do deputado, isso não é, de modo algum, sintoma de um neo-ateísmo enrustido, mas faz parte de um sincretismo hardcore bem característico de quem nasceu e cresceu na Bahia, onde o cristianismo e as religiões de matriz africana convivem como em nenhum outro lugar do mundo.

Passou perto, Wolf. Pena que, de cristão fraco, Wyllys não tenha nada. O que isso geraria, em tese, é um cristão fraco, não um neo-ateu, que é, sim, o que Sua Excelência parece. Deve ter sido, imagino, o resultado da mistura disso tudo com o que ele entende por e de ateísmo -  que, pelo que ouvi, é nada e menos um pouco.

Por fim, e eis a última parte interessante, terminamos com um lamento:

Termino reiterando minha tristeza, fruto da admiração que tenho pelo autor do presente artigo, e da inteligência sagaz e mordaz que costumo ver mas não vi aqui, infelizmente. Assim como o remédio, na dose errada, se transforma em veneno, da mesma forma o veneno, na dose errada, vira puro mimimi. Uma pena. Mas não se pode ganhar todas.

Pois é, nobre Wolf, mas o mimimi, assim como ocorre com a zuera, seja na dose certa ou na dose errada, não deixa de ser o mais puro mimimi. Minto. Talvez um mimimi mais sofisticado, como o de Wyllys, seja, efetivamente, um bom discurso político. Prova disso é que, até mais do que as Igrejas pelas quais nutre tanto ressentimento, Wyllys conseguiu um bando de ovelhinhas para sua seita cheia de "religiosidade composta".

Eu, porém, não vou me alongar ainda mais sobre isso, pois é, para quem, como Wolf, conhece neo-ateus e cristãos fracos, algo óbvio. Portanto, despeço-me por aqui e, desta vez, com um piparote e com meus agradecimentos ao leitor que nos acompanhou até aqui. Obrigado Wolf e leitores, e até mais.

2 comentários:

  1. Hahahaha botou pra foder! Assim eu viro fã do blog!

    ResponderExcluir
  2. Talvez um mimimi mais sofisticado, como o de Wyllys, seja, efetivamente, um bom discurso político. Prova disso é que, até mais do que as Igrejas pelas quais nutre tanto ressentimento, Wyllys conseguiu um bando de ovelhinhas para sua seita cheia de "religiosidade composta".
    Boom

    ResponderExcluir