26 de jun de 2013

Nos embalos de um ex-BBB intelectófobo - Jean Wyllys, o Rousseau brasileiro

Ontem à noite, enquanto navegava pelos canais de minha televisão, vi que, dentro de pouco tempo, haveria uma entrevista no programa Provocações, da TV Cultura, com o Deputado Federal e ex-BBB Jean Wyllys, que atualmente milita pelo PSOL e por todo tipo de causa que sirva para inchar o estado e praticar todo tipo de fascismo ideológico contra os grupos que não aprecia, incluídos todos aqueles que se apegam às suas tradições ou mesmo aos próprios ideais ao invés de louvar e propagandear as ideias do messias dos "por um mundo melhor".

O fato foi que o linguista-deputado não decepcionou e, como sempre, nos presenteou com um show de afirmações no mínimo curiosas e interessantes de serem analisadas. Resolvi, então, promover uma reflexão sobre alguns desses pontos interessantes presentes na supracitada entrevista. Como, ao contrário do deputado, sou um democrata convicto (apesar de não tomar a Democracia como ideologia ou objeto de louvor), convido também o leitor a participar comigo e dar seu sempre precioso pitaco sobre minhas reflexões. Aproveitemos, então, antes que este tipo de reflexão descompromissada e sincera também seja considerado preconceito, termo cada vez mais vago e, em contrapartida, cada vez mais usado por aquelas pessoas que, como Wyllys, amam a humanidade, mas detestam seus semelhantes (e aqui copio descaradamente Luiz Felipe Pondé, Edmund Burke e muitos outros).

Enfim, vamos à análise. Poderia começar pela parte em que o deputado diz que "não está acostumado a ser chamado de Vossa Excelência", mas prefiro, por pura e simples vontade, começar pela reclamação em parte justa de Sua Excelência quando este diz que um dos problemas da política brasileira é termos uma população pouco politizada, pouco participativa. Muito curiosamente, é esse mesmo Jean Wyllys que reclama em coro com neo-ateus e outros imbecis juvenis e senis contra a participação de pastores evangélicos na política sob a afirmação de preservar a laicidade do estado.

Mas, ora essa, do que eu saiba, um Estado Laico é justamente aquele em que todas as religiões, grupos religiosos e pessoas religiosas (ou não) podem ter voz - e podem ter certeza, quem diz que Estado Laico é estado sem religião, no sentido de participação dos religiosos, é ignorante, politicamente correto ou mau-caráter, apesar de estes dois últimos serem quase sempre sinônimos. Estariam, então, os evangélicos, um grupo numeroso e expressivo da população, proibidos, por algum tipo de moralismo wyllysiano, de votar em seus pastores para que eles tenham também seus representantes lá? Deveria, então, a população ser politizada apenas em prol dos ideias de esquerda defendidos por Wyllys?

Pergunto isso porque, muito curiosamente, o Papa dos LGBT cita, logo em seguida, o pensador italiano Antonio Gramsci, famoso por dizer, como repetido pelo próprio Jean Wyllys, que não se deve esperar por uma revolução, mas sim entrar no sistema e mudá-lo por dentro. Seria o objetivo de Sua Excelência, então, agir de modo a censurar todo o pensamento que não lhe agrade e impor sua agenda a todos, gays ou não?

Mais curiosa ainda foi a declaração do deputado sobre o agora finado e antes deputado Clodovil Hernandes, dizendo que este, ao não lutar "pelos direitos humanos dos LGBT" - o que quer que se deva entender por isto, visto que Sua Excelência não explicitou, na entrevista inteira, quais seriam esses direitos, que, pelo visto, deve diferir muito dos direitos humanos tradicionais, incluindo o direito de passar valores religiosos aos filhos, coisa que Wyllys parece não respeitar -, pareceu-lhe apresentar o grave caso de "homofobia internalizada", mesmo sabendo que, quando se fala em Clodovil, uma das primeiras coisas que vêm à cabeça de quem conheceu esta figura é a homossexualidade em si. Pelo visto, não basta ser homossexual, é necessário ser da vertente radical-marxista-wyllysiana.

Aliás, é justamente pelo fato de nem todos os deputados o mimarem e o tratarem como ele acha que deveriam (ou seja, mais do que "Vossa Excelência", um herói da nação e uma figura inquestionável) que o intelectófobo apela e acusa, sem o mínimo pudor, os congressistas (ou, em suas palavras, os "machos adultos brancos") de terem se acostumado a colocar os homossexuais no lugar de subalterno e, consequentemente, de estarem descontentes com o fato de essa minoria ter ganhado voz. Além disso, também culpa o Congresso pelo "crime inafiançável" de nunca ter se habituado a dar espaços a todos os pontos de vista, incluindo o de homossexuais, mulheres e negros.

O detalhe de que se esquece o ilustre congressista novato é que, além de os congressistas atuais não terem qualquer culpa pelo processo histórico de subalternação das minorias (e culpá-los por isso seria o mesmo que culpar todos os ateus pelos crimes de Stalin ou Mao, por exemplo), é necessário, especialmente no admirável mundo corporativista brasileiro, haver uma representação que traga para o debate os pontos de vista minoritários, especialmente porque, apesar de sermos uma nação com vários problemas histórico-sociais nesse sentido (e não assumir isso seria canalhice de minha parte), há outros temas um tanto mais prioritários a serem tratados, entre eles Economia, Saúde, Segurança, Saneamento Público e Educação.

Falando em educação, pouco após esse apelo despudorado à culpa alheia, totalmente típico dos politicamente corretos, Wyllys explica que, entre seus projetos, está um por uma educação "para a diversidade". Porém, esse é o problema: que diversidade? Apenas a "diversidade sexual" ou a diversidade de opiniões e de pensamentos? Afinal, se for esta última, o próprio deputado teria de ir a algumas aulas, já que, em mais de uma ocasião, inclusive na entrevista, demonstrou profundo desrespeito àqueles que pensavam diferente dele próprio, tachando-os de "preconceituosos" - ah, sempre essa vaga acusação que acarreta, curiosamente, uma claríssima punição, indo de isolamento social a limbo intelectual.

Mesmo assim, para justificar este e outros pontos de seu pensamento, Sua Excelência apela para o quase sempre falacioso, todavia sempre efetivo (em termos de propaganda de uma causa) truque de "somos o grupo mais odiado da história". Falo isso porque me habituei não a encarar homossexuais como subalternos (pois isto seria pura ignorância), mas a ver tanto estes quanto ateus e outras minorias usarem o mesmo truque, quase todas as vezes tomando como provas pesquisas malfeitas e dados históricos mentirosos. Como Sua Excelência não trouxe nada além de retórica para provar sua alegação, descarto-a, pois, como diriam o neo-ateu Christopher Hitchens e muitos outros, o que pode ser afirmado sem evidências pode ser descartado sem evidências.

É também sem evidências e com uma retórica cada vez mais frágil que, logo em seguida, o sofista showman mostra sua mágoa pelo fato de pessoas ateias e não-religiosas  também demonstrarem "homofobia" ao preferirem ter filhos hétero a filhos homo. Pena que, para desespero do Papa do Marxismo-LGBT (apesar de o Marxismo ter fortes traços de Homofobia), a homofobia seja apenas repulsão ou ódio aos homossexuais, e não a preferência por ter filhos heterossexuais, algo que, de fato, não tem relação necessária com ódio ou com repulsão, exatamente por ser mera PREFERÊNCIA. Obviamente, não nego que possa haver alguns destes movidos pelo ódio, mas isso, até que se prove o contrário, é pura especulação e, pior, especulação difamatória.

Por falar em difamações, Jean Wyllys reclama, com justiça, de uma imagem compartilhada pelas redes sociais em que o próprio se dizia um "apoiador da pedofilia", e diz, inclusive, que vai entrar com um processo contra os que fizeram e compartilharam a imagem. Curiosamente, o mesmo deputado PSOLista não teve vergonha de, na própria entrevista, chamar de "fundamentalistas opressores de minorias" - e o xingamento aqui está em fundamentalista, termo que se tornou pejorativo ao longo das últimas décadas - os religiosos que, segundo eles, compreendem mal a "liberdade religiosa". Não deveriam, então, os religiosos também moverem processos contra o guru da moçadinha laica-gay?

Depois disso, além de chamar a Comissão de Direitos Humanos, comandada por Marco Feliciano, de "causa perdida", ele e Abujamra quase têm um orgasmo conjunto ao falar de "teologias inclusivas" - que, aposto mas não sei se ganho, devem ser capitaneadas por pessoas tão cristãs quanto eu e tão entendedoras de Teologia quanto o próprio deputado -  e ao discutirem a relação entre religiões, preconceitos e bancos, discussão essa que incluiu uma frase de Jean Wyllys em que o deputado dispara, não sei com base em que premissas, que o fato de o Banco do Vaticano existir e ter sido ACUSADO (o que difere e muito de CULPADO) de ser um paraíso fiscal é prova mais do que suficiente de que religiões e bancos são uma união que estragam o mundo. Típico dos intelectófobos.

Por fim, o metafísico de boutique, não satisfeito em já ter demonstrado seu amor à humanidade e ódio ao semelhante durante toda a entrevista, ainda fala, quando perguntado sobre "reencarnação", que adoraria voltar em um "mundo justo", em que não houvesse divisão do homem, exploração do planeta, preconceitos, guerras religiosas (o que raramente acontece, pois as religiões são mais pretextos do que guerreadoras de fato) e tantas outras mazelas sociais. Pena, para ele, que não há mundo justo, e que as últimas tentativas de fazer isso resultaram em bizarrices como o Comunismo Stalinista e o Nazismo Hitlerista.

Mas, esse não é o grande problema no pensamento de Sua Excelência. O problema é que Jean Wyllys, como todo membro de minoria, põe-se na posição do bom selvagem rousseauniano, aquele que, não fosse a sociedade, seria a melhor das pessoas. O engraçado é que, apesar de odiar a sociedade "homofóbica" em que vive e de não gostar das religiões que "oprimem minorias", o Papa (e peço perdão por fazer essa comparação, pois nem o pior dos Papas mereceria isso)  LGBT latino-americano insiste em demonstrar publicamente seu religioso louvor e sua devoção digna do pior dos fanáticos não à religião tradicional - pois ele, como todo bom neo-ateu enrustido, não se assume assim e prefere dizer que tem uma "religiosidade composta" -, essa que busca a virtude metafísica antes de qualquer coisa, mas à religião política, aquela em que, em prol do "mundo melhor", as vozes divergentes são caladas e os ídolos passam a ser os ditadores.

Algum Wyllysiete poderia vir aqui e falar que "só estou defendendo minha religião". Errado. Não acredito no Deus das religiões, mas rejeito bem mais sistematicamente sequer a hipótese de louvar aos deuses Mercado e Estado. A real questão aqui é que Sua Excelência, apesar de não estar acostumado a ser chamado de "Vossa Excelência", quer esse tipo de tratamento, o da submissão servil, às suas ideias, e isso, infelizmente, eu não posso oferecer, pois meu ceticismo, mesmo que não-absoluto, não permite.

É, amigo leitor, é como disse o próprio Abujamra, "o gesto é o suficiente para o ator", especialmente quando ele decide interpretar Rousseau.

ADENDO: Podcast mais recente:

15º Podcast de Octavius: Alguns pitacos: Reforma Política e Frescuras Facebookianas
16º Podcast de Octavius: Provocação Filosófica: O que é a Filosofia? O que é um filósofo?
17º Podcast de Octavius: Por que ser contra "um mundo melhor"? Semi-breve análise do pensamento politicamente correto

11 comentários:

  1. Excelente texto. Durante a vida, fui deixando meus deuses pelo caminho, que não caminhavam ao meu lado, pediam seus pé de barro. Nem Mercado e nem Estado. Se há algo digno de amor absoluto e adoração absoluta, só o Ser Absoluto. Então apenas vejo como posturas intelectuais sinceras, ou o ateísmo agnóstico ou o teísmo. Salve os ateístas agnósticos e sua sinceridade.

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  2. Anônimo, acho que você não entendeu o meu texto. Meu ponto aqui não era falar de mais ou menos deuses, mas de desmentir as falácias de um DEPUTADO FEDERAL.

    Aliás, quem és tu?

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  3. Valeu, Unknown, mas quem és tu?

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  4. Finalmente um artigo aqui nessa página que mexeu com os
    meus brios o suficiente para demandar uma longa resposta
    minha. Para alguém que costuma detonar opiniões
    preguiçosas com veneno e provocações certeiras, sempre
    embasado na mais indefectível lógica (independentemente
    de eu concordar ou não com as conclusões), esse artigo
    me decepcionou. Aqui o que se vê é um veneno genérico,
    pouco mais do que um festival de xingamentos
    preconceituosos (nenhum deles homofóbico, é preciso
    dizer, é sempre no estilo "esquerda = autoritário" ou
    "ex BBB = burro, fútil, intelectófobo"), rancores de uma
    má vontade Olavodecarvalhiana e questões colocadas com o
    mesmo tipo de opinião preguiçosos que tanto costuma
    criticar. Definitivamente nao é o seu estilo.

    A análise já começa fazendo uma correlação entre a
    reclamação sobre uma juventude nao politizada (não é
    nada, nao é nada, mas é bom frisar que a entrevista foi
    gravada antes que as manifestações tomassem conta do
    país) e o seu posicionamento contrário à bancada
    evangélica na política, querendo dar a entender que o
    próprio deputado sofreria, em certo ponto, do mesmo
    problema, como se fosse um hipócrita. (Aliás, acusações
    veladas abundam nesse artigo. Praticamente todo final de
    parágrafo são conclusões exageradas, beirando o declive
    esgorregadio, tiradas a partir das colocações de Jean
    Wyllis dando a elntender que ele é um fascista esquerdocrata e
    totalitário, como se defender suas posições com
    veemência fosse o equivalente a não tolerar opiniões
    contrárias)

    (continua)

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  5. (parte II)

    Segue-se entao toda uma ladainha sobre o que seria o
    Estado Laico e por que a posiçao de Jean Wyllys seria
    contraditória. Ora, por mais que a sua definição seja
    correta, Jean Wyllis sabe muito bem disso. Tanto que a
    oposição que ele faz à agenda da bancada evangélica é
    feita pelos trâmites democráticos. Ele sabe muito bem
    que os deputados ali eleitos não exercem suas
    prerrogativas de forma ilegal, e suas divergências são
    de caráter ideológico, nao religioso. Ele discorda
    radicalmente das posiçoes e decisoes da bancada
    evangélica, da mesma forma que a bancada evangélica
    discorda ideologicamente da bancada homossexual. A nao
    ser que voce esteja sugerindo que essa discordancia dos evangélicos
    seja, por si, homofóbica, nao dá pra esculhambar o
    posicionamento de Jean Wyllis a respeito de forma tao
    simplista. Claro que ele lamenta (e eu também, por
    sinal) que tantos elegam seus representantes pelo
    simples fato de serem pastores. Porém, ele reconhece (e
    eu também, de novo) que faz parte do jogo democrático.
    Eleger alguém por ser da mesma religião (ou do mesmo
    time de futebol, orientação sexual ou qualquer coisa que
    não seja um motivo propriamente político) é uma
    tristeza. E esse fenômeno, muito mais do que a possivel
    existência de uma ala da população que efetivamente
    concorde com as propostas dessa bancada, é sim fruto de
    uma populaçao nao-politizada, de modo que, curiosamente,
    há mesmo uma relação entre as duas partes da entrevista,
    quem diria?

    O parágrafo sobre a citaçao de Gramsci nem merece
    réplica. Uma coisa que foi colocada como uma declaração
    de amor à democracia (mudar o que tem que ser mudado de
    dentro, ou seja, sem desrespeitar os processos
    democráticos, sem atropelar as leis, através do
    confronto com opinioes contrárias e pelo convencimento)
    é interpretado como uma atitude autoritária e de
    censura.

    (continua)

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  6. (parte III)

    Eis que surge a figura de Clodovil Hernandes. Sem
    apontar sequer que o nome apareceu por reconhecimento do
    próprio Jean Wyllis, ao ser apontado por Abujamra como o
    primeiro deputado assumidamente gay do país, o artigo
    distorce a fala de Jean Wyllis de forma assombrosa. O
    entrevistado lembra ao apresentador que Clodovil,
    homossexual assumido, veio antes dele, apenas não
    pregava a luta pelos direitos homossexuais como bandeira
    pessoal. E isso é verdade mesmo. Clodovil tinha outras
    prioridades. A chamada "homofobia internalizada"
    (colocada por Jean Wyllis a título de especulação, tanto
    que o próprio Abujamra discordou e nao houve tentativa
    de discutir a questão, ficou por isso mesmo) é,
    simplesmente, fruto de dezenas e dezenas de declarações
    que o próprio Clodovil deu em sua vida pública, de que muitas vezes sentia repulsa por sua própria homossexualidade, mesmo
    porque ela confrontava com os valores morais do mesmo.
    Isso não foi colocado como acusação, mas como um simples
    fato que coloca Jean Wyllis como o primeiro homossexual
    militante da causa a assumir uma cadeira no congresso.

    Em seguida é examinada a declaração sobre sua
    dificuldade de se impor como homossexual em um congresso
    em quase sua totalidade heterossexual (ou heteronormativo, para quem curte o jargão). O processo de
    subalternação das minorias é um fato histórico, em todo
    lugar, e os homossexuais estão longe de superá-lo, muito
    mais longe ainda do que os negros e as mulheres, mesmo
    por que, ao contrário desses últimos, que somam, em
    oposição a homens e brancos, metade (ou mais) da
    população brasileira homossexuais são uma minoria de
    fato. Não é mimimi do deputado, é o que ele sofre (e vê amigos, companheiros e desconhecidos sofretem) na
    pele dia a dia. Não como um filme sessão da tarde em que
    todos dão sinais inequívocos de desrespeito com
    xingamentos dublados e estereotipados, mas como uma sensação de
    desconforto constante, sobretudo das alas mais
    conservadoras da população (e do congresso, não tenha
    dúvida), para quem a homossexualidade é, ainda,
    considerada um desvio de caráter, ou mesmo uma
    abominação. A sua analogia com culpar os ateus pelos
    crimes de Mao é falsa. Mais correto seria comparar com
    culpar os Maoistas, mesmo os pacíficos. Muitos
    congressistas, embora não tenham criado esse processo,
    sao responsáveis sim por disseminá-lo, inclusive no
    congresso, como se vê em inumeras declarações de fácil
    acesso pelo youtube. E chega a ser triste ver aqui o
    velho argumento de que "há temas mais prioritários, como
    saúde, educação, etc. Mesmo por que, à parte o uso dessa
    estratégia batida de se desviar de assuntos concretos
    delicados, a defesa dos direitos humanos e o combate aos
    preconceitos é sim parte do tema educação (e segurança
    pública, tendo em vista os crime de ódio que ainda hoje
    acontecem com frequência, sobretudo no Brasil Profundo
    citado pelo deputado, mas - por que será? - não por esse
    artigo.)

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  7. (parte IV)

    E educação é o tema seguinte. A educação para a
    diversidade. Me demorar aqui seria me repetir, basta
    apontar que aqui está um belo exemplo do que eu falei
    anteriormente sobre as acusações preconceituosas ao
    deputado, como se ele fosse averso à diversidade de
    opiniões, o que não é verdade.

    Quanto ao "grupo mais odiado da história", tenho que
    concordar. Jean Wyllys exagerou. Há grupos mais odiados
    que os homossexuais, mesmo por que o preconceito que os
    homossexuais sofrem tende a ser mais um sentimento de
    desprezo do que ódio propriamente dito. Ateus são mais
    odiados, por exemplo. Mulheres. Mesmo cristãos, em
    alguns lugares. Mas preciso apontar a má vontade do
    artigo pelo fato de o deputado não trazer "mais do que
    retórica" para provar sua alegação, como se isso fosse
    uma falha. Ora, o autor do artigo se esquece do contexto
    linguístico da entrevista. Não se trata de um debate
    formal. Nem mesmo de um programa de entrevistas formal,
    como seria no programa da Marília Gabriela, por exemplo.
    "Provocações" tem um formato que não só não inibe esse
    tipo de alegação como o estimula. É mister colocar
    pontos polêmicos e apresentá-los, mesmo quando postos de
    forma assertiva, como questionamentos, como frases lançadas no ar para
    se pensar a respeito. Sobretudo como uma porta para que
    tentemos ver o mundo de outra forma, para que nós, os
    telespectadores, pensemos, ainda que por um instante,
    sobre a possibilidade de estarmos errados em nossas
    certezas mesquinhas, quaisquer que elas sejam. Não há a
    menor obrigaçao de se embasar as opiniões ali
    apresentadas com dados, estatísticas ou o que seja, mesmo por conta da curta duração da entrevista. Quem
    quiser, que o faça, tudo bem. Mas o programa (e o
    entrevistado sabe disso muito bem) serve, como o nome
    diz, para Provocar. E Jean Wyllys dá, para quem se interessar, fortes embasamentos em outras entrevistas e artigos.

    (continua)

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  8. (parte V)

    Seguimos então para o que, ao meu ver, é o ponto mais
    fraco do artigo inteiro. A implicância com o uso do
    termo "homofobia”, já esboçada no comentário sobre Clodovil. Por onde começar? Vamos à definição do termo que o artigo dá. Homofobia seria apenas o "ódio ou repulsa a homossexuais". Essa definição de dicionário, além de besta, não é a utilizada pelo deputado em nenhum momento na entrevista. É claro que quando ele se refere à homofobia (sim, incluindo à alegada homofobia internalizada do Clodovil) está falando de algo muito mais amplo. Fala de toda forma de ato ou sentimento discriminatório em relação a homossexuais ou à homossexualidade. Perceba. Não é "ser contra a prática", mas tratar alguém diferente por conta disso. Isso engloba todos os atos discriminatórios, desde piadinhas sem graça (que machucam de verdade, não nos iludamos) até as vias de fato, como espancar ou matar alguém por ser homossexual. Esse sentido mais amplo do vocábulo já está cristalizado na nossa sociedade e é legitimizado pelo uso popular. Acusar o Jean Wyllis de "especulação difamatória" por não se ater ao sentido conveniente de dicionário é um erro que eu poderia esperar de um sociólogo, economista ou mesmo um filósofo. Mas você, como eu, estuda Letras. A língua, com suas variações tanto diacrônicas quanto sincrônicas, é seu objeto de estudo. Um erro básico desses vindo de você é simplesmente imperdoável. Se eu quisesse colocar aquele indefectível vídeo do Caetano xingando a burrice do interlocutor nessa minha resposta, eu o colocaria aqui. Mas não é esse o único erro do parágrafo, nem o mais grave. Você dá a entender que preferir filhos hétero a homossexuais, salvo eventuais casos movidos por ódio, é pura questão de preferência. Falsa dicotomia. Preferência as pessoas têm por ter um filho loiro ou de cabelos castanhos. Há muitos motivos pelos quais alguém preferiria ter um filho hétero, a maiora deles de natureza homofóbica, segundo a definição mais geral que eu apresentei. Exemplos: "homossexualidade é doença, é falta de vergonha na cara; é imoral; é promiscuidade; eu quero um filho "homem"; E isso se vê nas reações das pessoas ao descobrirem que seus filhos são homossexuais. Uns espancam, uns expulsam de casa, uns até tentam aceitar o "defeito" do filho, o que não deixa de ser um passo contra uma hofobia internalizada de fato. Mas quase sempre é um desgosto na família, e um desgosto profundo. Por que há uma visão extremamente arraigada em grande parte da sociedade de que, de um jeito ou de outro, homossexualidade é feio. Pouquíssimos são os que prefeririam ter um filho hétero por um motivo não-homofóbio como "não gostaria que ele sofresse o que eu vejo os homossexuais sofrendo por aí."

    (continua)

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  9. (parte VI - final)

    O artigo segue, então, lembrando de uma campanha inquestionavelmente difamatória feita recentemente contra Jean Wyllis, e tenta equipará-la com a fala do deputado contra os fundamentalistas opressores da minorias. E não, embora seja notório o descontentamento do deputado com fundamentalistas (cujo uso popular do termo você mesmo reconhece aqui, então não preciso entrar em detalhes nesse caso) o xingamento não está em "fundamentalistas", está em "opressores". Pessoas fundamentalistas que não buscam oprimir as minorias estão fora do escopo da reclamação em questão. Não cabe processo Contr Jean Wyllys aqui. Aliás, é bom notar que aqui sim o deputado diz entrar com um processo, pelo crime de calúnia e difamação. Não contra quem pensa diferente, mas contra quem o calunia de forma escancarada. E mesmo isso é acompanhado, por pedido dele, de uma investigação a mais rigorosa possível para que o processo caia sobre quem de fato tiver cometido o crime, não contra inimigos políticos em geral.

    Em seguida,vem o comentário sobre "religiões, preconceitos e bancos". Sim, uma pergunta provocadora da parte de Abujamra. Sim, uma resposta provocadora do entrevistado. Não uma defesa de tese, mas uma, de novo, provocação. A não-compreensão dessa palavra como pano de fundo e textura de toda a entrevista é o que causa a maior parte dos espantos por sua parte. Não se trata de provar que religiões e bancos são uma união que estraga o mundo, mas de colocar isso como possibilidade, e a presença do Banco do Vaticano (mais ainda, a acusação, que, até onde eu sei, teve bases sólidas para ser feita) são exemplos que sugerem - não provam - essa possibilidade.

    Por fim o artigo, sem reconhecer o caráter poético da questão sobre reencarnação, descasca em cima da resposta do deputado sobre querer viver em "um mundo justo". Clichês à parte (e se eu tenho uma crítica à resposta é justamente esse cliché desnecessário e incoerente com o que fora uma entrevista cheia de pontos provocadores de fato), o artigo aproveita para dar mais uma alfinetada gratuita no pensamento de esquerda, citando o Stalinismo (e o nazismo, mais isso é outra questão) como resultados das últimas tentativas de se fazer um mundo justo. Isso quer dizer que devemos parar de tentar? QUe deveos deixar o mundo como está e pronto? Ou apenas questionar o que deu certo e o que não deu, pensar por que essas tentativas falharam e evitar cometer os mesmos erros? Por que em nenhum momento se trata de demonstrar fervor religioso a uma ideologia política inevitavelmente ditatorial. De novo, a defesa fervorosa de ideias é confundida com a intolerância às ideias contrárias. E quanto à religiosidade composta do deputado, isso não é, de modo algum, sintoma de um neo-ateismo enrustido, mas faz parte de um sincretismo hardcore bem característico de quem nasceu e cresceu na Bahia, onde o cristianismo e as religiões de matriz africana convivem como em nenhum outro lugar do mundo.

    Termino reiterando minha tristeza, fruto da admiração que tenho pelo autor do presente artigo, e da inteligência sagaz e mordaz que costumo ver mas não vi aqui, infelizmente. Assim como o remédio, na dose errada, se transforma em veneno, da mesma forma o veneno, na dose errada, vira puro mimimi. Uma pena. Mas não se pode ganhar todas.

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  10. Eis minha resposta: http://www.adtantumargumentandum.blogspot.com.br/2013/07/de-cara-com-o-fera-resposta-ph-o-lobo.html

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