22 de jun de 2013

Mais 20 centavos: O Lulista que Disfarçava - Singer, Esquerda e Direita

Há pouco tempo, vi um compartilhamento feito pelo economista Rodrigo Constantino (que sigo no Facebook) de um artigo da Folha de São Paulo assinado por um cientista político e professor da USP, cujo trabalho também já conhecia, chamado André Singer, aquele que fez mais de uma obra sobre o Lulismo no Brasil.

No artigo em questão, intitulado Esquerda ou direita?, pude perceber algumas associações, digamos, "interessantes" que Singer faz entre essas posições no espectro político e as recentes manifestações que vêm ocorrendo por todo o Brasil, apesar de estas terem, até o momento, tomado menos de 100 dos mais de 5500 municípios espalhados pelo território nacional.

Confesso, porém, que esperava pelo menos um disfarce melhor por parte do braço-forte do Lulismo na Ciência Política quanto à ideologia com a qual se alinha. Resolvi, então, trazer mais 20 centavos além dos que eu já trouxera em um podcast citado no post anterior, dessas vez à luz das ideias expressas por cada lado do espectro político, que, ao contrário do que dizem alguns leigos e outros mal-intencionados, ainda é uma ótima forma de se analisar as posições ideológicas dos cidadãos e intelectuais do mundo contemporâneo (e explico isso em uma outra ocasião).

Procedo, então, da mesma forma que fiz aqui, no post anterior e em outras oportunidades, ou seja, destacarei os trechos do artigo e comentá-los-ei em seguida. Vamos, então, aos trabalhos. O lulista começa afirmando que:

O levante urbano desencadeado pelo Movimento Passe Livre (MPL) obteve uma vitória extraordinária ao conquistar a redução do preço das passagens do transporte coletivo em São Paulo e em tantas outras cidades.

Pergunto: Será mesmo? Afinal, pelo menos em São Paulo, além de ter acontecido apenas uma suspensão do aumento da tarifa até o momento, essa "vitória", por questões puramente econômicas, trará uma série de ônus não só a um ou mais setores de investimento da cidade, já que, para não elevar o preço, será necessário a Haddad e outros retirar dinheiro de outras áreas importantes, seja da educação, saúde, segurança, cultura ou outras, para dar subsídios ainda maiores às transportadoras, como também ao próprio trabalhador, que poderá acabar pagando ainda mais impostos para que as cidades tenham mais verba para as áreas desfalcadas.

Este, porém, não é o foco de Singer, mas apenas uma afirmação categórica e que, portanto, pode ser descartada ou rejeitada, pois o que se afirma sem evidências pode ser negado sem evidências. Ele, então, mostra a que veio e pondera:

Mas, conquistada a reivindicação, é preciso saber para que lado vão os personagens que tomaram as ruas depois de 20 anos de ausência das massas na cena brasileira.

Aqui, o lulista volta a mostrar sua face de cientista político e, de fato, põe a carta mais relevante na mesa, afinal, também houve uma considerável mobilização durante o fim do Governo Collor, mas, depois disso, nada mais de tão grandioso ocorreu, apesar de partidos e militantes de todas as causas terem continuado suas manifestações rotineiras.

Há, no entanto, uma correção a se fazer. A questão é que, por mais oba-oba que haja, falar que este movimento foi das massas quando no máximo 3 milhões dos 190 milhões de brasileiros participaram (e isso sendo muito bondoso), ou, dando o exemplo específico da cidade de São Paulo, "apenas" 500 mil dos mais de 11 milhões de habitantes foram às ruas, é nada mais que uma grande falácia. Aliás, não me surpreenderia se a grande massa brasileira, a dos trabalhadores, das donas-de-casa e de todos os outros, não soubesse das manifestações ou se posicionasse contra elas, visto que, como se sabe, o movimentar político, de fato, não faz parte da cultura da maior parcela da população brasileira.

Creio, então, que, no máximo, poderíamos chamar este movimento de um movimento "da classe média", o que pode ser comprovado ao vermos que muitos dos manifestantes são estudantes de classe média.

Singer, porém, não para por aí. Em sua continuação, ele explica que

Duas características peculiares aos protestos recentes criaram uma indeterminação. A primeira é o seu estilo horizontal de organização, cujas raízes profundas estão na tremenda crise que assola a democracia contemporânea. Indignadas com o descolamento entre o mundo da política e o inferno da vida cotidiana, as pessoas recusam as organizações tradicionais --sejam partidos, sejam sindicatos--, ou o que se pareça com elas.

Algo que chega a ser cômico é o fato de o cientista político uspiano esquecer-se de apontar que foram justamente algumas das políticas propostas pela esquerda as que mais geraram essa frustração, como a Maioridade Penal em 18 anos, as penas relativamente leves para criminosos mesmo que hediondos, a péssima qualidade do sistema educacional freireano-progressista-politicamente correto, as péssimas condições de trabalho para professores e muitos outros profissionais e o sucateamento generalizado da segurança e da saúde brasileiras.

Como isso, entretanto, não convém para sua argumentação, Singer sofre um lapso momentâneo de memória e se esquece de jogar para a esquerda as culpas que esta de fato tem. Mesmo assim, ele ainda se indigna com essa postura do brasileiro:

Convém esclarecer, antes que haja qualquer mal-entendido, que a democracia não pode funcionar sem partidos e que os sindicatos, apesar de todos os problemas, continuam a ser o melhor instrumento que o trabalhador tem para defender seus interesses.

Curiosamente, a única coisa que ele fez foi afirmar ambas as coisas categoricamente, não explicando o porquê de uma democracia não poder funcionar sem partidos e de os sindicatos  serem a melhor ferramenta de defesa do interesse do trabalhador. Com isso, não só deixou de esclarecer esses pontos como também negou todas as outras visões contrárias a seu ponto de vista, que ainda é alvo de muitas controvérsias, apesar de todas as tentativas da esquerda de escondê-las ou calá-las.

A coisa degringola de vez quando Singer escreve:

Para completar, em minha opinião, a democracia --em que pese os inúmeros e graves percalços pelos quais passa-- é a maior conquista da humanidade no campo da política. Isto posto, é preciso canalizar a revolta contra as instituições para uma participação que as revitalize, e não que as destrua.

Trocando em miúdos, não devemos lutar pela democracia porque há, de fato, argumentos objetivos, claros e precisos para defendê-las, mas sim porque, na OPINIÃO do lulista, ela deve ser preservada. Ele se esquece, porém, de que, ao contrário do que deixa subentendido, nem todos são seus fãs e muitos, aliás, preferem alternativas como a Aristocracia ou mesmo as Ditaduras. Cícero, em partes do seu "Da República", explica mais sobre os argumentos para preferir a primeira. Já sobre as segundas, é só ler qualquer coisa dos milhares de pró-Militares de 1964 que vêm surgindo Facebook afora.

Colocado isto, vamos, agora, a uma declaração sensata (mas que deve ser encarada com ceticismo, já que se trata de um esquerdista prosélito escrevendo) do lulista:

O saudável ímpeto antivertical tem como contrapartida a falta de direção unificada.
Ao não se delimitar com clareza o que cabia e o que não cabia nas manifestações, elas começaram a agregar um pouco de tudo, até mesmo ideologias opostas, como ficou claro na briga entre direita e esquerda que marcou a comemoração da vitória na av. Paulista anteontem.

Seguida de um show de bizarrices:

O segundo elemento singular é que nunca na história recente do país --e, talvez, nem na antiga-- camadas populares tenham se levantado em tal proporção. 

Como já dito antes, a maior parte dos brasileiros não se levantou e a maior parte dos revoltosos, se não todos, não vinham de classes mais baixas.

Se o estopim foi aceso pela classe média, o novo proletariado, forjado na década do lulismo, entrou nas avenidas, dando um colorido inédito às marchas reivindicatórias.

Como diria um grande amigo meu, chamar burguês criado a leite com pêra de proletariado é brincadeira.

Uma placa tectônica do país se mexeu, surpreendendo a todos os atores tradicionais.

Claro, uma placa chamada "juventude classe média", que deixou de defecar pela boca no Facebook sobre coisas básicas de Filosofia e Ciência Política para colocar essas defecações orais no papel, em palavras de ordem e em lemas ridículos como "O Brasil parou e nem é Carnaval! Olha que legal!" (saudades, rimas ricas)

O ápice das falácias singerianas-lulistas, porém, se dá aqui:

Iniciado pela esquerda, o processo ficou indeterminado quando se verificou que tal fração de classe pode ser fisgada pela direita, a partir de apelos contra a corrupção. A direita quer vender a ideia de que sanear o Estado (o que é necessário) e cortar funcionários resolveria as demandas por saúde, educação e segurança.

Primeira coisa, devo agradecer a Singer pois me deu a prova necessária para falar que, de fato, o movimento, de não-ideológico (que é o que se quis dizer com "apartidário"), não tinha nada. Aliás, nem preciso agradecer, pois essa constatação deveria ser óbvia a qualquer um que usasse mais que dois neurônios do cérebro. Desculpe então, Singer, mas suspendo meus agradecimentos.

Segundo, qual é o problema em se atrair pessoas para um espectro ideológico com apelos contra a corrupção? Aliás, um dos argumentos que mais vejo a esquerda usar contra a direita é justamente o fato de o sistema com estado mínimo (ou sem Estado) estar mais suscetível a corrupções do que o com Estado inchado. Seria, então, o argumento válido apenas para um dos lados?

Alguns poderiam objetar que o que Singer quis dizer é que esse tipo de argumento é populista. Para isto, respondo que, além de ele não ter escrito isso e ter deixado muito precariamente subentendido, o Populismo, com todo o seu apelo às massas, é uma ideologia da esquerda, já que dá todo poder ao Estado "em nome do povo". Eu diria, inclusive, que, do populismo ao politicamente correto, é só mudar "em nome do povo" para "por um mundo melhor". 

Isto, porém, não vem ao caso. Convém, então, terminar de refutar este monte de falácias:

Caberá à esquerda, que teve o mérito de começar a luta, ter a coragem de mostrar a cara e propor um programa que, sem deixar de ser republicano, aposte na ampliação do gasto público, de modo a construir o bem-estar que as massas exigem.

Apesar de não ter deixado isso explícito, o apelo do lulista é, de fato, aos sociais-democratas, já que tanto socialistas quanto comunistas, isso falando das mais destacadas correntes da esquerda, propõe um caminho para a ditadura do proletariado, apesar de uma pregar o Estado inchado (Socialismo) e a outra o fim do Estado, ou, melhor dizendo, sua completa mistura com o proletariado em si (Comunismo).

Com isto em mente, preciso fazer apenas algumas perguntas. A primeira delas é: Devemos, então, resolver um problema causado por uma social-democracia (o lulo-dilmismo) com um governo ainda mais social-democrático? Seria o mesmo que resolver uma crise causada pela ausência do Estado com mais ausência de Estado, ou então tentar solucionar um surto de racismo com a instauração de um governo hitlerista.

A segunda, proposta pelo próprio Constantino e bem mais relevante, é: Para aumentar o gasto público, precisaríamos, necessariamente, aumentar a arrecadação de impostos, que já  consomem pelo menos 30% da renda do trabalhador. Como fazer isso em um país que já está chegando a 40% do PIB só de impostos (o que é um quadro alarmante, já que mostra o quão dependente um país é dessa fonte de renda e quão pouco livre é seu mercado)?

Teria Singer, então, tendências sadomasô (pois ele mesmo teria de pagar mais imposto para isso e diminuir seu nível de vida)? Ou seriam essas suas palavras apenas mais um sintoma da genialidade de todos os que defendem o Lulismo?

Deixo a resposta ao leitor e me despeço por aqui. Se gostaram, mando-lhes meu forte abraço. Se não gostaram, dou-lhes um piparote e continuo postando do mesmo jeito. Até mais e um abraço, amigos leitores.

ADENDO: Ainda mais 20 centavos, agora com a participação do Senador Cristóvam Buarque

14º Podcast de Octavius: Ainda Mais 20 Centavos - O Senador (Buarque), O Cientista Político (Singer) e O Ataque à Lógica.

5 comentários:

  1. O que eu vejo é um sujeito de esquerda, defendendo a esquerda com mais esquerdismos.
    Ou seja, fora a demão de óleo de peroba na cara, nada de novo.

    E pra mim esse discurso que a Ditadura pode voltar, implícito no caso desse artigo do André Singer, é calcado mais em um medo interno de perder prestígio, do que na realidade objetiva.

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  2. Então, Acir, aqui discordamos, pois eu, sinceramente, não tenho dúvidas de que não custa muito para os militares voltarem ao poder, especialmente porque conheço uma grande massa de pessoas que os apoiariam.

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  3. "Se você leu e ouviu um esquerdista, você leu e ouviu todos os esquerdistas." Nelson Rodrigues

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  4. "Se você leu e ouviu um esquerdista, você leu e ouviu todos os esquerdistas." Nelson Rodrigues

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    1. "O problema dessas citações da internet é que não dá para verificar sua verossimilhança" Dom Pedro II

      Mas eu entendi perfeitamente o que quis dizer e concordo, o.q.n.s

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