15 de jun de 2013

Falácias: Maior Relevância X Menor Relevância

Olá, amigos leitores, e, depois de alguns dias, voltamos a bater um daqueles nossos bons papos de sempre.

Hoje, resolvi começar a falar de falácias, como havia prometido há muitos e muitos meses. No caso, a primeira falácia escolhida, a do Contraponto entre Maior Relevância e Menor Relevância (não sei o nome formal dessa falácia, ajudem-me, amigos da retórica, rsrsrs), o foi por dois motivos. O primeiro deles é que vejo quase diariamente posts do Facebook com esse tipo de contraponto, o que me faria ter uma abundância de exemplos para colocar, e o outro é o fato de um dos meus próximos textos conter referência explícita a essa falácia, o que me faz aproveitar a oportunidade e já falar sobre esta de uma vez por todas.

Poderia dizer, também, que o que me motiva a comentar sobre esta falácia, classificada pelo amigo Clarion de Laffalot como o pior argumento de todos e fonte de problemas para o também amigo Pirula em seus dois vídeos sobre os argumentos que os "ateus" não deveriam mais usar, é exatamente o fato de elas, apesar de serem um dos truques retóricos mais baratos do mundo, serem usadas com uma frequência assustadora, também porque, para refutá-las diante da plateia, não basta apenas dizer que "Isso é falácia do contraponto entre maior relevância e menor relevância", é preciso também mostrar, assim como acontece com as outras falácias (só que estas precisam de bem menos explicações, e verão isso nos outros posts), porque o argumento está errado, o que, nesse caso, demanda certo esforço mental e uma quantidade razoável de tempo.

Mas, enfim, a questão é que, antes de explicar qualquer coisa sobre uma falácia, devo clarificar o que o termo "falácia" em si significa. Sendo bem sucinto, falácia é todo tipo de argumento enganoso, o típico argumento que, para uma visão menos atenta e apenas estrutural, parece estar correto, mas que tem alguma falha lógica ou semântica em sua constituição ou em sua conclusão.

Vejamos, por exemplo, a já citada Falácia do Contraponto entre Maior Relevância e Menor Relevância. Esse pseudo-argumento consiste em contrapor duas situações, rotular uma como mais relevante e afirmar que não se deve pensar sobre (ou agir em favor da, dependendo do caso) outra.

Ficou um tanto vago, certo, amigo leitor? Então, está na hora dos exemplos. O primeiro deles, e mais tradicionalmente usado por quem vai explicar essa falácia, é o de mandar o homem a outros planetas enquanto milhares de pessoas, especialmente na África, estão passando fome.. Sua formulação é mais ou menos essa:

FALÁCIA I: "Vocês ficam aí se vangloriando de termos mandado o homem à Lua, mas tantas pessoas morrem de fome na África todos os dias!"

Entenderam agora, leitores? Nesse primeiro discurso, fica implícito que, enquanto não se resolver o problema da fome na África e no resto do mundo (a situação "mais importante"), não se deve ter orgulho das novas fronteiras tecnológicas ou espaciais que o homem desbrava (o "menos importante"). Não digo, é óbvio, que não é importante que combatamos a fome em qualquer lugar do mundo que seja. A questão é que, para refutar esse argumento, basta mostrar que:

1- Mesmo quando o homem não foi à Lua, havia fome na África.
2- O homem ir ou não à Lua não vai mudar a situação na África.

Há, porém, outras falácias desse tipo que são bem mais difíceis de detectar. Um segundo discurso, por incrível que pareça bem mais famoso no Brasil e bem mais usado do que o discurso pró-África (que está mais para pró-hipocrisia, visto que, muitas vezes, a África é mera ferramenta retórica de demagogos da pior espécie), é o seguinte:

FALÁCIA II: "Aiiii, que povo ignorante esse povo brasileiro, meu Deus! Aguentam esses governantes que, ao invés de investirem na educação/saúde/segurança, gastam dinheiro em estádios para um evento tão inútil quanto a tal da Copa do Mundo. EDUCAÇÃO JÁ!"

Além de uma conclusão muito antecipada sobre uma situação, já que existe a possibilidade de o brasileiro tolerar esse tipo de coisa por outras razões quaisquer, esse discurso contém a falácia já citada quando diz que, ao invés de gastar dinheiro com estádios (o "menos importante"), o governo deveria gastar com educação (o "mais importante").

Para refutar isso, basta esclarecer que não existe qualquer relação entre construir estádios para a Copa e não investir em educação, visto que, além de qualquer país signatário da Declaração dos Direitos Humanos ter a obrigação de oferecer educação-pública-e-de-qualidade (o que quer que isso signifique) e, portanto, ter de investir na educação de qualquer forma, a verba reservada para eventos esportivos não é retirada da verba para a educação nem para saúde ou segurança, pois estas já são delimitadas quando um governo faz seu orçamento anual e determina, com isso, quanto vai gastar em cada coisa.

Alguns poderiam tentar refutar isso com o prefeito ou governador, não me lembro, que quis tirar verba da educação da cidade para investir nas obras da Copa. O detalhe, aqui, é que, no caso, a Copa continua não sendo culpada, pois a culpa é da falta de vergonha na cara do governante, a não ser que, de fato, a situação educacional da cidade seja tão boa que se possa tirar do investimento anual em educação para pôr em obras da Copa (coisa a que sou profundamente cético em se tratando de Brasil).

Mesmo assim, os investimentos na Copa continuam não sendo os responsáveis pelos problemas da educação. Nada garante, também, que apenas fazer jorrar mais e mais dinheiro no atual sistema solucione alguma coisa, que é outro erro desse discurso (mas disso eu falo em um texto próximo).

Por fim, aqui vão mais alguns exemplos desse tipo de falácia para que o leitor as possa detectar com ainda maior facilidade:

FALÁCIA III: "Ora, mas é um absurdo se pensar em lei contra a Cristofobia ou contra a Heterofobia quando estão acontecendo tantos casos de Homofobia no Brasil!" (Como se o "mais importante", combate à Homofobia, fosse cair por terra caso se fizesse o "menos importante", no caso, uma lei preventiva contra a possível Heterofobia ou a Cristofobia, esta cada vez mais próxima de ocorrer, de certo modo)

FALÁCIA IV: "Crentelho, não adianta rezar enquanto o país continuar indo de mau a pior" (Como se rezar, o "menos importante", inviabilizasse "a luta por um país melhor" (o que quer que isso signifique), que é o "mais importante")

FALÁCIA V: "É um absurdo pensar em cirurgia de mudança de sexo quando outras cirurgias mais importantes são proibidas pelo Ministério da Saúde" (Obviamente, não há necessidade de não se ter a tal cirurgia enquanto outras não forem permitidas. Uma coisa em nada inviabiliza a outra. Novamente, caímos na questão da incompetência e da negligência do governo ante seus cidadãos.)*

*PS: Antes que me falem, não estou dizendo que não se deve discutir essa questão da cirurgia de mudança de sexo (ou gênero, como preferirem). O que estou dizendo é que usar esse argumento em questão é desonestidade intelectual. Fim.

FALÁCIA VI (Citada no post "Antis" e Depois): "Enquanto os políticos estão nos roubando, vocês ficam aí discutindo sobre futebol!" (Preciso falar algo?)


Bom, era isso que eu tinha para falar hoje. Espero que tenham gostado, agradeço pela audiência e pelo prestígio que sempre dão a este blog, e mando-lhes meu forte abraço de sempre! E atenção às falácias, amigos leitores!

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