18 de jun de 2013

Falácias: Falso Escocês (Ou: Ghiraldelli gonna Ghiraldellar 2: Como usar a Filosofia para detonar uma causa)

Olá, amigos leitores, e este é o post com a segunda das falácias, sendo que o primeiro foi sobre o Contraponto entre Maior Relevância e Menor Relevância e que, como dito neste post, tomo como falácias "todo tipo de argumento enganoso, o típico argumento que, para uma visão menos atenta e apenas estrutural, parece estar correto, mas que tem alguma falha lógica ou semântica em sua constituição ou em sua conclusão." (OCTAVIUS, 2013).

Vamos, então, aos trabalhos. Desta vez, falo da famosa Falácia do Falso Escocês (ou do Escocês de Verdade, como usado por muitos, entre eles o meu amigo Clarion de Laffalot, já citado no primeiro post). Basicamente, esta falácia é usada para defender grupos ou para excluir pessoas das quais se discorda do próprio grupo dizendo que estas "são falsos x" ou "não são x de verdade".


Se me disserem que a explicação é muito abstrata, só posso dizer: FATO. Aliás, mesmo se eu desse o exemplo tradicional, que é aquele de "Ah, eu vi um escocês que fazia X" x "Ah, mas escocês de verdade não faz x, faz y", a explicação não deixaria de ser abstrata e pouco clara. 


Quero, então, usar como primeiro exemplo de falácia um dos vídeos mais recentes do filósofo Paulo Ghiraldelli Jr. sobre a famosa "Primavera Paulistana", aquela mesma que teve como estopim o tal Movimento Passe Livre. Neste vídeo, o filósofo rortyano (que baseia seu pensamento em Richard Rorty, o pragmático), já de cara, afirma que:

FALÁCIA I: "Nenhum filósofo que honra a Filosofia pode condenar as manifestações da Primavera Paulistana e das Primaveras que estão ocorrendo em todas as capitais"

Basicamente, Ghiraldelli parte da premissa de que só quem não condena essas manifestações é um FILÓSOFO DE VERDADE. O problema é que, talvez intencionalmente, o ilustre professor da UFRRJ se esquece de que, além de a Filosofia ter diversas facetas, o que tornaria sua alegação ainda mais arbitrária e precipitada do ponto de vista da lógica, muitos dos grandes filósofos inclusive da Modernidade e da Pós-Modernidade, incluindo o antiteísta Nietzsche, mostravam um grande desprezo ante o que hoje chamamos "Democracia", pois a achavam um sistema fraco e/ou falho. O próprio Nietzsche, inclusive, ficou marcado na história da Filosofia também por ser um dos principais pensadores a atacar o sistema democrático. Ele, aliás, e todos os outros pensadores menos famosos que defendiam alternativas como as Ditaduras e as Aristocracias. E, acredite em mim se quiser (se não, pesquise por si mesmo e descobrirá com facilidade), amigo leitor, de pequenos esses filósofos não tinham NADA.

Agora, pode ser que eu esteja definindo Filosofia de um modo errado, afinal, não sou Doutor em Filosofia (aliás, nem graduado sou). Opa, mas, espere um pouco, isso seria um argumento de apelo à autoridade (sobre o qual falarei posteriormente). Pode ser, então, que, de fato, o filósofo de São Paulo tenha se precipitado ao usar essa falácia e reduzir toda a Filosofia apenas àquilo com que ele próprio simpatiza.


De qualquer jeito, este primeiro exemplo, creio eu, já deixa clara a formulação desta falácia e explica o que eu disse mais acima. Há, porém, mais pontos a serem aproveitados do discurso de Ghiraldelli. Vamos, então, a um segundo exemplo, dito logo após o primeiro:

FALÁCIA II: "Aliás, nenhum filósofo que é autenticamente filósofo pode deixar de participar desses protestos."

Aqui, temos um exemplo perfeito da fórmula do Falso Escocês. Afinal, se trocarmos algumas palavras, temos:


"Aliás, nenhum filósofo DE VERDADE (A) pode deixar de participar desses protestos (B)"

Trocando em miúdos, e considerando que o objetivo desses protestos é a mudança de algo (não é minha pretensão discuti-los aqui. Aliás, sequer quero discutir este assunto no blog), o que Ghiraldelli faz é atrelar A, ser "filósofo de verdade", a B, participar da mudança, dos protestos. Curiosamente, apesar de o filósofo da educação rebater com certa constância as acusações de que é marxista, o que ele faz nesse trecho é não só acatar a opinião de Marx sobre qual deve ser o papel de um filósofo, mas também reduzir toda a Filosofia, toda uma disciplina, uma área do pensamento, uma ferramenta humana de investigação do mundo e dos fatos a uma forma de mudança do mundo. Afinal, não custa lembrar que, em uma das partes do Manifesto Comunista (se bem me lembro, pois o li há mais de um ano e não tenho o livro comigo), Marx diz algo como: "Os filósofos, até hoje, só analisaram o mundo. Está na hora de mudá-lo".

Enfim, de qualquer forma, e sem entrar no mérito ideológico da questão, mesmo que eu fizesse um artigo apoiando a causa de Ghiraldelli e outros, não teria como deixar passar essas falácias do começo de seu discurso e que me foram úteis para exemplificar perfeitamente e com muita atualidade o Falso Escocês. Deixo, porém, outros exemplos interessantes desse tipo de argumentação abaixo:

FALÁCIA III: "Corinthiano falso fica vendo o jogo pela televisão. Corinthiano de verdade vai é pro estádio torcer" (Ou seja, não importa se o estádio tem limite de público ou se a pessoa não tem como, por exemplo, sair do interior de São Paulo para ir ao Pernambuco: se não vai ao Estádio, não é Corinthiano de verdade. Veem o erro aqui, leitores?)


FALÁCIA IV: "Stalin não matou em nome do Ateísmo, pois ateu de verdade não mata" (Como diria Felipe Buarque, "Ateu de verdade não acredita em Deus, porra". Ou, como eu diria, bons selvagens não existem, logo qualquer um pode cometer atos ruins, incluindo ateus).

FALÁCIA V: "Gay de verdade apoia Jean Wyllys, Casamento Gay e Adoção" (Preciso falar algo, amigo leitor? Ah, é, preciso, pois muita gente cai nisso: Gay, meus amigos, é todo aquele (ou até aquela) que sente atração por pessoas do mesmo sexo. Não tem nada de ideológico nisso. Gays, assim como héteros, têm posições diferentes em política, religião, costumes e o que mais for. Qualquer coisa diferente disso é tentativa tosca de ideologizar um grupo, pois coesão social e grupal é outra coisa).


Enfim, eram esses os exemplos, amigos leitores. Por fim, quero deixar ao filósofo Paulo Ghiraldelli uma pergunta: Se, como o senhor disse em sua entrevista para o genial Antônio Abujamra (aqui, aqui e aqui), um filósofo deveria provocar as pessoas, por que ele não poderia ir contra esse tipo de manifestação? Existe, então, só uma forma de provocar? PROVOCAÇÃO DE VERDADE é só aquilo que vai a favor das causas que o senhor defende?

Bom, espero que Ghiraldelli não se ofenda, que veja o texto e que responda seja por comentários, seja com outro texto. Aliás, o "OU" que ali coloquei é minha homenagem e minha continuação a um post do Arthur Rizzi Ribeiro, meu amigo pedagogo, sobre outro vídeo do filósofo rortyano. Não sei se este chegou a ler o texto, mas, se não o leu, é uma ótima chance de fazê-lo.

Enfim, é isso, espero que os amigos tenham gostado do meu post. Peço-lhes que continuem lendo meu blog e me dando a audiência de sempre, mesmo em tempos de manifestações, e mando o meu forte abraço para vocês.

ADENDO: Coloco aqui os meus mais novos podcasts e um pequeno áudio de 40 segundos com uma mini-bronca em Ghiraldelli.

Sobre filósofo Paulo Ghiraldelli Jr.
10º Podcast de Octavius: Provocações
11º Podcast de Octavius: Progressismo

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