30 de mai de 2013

Dialeticando com Luiz Felipe Pondé, O Retorno - Pondélaire, o Prelúdio

Olá, amigos leitores, e este é mais um início de série deste blog, desta vez com a tão esperada série de comentários em cima de textos do filósofo pernambucano Luiz Felipe Pondé, professor da FAAP e da PUC, ambas de São Paulo, e autor de Guia Politicamente Incorreto da Filosofia - Ensaio de Ironia (2011), Contra um Mundo Melhor: Ensaios do Afeto (2010), entre outras obras.

Bom, antes de começar a efetivamente comentar os textos do filósofo, decidi fazer uma espécie de prelúdio, que consistirá de uma análise de dois textos que li recentemente de um modo bem politicamente incorreto. Para que os leitores se situem adequadamente na discussão, deixo abaixo o link do debate mais recente do próprio professor sobre a questão do "politicamente correto" no Brasil. Caso queiram vê-lo e/ou ouvi-lo, como preferirem, antes ou depois de ler minhas análises anedóticas (e falo no sentido mais "piadístico" da palavra), não há problemas, pois ver ou ouvir antes seria simplesmente uma forma de situar-vos mais rapidamente na discussão em questão.

Enfim, seguem o link e meus agradecimentos ao canal "DireitaRealista" por postá-lo completo: http://www.youtube.com/watch?v=nnlgN148sFA

Antes de tudo, preciso pedir desculpas antecipadamente a alguns leitores. Explico: o que vai ser analisado aqui são dois poemas em prosa sensacionais de Charles Baudelaire (1821-1867), um dos maiores poetas da modernidade e, talvez, de todos os tempos. No entanto, não farei aqui uma análise séria, que estes poemas realmente mereceriam. Ao invés disso, usá-los-ei como uma forma de fazer sátira com alguns comportamentos da sociedade atual, ou, explicitando e parafraseando Pondé, "da gente chiquinha de São Paulo", que está muito preocupada com o outro, mas só até o ponto de não ficar histérica.

De qualquer maneira, fica aqui o meu pedido de desculpas a todos os que trabalham com ou que simplesmente são apreciadores da boa poesia, entre eles meus amigos PH Wolf, Bruna Carmelin, Joshua e Felipe Marinho (o Barthes do IBILCE), mas, como bem sabem (a não ser talvez o Wolf, que não me conhece pessoalmente), não consigo resistir a fazer esse tipo de piada com as coisas. Quero deixar claro, porém, e especialmente para os analistas de poesia, que, especialmente depois de ter que fazer análises, mesmo que amadoras, dos mais diversos poemas, adquiri por esse gênero literário muito respeito e algum gosto, apesar de trabalhar com o conto e de preferir, também, o romance e o teatro.

E, antes que me perguntem, não, não estou sendo politicamente correto aqui, pois isto ultrapassa a mera politicagem. A questão é deixar claro que, apesar de usar um gênero literário para fazer pilhéria de algo e, consequentemente, fazer uma análise paupérrima de algo artisticamente riquíssimo, tenho profundo respeito tanto pelo gênero quanto por quem o aprecia ou tira seu sustento dele. Aqui, então, temos um problema essencialmente ÉTICO.

Tendo deixado esse ponto suficientemente claro, e parafraseando um ilustríssimo apresentador de algum programa por aí, "aos trabalhos!". O primeiro poema em prosa que analisarei, intitulado As Janelas, está presente na coletânea Pequenos poemas em prosa, traduzida por Gilson Maurity e com edição bilíngue pela Editora Record em 2006 (referência completa no fim do post). O mesmo é aplicável ao segundo poema, de título O Desespero da Velhinha. Partamos, então, às análises:

XXXV

As Janelas

 Quem olha, de fora, através de uma janela aberta, não vê jamais tantas coisas quanto quem olha uma janela fechada. Não há objeto mais profundo, mais misterioso, mais fecundo, mais tenebroso, mais deslumbrante do que uma janela iluminada por uma vela.

Analisando este primeiro trecho, é possível ver que, se fosse vivo, Baudelaire com certeza viraria uma espécie de semideus para a maioria dos nossos ilustres econazistas de plantão ambientalistas de plantão. Afinal, pensem só: Baudelaire está nos incentivando a usar menos luz elétrica, pois quem fecha as janelas geralmente está com a luz acesa. 

E mais: além de incentivar a economia de energia, o que fará com que o ambiente não seja mais destruído e com que as crianças da África miraculosamente ganhem alimento, ele nos aconselha, implicitamente, a usar velas mesmo quando estamos com a janela fechada. Chupa, Globo! Isso sim é que é campanha pró-meio ambiente!

O que se pode ver à luz do sol é sempre menos interessante do que o que se passa atrás de uma vidraça. Nesse buraco negro ou luminoso vive a vida, sonha a vida, sofre a vida.

Com este trecho, o poeta francês com certeza ganharia o coração daqueles que fazem páginas e mais páginas "anti-mídia" e "anti-alienação" (o que quer que isso signifique). Fica claro, aqui, a crítica ferrenha à mídia burguesa-capitalista-opressora que transforma pessoas em celebridades (afinal, é mais legal saber dos detalhes sórdidos da vida de qualquer pessoa, daquilo que "se passa atrás de uma vidraça", do que sobre "O que se pode ver à luz do sol) para nos fazer consumir os mesmo alimentos cheios de gorduras trans, que não são nada saudáveis, que essas novas celebridades consomem e dos quais fazem propagandas e mais propagandas na televisão. E essa teoria é tão entusiasmante que quase tive um orgasmo intelectual aqui!

Além das vagas do teto, percebo uma mulher madura, enrugada mesmo, pobre, sempre inclinada sobre qualquer coisa e que nunca sai de casa. Por seu rosto, por seus vestidos, por seus gestos, por quase nada eu refaço a história dessa mulher, ou antes, sua legenda, e, às vezes, conto a mim mesmo, chorando, essa história.
Se tivesse sido um pobre velho, eu, também, refaria a dele, facilmente.
E me deito orgulhoso de ter vivido e sofrido nos outros como se fosse em mim mesmo

Esta parte, com certeza, seria atribuída, pela nossa elite culta-letrada do Facebook, a Caio Fernando Abreu ou Clarice Lispector, e, sem dúvida, viria seguida de uma foto de uma casa caindo aos pedaços com a pergunta: "É esse o país que vai sediar a Copa?". Penso, também, que nossos e nossas feministas aproveitariam o ensejo e começariam uma Marcha das Vadias Versão Terceira Idade, visto que a mulher, sem dúvida, só se inclinava sobre qualquer coisa por culpa da sociedade "machista-reaça-capitalista-opressora" que, ao mesmo tempo em que pegava emprestado o indicador de um  "dimenor" para matar algum burguês opressor por aí, era conivente com as agressões diárias infligidas a ela por seu marido que, como todo homem, só serve para a satisfação do desejo sexual das sempre inocentes mulheres.

Talvez vocês me dirão: "Estás certo de que esta fábula seja verdadeira?" Que importa o que possa ser a realidade situada fora de mim, se ela me ajuda a viver, a sentir que existo e o que sou?

Fique tranquilo, Baudelaire, pois os politicamente corretos nunca mentem. Afinal, como você mesmo diz, "que importa o que possa ser a realidade situada fora de mim, se ela me ajuda a viver, a sentir que existo e o que sou?"
Finaliza-se, aqui, o primeiro poema. Hora de passar, então, ao desespero da velhinha, literal e figurativamente. Comecemos:

II

O Desespero da Velhinha

A velhinha recurvada alegrou-se ao ver no berço a criancinha a quem todos festejavam e agradavam; esse lindo ser tão frágil quanto ela e como ela, também, sem dentes e sem cabelos.
 Aproximou-se do bebê querendo fazer graças com risinhos e caretas agradáveis.
Mas a criança, espantada, debateu-se sob os carinhos da boa senhora decrépita e encheu a casa com seus gritos agudos.
Então a boa velhinha retirou-se a sua solidão eterna e chorou num canto dizendo para si: "Ah! Para nós, infelizes mulheres velhas, a idade impede de transmitir alegria mesmo aos inocentes; nós causamos horror às criancinhas a quem nós queremos mostrar amor."

Amigo leitor, veja que ABSURDO é o caso denunciado por Baudelaire. Além de ter sido mais uma vítima da sociedade "machista-opressora" de consumo, visto que está recurvada, o que é óbvio resultado de infinitas surras que levou do marido e não da idade (pois falar isto seria um atraso mental), esta pobre senhora ainda foi exposta, por dois facínoras que se ousam intitular, homofobicamente, de "pai" e "mãe", ao ridículo, pois eles, com o uso de mensagens subliminares, convenceram o infante a chorar toda vez que visse a senhora em questão, fazendo-a abaixar sua autoestima e induzindo-a, criminosamente, a pensar que o problema é a sua idade e sua aparência, e não o olhar alheio condicionado pelos opressores padrões de beleza vindos dos desgraçados americanos, digo, estadunidenses.

Digo-vos em verdade que lamento por Baudelaire não ter vivido para divulgar este importante relato policial nos dias de hoje. Afinal, se o fizesse, teria a oportunidade de ver a maior revolução de sofá do mundo, com vários compartilhamentos no facebook denunciando as práticas abusivas dos dois pilantras, ou, melhor dizendo, pilantrxs.

Uma pena, porém, que, após a revolução ter sucesso (o que aconteceria apesar de todas as tentativas dos capitalistas opressores de que não virasse nada), este post todo, por causa da palavra "verdade", seria censurado, pois "verdade" é coisa de religioso e, apesar de Lamaitre, Mendel, Newton, Collins, Euler e tantos outros, não podemos permitir que tamanha e tacanha ateofobia saia impune. E TENHO DITO!

Termino, com isso, as duas análises. E viva la revolución, amicos!



Bom, isso era tudo que eu  tinha para falar na introdução a esta série. Sei que os leitores conseguirão claramente ver o quão "sério" fui, mas é sempre bom garantir que a mensagem esteja bem clara. Só posso esperar, então, que tenham gostado, e agradecer-lhes mais uma vez por terem lido meu post até o fim.

Enfim, despeço-me por aqui e mando ao amigo leitor aquele forte abraço de sempre!
Obra consultada:

BAUDELAIRE, Charles. Pequenos poemas em prosa. Rio de Janeiro: Record, 2006, trad. de Gilson Maurity (ed.bilíngue)

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