30 de mai de 2013

Dialeticando com Luiz Felipe Pondé, O Retorno - Pondélaire, o Prelúdio

Olá, amigos leitores, e este é mais um início de série deste blog, desta vez com a tão esperada série de comentários em cima de textos do filósofo pernambucano Luiz Felipe Pondé, professor da FAAP e da PUC, ambas de São Paulo, e autor de Guia Politicamente Incorreto da Filosofia - Ensaio de Ironia (2011), Contra um Mundo Melhor: Ensaios do Afeto (2010), entre outras obras.

Bom, antes de começar a efetivamente comentar os textos do filósofo, decidi fazer uma espécie de prelúdio, que consistirá de uma análise de dois textos que li recentemente de um modo bem politicamente incorreto. Para que os leitores se situem adequadamente na discussão, deixo abaixo o link do debate mais recente do próprio professor sobre a questão do "politicamente correto" no Brasil. Caso queiram vê-lo e/ou ouvi-lo, como preferirem, antes ou depois de ler minhas análises anedóticas (e falo no sentido mais "piadístico" da palavra), não há problemas, pois ver ou ouvir antes seria simplesmente uma forma de situar-vos mais rapidamente na discussão em questão.

Enfim, seguem o link e meus agradecimentos ao canal "DireitaRealista" por postá-lo completo: http://www.youtube.com/watch?v=nnlgN148sFA

Antes de tudo, preciso pedir desculpas antecipadamente a alguns leitores. Explico: o que vai ser analisado aqui são dois poemas em prosa sensacionais de Charles Baudelaire (1821-1867), um dos maiores poetas da modernidade e, talvez, de todos os tempos. No entanto, não farei aqui uma análise séria, que estes poemas realmente mereceriam. Ao invés disso, usá-los-ei como uma forma de fazer sátira com alguns comportamentos da sociedade atual, ou, explicitando e parafraseando Pondé, "da gente chiquinha de São Paulo", que está muito preocupada com o outro, mas só até o ponto de não ficar histérica.

De qualquer maneira, fica aqui o meu pedido de desculpas a todos os que trabalham com ou que simplesmente são apreciadores da boa poesia, entre eles meus amigos PH Wolf, Bruna Carmelin, Joshua e Felipe Marinho (o Barthes do IBILCE), mas, como bem sabem (a não ser talvez o Wolf, que não me conhece pessoalmente), não consigo resistir a fazer esse tipo de piada com as coisas. Quero deixar claro, porém, e especialmente para os analistas de poesia, que, especialmente depois de ter que fazer análises, mesmo que amadoras, dos mais diversos poemas, adquiri por esse gênero literário muito respeito e algum gosto, apesar de trabalhar com o conto e de preferir, também, o romance e o teatro.

E, antes que me perguntem, não, não estou sendo politicamente correto aqui, pois isto ultrapassa a mera politicagem. A questão é deixar claro que, apesar de usar um gênero literário para fazer pilhéria de algo e, consequentemente, fazer uma análise paupérrima de algo artisticamente riquíssimo, tenho profundo respeito tanto pelo gênero quanto por quem o aprecia ou tira seu sustento dele. Aqui, então, temos um problema essencialmente ÉTICO.

Tendo deixado esse ponto suficientemente claro, e parafraseando um ilustríssimo apresentador de algum programa por aí, "aos trabalhos!". O primeiro poema em prosa que analisarei, intitulado As Janelas, está presente na coletânea Pequenos poemas em prosa, traduzida por Gilson Maurity e com edição bilíngue pela Editora Record em 2006 (referência completa no fim do post). O mesmo é aplicável ao segundo poema, de título O Desespero da Velhinha. Partamos, então, às análises:

XXXV

As Janelas

 Quem olha, de fora, através de uma janela aberta, não vê jamais tantas coisas quanto quem olha uma janela fechada. Não há objeto mais profundo, mais misterioso, mais fecundo, mais tenebroso, mais deslumbrante do que uma janela iluminada por uma vela.

Analisando este primeiro trecho, é possível ver que, se fosse vivo, Baudelaire com certeza viraria uma espécie de semideus para a maioria dos nossos ilustres econazistas de plantão ambientalistas de plantão. Afinal, pensem só: Baudelaire está nos incentivando a usar menos luz elétrica, pois quem fecha as janelas geralmente está com a luz acesa. 

E mais: além de incentivar a economia de energia, o que fará com que o ambiente não seja mais destruído e com que as crianças da África miraculosamente ganhem alimento, ele nos aconselha, implicitamente, a usar velas mesmo quando estamos com a janela fechada. Chupa, Globo! Isso sim é que é campanha pró-meio ambiente!

O que se pode ver à luz do sol é sempre menos interessante do que o que se passa atrás de uma vidraça. Nesse buraco negro ou luminoso vive a vida, sonha a vida, sofre a vida.

Com este trecho, o poeta francês com certeza ganharia o coração daqueles que fazem páginas e mais páginas "anti-mídia" e "anti-alienação" (o que quer que isso signifique). Fica claro, aqui, a crítica ferrenha à mídia burguesa-capitalista-opressora que transforma pessoas em celebridades (afinal, é mais legal saber dos detalhes sórdidos da vida de qualquer pessoa, daquilo que "se passa atrás de uma vidraça", do que sobre "O que se pode ver à luz do sol) para nos fazer consumir os mesmo alimentos cheios de gorduras trans, que não são nada saudáveis, que essas novas celebridades consomem e dos quais fazem propagandas e mais propagandas na televisão. E essa teoria é tão entusiasmante que quase tive um orgasmo intelectual aqui!

Além das vagas do teto, percebo uma mulher madura, enrugada mesmo, pobre, sempre inclinada sobre qualquer coisa e que nunca sai de casa. Por seu rosto, por seus vestidos, por seus gestos, por quase nada eu refaço a história dessa mulher, ou antes, sua legenda, e, às vezes, conto a mim mesmo, chorando, essa história.
Se tivesse sido um pobre velho, eu, também, refaria a dele, facilmente.
E me deito orgulhoso de ter vivido e sofrido nos outros como se fosse em mim mesmo

Esta parte, com certeza, seria atribuída, pela nossa elite culta-letrada do Facebook, a Caio Fernando Abreu ou Clarice Lispector, e, sem dúvida, viria seguida de uma foto de uma casa caindo aos pedaços com a pergunta: "É esse o país que vai sediar a Copa?". Penso, também, que nossos e nossas feministas aproveitariam o ensejo e começariam uma Marcha das Vadias Versão Terceira Idade, visto que a mulher, sem dúvida, só se inclinava sobre qualquer coisa por culpa da sociedade "machista-reaça-capitalista-opressora" que, ao mesmo tempo em que pegava emprestado o indicador de um  "dimenor" para matar algum burguês opressor por aí, era conivente com as agressões diárias infligidas a ela por seu marido que, como todo homem, só serve para a satisfação do desejo sexual das sempre inocentes mulheres.

Talvez vocês me dirão: "Estás certo de que esta fábula seja verdadeira?" Que importa o que possa ser a realidade situada fora de mim, se ela me ajuda a viver, a sentir que existo e o que sou?

Fique tranquilo, Baudelaire, pois os politicamente corretos nunca mentem. Afinal, como você mesmo diz, "que importa o que possa ser a realidade situada fora de mim, se ela me ajuda a viver, a sentir que existo e o que sou?"
Finaliza-se, aqui, o primeiro poema. Hora de passar, então, ao desespero da velhinha, literal e figurativamente. Comecemos:

II

O Desespero da Velhinha

A velhinha recurvada alegrou-se ao ver no berço a criancinha a quem todos festejavam e agradavam; esse lindo ser tão frágil quanto ela e como ela, também, sem dentes e sem cabelos.
 Aproximou-se do bebê querendo fazer graças com risinhos e caretas agradáveis.
Mas a criança, espantada, debateu-se sob os carinhos da boa senhora decrépita e encheu a casa com seus gritos agudos.
Então a boa velhinha retirou-se a sua solidão eterna e chorou num canto dizendo para si: "Ah! Para nós, infelizes mulheres velhas, a idade impede de transmitir alegria mesmo aos inocentes; nós causamos horror às criancinhas a quem nós queremos mostrar amor."

Amigo leitor, veja que ABSURDO é o caso denunciado por Baudelaire. Além de ter sido mais uma vítima da sociedade "machista-opressora" de consumo, visto que está recurvada, o que é óbvio resultado de infinitas surras que levou do marido e não da idade (pois falar isto seria um atraso mental), esta pobre senhora ainda foi exposta, por dois facínoras que se ousam intitular, homofobicamente, de "pai" e "mãe", ao ridículo, pois eles, com o uso de mensagens subliminares, convenceram o infante a chorar toda vez que visse a senhora em questão, fazendo-a abaixar sua autoestima e induzindo-a, criminosamente, a pensar que o problema é a sua idade e sua aparência, e não o olhar alheio condicionado pelos opressores padrões de beleza vindos dos desgraçados americanos, digo, estadunidenses.

Digo-vos em verdade que lamento por Baudelaire não ter vivido para divulgar este importante relato policial nos dias de hoje. Afinal, se o fizesse, teria a oportunidade de ver a maior revolução de sofá do mundo, com vários compartilhamentos no facebook denunciando as práticas abusivas dos dois pilantras, ou, melhor dizendo, pilantrxs.

Uma pena, porém, que, após a revolução ter sucesso (o que aconteceria apesar de todas as tentativas dos capitalistas opressores de que não virasse nada), este post todo, por causa da palavra "verdade", seria censurado, pois "verdade" é coisa de religioso e, apesar de Lamaitre, Mendel, Newton, Collins, Euler e tantos outros, não podemos permitir que tamanha e tacanha ateofobia saia impune. E TENHO DITO!

Termino, com isso, as duas análises. E viva la revolución, amicos!



Bom, isso era tudo que eu  tinha para falar na introdução a esta série. Sei que os leitores conseguirão claramente ver o quão "sério" fui, mas é sempre bom garantir que a mensagem esteja bem clara. Só posso esperar, então, que tenham gostado, e agradecer-lhes mais uma vez por terem lido meu post até o fim.

Enfim, despeço-me por aqui e mando ao amigo leitor aquele forte abraço de sempre!
Obra consultada:

BAUDELAIRE, Charles. Pequenos poemas em prosa. Rio de Janeiro: Record, 2006, trad. de Gilson Maurity (ed.bilíngue)

22 de mai de 2013

Eu, Apolítico - "Religião"? (Ou: Rufino, "Metafísica" e Escola)

Olá, amigos leitores, e, depois de muito tempo (mais de um mês, se bem me recordo), volto a postar algo para vocês.

Como estão já calvos de saber, estava lhes devendo três coisas: o início da série sobre Política, o início da série sobre Luiz Felipe Pondé e o meu "guia de falácias" personalizado e com exemplos de sobra. Fico feliz de dizer que pelo menos uma delas eu cumprirei antes do fim deste ano (rsrsrsrs).

Sim, é exatamente o primeiro item da lista que será iniciado hoje. Ao ver o título, o leitor pode pensar: "Cara, de novo sobre religião? Mas o Octavius já não gastou pelo menos dois posts da série sobre Religião para falar das relações entre religião e política?"

A questão, caro leitor, é que, desta vez, vou abordar um tema sobre o qual sempre quis falar, mas nunca consegui: o Ensino Religioso nas escolas brasileiras, que, como todos sabem (suponho eu), é uma questão muito debatida entre educadores, pedagogos e afins desde a redemocratização e do advento da Constituição Federal de 1988.

Ainda assim, fica a questão: Por que falar sobre um tema que não está mais tanto na boca do povo? E por que coloquei apenas "Religião" no título, e não algo mais claro?

Acontece, amigo leitor, que, ao contrário da maioria de vocês, eu tenho algum tempo livre. E, em uma das minhas horas de folga, aproveitei o fato de estar dentro da universidade e peguei para ler uma revista Caros Amigos, cujos articulistas de maior destaque perante a comunidade acadêmica são o linguista Marcos Bagno, que manja tanto de religião quanto o estudante comum de Humanas sabe de trigonometria, mas, ainda assim, insiste em difamar os fiéis publicamente, e o dito sociólogo Gilberto Vasconcelos, que parece não ser um grande fã de telenovelas por considerá-las um grande engodo, apesar de não querer deixar de ser enganado pelo conto de fadas chamado Socialismo.

Desta vez, porém, não vou comentar sobre atitudes e/ou textos recentes. Comento um artigo assinado pelo historiador Joel Rufino dos Santos na seção Amigos de Papel (pg 15) em Março de 2013, em que este demonstra, além de uma honestidade intelectual impressionante (pois iguala , entre outras coisas, pensamento religioso e criacionismo, já que, óbvio, todo religioso é necessariamente criacionista), uma grande habilidade ao fazer a interpretação de escritos religiosos, como o leitor perceberá ao longo de meus comentários (nos quais seguirei o mesmo esquema usado aqui).

Após dobrar o número de leitores que o artigo em questão teve, analisarei mais alguns fatores e darei meu veredito sobre a questão em si. Este, porém, não será o padrão da série (ou assim espero, rsrs). 

Enfim, vamos aos trabalhos, caros amigos (vocês leitores, não os da revista, rsrsrs). O título do artigo de Rufino, o Metafísico, é "Tristeza" (o mesmo sentimento que tive após terminar de lê-lo), e começa como se segue:

Tristeza

Um dos livros mais interessantes de minha biblioteca é a Bíblia. Tem de tudo: tortura, compaixão, adultério, homossexualidade, infanticídio, fraternidade, guerra, paz, genocídio...

Já de cara, este senhor começa com um discurso muito interessante de ser analisado. Além do tradicional mimimi antirreligioso comunista (e "apelo ao Comunismo" por a revista em questão ser declaradamente "a primeira à esquerda") de que "Po, kra, eça Bibria eh moh xeia dos infantissidio e das gueha, melior para d segui e d se cremt alienadu", como se o sistema que estes caras querem ver implantado no país já não tivesse sido responsável por um número de óbitos e de infanticídios como meio de controle populacional muito maior do que os de todas as doutrinas religiosas juntas, o nosso filósofo de boteco em questão ainda coloca 9 itens que supostamente constam na Bíblia.

Isso seria um discurso comum se ele não tivesse arranjado as palavras de uma forma bem peculiar. Reparem que ele começa com algo que consideramos terrível (tortura), segue com um item que nossa cultura coloca como bom (compaixão), e vai nessa sequência até o fim, com a guerra.

Além de ter terminado a listagem com algo terrível (o que nos dá indícios de qual será seu posicionamento no restante do artigo), o Cícero do terceiro milênio ainda faz algo interessante com os valores que coloca como positivos, incluindo, no meio deles, a HOMOSSEXUALIDADE (deixo claro, já de antemão, que não vou discutir profundamente a questão gay no Brasil aqui, deixo isso para outro(s) post(s)). Cabe, então, a pergunta: Desde quando a sexualidade de alguém se tornou um valor intrinsecamente positivo ou negativo? Aliás, por que Rufino citou justamente o comportamento/orientação não-normativo? Teria ele medo de ser chamado de "homofóbico" em um artigo sobre ensino religioso? Ou  simplesmente falhou ainda mais miseravelmente em sua tentativa de dar ao início de seu artigo certo ar de neutralidade?

Deixo as respostas a cargo do leitor. Prossigamos, pois ainda há muito a analisar do Hitchens versão tupiniquim. Em seguida, ele nos informa que:

A própria vida do Cristo é uma bela história: nasceu numa família pobre, sem esperma, passou fome no deserto, conversou com o Diabo, fez milagres, foi preso, condenado, crucificado - a pior das execuções já inventadas - ressuscitou depois de três dias, subiu aos céus.

Quanto a isto, apenas contesto a questão do castigo. Afinal, sem dúvida, não existe nada pior do que ver alguém fazer com uma ideia sua o que virá logo logo. Prossigamos: 

História composta, como a de outros fundadores de religião, com fragmentos de outros homens que de fato existiram, como Simão, no caso de Cristo, executado, alguns anos antes, por liderar uma rebelião do jugo romano. 

Vejam este começo. Além de jogar o maior non sequitur do universo logo no início de sua biografização do profeta dos cristãos, já que a história de qualquer ser humano é composta com fragmentos de outros que o precederam, com as devidas mudanças de contexto (ou seja, isso não seria nenhum demérito ao profeta em questão) , ainda afirma, erroneamente, que este liderou qualquer tipo de rebelião (e isso pode ser extraído pelo fato de ele frisar a rebeldia de Simão e compará-lo a Cristo). Agora, fico curioso em saber uma coisa: Por que o mesmo homem que sempre aconselhou os escravos a não se rebelarem contra seus senhores (pois o verdadeiro reino seria o dos céus, e não o terreno) se rebelaria contra o Império Romano? 

Aliás, pelo que sei, é amplamente aceito na comunidade acadêmica, talvez o lugar com mais neo-ateus por metro quadrado (falo da área de História, é claro), a versão de um Cristo que, na verdade, impediu que seus seguidores se rebelassem belicamente contra Roma, pois previu que muito sangue inocente correria pelas ruas. Agora, a não ser que a lógica clássica tenha sido refutada, não vejo como não-rebelião é igual a rebelião. Seria o mesmo que dizer que não-ideologia é igual a ideologia,  que Capitalismo é igual a Comunismo, ou uma antítese ainda maior: que neo-ateísmo é racional.

Mas, enfim, uma prévia do pior vem agora:

Este Cristo nos deixou lições filosóficas admiráveis - amai o próximo como a ti mesmo, não matarás, não desejarás a mulher do próximo, amparai os pobres e as crianças, e muitas outras. Propostas EM SEU NOME, atravessaram séculos (maiusculização minha)

Leitor, deve ter se surpreendido tanto quanto eu. Afinal, do que eu saiba, das quatro lições destacadas, três NÃO NOS FORAM LEGADAS pelo profeta dos cristãos, mas sim por Moisés, profeta dos judeus, com a tábua dos dez mandamentos.  Ou seja, quem souber dessa informação (ou seja, quase todo mundo que tenha mais de 5 anos de idade e não seja um ermitão) conseguirá ver além da fachada de neutralidade e sentir que, assim como todo neo-ateu, o que Rufino pretende fazer é simplesmente sugerir, mais uma vez, que a religião sobre a qual ele fala é só mera cópia de outras. O documentário Zeitgeist pelo menos teve criatividade e usou religiões de sociedades mais distantes historicamente da nossa e daquela da época de Cristo, como a egípcia e a suméria. Já o Suetônio do século XXI preferiu a via ainda mais medíocre e intelectualmente desonesta.

Calma, leitor, ainda tem mais. Prossigamos:

O problema em sua biografia, que começou a se escrever cerca de um século depois de morto, é que para uns é filho direto de Deus, para outros, apenas um modelo de homem a ser imitado. Para estes, CRISTO NÃO PRECISA DE DEUS. DEUS O DIMINUI, TIRA DELE A AUTONOMIA DE ESPÍRITO QUE O FAZ HOMEM. (Idem ao anterior)

Epa, pera lá... Antes de tudo, gostaria de saber quem são os que adotam a segunda interpretação além de alguns ateus, porque, sinceramente, se ainda se chamam cristãos, estão precisando rever seus conceitos. Afinal, eu, como ateu, poderia falar o que está destacado, exatamente porque NÃO CREIO EM UM DEUS CRIADOR. Agora, como alguém que CRÊ formula uma hipótese dessas sem se lembrar do livre-arbítrio (ou seja, mesmo com o deus cristão sendo o criador de tudo, há a autonomia para o ser humano proceder como quiser)?

É, senhor Joel Rufino, precisamos ser mais didáticos em nossas afirmações, não concorda?

Meu leitor estará se perguntando se não estou fazendo proselitismo antirreligioso.

Na verdade, antes de ler o resto do artigo, até fiquei ligeiramente em dúvida se seria desonestidade intelectual ou pura desinformação. Fico, agora, com a primeira opção.

Vou me explicar.

Infelizmente

O governo do Rio de Janeiro obrigará as escolas públicas, de ensino médio, a ministrarem religião. Ensinará que uma virgem pode ter uma criança, que se pode curar um doente de doença terminal, um esquizofrênico com orações, suspenderá a lei da gravitação universal, etc. Nunca se viu um morto voltar, mas se ensinará que Cristo ressuscitou. Que o mundo e suas criaturas foram criados por Deus em uma semana, etc.

Começa aqui um festival de desonestidade intelectual, ou, melhor dizendo, o declínio moral absoluto do texto do historiador de porta de bar. 

Para começar, Rufino explica meu título ao dizer que o que se ministrará é "religião". Mentira. O Ensino Religioso Escolar (ERE), que consta como facultativo na nossa Lei de Diretrizes e Bases para a Educação (Ler o artigo 33), nada mais é, idealmente, do que um apanhado geral dos princípios e da história das principais religiões conhecidas, incluindo não só a tradição judaico-cristã, mas também o Budismo, o Hinduísmo, o Islamismo e muitas outras. Se o que fosse para ser ministrado fosse efetivamente "Religião", quebrar-se-ia a laicidade das escolas, pois, aí sim, inevitavelmente, por uma questão de tempo, só uma poderia ter seus rituais cumpridos (apesar de que, como diria meu amigo Luciano Ayan, o Humanismo já é a religião ministrada nas escolas e, até agora, nada de reclamações).

O que acontece, porém, é que nosso metafisicista de araque imputa ao ensino religioso algo que ele não faz, que seria ensinar cada um daqueles itens dogmaticamente, o que seria função dos líderes religiosos em seus templos ou em outros lugares, como escolas confessionais ou redes de televisão nos horários acertados na hora da facção do contrato. 

Já nas aulas de ERE, o que deve ser feito é dizer, por exemplo, que, NA TRADIÇÃO CRISTÃ, acredita-se que Maria deu a luz ao Cristo virgem, e que a questão da semana da criação é interpretada de várias maneiras, sendo que apenas os criacionistas literais, grupo relativamente pequeno entre os cristãos, levam ao pé da letra o "mundo criado em uma semana". 

Só com isso, já se prova que a disciplina em si tem a proposta de ser bem mais intelectualmente honesta do que Rufino dos Santos vem sendo neste artigo. Mas, ainda temos mais um pouco por aí:

Eu nunca faria proselitismo antirreligioso.

Imagino se fizesse.

É um direito humano acreditar no que se quiser.

É bom avisar isso para os pseudo-marxistas atuais e atuantes em movimentos LGBT, Feministas e afins.

Minha tristeza, mais que meu protesto - quem protesta já perdeu, diz o ditado - é chegar aos 70 anos para ver a esquizofrenização da escola.

E minha tristeza é chegar a quase 20 anos de idade e descobrir que, com 70 anos, alguém ainda não tem senso de hombridade suficiente para fazer uma crítica honesta.

Tudo o que a escola moderna ensinou é que só é verdadeiro o que podemos observar repetidamente, replicar metodicamente, e medir matematicamente.

Na verdade, o que a escola moderna ensinou e ensina é que só é objeto de estudo das ciências e científico o que podemos observar, replicar e medir repetida, metódica e matematicamente. Escolas que ensinaram e ainda ensinam que só desse modo se chega à VERDADE apresentam, sem dúvida alguma, déficit de aprendizagem nos estudos de Filosofia Geral e até mesmo da própria Filosofia da Ciência.

Como vai, ao mesmo tempo, ensinar que a crença, a fé, a crendice, a lenda, o milagre são verdadeiros? Que os homens não são anjos caídos do céu, mas animais evoluídos da terra?

Como eu disse, ela não vai. O que ela ensinará é que, segundo aquela Biologia que é aprendida para o nosso amado vestibular e que apresenta uma série de classificações desatualizadas em relação ao que vige no mundo acadêmico, somos animais evoluídos da terra, mas que, para certas vertentes religiosas, que só são seguidas por quem acredita em seus princípios, é possível a ocorrência de uma série de fenômenos sobrenaturais (e, portanto, incompreensíveis para a humanidade) que influenciariam diretamente sobre a vida individual e social dos homens.


Parafraseando meu pai, se o senhor acha isso difícil, senhor Rufino, falta-lhe um terreno para carpir.

Não vi, ou soube, até agora, de nenhum político que se opusesse a essa esquizofrenia.

Esquizofrenia, notemos, que a própria LDB permite E RECOMENDA.

Temem talvez perder eleitores. Se envergonham talvez de parecer antirreligiosos - o que dirão os filhos, os amigos, os pais, os avós?

Dirão: "Ide e não peques mais" (rsrsrsrs).

Digo a eles que não precisam chegar a tanto.

Eu também, pois a LDB já previa essa obrigatoriedade.

A nova lei não menciona o ateísmo, o materialismo e o agnosticismo - que, no entanto, contribuíram para o saber humano mais que a crença em forças sobrenaturais, nos senhores do Universo, etc.

Georges Lemaitre- Autor da hipótese que inspirou a "Teoria do Big Bang"
Aristóteles - Pai da Biologia e da Física
René Descartes - Precursor do Método Científico
Galileu Galilei - Pai do Método Científico 
Isaac Newton - Entre outras coisas, O PRIMEIRO A TEORIZAR SOBRE A GRAVITAÇÃO UNIVERSAL citada por Rufino alguns parágrafos atrás.

Esses, e muitos outros (Kant, Spinoza, Rousseau, Tomás de Aquino, Francis Collins, Blaise Pascal, etc) tem uma coisa em comum: Acreditam em "forças sobrenaturais". Onde está seu Marx agora, caro Rufino? 

Homens da minha idade pareciam ter visto tudo.

Espero que tenham aprendido bem mais sobre o que é ser homem do que o autor desse artigo repleto de distorções grosseiras de fatos e conceitos.

Se a lei de ensino religioso nas escolas públicas de fato entrar em vigor, rasgarei meu título de eleitor em frente ao Congresso.

Depois de ler tudo isso, digo que fará um favor ao país.

Joel Rufino é Historiador.  

Historiador, antiteísta, neo-ateu, Metafísico de buteco e um profundo conhecedor de nossas escolas (só que não).

Quanto a isto que foi chamado de texto, esses são meus comentários. Daqui, o leitor deve pensar: "Ora essa, mas o Octavius virou cristão e favorável ao ensino religioso agora? Ele tá me tirando, só pode!"

Calma, amigo leitor. Vamos por partes. Primeiro, sim, ainda sou ateu (ou agnóstico, pela interpretação tradicional, mas isso é o de menos). Segundo, por incrível que pareça, só refutei esse excremento da Caros Amigos porque os argumentos eram muito ruins, mas, sinceramente, concordo com a opinião central: sou contra o Ensino Religioso Escolar em escolas não-confessionais, e explico brevemente o porquê.

Como já disse antes, idealmente, o objetivo do Ensino Religioso Escolar seria ser uma disciplina de matrícula facultativa que procurasse mostrar, com o maior grau de neutralidade humanamente possível, quais os princípios morais, éticos e filosóficos que alicerçam as mais diversas religiões do planeta, indo desde a tradição Judaico-cristã, com todas as vertentes judias (como os ortodoxos) e cristãs (católicos, luteranos, metodistas, batistas, presbiterianos, etc), ao Islamismo (de sunitas e xiitas e de todas as outras tradições muçulmanas), e abarcando também o Politeísmo grego e romano, o Zoroastrismo, o Taoísmo, o Hinduísmo, o Confucionismo, o Budismo e diversos outros.

Isso, no papel, é lindo, mas seria deturpado primeiro pela questão da obrigatoriedade (afinal, quantas escolas o leitor conhece que não tornam curriculares disciplinas que poderiam muito bem ser extra-curriculares, como o Espanhol ou, em nosso caso, até mesmo o Ensino Religioso?), e depois pelo óbvio proselitismo tanto religioso quanto antirreligioso que com certeza ocorreria.

Explicando melhor, e considerando que temos pelo menos 60% de população católica e 85% de população cristã, pelo lado religioso, mesmo se fosse um teólogo formado que ministrasse a disciplina, correríamos o risco de ter, no lugar de ERE, Catolicismo, visto que seria, além de ser uma alternativa que agradaria o professor, se este fosse católico, a religião católica ainda é a mais influente e presente em nossa sociedade, e seria, então, mais fácil de ensinar, ou então poderíamos ver um professor evangélico ou católico fanático difamando as outras religiões ou ensinando seus princípios porcamente.



Para evitar isso, sugere-se que, em lugar de um religioso, a aula deve ser dada por um sociólogo ou historiador. Ingenuidade é achar que isso solucionaria a questão, pois, do modo como anda neo-ateízada e marxizada a Sociologia e a História tanto na grade curricular escolar quanto na universidade (ou seja, ambas tomam a religião como principal causa de guerras e outros males, o que é uma distorção grosseira da realidade), muito provavelmente os alunos ouviriam todo dia sobre como são "atrasados, conservadores, reacionários, racistas, fascistas, nazistas e homofóbicos preconceituosos" todos os religiosos e sobre como cristãos, pelo simples fato de participarem com seus representantes na política e não deixarem passar "projetos de leis seculares" (o que quer que isso signifique), ameaçam cotidianamente o Estado Laico com suas pretensões de instituir a teocracia no Brasil.


Para esse fim, caros leitores, convenhamos, textos e vídeos de MECianos esquizofrênicos que fazem a projeção de esquizofrenia em projetos dos quais não gostam e sobre os quais pouco conhecem já são mais do que suficientes. 


Ou seja, não sei se concordam comigo, mas me parece que, além de, no máximo, se aumentar o tempo do proselitismo religioso ou antirreligioso (considerando a situação das escolas públicas nessa questão, acho o antirreligioso bem mais provável) para os alunos, gera-se muita controvérsia para pouco resultado efetivo. Assim, apesar de talvez bem intencionado, o projeto não compensa.


Enfim, sobre esse tema, em que me delonguei muito (por causa dos argumentos ultra-intelectualizados, sqn, do metafísico de buteco ao qual já me referi diversas vezes ao longo do post), era tudo o que tinha para falar. Caso o leitor tenha quaisquer adendos ou oposições, sinta-se à vontade para falar, pois seria no mínimo contraditório tanto com meus ideais já expostos exaustivamente no blog quanto com o assunto da série que eu não lhes abrisse este espaço. Aproveito o espaço no fim para colocar links de alguns textos que distoam do meu ponto de vista, para que tenham a outra visão sobre o assunto.

Bom, espero que tenham gostado deste primeiro post da série sobre Política. Como alguns dos temas de que pretendo tratar inevitavelmente tem, em suas discussões, argumentações com base em princípios religiosos, dificilmente não voltarei a retratar a relação Religião - Política, mas pretendo tirá-la, na maioria das vezes, do foco de minhas argumentações. Ou seja, fiquem tranquilos, esta série não será apenas um grande adendo à série anterior (rsrsrs).

Então é isso. Fico à espera de vossos comentários, despeço-me e mando-vos aquele meu forte abraço de sempre, amigos leitores.



Links:

http://www.educacaopublica.rj.gov.br/discutindo/comentadas/0025.html 
http://desconcordo.wordpress.com/2012/06/27/interconfessionalmente-a-favor-do-ensino-religioso-nas-escolas-publicas/