14 de abr de 2013

O começo do liberalismo burro? - Duffinho ataca

Olá, amigos leitores, como vão? Hora de mais um dos nossos papos, certo?

Bom, como estou sem inspiração para começar as séries que havia prometido desde o início de Fevereiro (coisa que pretendo fazer até o fim deste ano, leitor, não se preocupe, rsrs), resolvi esperar até que ela viesse e ir estudando enquanto isso para falar sobre um dos temas da série sobre Política. Mas, como vocês sabem, vivo debatendo no Facebook e, dias desses, meu amigo Paulo Sérgio Duff, do blog Caldeirão de posts, publicou um texto no mínimo curioso sobre  conservadorismo no Brasil.

Sinceramente, Duff que me desculpe, mas fazia tempo que eu não lia tanta besteira junta em tão pouco espaço. Por isso, decidi fazer este post como resposta e abordar, um por um, os argumentos do blogueiro carioca. Antes, porém, aviso duas coisas. Aviso que:

1- Antes que algum leitor sofista venha reclamar, estão aqui meus parâmetros para definir "conservadores e liberais", algo que o próprio Duff rejeitou fazer mas em que, creio eu, seguimos o mesmo raciocínio, ou seja, de que liberal é todo não-conservador na questão dos costumes.

2- As minhas críticas ao Duff serão pesadíssimas, com esse peso tendo proporção direta com a raiva que senti ao ler o texto em questão.

Enfim, vamos aos trabalhos. Primeiro, o blogueiro carioca nos apresenta o objeto de sua reclamação: o discurso de conservadores cristãos (e ateus) contra os neo-ateus e/ou esquerdistas que pretendem mudar o mundo levantando cartolina na frente da Prefeitura ou comentando, sem embasamento filosófico-político algum, em vídeos feitos com menor embasamento ainda. Em seguida, ele reclama que "o senso comum pensa que, se você é conservador, logo X, se é liberal, logo Y".

Primeira coisa, vamos deixar bem claro, leitor: o senso comum NÃO PENSA sobre a oposição "conservador x liberal" nem sobre filosofia, nem sobre política, nem nada disso. O senso comum é o povo, e a lógica do povo brasileiro é simples: ter seus valores, impor indiretamente seus valores aos outros e nunca, por questão de comodismo, contestar esses valores. Isso vale para religiosos sincretistas que são católicos mas que tem "uma simpatia pelo candomblé", para cristãos que são também espíritas e apoiam o Aborto apesar de todos os cristianismos rejeitarem essa conduta, para neo-ateus que não se assumem marxistas mas querem porque querem "o fim da religião", o que trará, em sua ótica, "um mundo melhor", entre outros. A questão é uma só, Duff, meu amigo: o erro de conservadores, liberais e todos os outros é pensar que o senso comum, ou melhor, o POVO, pensa sobre essas questões, sendo que ele não tem tempo hábil nem paciência para isso.
 

Segundo, o argumento conservador não se foca no fato de se lutar contra o Conservadorismo em si ou contra o Cristianismo, pois liberais e revolucionários existem em todo lugar e lutam contra todo tipo de religião ou filosofia (trocando em miúdos, há liberais desde os budistas até os islâmicos). O ponto central do argumento é que se você não tem nada melhor para pôr no lugar do atual sistema, não lute contra este. Isso também vale para pessoas que simplesmente querem "pequenas mudanças" no sistema, como a aprovação do casamento gay e outras coisas. 

O detalhe que os anti-conservadores simplesmente não conseguem entender é que certas mudanças em um sistema, além de serem culturais e, portanto, covardes, também podem esfacelá-lo de uma vez só. Apesar de eu mesmo ser um defensor de direitos iguais para casais homossexuais, reconheço que, de fato, a aprovação do casamento gay como paradigma juridicamente e socialmente aceitável trará sim mudanças que podem literalmente destruir pilares essenciais à nossa sociedade. Isso, porém, discuto com mais calma quando for falar da questão gay no Brasil.

Terceiro, quando os conservadores lembram o neo-ateu babaca dos ateus intelectuais ou os revolucionários de sofá dos intelectuais, isso não é feito para dizê-los que os bons ficam quietos, também porque esse argumento seria tolo, já que eles geralmente não ficam quietos nem respeitam as opiniões e crenças alheias (também porque "opinião" culmina em filodoxia, não em filosofia). Os ateus intelectuais são usados porque suas críticas, além de originais em seus tempos, foram embasadas não em ressentimento, como é a crítica revolucionária atual, mas sim nos conhecimentos que tinham e que sempre procuraram expandir sobre essas doutrinas e sobre como funciona a sociedade.

Exemplificando melhor, quando se lê o Ética, de Spinoza (que nem ateu era, mas era um crítico das religiões monoteístas por estas pessoalizarem demais suas divindades), vemos que esse autor não perde tempo difamando seus adversários dentro do teísmo porque eles faziam parte do "sistema malvado e opressor", mas sim porque, segundo a lógica spinoziana, seria impossível a existência de uma divindade pessoal pois este traço (a pessoalidade) quebraria algum dos pilares lógicos em que se funda a existência divina. Com Nietzsche, em Assim Falava Zaratustra - Uma filosofia para todos e para ninguém e em Além do Bem e do Mal - Prelúdio de uma filosofia do futuro, vemos um caso parecido: quando o antiteísta alemão critica Cristianismo e Budismo, não o faz por estes serem partes de um sistema, mas sim por julgar suas doutrinas como fracas.



Com isso, é possível ver que o que dá razão aos conservadores de usar os ateus intelectuais é que nenhum deles, a não ser os marxistas, propõe o fim da religião ou a derrubada de um sistema. Aliás, quanto ao fim da religião, até mesmo nisso estes (os marxistas) estão divididos, pois o próprio Sartre diz em O Existencialismo é um Humanismo que se deve defender a liberdade do outro se se quiser assegurar a própria liberdade, deixando implícito, assim, que não deseja o fim das religiões.

Entendem o que quero dizer? A ironia de Duffinho é linda, mas é digna de uma pessoa com idade mental de 15 anos que não tem convívio suficiente com Filosofia para entender o porquê de as críticas conservadoras serem pertinentes.


Mesmo assim, o maior problema foi quando o cientista da computação usou números errados e chegou a "pelo menos 54 milhões de não-conservadores no Brasil, e com tendência a alta", o que pode ser desmentido ao examinarmos os números do censo IBGE 2010, que nos aponta de cara, por exemplo, a existência de mais de 123 milhões de católicos e  42 milhões de evangélicos em uma população de cerca de 190 milhões. Fazendo o cálculo direito, o que teríamos como GARANTIDAMENTE não-conservadores seriam 25 milhões de brasileiros, mas, ainda assim, isso só seria verdade se não houvessem não-cristãos, não-religiosos, ateus e homossexuais conservadores, mas há, e muitos.

Obviamente, há cristãos não-conservadores, como disse o blogueiro carioca. Porém, o que se deve especular é: será que eles são cristãos de verdade ou só se declaram assim por alguma conveniência? Afinal, por mais que teimem em dizer que é muito difícil averiguar quem é "de verdade" ou não no Brasil, é possível sim ver quando um cristão o é apenas na fachada, e isso inclui as pessoas que seguem mais de uma doutrina junto com o Cristianismo (Cristianismo-espírita, por exemplo, sendo que tanto o catolicismo quanto os protestantes e os mórmons, além de não permitirem consulta a mortos, não permitem, por questão lógica, que o fiel siga outra doutrina além da sua), ou de pessoas que, como Duff citou, contrariam a sua própria Igreja e apoiam a possibilidade de mulheres celebrarem atos religiosos ou de gays se casarem.

O detalhe, meus amigos, é que Duff se aproveita da falha de alguns cristãos (afinal, os grupos entrevistados pelos jornais geralmente são pequenos) e de dados cujas fontes ele não apresentou para executar um ataque, no fim das contas, medíocre aos conservadores, citando, para estragar de vez o bolo, uma pesquisa claramente tendenciosa que relaciona Q.I como inversamente proporcional a "ideias preconceituosas" (seja lá o que isso for).


Por fim, Duff ainda usa uma imagem que corrobora com a tese cristã de que o mundo está decaindo moralmente. Afinal, não há nenhuma garantia de que as pessoas da imagem sejam cristãs, nem de que o que façam seja apoiado por suas Igrejas. Aliás, olhem que curioso, a maioria das Igrejas condena o Carnaval, uma das práticas mostradas.

Tudo isso só vem nos mostrar que, no fim das contas, o problema continua sendo o fato de as pessoas declararem religião e não a seguirem. É isso, aliado a uma desonestidade intelectual flagrante, que permitiu ao blogueiro carioca alimentar a ilusão de que o conservadorismo está no fim, algo que qualquer um que saiba fazer uma pesquisa com fontes confiáveis e que saiba que amostragens de jornal podem falhar grosseiramente pode constestar.


Seria o texto de Duff, então, uma prova do começo do liberalismo burro em nossa sociedade? Ou é só mais fogo de palha  e desonestidade intelectual?

 

Enfim, leitores, espero que tenham gostado desse nosso papo. Peço desculpas ao Duff caso tenha pegado muito pesado e a vocês caso a fonte deste artigo saia estranha e/ou o texto tenha saído pouco coeso, mas, sinceramente, o texto a que respondi padecia desse defeito, então ficou difícil respondê-lo sem sofrer com o mesmo mal.

Bom, era só isso que eu tinha a falar por hoje, agradeço pela atenção e mando-lhes meu forte abraço.

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