19 de mar de 2013

Revolução e Besteiras - Parte 1

Olá, amigos leitores, e estamos aqui para mais um de nossos bate-papos.

Bom, há alguns dias me mostraram um artigo no site Pragmatismo Político sobre o "reacionário perfeito" (este aqui), apontando os 40 "mandamentos" que este deve seguir. Sendo bem franco, achei que o artigo que refutei sobre Telenovelas tinha sido a maior bizarrice que o povo da esquerda pseudo-radical poderia produzir, mas eu nunca esperaria esse gigante e bizarro espantalho (e falarei sobre a Falácia do Espantalho futuramente) sobre os opositores dos ditos seguidores de Marx.

Mas, como vocês sabem, amigos leitores, apenas ridicularizar um grupo não faz muito o meu tipo. Sinto, então, que devo mostrar porque a maioria das associações com "reacionarismo" são falsas e falaciosas. Para isso, primeiro explicarei alguns termos (que também serão úteis na minha série sobre Política) que são usados para classificar pessoas quanto ao seu posicionamento sobre os costumes e a moral da sociedade (e até sobre a política) e depois vou listar um por um dos 40 itens e discorrer sobre eles no mesmo esquema que já usei no artigo sobre Telenovelas e em outros posteriores e anteriores.

Isso significa, então, que este post será dividido em pelo menos duas partes. Mesmo assim, leitores, isso não vos impede de deixarem vossos comentários sobre cada parte da postagem, afinal, como vocês sabem, não tenho problemas em fazer um post respondendo às respostas que me mandarem. Enfim, vamos aos trabalhos.

A primeira coisa sobre a qual quero falar é sobre como pessoas são classificadas de acordo com suas posições socio-político-morais (sim, o neologismo é forçado, mas foi o melhor que achei). Basicamente, existem duas interpretações principais que usamos para essa classificação. Enquanto uma delas divide as pessoas em quatro estratos (reacionários, conservadores, liberais, revolucionários), a outra divide em cinco grandes grupos, sendo estes reacionários, conservantistas, conservadores, liberais e revolucionários. No caso, e como esta classificação é menos generalizadora do que aquela (que iguala conservadores e conservantistas), vou explicar os termos segundo a segunda classificação e deixá-los transparentes para todos.

Comecemos, então, com o segundo e terceiro termos (deixarei o primeiro para o final). O que seria, afinal, um conservantista? E o que o diferencia de um conservador?

Sendo bem sucinto, o primeiro, assim como o segundo, é todo aquele que tem certa resistência a mudanças. O que os diferencia é que enquanto o conservador, apesar de não ser um fã de mudanças, sabe reconhecer  que algumas, por algum motivo, são necessárias, e advoga por elas após criteriosa análise de suas implicações na sociedade, o conservantista rejeita todas igualmente e prefere manter as coisas como estão mesmo que sofra por isso depois.

No outro polo, temos os liberais, que são todos aqueles que têm pouca resistência a mudanças nos costumes e que, por isso, geralmente advogam a favor destas, mesmo que alguma delas possa trazer danos à sociedade, e os revolucionários, que são aqueles que tentam mudar não apenas alguns costumes da sociedade, mas sim reformá-la e renová-la por inteiro, seja culturalmente, seja institucionalmente.

Estes, porém, acabam sendo tão radicais em seu desejo de mudança que costumam gerar os seus próprios opositores, os famosos reacionários, aos quais o artigo se refere em tom irônico. Resumidamente, o reacionário é aquele que, ao contrário do revolucionário, não quer mudanças inovadoras (mas nem sempre benéficas, diga-se de passagem), mas sim regressistas (nem sempre maléficas, também diga-se de passagem), ou seja, que façam com que a sociedade volte a um estágio anterior do qual já saiu há algum tempo.

Para dar um exemplo concreto, imaginemos a democracia brasileira. Em relação a ela, enquanto o Conservantismo  iria querer mantê-la exatamente como está hoje, ou seja, sem implementar ou tirar novas políticas nem ceder ou tirar direitos dos cidadãos, o Conservadorismo procuraria analisar criteriosamente alguma mudança e aceitá-la se fosse necessária e benéfica a todos, o Liberalismo (nos costumes, deixemos claro) tenderia a ser favorável a mudá-la independentemente das consequências, o Revolucionarismo estaria na linha de frente para que ela fosse extinta em prol de um objetivo ideológico maior, e o Reacionarismo provavelmente iria querer acabar com ela para que houvesse o retorno da Monarquia ou do Regime Militar.

Não sei se deixei claro, caros leitores, mas o ponto em que quero chegar é o seguinte: pelo que vemos acima, rejeitar novas políticas pró-minorias ou rejeitar a Legalização do Aborto, da Maconha ou da Eutanásia não é Reacionarismo, pois não haveria uma mudança  de volta a um estágio anterior que a sociedade já viveu. Essa rejeição poderia ser classificada, no máximo, como conservantista, mas é geralmente adotada pelos conservadores não como uma forma de "oprimir as minorias e cercear-lhes a liberdade de expressão", mas sim como um modo de incentivar a comunidade a ter cuidado com as mudanças que deseja ver implementadas em seu país, pois, apesar de estas poderem trazer boas consequências, também podem ser extremamente negativas.

Por que disse tudo isso, caro leitor? Porque esse mesmo artigo parece esquecer-se de toda essa gradação de classificação e iguala, de forma desonesta, grupos que não estão ligados uns aos outros por natureza (ou seja, nem todo conservador ou conservantista é reacionário, apesar de todo reacionário ser pelo menos conservador). Com isso, já posso responder, um por um, ao desfilar de besteiras desse artigo. Comecemos, então, pelo primeiro desta vez:

1-Negue sistematicamente a existência de qualquer conflito de classe, gênero, etnia ou origem regional ao seu redor, mesmo que o problema seja evidente até aos olhos do turista mais desatento. Afinal, sempre nos foi ensinado que a sociedade é um todo harmônico.


É muito comum ouvir isso por parte de comunistas que tentam, após usar esse argumento, "catequizar-nos" (e as aspas são porque igualam-se a religiosos apesar de Marx ser declaradamente antirreligioso, rs) com o que julgam ser as ideias do filósofo alemão. Mal sabem eles, porém, que negar os conflitos listados não é o mesmo que dizer que a sociedade é um todo harmônico. Afinal, eu posso negar isso enquanto considero que conflitos não se dão entre grupos, mas sim entre indivíduos. Por mais que eu mesmo não concorde com essa ideia, negar que esse ponto de vista é defensável seria, no meu caso, fechar os ouvidos para vários filósofos que o fizeram com brilhantismo, e colocar que só há duas alternativas (aceitar conflitos de classe ou achar que a sociedade é um todo harmônico), sendo a última reacionarismo, coisa com a qual nem tem relação direta, seria desonestidade intelectual.

Logo, Como Queriamos Demonstrar (C.Q.D), Reacionarismo inexistente, falácia detectada.

2-Não sendo possível negar o conflito, pela sua extensão, tente convencer seu interlocutor de que ele é limitado, reduzido a alguns focos ou induzido por estrangeiros perversos, mas que logo tudo voltará à tranquilidade costumeira.

Seria um bom argumento se, de fato, houvesse ligação entre reacionarismo e conspiracionismo para desviar o foco. Além disso, nenhum dos grupos diz que o país está tranquilo, quanto mais quem quer fazê-lo retornar a períodos ditatoriais para deixá-lo mais TRANQUILO. Logo, C.Q.D, Reacionarismo inexistente.

3-Sendo impossível negar que o conflito é vasto e presente em quase toda parte, tome o partido dos mais poderosos. Afinal, eles representam a ordem, que deve ser mantida a qualquer custo.

Nem a ordem é representada pelos mais poderosos, nem é 100% garantido que estes queiram manter a ordem. Ainda assim, isso seria conservantismo, não reacionarismo.

4- Manifeste sua contrariedade diante de qualquer estatística que aponte para uma tendência de aumento da massa salarial. É inadmissível que os abnegados empreendedores sejam constrangidos a margens de lucro menores.

Assim como é inadmissível aumentar os salários demais e provocar uma mega-inflação no país. Além disso, sabe, essa autoridade anônima de "Cada um dos tópicos abaixo foi diretamente inspirado nas falas ou nas atitudes de pessoas de carne e osso", que é o subtítulo do artigo, é muito inverossímil. Conheço diversos conservadores e até esquerdistas que não gostam de super-aumento de salário por causa desse risco de superaquecimento do mercado, não porque os empresários teriam menos lucro, o que é mentira, pois maior salário, pelo menos em tese, é igual a maiores possibilidades de consumo, que é igual a maiores possibilidades de lucro do empresário. Além disso, não há qualquer relação entre MANTER salários e reacionarismo, pois, nesse caso, os salários teriam de ser diminuidos.

5-Demonstre contrariedade ainda maior quando notar que filhos de operários, camelôs e empregadas domésticas estão frequentando universidades. Prevalecendo esta aberração, que vai limpar o vaso sanitário para seu filho daqui a vinte anos?

Isto aqui só seria reacionarismo se, no Brasil, tivesse havido um tempo em que fosse PROIBIDO que esses grupos frequentassem universidades, o que, do que eu saiba, não ocorre. Além disso, a oposição a Cotas, pelo menos declaradamente, se dá por outros motivos bem mais razoáveis (e, sim, mesmo sendo pró-Cotas Raciais e Cotas Sociais, consigo ver que são legítimas as justificativas).

6-Repita mil vezes por dia, para si mesmo e para os outros, que esquerdismo é doença, ainda que faça parte de uma classe média de orçamento curto, mas que, em estranho fenômeno psicológico, se enxerga como parte da melhor aristocracia do planeta.

De novo, isso não é necessariamente reacionarismo e, além disso, o fato de o "reacionário" em questão ser um iludido não o deixa desautorizado a falar que esquerdismo é doença. Aliás, muito curiosamente, vejo, com a mesma frequência, um monte de esquerdistas falando que direitistas são doentes, mas disso o cara que produziu o artigo não reclama. Engraçado, não?

7-Atribua a culpa pelos altos índices de criminalidade aos migrantes vindos de regiões pobres e imigrantes de países miseráveis. Estas criaturas não conseguem nem reconhecer a generosidade da sociedade que os acolhe.

Sinceramente, não sei com quem esse articulista andou conversando e o que andou bebendo, mas nenhum reacionário que eu conheça usa esse argumento. Aliás, todos ficaram indignados com as declarações de Mayara Petruso (estas), sendo que a maioria disse que nunca viu tanta ignorância em tão poucos caracteres. Além disso, continuo sem saber o que isso tem a ver com reacionarismo. Aliás, uma das figuras mais "reacionárias" DO MUNDO, a jornalista sbtana Rachel Sheherazade, além de ser nordestina orgulhosa, destruiu Mayara em poucos segundos. Então, C.Q.D, Reacionarismo inexistente.

8-Associe, sempre que possível, o uso de drogas a universitários transgressores e militantes de esquerda, mesmo sabendo que o pó mais puro costuma ser encontrado nas festas da “boa sociedade”. É necessário ampliar ou pelo menos sustentar o nível de reacionarismo da população em geral.

Primeiro, vou repetir o que eu venho dizendo: isso não tem nada a ver com reacionarismo, tem mais a ver com conservadorismo e com guerra política talvez. Além disso, estranhamente, imagino que esse articulista, tão orgulhoso da Academia com seus "militantes de esquerda", esqueceu-se repentinamente uma das lições que a própria Academia já nos ensina no começo de nossas vidas acadêmicas, que é a de dar FONTES para as afirmações que fazemos, coisa que ele não fez. Então, além de essa alegação dever ser rejeitada, pois o que se alega sem provas pode ser descartado sem provas, não houve demonstração do reacionarismo aí.

9- Tente revestir seu conservadorismo com uma face humanitária, reivindicando o direito à vida de todos os fetos, ainda que, na prática, vá pagar um aborto caso sua filha fique grávida de um indesejável, e seja favorável ao uso indiscriminado de cassetete e spray de pimenta contra os filhos de indesejáveis já crescidos.

Esse argumento, apesar de mostrar uma posição reacionária (pois o Aborto já foi totalmente criminalizado no Brasil), continua sendo ruim, pois faz uma associação indevida, que é a entre reacionarismo e hipocrisia, e acusa pessoas, sem quaisquer provas, de um crime que rende pelo menos 1 ano de prisão. Por mais que haja gente hipócrita, isso não é motivo nem justificativa plausível para associar  todos os que tomam uma posição reacionária no Aborto à hipocrisia.

10- Assuma o partido, em qualquer querela, daquele que for mais valorizado socialmente. Não é prudente que os “de baixo” testemunhem quebras de hierarquia, nem nos casos de flagrante injustiça.


Novamente, argumento sem nexo, pois, muitas vezes, quem está  por baixo tenta "quebrar a hierarquia" com violência, o que é um erro e um desserviço a outras pessoas que estão na mesma situação. Além disso, existem pares de motivos para se opor a certas "quebras de hierarquia", mas, como o articulista não citou nenhum caso de defesa aos "poderosos", não sou obrigado a justificar essa posição. Ainda assim, de novo, isso não tem nada a ver com reacionarismo.

11- Tente justificar, em qualquer ocasião, os ataques militares da OTAN contra países da Ásia, África ou da América Latina, mesmo que estes não representem a menor ameaça concreta para os agressores. Pondere que não é fácil carregar o fardo da civilização.

 Primeiro, a partir do momento em que eu não conheço nada de política externa, e nem o articulista conhece (pelo menos nada além do que lhe diz a tão confiável "Carta Capital"), não temos como saber o que é "ameaça considerável" ou não, e devemos deixar isso a cargo da própria organização. Além disso, qual é a revolução que está sendo promovida  nesses países? Que revolução promovia o Iraque em 2003, por exemplo? Se não há revolução, não há reacionarismo. Fim.

12- Mantenha assinaturas de pelo menos um jornal e uma revista de linha editorial bem reacionária, para usá-las como argumento de autoridade. Quando suas afirmativas forem refutadas, retruque de imediato com a fórmula “eu sei de tudo porque li o …”.

Mas que estranho... não é justamente isso que a esquerda faz com as suas revistas prediletas? Quer dizer então que o meu grupo pode, mas o outro não? E, sim, eu sei que isso é um tu quoque, mas, neste caso, não se tem provas de que o "revolucionarismo" da esquerda seja o melhor caminho, nem esta está defendendo qualquer posição revolucionária, mas sim atacando a direita (ou melhor, pequena parte dela) sem maiores razões.

13-Nunca se esqueça: se um político socialista ou comunista cometer crimes comuns, isto é da essência do esquerdismo; se os crimes forem cometidos por um político de direita, ele é apenas um indivíduo safado que não merece mais o seu voto.

Além de isso não ser necessariamente reacionarismo e de os crimes cometidos pela esquerda não serem comuns (afinal, 65 milhões de mortos na China de Mao não é um número para crime "comum"), o detalhe é que, ao contrário da esquerda, a direita não tem teóricos políticos, ou seja, ninguém falou como direitistas devem pensar em uma série de livros sobre Filosofia, Economia, Sociologia e Política. Também é por isso que, enquanto muitos esquerdistas têm posições parecidas sobre tudo, os direitistas, além de apoiarem correntes diferentes tanto em Economia quanto em Política, também acabam seguindo linhas diferentes de pensamento em certos assuntos.

14- Vista-se somente com roupas de grifes caríssimas, não importando o quanto vá se endividar. Sobretudo jamais seja visto sem gravata por pessoas das classes C, D e E.


Isso não é um reacionário, é um tonto metido a classe alta. Nada a ver com reacionarismo. Não há essa relação necessariamente.

15- Nunca perca a oportunidade de discursar a favor da pena de morte quando o jornal televisivo noticiar o assassinato de um pequeno burguês por assaltante ou traficante de favela; se, ao contrário, surgir a imagem de algum rico que passou de carro a 200 km/h por cima de pobres, mude de canal, procurando um filme de entretenimento.

Novamente, isso é hipocrisia, preconceito, o que quiser chamar... mas não reacionarismo.

16- Quando ouvir narrativas sobre ações violentas de neonazistas e outros militantes de extrema-direita, minimize a questão. Afinal, eles podem ser malucos, mas contrabalançam a ação da esquerda.

Como eu disse, boa parte dos "reacionários" já reprova essas ações de idiotas metidos a nazistas do terceiro milênio. Além disso, sei lá, o máximo de "neonazismo" que eu ouço direitistas aprovarem é Jair Bolsonaro e, ainda assim, existe muita anti-locução sobre as posições desse Deputado Estadual.


Bom, leitores, vou deixar os outros 24 mandamentos para o próximo post, a ser feito ainda amanhã. Enfim, espero seus comentários, e deixo o meu forte abraço e o meu muito obrigado a quem ler.

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