11 de mar de 2013

50 Tons de Enganos

Olá, amigos leitores, está mais do que na hora de batermos de novo um papo sobre Educação, não é?

Digo isso por causa da nova medida a ser implantada em escolas estaduais de São Paulo, medida essa que foi e está sendo extremamente debatida Facebook afora nestas últimas duas semanas.

O leitor, sempre brilhante e já acostumado ao meu velho-novo estilo, provavelmente deduziu: "Ah, Octavius, nem precisa falar nada, todos já sabemos que você vai pegar o posicionamento da maioria e destrinchá-lo tal qual fez nos outros posts".

O detalhe, amigo e fiel leitor, é que, como sabem, sou um apreciador da arte do debate e, como tal, devo aprender cada vez mais com os erros de todos que me cercam, incluídos os meus, e um destes é o de tender a subestimar argumentadores de algumas posições das quais discordo.

Por isso, e também por ter quase metade dos meus leitores envolvidos diretamente com a área de educação, sendo um, inclusive, um filósofo da educação da mais alta qualidade (espero seus comentários e um post seu sobre esse assunto, certo, Arthur Rizzi Ribeiro?) e dois pedagogos formados (Alex Pina e Roberta Aires, que também devem ficar à vontade para comentar, assim como os outros leitores), prefiro analisar a questão com um pouco menos de arrogância do que o faço normalmente.

Ainda assim, contra certos argumentos, vou ter de ser enérgico, pois demonstram pura ignorância sobre como se organiza o ensino e sobre a situação em si do ensino. Peço, então, desculpas aos meus leitores se o meu tom se alterar muito, mas, em certos casos, é quase inevitável.

Lendo esse último parágrafo, daria para concluir que eu sou contra essa medida, certo? NÃO, caro leitor, erradíssimo. Digo, antes de tudo, que sou favorável à implementação dessa medida, mas tenho minhas ressalvas. Deixo para explicar isso, porém, no final, pois quero me focar em discutir os argumentos contra a medida. Vamos, então, aos trabalhos.

Primeiro de tudo, é importante explicar direito a proposta, o que, surpreendentemente, foi bem feito pelos sites de notícias da Internet (e eu deixo um link no fim com uma explicação). Sendo bem sucinto, o que ocorrerá é que as  297 escolas estaduais de tempo Integral de São Paulo não terão, nos 3 primeiros anos do ensino fundamental, aulas de História, Geografia e Ciências, e, com isso, o currículo será reorganizado para dar ênfase à Língua Portuguesa no 1º e no 2º Anos e à Matemática no 3º Ano, além de aumentar a carga horária de Artes e Educação Física. A justificativa para essa medida é que ela tornará o currículo escolar mais atraente a todos os alunos.

Bom, confesso que a minha ressalva é em relação a essa justificativa, mas prefiro, como já disse, explicar isso no fim do post. Vou listar, então, os argumentos contra essa medida (em negrito), e refutá-los um por vez . Comecemos com o mais furado de todos:

Isso é o fim da educação no Estado de São Paulo! Absurdo! Mídia alienante, governo maldito, blá-blá-blá, mimimi...

Para refutar isso aqui, é só olhar na própria proposta. Consta lá que 297 escolas apenas terão esse currículo mudado. Agora, amigo leitor, quer arriscar um chute de quantas escolas há no Estado de São Paulo? 300? 500? 800? Não. Existem, no estado de São Paulo e só contando o ensino fundamental, mais de 15 mil instituições de ensino, sendo a grande maioria delas estaduais.

Ou seja, de 15 mil para 297 há uma grande diferença, o que significa não só que essa medida é um TESTE do governo de SP e que, se der certo, pode ser aplicada em outros lugares, como também que o número de alunos que poderiam sofrer com essas medidas é grande, mas ínfimo perto do total de alunos que há em todo o Estado. Além disso, vou discutir sobre como anda o currículo dos primeiros anos do ensino fundamental mais tarde. Mesmo assim, o primeiro argumento é furado.

Com essa medida, agora é que os professores de História se fodem. Afinal, eles já dão tão poucas aulas e vão perder ainda mais aulas, o que vai fazer seus salários diminuírem.

À primeira vista, o argumento parece excelente, não é, leitor? Afinal, é inegável que especialmente os professores de História, uma matéria relativamente importante mas bem desvalorizada pela sociedade em geral, têm pouquíssimas aulas e muita dificuldade em conseguir novas aulas por um infinito número de questões, mas essa medida não é nem será uma das causas de os professores de História (licenciados ou não) não poderem dar aulas para crianças entre 6 e 10 anos. A causa disso é que apenas pedagogos têm a especialização necessária para dar aulas a essas crianças. Ou seja, não tem como professores de História perderem dinheiro, pois eles, por questões de política e estrutura educacional, já não podem dar essas aulas. Ou seja, furada. Próximo.

Mas é um absurdo tirar essas disciplinas do Ensino Fundamental

Vendo a proposta, isso não acontece, tira-se essas disciplinas apenas dos 3 primeiros anos do Ensino Fundamental. Logo, argumento inválido. Continuemos.

Ora essa, tirar essas matérias é justamente o que esse ditador quer, porque, assim, as crianças, sem a história, não terão consciência política formada sobre os reais problemas do mundo, e blá-blá-blá, mimimi...

Amigo leitor, acredite ou não, esse é um dos argumentos mais recorrentes. Agora, pergunto-lhe: "consciência política", "problemas reais", Geraldo Alckmin como ditador... quem fala nesses termos? Pois é, eles mesmos, os comunistas. Curiosamente, TODOS que eu vi usando esse argumento são pelo menos de esquerda liberal, e um deles, inclusive, amigo meu e militante de todo tipo de causa do novo Marxismo brasileiro.

Mesmo eu tendo o João Gilberto (esse militante) como um bom amigo, vai me desculpar, João, mas, para você e para todos os que usaram esse argumento, só um recado: VÃO À MERDA, BANDO DE IMBECIS! Sabe, leitor, o pessoal está querendo politizar crianças de 6 anos com teorias mirabolantes de um sociólogo e guru espiritual que passa longe de ser unanimidade. E outra, desde quando, nessa porra de ensino fundamental, aula de história contém algo diferente de Pedro Cabral, Princesa Isabel e Escravidão?

Além disso, mesmo que fossem mostrados os dois ou mais lados do espectro político, qual é o propósito de politizar crianças entre 6 e 8 anos, sendo que, além de elas não terem maturidade intelectual suficiente para lidar com esse tipo de questão, coisa que só se adquire (e muitas vezes nem assim) com a vivência, isso nos faria voltar ao tempo em que a criança era vista como um mini-adulto? Do ponto de vista psicológico e humano, isso seria um erro tão grande, mas tão grande, que não dá para justificar nem sequer que alguém pense nessa situação como viável.

Lógico, uma coisa é letrar a criança de modo a permitir que ela interprete o mundo ao seu redor de modo mais crítico, mas, além de não serem necessárias aulas de história  nos 3 primeiros anos do Fundamental para isso, esse tipo de coisa também deve ser feita com cuidado para não resultar em sucessivas gerações doutrinadas pela ideologia A ou B.

Resumindo, sério, mesmo este não sendo o argumento mais ridículo, o nível de furada disso aqui é muito grande para ser usado seriamente.

PS: Antes que algum leitor comunista meu venha falar que isso é birrinha de ex-comunista, eu TRUCO que você ache um post sequer aqui, da minha época de marxista, em que eu defenda algo diferente do que eu defendo hoje na educação. Aliás, no fim, ponho um link de um post do Paulo Ghiraldelli Jr. em que ele explica muito sucintamente a relação entre Marxismo e Pedagogia.

Enfim, próximo argumento.

Ai, mas a tendência na educação no exterior é trazer a reflexão científica para o 1º Ano

Para derrubar isso aqui, uma pergunta: O que é "reflexão científica"? Afinal, para entender o que é algo científico, deve-se entender o que é "ciência" e, para isso, o mínimo que alguém estuda é Galileu e Popper, fora outros filósofos da ciência, coisa que não estudamos nem nas aulas de Filosofia do Ensino MÉDIO, quanto mais no Ensino Fundamental. Assim sendo, fica óbvio que não refletimos sobre as ciências, apenas decoramos algumas noções que elas criaram e usam. Próximo argumento, por favor.

Sem essas disciplinas, noções básicas, como higiene, serão perdidas

Errado. É só deixar os professores de Educação Física trabalharem sério, e não como babás, e essa noção continuará sendo ensinada. Afinal (e isso poucos sabem), por ser uma formação da área das Ciências da Saúde, graduar-se em Educação Física requer um bom aprendizado sobre tudo o que envolve saúde, incluída aí a higiene e outras coisas importantes.

Por fim, o último e melhor argumento.

Tirar essas matérias, mesmo nos primeiros anos, seria o mesmo que apenas habilitar os estudantes para escrever por escrever, ou seja, escrever, mas sem ter argumentos

Ok, eu reconheço, essa seria uma boa objeção. No entanto, como eu já disse, o nosso ensino nos três primeiros anos do Fundamental não dá embasamento teórico para ninguém argumentar sobre nada e, além disso, e especialmente com o grande tempo de aulas de Língua Portuguesa, por mais normativizado que o ensino seja (não vou discutir Normativismo x Linguismos aqui, discuto isso em uma série daqui uns anos), ao melhorar a interpretação de texto dos alunos (o que deveria ser o foco dessas aulas-extras de Língua Portuguesa) fazendo-os ler textos, dá para dar-lhes, mesmo que indiretamente, conhecimento sobre algumas coisas. Então, creio eu que este argumento também seja furado.

Bom, leitores, essas são minhas objeções às objeções a essa medida. Está na hora, então, de eu explicar o que me torna a favor dela.

Sendo bem sucinto, além de as aulas das outras disciplinas, pelo menos atualmente, serem redundantes e ensinarem noções ultrapassadas e/ou completamente equivocadas aos alunos, elas poderão ser dadas mais tarde e surtir mais efeito em alunos com melhores capacidades interpretativas e cognitivas, que é o que tanto o aumento das aulas de Português quanto de Matemática, por pior que sejam as metodologias empregadas para cada área, pode proporcionar, pois, com mais tempo hábil, o pedagogo não terá mais desculpas para não fazer os discípulos praticarem o que aprenderam à exaustão. Assim, dá para ser otimista quanto a essa medida.

Maaas, nem tudo é perfeito, e aqui reside a minha ressalva. O maior erro desta medida é sua justificativa, pois diminuir ou aumentar o número de disciplinas não é o fator que tornará o currículo mais atraente. Aliás, quanto mais se cresce academicamente, mais diversos são os assuntos sobre os quais se queria ter aprendido antes. O que torna o currículo atraente é não só aplicar uma metodologia pedagogicamente atraente como também o fato de o professor se mostrar motivado e disposto a fazer os alunos aprenderem, o que não acontece na maioria dos lugares atualmente.

Por fim, em cima dessa minha justificativa, alguns poderiam dizer: Ah, mas quanto mais cedo o aluno tiver contato com essas matérias, melhor. Isso, concordo, é fato, por uma série de razões psicológicas e neurológicas do ser humano. O detalhe é que de nada adianta ensinar noções que o aluno não usará sequer nos anos seguintes da vida acadêmica, quanto mais no cotidiano,

Enfim, era isso, amigos leitores. Deixo alguns links com o que foi apresentado ao longo do post para que vocês deem um pontapé inicial em suas próprias reflexões sobre esse e até outros assuntos.

Bom, espero que eu tenha clarificado um pouco para vocês o porquê de esses argumentos serem furados. Despeço-me por aqui e mando-lhes aquele meu forte abraço, amigos leitores.

Links:

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