27 de mar de 2013

Aquém do Bem e do Mal ou Póslúdio da falta de Filosofia na atual Juventude Brasileira

Olá, amigos leitores, já é hora de conversarmos de novo, não concordam?

Bom, esse era para ser o terceiro post Merchandising, desta vez com a explicação da série sobre o Pondé, mas, como vocês sabem, quase sempre consigo achar, no Facebook, temas para discutir com vocês ou besteiras para demolir.

Desta vez, ao contrário da maioria das ocasiões, o que li foi um texto (link no fim do post) interessantíssimo do filósofo da educação (e meu grande colega) Arthur Rizzi Ribeiro que, sem papas na língua nem economia de palavras, pôs a nu a imaturidade de uma parcela considerável da juventude brasileira atual. Inspirado por ele, resolvi dar também a minha bronca nesses despudorados e frouxos "imbecis juvenis", termo apropriadíssimo frequentemente usado (e provavelmente criado) pelo filósofo e jornalista campinense Olavo de Carvalho.

O leitor, a cada dia mais perspicaz, e herdeiro de minha impaciência, pode olhar para o título do post e acertadamente perguntar: "Mas ora, Octavius, virou um garrafão de pinga antes de fazer esse título? Misturou maconha com ecstasy? Por que, ao invés dessa merda de título, você não coloca simplesmente Bronca na Juventude Brasileira e fim de papo? E que merda é um poslúdio?".

Ao apressado porém fidelíssimo leitor, peço calma. Mesmo assim, entendo sua angústia . Afinal, "Aquém", "Bem", "Mal", "Poslúdio"... o que é isso tudo?

A explicação é bem simples. Como notaram por meio de alguns dos meus últimos posts, comecei, há alguns meses, a adentrar no fascinante terreno da Filosofia, em especial na parte que lida com questões existenciais. Spinoza, Roterdã, Sartre e Nietzsche, além de alguns outros, foram os meus guias nestes estudos iniciais que, além de me esclarecerem alguns de meus questionamentos intrapessoais, ajudando assim em minha busca pelo autoconhecimento, me ensinaram também o valor da diversidade e da divergência de pensamento, sem as quais não se vive democrática nem filosoficamente.

Enfim, o pertinente para este artigo, no entanto, não é minha nova experiência filosófica, mas sim como aplicá-la para falar sobre a Juventude. Ocorre que, entre tantas leituras, foi justamente uma do filósofo antiteísta alemão  que me inspirou. Falo de Além do Bem e do Mal ou Prelúdio de uma Filosofia do Futuro, obra em que F. Nietzsche, como sempre, critica venenosamente a moral vigente enquanto esboça para o leitor como seria a filosofia do futuro, que tresvaloraria todos os valores vigentes.

Ainda assim, o que tem isso a ver com a atual juventude do Brasil? Simples. Uma parcela desta, assim como Nietzsche, deseja revolucionar o modo de pensar do mundo e mudar, com isso, "o sistema". O que colocaria o filósofo de Rocken, então, (tantos) degraus acima de nossos jovens intelectualmente falando?

Primeiro, e mais importante, é a relação entre "subversor" e "sistema". Enquanto alguns imbecis juvenis colocam o modus operandi do mundo como "malvado porco capitalista opressor" (e a falta de pontuação neste trecho é intencional, leitor normativista, não se assuste), pondo-se, obviamente, na posição de vítimas da sociedade, o pitbull anti-marxista coloca-o em uma posição patética, apotando, sem piedade e até com certo exagero, como a união entre o Cristianismo e o Segundo Reich Alemão (lembrando sempre que o de Hitler é o Terceiro), este com uma educação emburrecedora e aquele com a "moral de escravos", conseguiu nivelar por baixo a sociedade alemã, considerada por ele, salvo raras exceções, incapaz de produzir verdadeira arte, cultura ou intelectualidade.

Inclusive, Nietzsche nos fala que é justamente o baixo nível intelecto-artístico-cultural dos alemães a ele contemporâneos a causa de estes comprarem com tanta facilidade todo tipo de igualitarismo. Curiosamente, o que a alta quantidade de jovens ditos adeptos de ideologias "igualitárias" e "progressistas" mostra é que, além de Nietzsche dar conta de superar intelecto-cognitivamente pessoas mesmo mais de 100 anos mais novas que ele e seus livros (o próprio Além do Bem e do Mal é de 1886, para o leitor ter uma ideia), pelo visto ou todos descendem diretamente dos alemães do Segundo Reich e herdaram sua mentalidade, ou, ao contrário do que os progressistas de boutique querem dar a entender, de fato, a humanidade pouco mudou.

Aliás, minto, uma coisa sim mudou: a razão pela qual se critica um sistema vigente. Afinal, em Ecce Homo (e faço aqui mera paráfrase, pois não tenho o livro em mãos nem lembro da citação completa), Nietzsche nos explica que critica o Cristianismo não por ressentimento, mas sim por pura questão de divergência  quantos aos ensinamentos dessa religião, afinal, como ele mesmo diz, sempre foi bem tratado pelos cristãos que conhecera e com quem debatera. Já  se analisarmos o discurso da "juventude crítica", poderemos perceber vários traços não só de ressentimento, mas também de uma ignorância atroz quanto ao objeto criticado. Mais uma vez, o anti-cristão (e Anti-Cristo) alemão, apesar de todas as controvérsias, se sobressai intelectualmente.

Digo "apesar de todas as controvérsias" porque, sendo Nietzsche extremamente misterioso e irônico em seus escritos, é difícil saber quando está sendo totalmente sincero em suas obras. Ainda assim, isso não muda o fato de que nossos jovens têm muito a aprender com as obras do alemão.

Devo admitir, não vou me arriscar a afirmar se Nietzsche conseguiu ou não seu empreendimento de superar Bem e Mal, mas não precisa ser um grande intelectual para perceber que a parte "crítica" de nossa juventude, com certeza, está bem Aquém (abaixo) do Bem e do Mal. Afinal, apesar de colocarem o filósofo antiteísta como um símbolo do Individualismo, são esses imbecis juvenis os verdadeiros representantes de um paradoxal "individualismo coletivista": coletivista por declarar preocupação com problemas sociais, mas predominantemente individualista quando se percebe que, como bem disse o Arthur Ribeiro, citado no começo do post, aquilo com que se preocupam esses púberes adolescentes e jovens adultos não é a sociedade, mas sim os seus próprios interesses.

Voltando ao Individualismo, eu ainda diria que, ao contrário do que apregoa o senso comum sobre o bigodudo de Rocken, este representa não uma linha de pensamento do Individualismo, mas sim da Individualidade, pois, inegavelmente, o que Nietzsche queria era assegurar o seu direito a um pensar realmente divergente. Já os imbecis juvenis atuais, ao se associarem a todos os "-ismos" possíveis e mais alguns, acabam por descartar as duas mais importantes "-ades" além da Individualidade: a Sinceridade e a Honestidade Intelectual. Esse, meus amigos, é o Póslúdio (o resultado, considerando que um prelúdio é um precedente de algo) da falta de Filosofia de qualidade na vida da atual juventude brasileira.

Ainda falando sobre "-ismo" e "-ade", deixo, para homenagear os imbecis juvenis, um soneto feito especialmente por mim para esta ocasião, metrificado com um quarteto e um terceto dodecassílabos e um quarteto e um terceto octossílabos e rimado apenas com palavras terminadas nos dois sufixos mencionados acima. O meu leitor que aprecia poesia poderá até, justamente, reclamar dessa mediocridade formal e do conteúdo agressivo, porém digo que não fiz essa poesia pensando nele, mas sim nos "jovens críticos". Afinal, fazer um soneto com a métrica mais prestigiada nesse tipo de poesia, a dos versos decassílabos/ decassilábicos, seria inferir que os criticados neste post merecem essa qualidade e esse zelo todo (além do que, se contarem o número de sílabas métricas do meu soneto e de um soneto decassílabo, verão a mesma quantidade), e usar mais que dois sufixos para rimar para pessoas que  quase certamente mal utilizam dois dos neurônios de seus cérebros tornar-lhes-ia o entendimento da poesia praticamente impossível. Aqui vai:

Juventismo e Brasilidade - Muito individualismo, pouca individualidade

Dizei-me vós que nesta era de hedonismo
sobre a juventude desaba a tempestade.
Enquanto flerta-se com o individualismo
faz-se comédia com a individualidade

É quase um metafisicismo
perceber essa imaturidade
pois entra-se no ideologismo
com a maior facilidade

Encaremos a realidade:
debater contra progressismo
virou uma bestialidade

depois que um desestimulante juventismo
aliado a uma brochante brasilidade
desembocou em muito mais infantilismo


Bom, para finalizar, devo dizer duas coisas. Primeiro, discordo em partes do Arthur quando ele diz que a mentalidade revolucionária desses jovens é essencialmente perigosa. Em parte porque, apesar de reconhecer esse perigo, não veria nada de ruim em mudanças, mesmo que radicais, mas isso se dá simplesmente porque sou um fã delas. Para mim, então, o que me faz receoso dessa "revolução" não é ela em si, mas o modo como ela se dará, pois prefiro o ativista declarado ao ativista cultural velado (mas isso se dá por uma questão de covardia x coragem, que explicarei futuramente)

Segundo, sei que não se explica a própria poesia, mas, nesse caso, peço o perdão dos nobres leitores, pois, como bem sabem, não sou poeta (rsrsrs). Além do que, o fiz para evitar maiores transtornos. Peço perdão também pelo tom agressivo tanto deste texto quanto da poesia. O detalhe é que, apesar de já ter reconhecido em post anterior que existe sim uma discriminação exagerada sendo promovida contra os jovens, negar sua parcela de culpa e delegá-los ao papel de meras vítimas seria desonestidade intelectual. Por isso, apelo ao atual imbecil juvenil que deixe de lado os "-ismos" e que analise a vida com mais critério. Afinal, assim se entra no mundo adulto e se pode ser tratado com seriedade.

Enfim, era isso. Como prometido, linko o texto do Arthur no fim do post para quem quiser apreciar e agradeço à vossa audiência, amigos leitores, que antes do fim deste mês já bateu o recorde do blog, que era de 1119 visualizações.

Espero que tenham gostado e que continuem dando seu importante prestígio e feedback a este blogueiro (e inepto poeta). Despeço-me por aqui e mando-lhes meu forte abraço de sempre.

Link:

Texto do Arthur Rizzi Ribeiro sobre a atual juventude brasileira facebookiana: http://arthurizzi.wix.com/pensamentosavulsos#!por-trs-das-mentes-juvenis/c1mgq

22 de mar de 2013

Espírito de Aniversário

Olá, caros leitores, como andam? E com as famílias, tudo beleza?

Bom, como eu havia falado no post Respostas, falaria sobre o segundo dos livros que li do Pondé (Contra um Mundo Melhor: Ensaios do Afeto), mas não detalhadamente, pois não havia me marcado tanto quanto o Guia Politicamente Incorreto da Filosofia.

Por isso, decidi falar sobre os ensaios do afeto como fiz com o Ética, de Spinoza, e outros livros e leituras em Espírito Natalino, ou seja, vou colocá-lo em um pacote de presentes a serem dados ao fiel leitor. Sim, amigo leitor, hoje, 22/03/2013, é meu aniversário, o que significa que farei uma pequena mudança na página Sobre o Autor.

Bom, aos trabalhos. Como da última vez indiquei três livros, vou, para manter o padrão, indicar o mesmo número, sendo um deles, logicamente, o Contra um Mundo Melhor, e outro novamente um livro de Nietzsche, autor com quem "fiz as pazes filosoficamente" após ler a obra em questão.

Porém, mesmo com essas pazes, meu filósofo predileto ainda é o parisiense Jean Paul Sartre (1905-1980), autor de O Existencialismo é um Humanismo, primeiro livro sobre o qual falarei. Basicamente, o francês é conhecido por duas coisas, sendo uma delas o seu "teatro de costumes" de alta qualidade (recomendo fortemente O Diabo e o Bom Deus e Entre Quatro Paredes)* e a outra justamente o ensaio supracitado, originado de uma palestra, ministrada em 1945, sobre os argumentos existencialistas. O livro se divide em duas partes: a palestra em si e as perguntas, ou, melhor dizendo, o debate entre Sartre e Pierre Naville, um marxista militonto anti-existencialista.

Apesar de os gêneros textuais empregados no livro serem mais dinâmicos que as tradicionais dissertações filosóficas de outras obras-chave de filósofos, isso não o torna menos denso, o que significa, trocando em miúdos, que não é uma leitura fácil. Ironicamente, das três leituras, a que eu considerei mais fácil foi justamente a obra Ecce Homo, um dos melhores livros do bigodudo alemão e buldogue do anti-marxismo, Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900). Sendo bem sucinto, esse é um livro em que, além de discutir novamente os conceitos que já tinha abordado mais detalhadamente em suas dissertações anteriores, Nietzsche ainda presenteia o leitor com um resumo dessas mesmas obras, sempre com seu estilo contundente e inconfundível.

Curiosamente, é justamente um adepto do Cristianismo, doutrina extremamente criticada pelo filósofo alemão, um dos melhores herdeiros desse estilo. Falo do inenarrável Luiz Felipe Pondé (1959-), que já apresentei ao leitor e cuja obra já citei anteriormente. Ao contrário do Guia de Filosofia, os Ensaios do Afeto, ao invés de terem só textos curtos, são um misto das tradicionais provocações pondeanas com suas menos frequentes, mas ainda mais relevantes, reflexões e digressões filosófico-existenciais. No primeiro tipo, enquadram-se textos como Caráter (Capítulo 13/32) e Dinheiro (Capítulo 23/32), em que o PUCano questiona, sempre com tom provocativo, aquelas velhas máximas que alguns usam para ressaltar seus irrepreensíveis caráteres e seu desapego ao dinheiro, fazendo, assim, o que Pondé chama de "marketing de comportamento".

Já no segundo tipo, temos Imperfeição (Capítulo 1), O Abismo (Capítulo 17) e A face do filósofo hebreu (Capítulo 31), em que Pondé dá verdadeiras aulas sobre seu paradigma cético-trágico de análise do mundo. Ainda assim, é em Jantares Inteligentes (Capítulo 14), um dos textos "mistos" do livro, que a ironia e acidez pondeanas vão ao ápice com uma análise simplesmente hilária da vida da "gente chiquinha de São Paulo", como diz o próprio Pondé.

Ou seja, do que perceberam, amigos leitores, não serei eu um bom resumidor desses livros e, portanto, cabe a vocês a descoberta de mais mistérios e indagações fascinantes de dentro deles. Assim, farei o que devo e prosseguirei as recomendações.

Ainda no plano da escrita politizada, quero recomendar textos de dois amigos blogueiros com novas propostas para reformular nosso jeito de pensar política, sendo uma delas do Pérsio Menezes (do peublogg) para mudar o modelo de debate eleitoral, e a outra, do Luciano Henrique Ayan (do blog Luciano Ayan), em que ele propõe o que chama de Neo-Iluminismo, no qual me focarei no próximo parágrafo (mas já aviso que os textos do Ayan são tão contundentes e objetivos que, ironicamente, eles próprios são suas melhores explicações).

Basicamente, o que o cético político propõe é que a sua corrente seja mais uma opção seja mais uma opção para aqueles que, como eu, apesar de serem anti-esquerda e/ou anti-liberalismo (nos costumes), não se identificam necessariamente com todos os valores conservadores, direitistas ou libertários e estão politicamente "órfãos". Sem dar mais detalhes, digo apenas que recomendo esse texto por ser uma das inspirações que tive para criar meu próprio paradigma político, sobre o qual discorrerei  no último post da série sobre Política, mas que utilizarei ao longo desta.

Entretanto, recomendar apenas uma de minhas inspirações não daria ao leitor pistas suficientes sobre o meu paradigma. Recomendo, então, os outros fatores que me inspiraram: Outro texto do Ayan, este sobre consumo crítico de notícias da mídia, um vídeo do Clarion de Laffalot chamado A Metáfora da Caixa de Bombom e um vídeo do nobre Guilherme Tomishiyo com ponderações sobre os conflitos político-ideológicos entre liberais e conservadores.

Finalmente, para aqueles que gostam de unir Literatura, Filosofia e Mitologia, tenho um conto do amigo Leonardo Levi, do Vida Sofista, chamado Sombras. Para não dar spoiler no enredo, digamos apenas que o conto tem, do início ao fim, a surpresa e o suspense bem tramados como padrão.

Enfim, eram essas minhas recomendações de hoje a vocês, caros leitores. Obviamente, incentivo-os fortemente a lerem e verem outras coisas das pessoas aqui citadas, pois é assim que se constrói pensamentos e se entende a importância do debate e do pluralismo democrático.

Bom, espero que tenham gostado dos presentes (e vou colocar a lista de capítulos do livro do Pondé para aguçar a curiosidade de vocês) e que continuem me dando a sua atenção. Obrigado pela atenção já dada, um forte abraço para todos vocês e até breve.

Links:

Texto do Ayan sobre o Neo-Iluminismo: http://lucianoayan.com/2013/03/14/como-pensar-fora-da-caixa-esquerdista-a-partir-do-neo-iluminismo/ 

Texto do Pérsio Menezes para reformular a nossa democracia: http://peublogg.blogspot.com.br/2013/03/por-um-novo-modelo-de-representacao.html

Texto do Ayan sobre Consumo Crítico de Notícias da Mídia: http://lucianoayan.com/2013/01/30/dicas-para-se-tornar-um-consumidor-critico-de-noticias-e-conteudo-de-midia/

Vídeo do Clarion: http://www.youtube.com/watch?v=UoZ_X8a47Oc 
Vídeo do Guilherme Tomishiyo: http://www.youtube.com/watch?v=MdGQru1LTRQ

Sombras, por Leonardo Levi:

http://vidasofista.blogspot.com.br/2013/01/sombras-parte-1.html
http://vidasofista.blogspot.com.br/2013/01/sombras-parte-2.html
http://vidasofista.blogspot.com.br/2013/01/sombras-parte-3.html
http://vidasofista.blogspot.com.br/2013/01/sombras-parte-4.html
http://vidasofista.blogspot.com.br/2013/01/sombras-parte-5.html
http://vidasofista.blogspot.com.br/2013/01/sombras-parte-6.html

* Sobre os livros que citei, devo dizer que é extremamente difícil achar O Diabo e o Bom Deus, mas a leitura vale totalmente o esforço.

Índice de Contra um Mundo Melhor:

Introdução - A forma pura da pedra 11
1. Imperfeição 15
2. A ruína 25
3. Medos masculinos e mulheres obsoletas 28
4. Passado 41
5. Baratas 45
6. A janela 49
7. O gosto da culpa 61
8. Hamlet 67
9. A caça 71
10. Promiscuidade 77
11. Pureza 81
12. Nudez 85
13. Caráter 89
14. Jantares Inteligentes 93
15. Ela 101
16. Nuance 105
17. O abismo 109
18. O rei Davi 127
19. Destino 131
20. Uma pequena moral 135
21. Agonia 139
22. Cotidiano 145
23. Dinheiro 149
24. Babel 155
25. Afrodite 165
26. A palavra mortal 171
27. Wasteland 175
28. Sobrevivente 181
29. Liberdade 185
30. Inferno 191
31. A face do filósofo hebreu 195
32. No Sinai 211 

20 de mar de 2013

Revolução e Besteiras - Parte 2

Olá, leitores, como vão? Vamos continuar falando sobre Revolução e Besteiras? Sim? Beleza, então. Hora de prosseguir refutando os "mandamentos do reacionário perfeito", ou melhor, como diria o meu amigo Antonio Amaral (marxista roxo (!)), o "guia do idiota perfeito".

Paramos no 16, vamos ao 17:

17- Reserve pelo menos uma hora, durante as festas de aniversário de seus filhos, para aquela roda em que alguns contam piadas sobre padeiros portugueses burros, negros primitivos, judeus e árabes sovinas, gays escrachados e índios canibais. É necessário, para reforçar a coesão da comunidade burguesa “cristã-velha”!

Aqui, sendo sincero, nem tem muito o que comentar, especialmente porque esse tipo de visão não tem a ver com reacionarismo ou revolucionarismo, mas sim com esclarecimento. Além disso, temos de lembrar também que esse mesmo articulista imputa um monte de rótulos negativos ao "reacionário" sem dó nem piedade. Novamente, que falta faz olhar para o próprio rabo algumas vezes!

18- Quando forçado a conversar com pobres, tente parecer um grande doutor, empregando seguidamente expressões estrangeiras; se um subalterno for inconveniente ou falar demais, dispare sem hesitar: “Fermez la bouche!” .

1- Novamente, é um exemplo quase fictício, e só se aplica a débeis mentais, não necessariamente a reacionários. Como eu disse, débeis mentais existem em qualquer lugar e grupo político, rs.

2- Quando forçado a conversar com mídia burguesa, recuse-se a dar entrevista e mande-os à merda. Familiar, não?

19- Seja sócio de um clube tradicional, ainda que falido, e se possível ocupe uma de suas diretorias, mesmo que totalmente irrelevante. Manifeste-se sempre contra a entrada no quadro social de emergentes sem diploma e outros tipos sem classe.

Novamente, não é reacionarismo, é preconceito ou manutenção de algum status quo do clube. Próximo.



20- Jamais ande de trem ou de ônibus. É a suprema degradação, comparável somente a ser açougueiro na sociedade absolutista.

Idem ao item 19. Além disso, segundo esse mesmo artigo, não há relação necessária entre reacionarismo e alta sociedade, afinal, se "reaça" é qualquer um contra "filho de pobre entrar em universidade" (frise-se bem as aspas), temos "reaças" em todas as classes. Logo, C.Q.D., até agora nada de reacionarismo.

21- Obrigue todo empregado doméstico que venha a cair sob suas ordens a comprar uniforme e usá-lo diariamente, impecavelmente lavado e passado. Afinal, para que serve o salário mínimo?

Isso ocorria mais com alguns patrões na época de juventude da minha mãe, ou seja, há 30 ANOS. Além disso, continuo dizendo, reacionarismo não é preconceito. Parem de gritar "reacionarismo" em situações em que o que existe é ignorância pura e simples.

22-Jamais escute música baiana de qualquer vertente, samba, forró ou cantores sertanejos. Uma vez flagrado, sua reputação de homem civilizado estaria arruinada.

Curioso (e, novamente, preconceito não é reacionarismo, é ignorância), eu vejo gente DOS CINCO LADOS agindo desse jeito. Ó, serão todos um bando de "reaças-racistas-homofóbicos-conservadores-vá à merda", como diria o Ilmo professor Marcos Bagno?

23-Pareça o mais alinhado possível com o liberalismo do século XXI. Tendo preguiça de se dedicar a textos complexos, leia pelo menos “Não somos racistas”, de Ali Kamel, e o “Manual do perfeito idiota latino-americano”. Passará como intelectual para pelo menos 90% da juventude de direita.

1-Negar racismo não é reacionarismo, é burrice e ignorância.
2- Então o "reacionário" deve fazer como os esquerdistas, que vivem vomitando por aí as "jenialidades" que aprenderam com os grandes filósofos Madrilenha Shallwe e Vaidormir Safadle, digo, Marilena Chauí e Vladimir Safatle?

24- Morra virgem, mas nunca apresente como esposa, noiva ou namorada uma mulher que não caiba no estereótipo da burguesa cosmopolita, porém comportada.

Novamente, isso não tem nada a ver com reacionarismo, mas sim com manutenção de algum status quo. Melhor dizendo, não querer a ascensão social de alguém não é reacionarismo, é corporativismo, coisa da qual NENHUMA forma de governo está livre.

25- Faça eco aos discursos dos octogenários conservadores que constantemente repetem a fórmula “no meu tempo não era assim”, mesmo que saiba sobre inúmeras falcatruas e atrocidades “do tempo deles”. Quanto mais perto do Império e da República Velha, mais longe da contaminação esquerdista!

De fato, esse é um discurso reacionário, pois fala em volta a um tempo passado. O problema é que, ao contrário do que se diz, como as pessoas eram outras e a linha de pensamento do brasileiro era diferente, as atrocidades ocorriam, mas em número bem menor.

Ainda assim, pessoal, não é meio curioso que foi justamente durante o período em que a esquerda começou a dominar as universidades que o Império mesmo começou a ser demonizado? Pois é. Quantos de vocês, assim como eu, não foram apresentados a um D.Pedro II inerte, vagabundo e indolente, quando, na verdade, ele era um intelectual antiescravagista admirado, entre outros, por Darwin (que veio ao Brasil para começar a formular sua Teoria da Evolução) e Nietzsche (!)?

Creio que, dessa mentirada toda disseminada por esquerdistas antimonarquistass, o articulista não se lembra, não é?

26- Passe sempre adiante, para parentes, amigos e conhecidos, notícias forjadas na Internet, no estilo “Todas as mulheres de uma cidade do Ceará se recusaram a trabalhar numa fábrica de sapatos, porque já recebiam o bolsa-família”. Não importa se é impossível que qualquer pessoa com mais de quatro neurônios ativos acredite que uma cidade inteira tenha recusado um salário de pelo menos seiscentos reais por achar que vive bem com um auxílio de cento e cinquenta.

Apesar de ser uma atitude antiética e sensacionalista, nenhuma relação é guardada com o reacionarismo necessariamente. Próximo.

27- Repasse, igualmente, juízos de valor negativos sobre personalidades de esquerda, na linha “Michael Moore é mentiroso”, “Chico Buarque é um comunista hipócrita que vive no luxo”, “Dilma foi terrorista”, etc. É preciso dar continuidade à teatral associação entre reacionarismo e moralidade.

Aqui, apesar de eu não ser fã de tu quoque, tenho que dizer que, além de não ter porcaria nenhuma a ver com reacionarismo, especialmente porque nenhuma das pessoas citadas propõe qualquer REVOLUÇÃO, esse tipo de "difamação" é simplesmente o troco que a direita, que finalmente parece estar acordando para debater politicamente, quer dar na esquerda.

E também, convenhamos, não acho que seja o caso de associar reacionarismo e moralidade, mas sim associar revolucionarismo com Imoralidade, dando o troco naqueles que associam reacionarismo com Preconceito e Ignorância. Como diria meu amigo Luciano Ayan, é assim que funciona a guerra política, senhores.

28-Diante de qualquer texto ou discurso de esquerda, classifique-o imediatamente como doutrinação barata ou lavagem cerebral. Não importando sua eventual ignorância sobre o tema, é preciso fechar todos os espaços à conspiração gramsciana mundial.

Diante de qualquer discurso conservador, classifique-o imediatamente como um atentado aos direitos humanos. Não importando sua eventual ignorância sobre Conservadorismo, é preciso fechar todos os espaços à uma voz dissidente e democraticamente legítima.

Parecido, não é? E igualmente real.

29- Sustente a surrada versão de que “apesar dos erros, os milicos salvaram o Brasil do comunismo em 1964”. Desconverse mais uma vez se alguém perguntar como se chegaria ao comunismo através da provável eleição de Juscelino Kubitschek em 1965.

Pois é, cara, isso me surpreendeu muito. Agora, fontes, por favor, porque há várias que dizem que, sem a intervenção dos militares, no mínimo, o Brasil teria caído em um longo banho de sangue com guerrilhas entre direita e esquerda.

30- Deprecie ao máximo mexicanos, chilenos, peruanos, paraguaios, bolivianos, colombianos e demais hispânicos como caboclos de cultura atrasada. Abra exceção para argentinos ricos filhos de pais europeus, desde que estes se abstenham de chamá-lo de macaquito.

"Reacionarismo" não é igual a preconceito. Próximo.

31- Defenda o caráter sagrado da propriedade rural. Quando alguém recordar que as terras registradas nos cartórios do estado do Pará equivalem a quatro Parás, procure ao menos convencê-lo de que é uma situação atípica.

De fato, reconheço que muitos ruralistas o fazem, mas o caso é que, entre pessoas comuns, a birra é com a atitude muitas vezes desnecessariamente violenta dos Sem-Terra . Mesmo assim, reforma agrária não é indício concreto de revolução, logo, C.Q.D., reacionarismo inexistente.

32- Afirme com veemência que todo posseiro, índio ou quilombola em busca de regularização de terras é vagabundo, mesmo que seus antepassados estejam documentados no local há duzentos anos. Por outro lado, todo latifundiário rico sempre será um proprietário respeitável, ainda que tenha cercado sua fazenda à bala há menos de vinte.

1- AAAAAAAAAAAAAAAAAAAI MEU SACO, quantas vezes vou ter de repetir que não se deve gritar "reacionário!" para quem é pura e simplesmente um ignorante?
2- Mesmo assim, o que alguns comunistas esquecem é que nem todo declarado "índigena" o é de fato e que, por isso, essas concessões devem ser feitas com muito cuidado. Maaaas, isso não tem relação com reacionarismo, como eu já disse.

33- Denuncie nas redes sociais os ambientalistas que tentam embargar a construção de fábricas de artefatos de cimento em bairros superpopulosos e de depósitos de gás ao lado de estádios de futebol. Esses idiotas não sabem que nada é mais importante do que o crescimento do PIB?

Idem ao item 32.

34- Rejeite toda queixa que ouvir sobre trabalho escravo. É tirania impedir que alguém trabalhe em troca de água, caldo de feijão, laranja mofada e colchão de jornal, se estiver disposto a isto. Deixem a vida social seguir seu curso espontâneo!

Favor não confundir Reacionarismo com Anarcocapitalismo, especialmente porque um traço do Reacionarismo, que é a religiosidade, está praticamente ausente nos AnCaps.

35- Quando alguém protestar contra o assassinato de duzentos gays no ano Y, responda que outras quarenta mil pessoas morreram violentamente naquela temporada. Finja que é limítrofe e não entendeu que a cifra se limita aos gays mortos em decorrência desta condição e não aos que tombaram em latrocínios, brigas entre torcidas e disputas armadas por vagas de garagem.

Ok, isso aqui é meio difícil de se examinar, pois, enquanto conservadores exageram dizendo que não existe homofobia, eles também mostram relatórios que apontam que essas mortes de gays são mortes de todas as naturezas, não só por homofobia. Então, não vou tacar pedra aqui. Ainda assim, negar homofobia, meu caro articulista, NÃO É REACIONARISMO, pois não é uma volta a algum estágio anterior, exatamente porque, no nosso caso, voltar ao estágio anterior seria NÃO DISCUTIR a questão homossexual.

36- Acuse todo movimento constituído contra determinado tipo de opressão de querer promover a opressão com sinal contrário. As feministas, por exemplo, pretendem castrar os machos e colocar-lhes avental para lavar a louça e cuidar de poodles.

Nem mesmo quando esses grupos protestam contra a existência de um papa durante um conclave? Será mesmo que as minorias, por terem sofrido alguma opressão de ALGUMAS pessoas, podem passar dos limites desse jeito? Ah é, esqueci, elas não são reacionárias, assim como não necessariamente o é um anti-feminista, rs.

37- Enalteça “esportes e diversões” que favorecem o gosto pelo sangue, como arremesso de anões, rinhas de galo, pegas, caçadas em áreas de preservação ambiental, touradas, farras do boi e congêneres. Como já dizia seu patrono oculto Benito Mussolini, “o espírito fascista é emoção, não intelecto”.

Será talvez por isso que Stalin, o líder e genocida comunista, perseguiu todos aqueles intelectuais, como Bakhtin, que se opunham ao seu governo? Aliás, será que podemos então chamá-lo de fascista, pois foi um dos que mais matou o próprio povo? Afinal, segundo a lógica do articulista, fascistas gostam de sangue, não é?

38-Procure enxertar referências bíblicas nas suas falas sobre política. Ao defender um oligarca truculento, arremate a obra dizendo algo como “Cristo também jantou na casa do rico Zaqueu”. Tente dar a impressão de que qualquer um que venha a contestá-lo despreza pessoas religiosas.

E na maioria das vezes, desprezam. Além disso, cadê reacionarismo aí?

39-Apresente a todas as crianças que tiver ao seu alcance, antes dos dez anos, o repertório integral de Sylvester Stallone e similares, nos quais o árabe é sempre terrorista, o vietnamita um comunista fanático que jamais tira a farda e o hispano-americano batedor de carteira ou traficante. Tendo a chance, compre também Zulu, para a garotada aprender desde cedo que africanos são selvagens que correm em torno da fogueira sacudindo lanças de madeira.

Favor ler quase todas as minhas refutações neste e no outro post de novo.

40- Não permita que a política externa dos Estados Unidos seja criticada impunemente. Nunca se sabe quando o homem de bem precisará de um poder maior e talvez irresistível para defendê-lo do zé povão.

Não permite que o democrático governo cubano seja criticado impunemente. Afinal, nunca se sabe quando um comunista de bem precisará da ajuda deles para acabar de vez com os porcos capitalistas americanos.

Pois é, leitor, agora, onde está o reacionarismo aí é algo que eu não sei responder.


Bom, esse é o fim dessa interminável lista de besteiras. Peço desculpas por não ter refutado tudo detalhadamente, mas, como vocês puderam notar, ficou muito repetitivo depois de certo item. Aliás, acho que puderam notar também que, dos 40 "mandamentos", além de quase todos serem absolutamente falaciosos, no máximo CINCO eram de fato "reacionários". Ou seja, basicamente, quem criou a lista definitivamente está precisando estudar mais sobre as diferenças entre as correntes sociopolíticas, que eu expliquei no primeiro post.

Enfim, amigos leitores, despeço-me por aqui e adianto que, ainda nesta semana, haverá mais um post para vocês. Não adiantarei, no entanto, o conteúdo, mas creio que a espera valerá a pena.

Bom, é isso, espero suas críticas e mando-lhes meu forte abraço.

19 de mar de 2013

Revolução e Besteiras - Parte 1

Olá, amigos leitores, e estamos aqui para mais um de nossos bate-papos.

Bom, há alguns dias me mostraram um artigo no site Pragmatismo Político sobre o "reacionário perfeito" (este aqui), apontando os 40 "mandamentos" que este deve seguir. Sendo bem franco, achei que o artigo que refutei sobre Telenovelas tinha sido a maior bizarrice que o povo da esquerda pseudo-radical poderia produzir, mas eu nunca esperaria esse gigante e bizarro espantalho (e falarei sobre a Falácia do Espantalho futuramente) sobre os opositores dos ditos seguidores de Marx.

Mas, como vocês sabem, amigos leitores, apenas ridicularizar um grupo não faz muito o meu tipo. Sinto, então, que devo mostrar porque a maioria das associações com "reacionarismo" são falsas e falaciosas. Para isso, primeiro explicarei alguns termos (que também serão úteis na minha série sobre Política) que são usados para classificar pessoas quanto ao seu posicionamento sobre os costumes e a moral da sociedade (e até sobre a política) e depois vou listar um por um dos 40 itens e discorrer sobre eles no mesmo esquema que já usei no artigo sobre Telenovelas e em outros posteriores e anteriores.

Isso significa, então, que este post será dividido em pelo menos duas partes. Mesmo assim, leitores, isso não vos impede de deixarem vossos comentários sobre cada parte da postagem, afinal, como vocês sabem, não tenho problemas em fazer um post respondendo às respostas que me mandarem. Enfim, vamos aos trabalhos.

A primeira coisa sobre a qual quero falar é sobre como pessoas são classificadas de acordo com suas posições socio-político-morais (sim, o neologismo é forçado, mas foi o melhor que achei). Basicamente, existem duas interpretações principais que usamos para essa classificação. Enquanto uma delas divide as pessoas em quatro estratos (reacionários, conservadores, liberais, revolucionários), a outra divide em cinco grandes grupos, sendo estes reacionários, conservantistas, conservadores, liberais e revolucionários. No caso, e como esta classificação é menos generalizadora do que aquela (que iguala conservadores e conservantistas), vou explicar os termos segundo a segunda classificação e deixá-los transparentes para todos.

Comecemos, então, com o segundo e terceiro termos (deixarei o primeiro para o final). O que seria, afinal, um conservantista? E o que o diferencia de um conservador?

Sendo bem sucinto, o primeiro, assim como o segundo, é todo aquele que tem certa resistência a mudanças. O que os diferencia é que enquanto o conservador, apesar de não ser um fã de mudanças, sabe reconhecer  que algumas, por algum motivo, são necessárias, e advoga por elas após criteriosa análise de suas implicações na sociedade, o conservantista rejeita todas igualmente e prefere manter as coisas como estão mesmo que sofra por isso depois.

No outro polo, temos os liberais, que são todos aqueles que têm pouca resistência a mudanças nos costumes e que, por isso, geralmente advogam a favor destas, mesmo que alguma delas possa trazer danos à sociedade, e os revolucionários, que são aqueles que tentam mudar não apenas alguns costumes da sociedade, mas sim reformá-la e renová-la por inteiro, seja culturalmente, seja institucionalmente.

Estes, porém, acabam sendo tão radicais em seu desejo de mudança que costumam gerar os seus próprios opositores, os famosos reacionários, aos quais o artigo se refere em tom irônico. Resumidamente, o reacionário é aquele que, ao contrário do revolucionário, não quer mudanças inovadoras (mas nem sempre benéficas, diga-se de passagem), mas sim regressistas (nem sempre maléficas, também diga-se de passagem), ou seja, que façam com que a sociedade volte a um estágio anterior do qual já saiu há algum tempo.

Para dar um exemplo concreto, imaginemos a democracia brasileira. Em relação a ela, enquanto o Conservantismo  iria querer mantê-la exatamente como está hoje, ou seja, sem implementar ou tirar novas políticas nem ceder ou tirar direitos dos cidadãos, o Conservadorismo procuraria analisar criteriosamente alguma mudança e aceitá-la se fosse necessária e benéfica a todos, o Liberalismo (nos costumes, deixemos claro) tenderia a ser favorável a mudá-la independentemente das consequências, o Revolucionarismo estaria na linha de frente para que ela fosse extinta em prol de um objetivo ideológico maior, e o Reacionarismo provavelmente iria querer acabar com ela para que houvesse o retorno da Monarquia ou do Regime Militar.

Não sei se deixei claro, caros leitores, mas o ponto em que quero chegar é o seguinte: pelo que vemos acima, rejeitar novas políticas pró-minorias ou rejeitar a Legalização do Aborto, da Maconha ou da Eutanásia não é Reacionarismo, pois não haveria uma mudança  de volta a um estágio anterior que a sociedade já viveu. Essa rejeição poderia ser classificada, no máximo, como conservantista, mas é geralmente adotada pelos conservadores não como uma forma de "oprimir as minorias e cercear-lhes a liberdade de expressão", mas sim como um modo de incentivar a comunidade a ter cuidado com as mudanças que deseja ver implementadas em seu país, pois, apesar de estas poderem trazer boas consequências, também podem ser extremamente negativas.

Por que disse tudo isso, caro leitor? Porque esse mesmo artigo parece esquecer-se de toda essa gradação de classificação e iguala, de forma desonesta, grupos que não estão ligados uns aos outros por natureza (ou seja, nem todo conservador ou conservantista é reacionário, apesar de todo reacionário ser pelo menos conservador). Com isso, já posso responder, um por um, ao desfilar de besteiras desse artigo. Comecemos, então, pelo primeiro desta vez:

1-Negue sistematicamente a existência de qualquer conflito de classe, gênero, etnia ou origem regional ao seu redor, mesmo que o problema seja evidente até aos olhos do turista mais desatento. Afinal, sempre nos foi ensinado que a sociedade é um todo harmônico.


É muito comum ouvir isso por parte de comunistas que tentam, após usar esse argumento, "catequizar-nos" (e as aspas são porque igualam-se a religiosos apesar de Marx ser declaradamente antirreligioso, rs) com o que julgam ser as ideias do filósofo alemão. Mal sabem eles, porém, que negar os conflitos listados não é o mesmo que dizer que a sociedade é um todo harmônico. Afinal, eu posso negar isso enquanto considero que conflitos não se dão entre grupos, mas sim entre indivíduos. Por mais que eu mesmo não concorde com essa ideia, negar que esse ponto de vista é defensável seria, no meu caso, fechar os ouvidos para vários filósofos que o fizeram com brilhantismo, e colocar que só há duas alternativas (aceitar conflitos de classe ou achar que a sociedade é um todo harmônico), sendo a última reacionarismo, coisa com a qual nem tem relação direta, seria desonestidade intelectual.

Logo, Como Queriamos Demonstrar (C.Q.D), Reacionarismo inexistente, falácia detectada.

2-Não sendo possível negar o conflito, pela sua extensão, tente convencer seu interlocutor de que ele é limitado, reduzido a alguns focos ou induzido por estrangeiros perversos, mas que logo tudo voltará à tranquilidade costumeira.

Seria um bom argumento se, de fato, houvesse ligação entre reacionarismo e conspiracionismo para desviar o foco. Além disso, nenhum dos grupos diz que o país está tranquilo, quanto mais quem quer fazê-lo retornar a períodos ditatoriais para deixá-lo mais TRANQUILO. Logo, C.Q.D, Reacionarismo inexistente.

3-Sendo impossível negar que o conflito é vasto e presente em quase toda parte, tome o partido dos mais poderosos. Afinal, eles representam a ordem, que deve ser mantida a qualquer custo.

Nem a ordem é representada pelos mais poderosos, nem é 100% garantido que estes queiram manter a ordem. Ainda assim, isso seria conservantismo, não reacionarismo.

4- Manifeste sua contrariedade diante de qualquer estatística que aponte para uma tendência de aumento da massa salarial. É inadmissível que os abnegados empreendedores sejam constrangidos a margens de lucro menores.

Assim como é inadmissível aumentar os salários demais e provocar uma mega-inflação no país. Além disso, sabe, essa autoridade anônima de "Cada um dos tópicos abaixo foi diretamente inspirado nas falas ou nas atitudes de pessoas de carne e osso", que é o subtítulo do artigo, é muito inverossímil. Conheço diversos conservadores e até esquerdistas que não gostam de super-aumento de salário por causa desse risco de superaquecimento do mercado, não porque os empresários teriam menos lucro, o que é mentira, pois maior salário, pelo menos em tese, é igual a maiores possibilidades de consumo, que é igual a maiores possibilidades de lucro do empresário. Além disso, não há qualquer relação entre MANTER salários e reacionarismo, pois, nesse caso, os salários teriam de ser diminuidos.

5-Demonstre contrariedade ainda maior quando notar que filhos de operários, camelôs e empregadas domésticas estão frequentando universidades. Prevalecendo esta aberração, que vai limpar o vaso sanitário para seu filho daqui a vinte anos?

Isto aqui só seria reacionarismo se, no Brasil, tivesse havido um tempo em que fosse PROIBIDO que esses grupos frequentassem universidades, o que, do que eu saiba, não ocorre. Além disso, a oposição a Cotas, pelo menos declaradamente, se dá por outros motivos bem mais razoáveis (e, sim, mesmo sendo pró-Cotas Raciais e Cotas Sociais, consigo ver que são legítimas as justificativas).

6-Repita mil vezes por dia, para si mesmo e para os outros, que esquerdismo é doença, ainda que faça parte de uma classe média de orçamento curto, mas que, em estranho fenômeno psicológico, se enxerga como parte da melhor aristocracia do planeta.

De novo, isso não é necessariamente reacionarismo e, além disso, o fato de o "reacionário" em questão ser um iludido não o deixa desautorizado a falar que esquerdismo é doença. Aliás, muito curiosamente, vejo, com a mesma frequência, um monte de esquerdistas falando que direitistas são doentes, mas disso o cara que produziu o artigo não reclama. Engraçado, não?

7-Atribua a culpa pelos altos índices de criminalidade aos migrantes vindos de regiões pobres e imigrantes de países miseráveis. Estas criaturas não conseguem nem reconhecer a generosidade da sociedade que os acolhe.

Sinceramente, não sei com quem esse articulista andou conversando e o que andou bebendo, mas nenhum reacionário que eu conheça usa esse argumento. Aliás, todos ficaram indignados com as declarações de Mayara Petruso (estas), sendo que a maioria disse que nunca viu tanta ignorância em tão poucos caracteres. Além disso, continuo sem saber o que isso tem a ver com reacionarismo. Aliás, uma das figuras mais "reacionárias" DO MUNDO, a jornalista sbtana Rachel Sheherazade, além de ser nordestina orgulhosa, destruiu Mayara em poucos segundos. Então, C.Q.D, Reacionarismo inexistente.

8-Associe, sempre que possível, o uso de drogas a universitários transgressores e militantes de esquerda, mesmo sabendo que o pó mais puro costuma ser encontrado nas festas da “boa sociedade”. É necessário ampliar ou pelo menos sustentar o nível de reacionarismo da população em geral.

Primeiro, vou repetir o que eu venho dizendo: isso não tem nada a ver com reacionarismo, tem mais a ver com conservadorismo e com guerra política talvez. Além disso, estranhamente, imagino que esse articulista, tão orgulhoso da Academia com seus "militantes de esquerda", esqueceu-se repentinamente uma das lições que a própria Academia já nos ensina no começo de nossas vidas acadêmicas, que é a de dar FONTES para as afirmações que fazemos, coisa que ele não fez. Então, além de essa alegação dever ser rejeitada, pois o que se alega sem provas pode ser descartado sem provas, não houve demonstração do reacionarismo aí.

9- Tente revestir seu conservadorismo com uma face humanitária, reivindicando o direito à vida de todos os fetos, ainda que, na prática, vá pagar um aborto caso sua filha fique grávida de um indesejável, e seja favorável ao uso indiscriminado de cassetete e spray de pimenta contra os filhos de indesejáveis já crescidos.

Esse argumento, apesar de mostrar uma posição reacionária (pois o Aborto já foi totalmente criminalizado no Brasil), continua sendo ruim, pois faz uma associação indevida, que é a entre reacionarismo e hipocrisia, e acusa pessoas, sem quaisquer provas, de um crime que rende pelo menos 1 ano de prisão. Por mais que haja gente hipócrita, isso não é motivo nem justificativa plausível para associar  todos os que tomam uma posição reacionária no Aborto à hipocrisia.

10- Assuma o partido, em qualquer querela, daquele que for mais valorizado socialmente. Não é prudente que os “de baixo” testemunhem quebras de hierarquia, nem nos casos de flagrante injustiça.


Novamente, argumento sem nexo, pois, muitas vezes, quem está  por baixo tenta "quebrar a hierarquia" com violência, o que é um erro e um desserviço a outras pessoas que estão na mesma situação. Além disso, existem pares de motivos para se opor a certas "quebras de hierarquia", mas, como o articulista não citou nenhum caso de defesa aos "poderosos", não sou obrigado a justificar essa posição. Ainda assim, de novo, isso não tem nada a ver com reacionarismo.

11- Tente justificar, em qualquer ocasião, os ataques militares da OTAN contra países da Ásia, África ou da América Latina, mesmo que estes não representem a menor ameaça concreta para os agressores. Pondere que não é fácil carregar o fardo da civilização.

 Primeiro, a partir do momento em que eu não conheço nada de política externa, e nem o articulista conhece (pelo menos nada além do que lhe diz a tão confiável "Carta Capital"), não temos como saber o que é "ameaça considerável" ou não, e devemos deixar isso a cargo da própria organização. Além disso, qual é a revolução que está sendo promovida  nesses países? Que revolução promovia o Iraque em 2003, por exemplo? Se não há revolução, não há reacionarismo. Fim.

12- Mantenha assinaturas de pelo menos um jornal e uma revista de linha editorial bem reacionária, para usá-las como argumento de autoridade. Quando suas afirmativas forem refutadas, retruque de imediato com a fórmula “eu sei de tudo porque li o …”.

Mas que estranho... não é justamente isso que a esquerda faz com as suas revistas prediletas? Quer dizer então que o meu grupo pode, mas o outro não? E, sim, eu sei que isso é um tu quoque, mas, neste caso, não se tem provas de que o "revolucionarismo" da esquerda seja o melhor caminho, nem esta está defendendo qualquer posição revolucionária, mas sim atacando a direita (ou melhor, pequena parte dela) sem maiores razões.

13-Nunca se esqueça: se um político socialista ou comunista cometer crimes comuns, isto é da essência do esquerdismo; se os crimes forem cometidos por um político de direita, ele é apenas um indivíduo safado que não merece mais o seu voto.

Além de isso não ser necessariamente reacionarismo e de os crimes cometidos pela esquerda não serem comuns (afinal, 65 milhões de mortos na China de Mao não é um número para crime "comum"), o detalhe é que, ao contrário da esquerda, a direita não tem teóricos políticos, ou seja, ninguém falou como direitistas devem pensar em uma série de livros sobre Filosofia, Economia, Sociologia e Política. Também é por isso que, enquanto muitos esquerdistas têm posições parecidas sobre tudo, os direitistas, além de apoiarem correntes diferentes tanto em Economia quanto em Política, também acabam seguindo linhas diferentes de pensamento em certos assuntos.

14- Vista-se somente com roupas de grifes caríssimas, não importando o quanto vá se endividar. Sobretudo jamais seja visto sem gravata por pessoas das classes C, D e E.


Isso não é um reacionário, é um tonto metido a classe alta. Nada a ver com reacionarismo. Não há essa relação necessariamente.

15- Nunca perca a oportunidade de discursar a favor da pena de morte quando o jornal televisivo noticiar o assassinato de um pequeno burguês por assaltante ou traficante de favela; se, ao contrário, surgir a imagem de algum rico que passou de carro a 200 km/h por cima de pobres, mude de canal, procurando um filme de entretenimento.

Novamente, isso é hipocrisia, preconceito, o que quiser chamar... mas não reacionarismo.

16- Quando ouvir narrativas sobre ações violentas de neonazistas e outros militantes de extrema-direita, minimize a questão. Afinal, eles podem ser malucos, mas contrabalançam a ação da esquerda.

Como eu disse, boa parte dos "reacionários" já reprova essas ações de idiotas metidos a nazistas do terceiro milênio. Além disso, sei lá, o máximo de "neonazismo" que eu ouço direitistas aprovarem é Jair Bolsonaro e, ainda assim, existe muita anti-locução sobre as posições desse Deputado Estadual.


Bom, leitores, vou deixar os outros 24 mandamentos para o próximo post, a ser feito ainda amanhã. Enfim, espero seus comentários, e deixo o meu forte abraço e o meu muito obrigado a quem ler.

11 de mar de 2013

50 Tons de Enganos

Olá, amigos leitores, está mais do que na hora de batermos de novo um papo sobre Educação, não é?

Digo isso por causa da nova medida a ser implantada em escolas estaduais de São Paulo, medida essa que foi e está sendo extremamente debatida Facebook afora nestas últimas duas semanas.

O leitor, sempre brilhante e já acostumado ao meu velho-novo estilo, provavelmente deduziu: "Ah, Octavius, nem precisa falar nada, todos já sabemos que você vai pegar o posicionamento da maioria e destrinchá-lo tal qual fez nos outros posts".

O detalhe, amigo e fiel leitor, é que, como sabem, sou um apreciador da arte do debate e, como tal, devo aprender cada vez mais com os erros de todos que me cercam, incluídos os meus, e um destes é o de tender a subestimar argumentadores de algumas posições das quais discordo.

Por isso, e também por ter quase metade dos meus leitores envolvidos diretamente com a área de educação, sendo um, inclusive, um filósofo da educação da mais alta qualidade (espero seus comentários e um post seu sobre esse assunto, certo, Arthur Rizzi Ribeiro?) e dois pedagogos formados (Alex Pina e Roberta Aires, que também devem ficar à vontade para comentar, assim como os outros leitores), prefiro analisar a questão com um pouco menos de arrogância do que o faço normalmente.

Ainda assim, contra certos argumentos, vou ter de ser enérgico, pois demonstram pura ignorância sobre como se organiza o ensino e sobre a situação em si do ensino. Peço, então, desculpas aos meus leitores se o meu tom se alterar muito, mas, em certos casos, é quase inevitável.

Lendo esse último parágrafo, daria para concluir que eu sou contra essa medida, certo? NÃO, caro leitor, erradíssimo. Digo, antes de tudo, que sou favorável à implementação dessa medida, mas tenho minhas ressalvas. Deixo para explicar isso, porém, no final, pois quero me focar em discutir os argumentos contra a medida. Vamos, então, aos trabalhos.

Primeiro de tudo, é importante explicar direito a proposta, o que, surpreendentemente, foi bem feito pelos sites de notícias da Internet (e eu deixo um link no fim com uma explicação). Sendo bem sucinto, o que ocorrerá é que as  297 escolas estaduais de tempo Integral de São Paulo não terão, nos 3 primeiros anos do ensino fundamental, aulas de História, Geografia e Ciências, e, com isso, o currículo será reorganizado para dar ênfase à Língua Portuguesa no 1º e no 2º Anos e à Matemática no 3º Ano, além de aumentar a carga horária de Artes e Educação Física. A justificativa para essa medida é que ela tornará o currículo escolar mais atraente a todos os alunos.

Bom, confesso que a minha ressalva é em relação a essa justificativa, mas prefiro, como já disse, explicar isso no fim do post. Vou listar, então, os argumentos contra essa medida (em negrito), e refutá-los um por vez . Comecemos com o mais furado de todos:

Isso é o fim da educação no Estado de São Paulo! Absurdo! Mídia alienante, governo maldito, blá-blá-blá, mimimi...

Para refutar isso aqui, é só olhar na própria proposta. Consta lá que 297 escolas apenas terão esse currículo mudado. Agora, amigo leitor, quer arriscar um chute de quantas escolas há no Estado de São Paulo? 300? 500? 800? Não. Existem, no estado de São Paulo e só contando o ensino fundamental, mais de 15 mil instituições de ensino, sendo a grande maioria delas estaduais.

Ou seja, de 15 mil para 297 há uma grande diferença, o que significa não só que essa medida é um TESTE do governo de SP e que, se der certo, pode ser aplicada em outros lugares, como também que o número de alunos que poderiam sofrer com essas medidas é grande, mas ínfimo perto do total de alunos que há em todo o Estado. Além disso, vou discutir sobre como anda o currículo dos primeiros anos do ensino fundamental mais tarde. Mesmo assim, o primeiro argumento é furado.

Com essa medida, agora é que os professores de História se fodem. Afinal, eles já dão tão poucas aulas e vão perder ainda mais aulas, o que vai fazer seus salários diminuírem.

À primeira vista, o argumento parece excelente, não é, leitor? Afinal, é inegável que especialmente os professores de História, uma matéria relativamente importante mas bem desvalorizada pela sociedade em geral, têm pouquíssimas aulas e muita dificuldade em conseguir novas aulas por um infinito número de questões, mas essa medida não é nem será uma das causas de os professores de História (licenciados ou não) não poderem dar aulas para crianças entre 6 e 10 anos. A causa disso é que apenas pedagogos têm a especialização necessária para dar aulas a essas crianças. Ou seja, não tem como professores de História perderem dinheiro, pois eles, por questões de política e estrutura educacional, já não podem dar essas aulas. Ou seja, furada. Próximo.

Mas é um absurdo tirar essas disciplinas do Ensino Fundamental

Vendo a proposta, isso não acontece, tira-se essas disciplinas apenas dos 3 primeiros anos do Ensino Fundamental. Logo, argumento inválido. Continuemos.

Ora essa, tirar essas matérias é justamente o que esse ditador quer, porque, assim, as crianças, sem a história, não terão consciência política formada sobre os reais problemas do mundo, e blá-blá-blá, mimimi...

Amigo leitor, acredite ou não, esse é um dos argumentos mais recorrentes. Agora, pergunto-lhe: "consciência política", "problemas reais", Geraldo Alckmin como ditador... quem fala nesses termos? Pois é, eles mesmos, os comunistas. Curiosamente, TODOS que eu vi usando esse argumento são pelo menos de esquerda liberal, e um deles, inclusive, amigo meu e militante de todo tipo de causa do novo Marxismo brasileiro.

Mesmo eu tendo o João Gilberto (esse militante) como um bom amigo, vai me desculpar, João, mas, para você e para todos os que usaram esse argumento, só um recado: VÃO À MERDA, BANDO DE IMBECIS! Sabe, leitor, o pessoal está querendo politizar crianças de 6 anos com teorias mirabolantes de um sociólogo e guru espiritual que passa longe de ser unanimidade. E outra, desde quando, nessa porra de ensino fundamental, aula de história contém algo diferente de Pedro Cabral, Princesa Isabel e Escravidão?

Além disso, mesmo que fossem mostrados os dois ou mais lados do espectro político, qual é o propósito de politizar crianças entre 6 e 8 anos, sendo que, além de elas não terem maturidade intelectual suficiente para lidar com esse tipo de questão, coisa que só se adquire (e muitas vezes nem assim) com a vivência, isso nos faria voltar ao tempo em que a criança era vista como um mini-adulto? Do ponto de vista psicológico e humano, isso seria um erro tão grande, mas tão grande, que não dá para justificar nem sequer que alguém pense nessa situação como viável.

Lógico, uma coisa é letrar a criança de modo a permitir que ela interprete o mundo ao seu redor de modo mais crítico, mas, além de não serem necessárias aulas de história  nos 3 primeiros anos do Fundamental para isso, esse tipo de coisa também deve ser feita com cuidado para não resultar em sucessivas gerações doutrinadas pela ideologia A ou B.

Resumindo, sério, mesmo este não sendo o argumento mais ridículo, o nível de furada disso aqui é muito grande para ser usado seriamente.

PS: Antes que algum leitor comunista meu venha falar que isso é birrinha de ex-comunista, eu TRUCO que você ache um post sequer aqui, da minha época de marxista, em que eu defenda algo diferente do que eu defendo hoje na educação. Aliás, no fim, ponho um link de um post do Paulo Ghiraldelli Jr. em que ele explica muito sucintamente a relação entre Marxismo e Pedagogia.

Enfim, próximo argumento.

Ai, mas a tendência na educação no exterior é trazer a reflexão científica para o 1º Ano

Para derrubar isso aqui, uma pergunta: O que é "reflexão científica"? Afinal, para entender o que é algo científico, deve-se entender o que é "ciência" e, para isso, o mínimo que alguém estuda é Galileu e Popper, fora outros filósofos da ciência, coisa que não estudamos nem nas aulas de Filosofia do Ensino MÉDIO, quanto mais no Ensino Fundamental. Assim sendo, fica óbvio que não refletimos sobre as ciências, apenas decoramos algumas noções que elas criaram e usam. Próximo argumento, por favor.

Sem essas disciplinas, noções básicas, como higiene, serão perdidas

Errado. É só deixar os professores de Educação Física trabalharem sério, e não como babás, e essa noção continuará sendo ensinada. Afinal (e isso poucos sabem), por ser uma formação da área das Ciências da Saúde, graduar-se em Educação Física requer um bom aprendizado sobre tudo o que envolve saúde, incluída aí a higiene e outras coisas importantes.

Por fim, o último e melhor argumento.

Tirar essas matérias, mesmo nos primeiros anos, seria o mesmo que apenas habilitar os estudantes para escrever por escrever, ou seja, escrever, mas sem ter argumentos

Ok, eu reconheço, essa seria uma boa objeção. No entanto, como eu já disse, o nosso ensino nos três primeiros anos do Fundamental não dá embasamento teórico para ninguém argumentar sobre nada e, além disso, e especialmente com o grande tempo de aulas de Língua Portuguesa, por mais normativizado que o ensino seja (não vou discutir Normativismo x Linguismos aqui, discuto isso em uma série daqui uns anos), ao melhorar a interpretação de texto dos alunos (o que deveria ser o foco dessas aulas-extras de Língua Portuguesa) fazendo-os ler textos, dá para dar-lhes, mesmo que indiretamente, conhecimento sobre algumas coisas. Então, creio eu que este argumento também seja furado.

Bom, leitores, essas são minhas objeções às objeções a essa medida. Está na hora, então, de eu explicar o que me torna a favor dela.

Sendo bem sucinto, além de as aulas das outras disciplinas, pelo menos atualmente, serem redundantes e ensinarem noções ultrapassadas e/ou completamente equivocadas aos alunos, elas poderão ser dadas mais tarde e surtir mais efeito em alunos com melhores capacidades interpretativas e cognitivas, que é o que tanto o aumento das aulas de Português quanto de Matemática, por pior que sejam as metodologias empregadas para cada área, pode proporcionar, pois, com mais tempo hábil, o pedagogo não terá mais desculpas para não fazer os discípulos praticarem o que aprenderam à exaustão. Assim, dá para ser otimista quanto a essa medida.

Maaas, nem tudo é perfeito, e aqui reside a minha ressalva. O maior erro desta medida é sua justificativa, pois diminuir ou aumentar o número de disciplinas não é o fator que tornará o currículo mais atraente. Aliás, quanto mais se cresce academicamente, mais diversos são os assuntos sobre os quais se queria ter aprendido antes. O que torna o currículo atraente é não só aplicar uma metodologia pedagogicamente atraente como também o fato de o professor se mostrar motivado e disposto a fazer os alunos aprenderem, o que não acontece na maioria dos lugares atualmente.

Por fim, em cima dessa minha justificativa, alguns poderiam dizer: Ah, mas quanto mais cedo o aluno tiver contato com essas matérias, melhor. Isso, concordo, é fato, por uma série de razões psicológicas e neurológicas do ser humano. O detalhe é que de nada adianta ensinar noções que o aluno não usará sequer nos anos seguintes da vida acadêmica, quanto mais no cotidiano,

Enfim, era isso, amigos leitores. Deixo alguns links com o que foi apresentado ao longo do post para que vocês deem um pontapé inicial em suas próprias reflexões sobre esse e até outros assuntos.

Bom, espero que eu tenha clarificado um pouco para vocês o porquê de esses argumentos serem furados. Despeço-me por aqui e mando-lhes aquele meu forte abraço, amigos leitores.

Links:

7 de mar de 2013

Respostas

Olá, amigos leitores, como vão?

Bom, este post será usado para responder algumas perguntas que eu venho recebendo de vocês. Como perceberão, o padrão da maioria delas é o mesmo, pois elas são, em sua maioria, pedidos de opiniões sobre alguns temas. Enfim, comecemos os trabalhos.

Pergunta 1: Ei, Octavius, seus posts estão muito longos para um blog. Não tem como encurtar mais?

Então, caro leitor, o caso é o seguinte: acredite ou não, o que faz meus posts ficarem extremamente longos é a falta de revisão. Sim, desde que mudei de estilo não mais revisei o que escrevia. Sim, sei que isso é ruim, mas, enfim, como muitos dos posts foram no impulso (porque eu já sabia sobre o que falaria), deixei de me preocupar com revisões. Porém, percebo que não é só você que demanda isso. Logo, vou tentar encurtar ao máximo a conversa e, quando precisar alongá-la, a não ser que o tema do post não o permita, vou dividi-lo em dois ou até três.

Pergunta 2: O que tem para falar sobre o Nióbio?

Sinceramente, amigo leitor, nada, pois meu entendimento sobre Geologia é muito baixo e ainda não tenho ideia de como faria esse post. Deixo aqui, então, alguns vídeos, entre eles o do Pirulla, sobre essa questão. Deixarei vídeos tanto daqueles que consideram o nióbio uma lenda urbana quanto dos que dessa ótica discordam.

Links: 
http://www.youtube.com/watch?v=RqohMBQfWvk
http://www.youtube.com/watch?v=eN4uNTLcIeE
http://www.youtube.com/watch?v=IJ6hkZ-SFFo
http://www.youtube.com/watch?v=b8s0m3QJ2mc

Pergunta 3: E aí, Octávio, o que fala sobre a nossa amiga Yoani Sanchez? E sobre a morte do Chávez?

Sobre a Yoani, nada, mas deixo um post do meu amigo Luciano Ayan com vários vídeos sobre o assunto, e deixo também um vídeo do Clarion, abordando a questão, como quase sempre, de modo fantástico.

Sobre o Chavéz, vai tarde. Só espero que isso signifique o fim de mais uma ditadura nojenta que há no mundo.

Links:
http://lucianoayan.com/2013/02/25/yoani-sanchez-uma-idiota-util-da-esquerda-e-da-direita/
http://www.youtube.com/watch?v=ALcfkeWZ-8c

Pergunta 4: Ei, Octávio, e a série sobre o Pondé? Vai falar sobre ela quando?

Bom, antes de falar sobre a série do Pondé, vou dar-lhes um resumo sobre o outro livro, além do "Guia Politicamente Incorreto da Filosofia", que será abordado na série. No caso, é o outro livro de "filosofia do cotidiano" dele, o "Contra um Mundo Melhor: Ensaios do Afeto". Mas, como esse livro, eu confesso, não mexeu comigo da mesma forma que o primeiro, não vou fazer um resumo detalhado dele, mas sim fazer o que fiz no post Espírito de Natal, linkado no fim deste post, e apresentá-lo, sem muitos detalhes, junto de outros livros que li recentemente.

Depois disso, vou fazer um post "Merchandising 3" e dar o pontapé inicial na terceira série deste blog.


Enfim, essas foram as perguntas que recebi. Caso os leitores tenham mais algumas dúvidas, não hesitem em comentar no post ou no facebook, pois posso editar aqui com a resposta sem problemas.

Sem mais delongas, era isso o que eu tinha para falar. Bom, obrigado pela atenção, amigo leitor, e um forte abraço.

Link Final: Espírito Natalino

3 de mar de 2013

Falácias e Merchandising 2

Olá, amigos leitores, hora de batermos mais um papo.

Bom, eu tinha falado há algum tempo que iria fazer duas séries de posts, uma sobre Política e outra "só" sobre Luiz Felipe Pondé, sendo que desta falarei em outro post e daquela falarei neste.

Acontece, porém, que tive uma nova ideia para facilitar um pouco mais a nossa comunicação nestes posts. Por isso,  vou explicar primeiro essa minha ideia e depois comentarei sobre como será a minha série sobre Política.

Vamos, então, aos trabalhos. Depois de conversar um pouco com alguns leitores, e especialmente com o leitor Antônio Amaral, mencionado brevemente no post anterior, percebi que um dos problemas que meus posts vêm tendo é o fato de eles serem muito longos. Isso se dá exatamente porque, ao contrário do que eu fazia antes, hoje procuro simplificar e clarear o máximo possível as ideias que expresso nos textos. O detalhe é que é exatamente a falta de uso de termos mais técnicos que deixa os meus posts mais longos, pois ideias que eu poderia expressar em duas ou três linhas precisam de mais de dez para serem, ainda assim, mal expressas.

Decidi por bem, então, começar a fazer posts explicando alguns termos técnicos que eu venha a usar em meus textos. Entre eles, temos as falácias, que já usei em alguns posts. Logicamente, existem milhares de listas de falácias internet afora, porém, acho nelas um defeito crônico, que é o de dar poucos exemplos.

Para evitar ter que linkar 500000 coisas sobre falácias toda vez que usar uma nomenclatura ou duas que sejam, prefiro então fazer a minha própria lista das falácias. Basicamente, serão posts muito curtos apenas explicando brevemente cada falácia e dando muitos exemplos, inclusive mais práticos que os das atuais listas (rs). Depois de feitos, vou linkar todos os posts em um só e chamá-lo de "Lista de Falácias por Octavius".

Mesmo assim, não tenho uma memória muito boa, leitor, então posso deixar de falar de uma ou duas falácias sem a sua ajuda. Então, amigo leitor, conto com você nessa. Caso queira ver alguma falácia de que tenha ouvido falar, comente aqui no blog. Por exemplo, você pode falar: "Ei, Octavius, o que é a falácia da falsa dicotomia?". Se não souber um nome específico, mas quiser colocar um caso, também pode. Por exemplo: "Ei, Octavius, tem alguma falácia para quando uma pessoa coloca apenas dois caminhos opostos para algo que tem outras alternativas?".

Não importa qual seja a dúvida, caro leitor, fale e eu tentarei explicar da melhor forma possível. Porém, como tenho leitores da Filosofia, da Sociologia e da Retórica, conto com eles para corrigirem minhas eventuais falhas, pois, como devem imaginar, não sou especialista no assunto.

Agora, sobre a série sobre Política. Basicamente, farei aqui o mesmo esquema que fiz na série sobre Religião. Não falarei sobre os assuntos com enfoque direitista ou esquerdista (também porque sou apolítico, rs), explicando-os, ao invés disso, apenas com meus pontos de vista. Esta série, especialmente por ter milhares de assuntos possíveis, também não tem data para o fim, mas vocês saberão quando ela acabar, pois meu último post será sobre o que eu considero um "apolítico" (e por isso o nome da série é "Eu, Apolítico") e como eu idealizo que a política deva ser feita.

No entanto, ao contrário da série anterior, vou organizar esta aqui de um modo diferente. No caso, vou deixar, no fim do post, um espaço para vocês fazerem sugestões, mas já adiantarei alguns dos temas sobre os quais falarei com certeza (por exemplo, a questão do Aborto no Brasil, pela terceira vez), sobre os quais talvez fale (Por exemplo, sobre a Redução da Maioridade Penal) e sobre os quais dificilmente falarei por falta de informação ou por pouca intimidade com o tema (Eutanásia, por exemplo). Isso não significa que um tema colocado como primeiro na primeira lista será o primeiro que irei discutir, nem que não vou falar sobre os temas da terceira lista, apenas para deixar claro.

Enfim, vou deixar aqui as várias listas, sendo uma com as falácias de que certamente falarei e outra com sugestões de falácias, e as três que já citei mais uma com sugestão de temas no assunto Política.

Bom, era só isso que eu queria comentar, amigos leitores. Só para não perder o costume, deixo, no fim deste post, o link do post com a série sobre Religião na íntegra para que relembrem o esquema, e algumas listas de falácias que vi na internet, entre elas uma em vídeo do meu amigo Clarion de Laffalot.

Enfim, obrigado e até a próxima.

Falácias a serem comentadas:

Argumentum e falácia ad hominem
Falsa Dicotomia/ Falso Dilema
Tu quoque
Post hoc propter ergo hoc
Argumentum ad Antiquitatem
Argumentum ad Nouitatem
Argumentum ad Verecundiam

Haverá, também, uma falácia que eu mesmo detectei e que examinarei no último post da série.

Sugestões de Falácias:


Temas que serão discutidos em "Eu, Apolítico":

Legalização/Descriminalização/Despenalização do Aborto
A questão "gay": PL 122, Silas Malafaia, J.R. Guzzo e outras histórias
O que é estado laico?
Pena de Morte
Políticas de Cotas e Ações Afirmativas

Temas que provavelmente serão discutidos em "Eu, Apolítico":

Redução da Maioridade Penal
Legalização do Porte de Armas

Temas que dificilmente serão discutidos em "Eu, Apolítico":

Eutanásia
Legalização da Maconha e outras drogas
Yoani Sanchez
Nióbio

Temas sugeridos pelos leitores:


Série "Religião": http://www.adtantumargumentandum.blogspot.com.br/2013/01/de-frente-com-o-ateu-o-resumo-da-opera.html


Listas de "falácias": 
http://ateus.net/artigos/ceticismo/guia-de-falacias-logicas-do-stephen/
http://www.lemma.ufpr.br/wiki/images/5/5c/Falacias.pdf
http://www.youtube.com/playlist?list=PL7298E65F62E9A957

PS: Sim, eu sei que essa "Eu, Apolítico" soa como o nome do canal do tonto do Yuri Grecco, mas foda-se, rs.