27 de fev de 2013

Refutando Gilberto Felisberto Vasconcelos (ou: Televenovelas - Round 3)

Olá, amigos leitores, como vão?

Pois é, esse é mais um post em que vou falar sobre Telenovelas. No fim deste post, vou colocar os outros dois posts, mas já destaco que o mais relevante, por ser um em que discorro mais longamente sobre a questão, é o segundo, que inclusive é uma espécie de refutação ao primeiro.

Ainda assim, nada disso explica a minha persistência em falar sobre o tema. De fato, como o leitor sabe, sempre gosto, quando posto, de trazer temas originais, ou que não tenham sido comentados por mim durante algum tempo. O detalhe é que li, há alguns dias, na revista Caros Amigos, um artigo de um sociólogo chamado Gilberto Vasconcelos (deixo o Lattes dele no final, mas espero sinceramente que ninguém me jogue um apelo à autoridade na cara) sobre o tema Telenovelas, e, sendo sincero, caros leitores, eu seria um canalha se deixasse passar sem críticas um artigo tão cheio de incongruências e de absurdos.

Inclusive, sei que existe a possibilidade de esse sociólogo acabar vendo meu post, então dou-lhe o direito de resposta mas peço, ao mesmo tempo, que não encare minhas críticas como ofensas pessoais, também porque elas não terão esse tom, mas sim como um modo de fazê-lo repensar um pouco sobre suas posições acerca do tema.

Aqui vai o artigo, cujo título é "A TV é que ti vê, seu babaca". Usarei o mesmo modelo de refutação do post anterior (que pode ser visto aqui), mas, desta vez, não refutarei parágrafo por parágrafo, mas sim por trechos curtos. Também deixo, no fim deste post, o texto completo sem meus comentários para que meus amigos Luciano Ayan, Pérsio Menezes e Francisco Razzo, aos quais o indiquei como passível de ser refutados em seus blogs (linkados no fim deste post), e para os leitores em geral analisarem-no sem os meus comentários, deixando o debate um pouco mais justo. Portanto, antes de ler este post, recomendo que o leitor dê um scroll down e vá até o fim para ler o texto "sem corrupções".

Enfim, comecemos.

A TV é que ti vê, seu babaca

Ainda não pintou parlamentar de esquerda propondo um dispositivo democrático e humanista para suprimir a telenovela da televisão. A ausência dessa iniciativa revela a mediocridade política da esquerda brasileira.

O texto já começa com besteiras. Primeira coisa, gostaria de saber o que o ilustre sociólogo entenderia por um dispositivo DEMOCRÁTICO para PROIBIR A IMPRENSA de exibir algo que não vai contra as leis brasileiras. Afinal, uma coisa seria pedir que uma telenovela determinada parasse de ser exibida porque atenta contra o pudor, o que seria normal e perfeitamente aceitável. Outra coisa é pedir que as telenovelas sejam suprimidas por um motivo tão torpe quanto o que Vasconcelos indicará no seu texto, mas isso eu comento depois.

Mesmo assim, já posso assegurar aos amigos leitores que essa não-proposição não revela "a mediocridade política da esquerda brasileira". Torna evidente, sim, que, ao contrário do que parece, ainda há vergonha na cara da esquerda brasileira. Mas isso eu explico posteriormente. Continuemos.

É por isso que inexiste partido da classe operária. 

Quanto a isso, não preciso falar muito, pois o caso não é de não existirem partidos pró-operários, pois estes existem. O problema é que partidos como esses, entre eles o PCO, sequer têm deputados na Câmara para propor qualquer tipo de projeto e, mesmo se propusessem, seriam minoria absoluta e não seriam ouvidos, pois, como os leitores verão a seguir, o argumento em prol do projeto é totalmente ridículo. Vamos a esse argumento.

A esquerda alienada não considera a telenovela o maior obstáculo ideológico à consciência de classe do proletariado.

Entenderam, caros leitores? Se não entenderam, vejam a "genialidade" da coisa toda. Basicamente, Vasconcelos, do alto de seu esquerdismo, quer propor um projeto que rompa com um dos valores mais primordiais do estado democrático de direito, valor esse que é a liberdade de imprensa, proibindo TODAS as telenovelas não por causa de motivos realmente pertinentes, ou seja, pelo fato de as telenovelas quebrarem algum tipo de lei cuja importância seja socialmente maior que a da liberdade de expressão e de imprensa (como o atentado ao pudor, por exemplo), mas porque as novelas não fazem algo que elas não são mesmo obrigadas a fazer, que é proselitismo ideológico do marxismo para a população, o que ele chama de "conscientizar o proletariado".

Ou seja, fora o absurdo de querer forçar um tipo de entretenimento a ser banido por não levar "cultura" à massa, o que não é função obrigatória do entretenimento, ele ainda quer que se troque esse entretenimento por propagandas de uma ideologia que nem sabemos se de fato tem a "verdade absoluta" que seus seguidores tanto dizem que tem. Pior, ele nos quer empurrar uma ideologia que, apesar de várias controvérsias, não funcionou plenamente em nenhum lugar em que foi implementada e ainda cerceou direitos essenciais, além de ter ceifado milhões de vidas em um período de tempo curtíssimo.

Eu tenho um nome para isso, caro leitor: CARA DE PAU!

Bom, vamos continuar, porque ainda falta muito do texto.

Curso, reunião, assembleia, sindicato, comício, organização de greve - nada disso adianta se o operário depois da fábrica vai para casa ou para o boteco ver telenovela.

Bom, essa parte aqui, se tomada isoladamente, é irrelevante no texto, pois é só a tese que Vasconcelos já mostrou anteriormente com outras palavras. Vamos então ao seu exemplo.

O mesmo seja dito em relação ao Sem-Terra deseducado politicamente pela telenovela. Nosso amigo Stédile prestaria um inestimado serviço ao desenvolvimento da consciência socialista se proibisse a telenovela nos assentamentos.

Esse é o exemplo. Dentro da lógica do sociólogo e de alguns grupos marxistas, perfeito. O problema aqui é só um. É sempre dito que os Sem-Terra (Stédile, no caso, é um coordenador do MST e também colunista da Caros Amigos) são praticamente uma comunidade dentro da nossa, mas com características diferentes, entre elas o diferente sistema educacional, que politiza as crianças desde a infância, obviamente com viés marxista, ou pelo menos pró-Sem-Terra. Ou seja, os Sem-Terra, desde a infância e até mesmo os que aderiram ao movimento quando adultos, vivem praticamente 24h/dia como um grupo militante.

Fora isso, devemos que a rede mais destacada em telenovelas e que mais as passa, a Globo, passa no máximo 4 horas de novelas (isso se contarmos Malhação). Isso significa que, no limite, um "proletário da terra" fica no máximo 4 horas fora da rotina Sem-Terra.

Cabe então a pergunta: Se considerarmos que o número mínimo de horas do dia em que um cidadão comum fica ativo são 15 horas, e que, no caso dos Sem-Terra, o máximo de tempo em que eles vão "sair da militância" é 4 horas não-seguidas, como é possível que eles sejam deseducados politicamente? Sabem, é uma questão de lógica. Como uma pessoa que já tem um pensamento militante moldado desde a infância vai se alienar por causa de uma ou duas horas de novela, e ainda assim não todo dia?

Mas, calma, leitor, ainda vem mais por aí.

Isso porque, entre outras coisas deploráveis, a telenovela é um instrumento de sacralização do latifúndio e demonização da reforma agrária no inconsciente dos Sem-Terra. Que um juiz parnasiano do STF fale e gesticule de acordo com o código telenovelístico é lamentável, porém não é tão nocivo quanto um proletariado ou um trabalhador Sem-Terra telenovelizado.

Leitor, amigo leitor, o que eu faço aqui?


Primeira coisa, eu devo dizer que assisti pelo menos às novelas da Globo, que são as de real relevância, pois têm uma audiência monstruosamente maior do que a das outras, dos últimos 10 anos no três horários (18h, 19h e 21h). Sinceramente, eu truco que o Vasconcelos tenha assistido a um capítulo sequer dessas mais de 20 telenovelas, pois eu não vi UM em que se falava, mesmo que de modo ultra-velado, sobre o movimento sem-Terra. Aliás, o único horário em que se fala alguma coisa mínima sobre latifúndios é o das 18h, e, ainda assim, existe um revezamento com o "Espiritismo" global.

Talvez o sociólogo tenha confundido a telenovela com o jornal, que também não noticia os Sem-Terra com tanta frequência assim. Ainda assim, não é porque o proletário vê o jornal ou a telenovela que ele não gosta de Sem-Terras, mas sim porque ele já foi criado desde sempre com uma mentalidade anti-revoluções.

Alguns ainda podem falar: "Ah, mas é a mídia televisiva que os aliena, mimimimimimimi". Isso não seria errado, não fosse o fato de que o brasileiro NUNCA teve uma mentalidade politizada. Não é preciso ser muito gênio para supor que, antes de qualquer mídia, a cultura do brasileiro já não era ativa politicamente. Fazer da mídia bode expiatório, então, seria nada mais que apenas acabar tolhendo ainda mais as liberdades dos civis brasileiros, pois o objetivo, que é tornar o brasileiro politicamente ativo, não seria alcançado.

Continuemos, porque vem ainda mais por aí

O ideal seria eliminar a propriedade privada da televisão, mas isso somente se consegue com uma revolução socialista de verdade.

Finalmente algo um pouco realista (considerando, lógico, uma linha de pensamento socialista, rs). Um pouco, pois eu não vejo qual seria a utilidade de o Estado manter porcamente, como quase sempre faz, um serviço caro e que não necessariamente iria fazer as pessoas começarem a gostar do Socialismo. Mas, enfim, continuando...

A televisão não faz a economia nem é o motor da história, mas esse aparelho de comunicação acaba por interferir na maneira coletiva de sentir e pensar.

Neste trecho, concordo com ele, pois é algo óbvio. É claro que a televisão, assim como quase qualquer instituição que interaja com as massas, vai influenciá-las a pensar e sentir diferente. O detalhe é que isso não é justificativa ou para proibi-la ou para dar seu controle ao Estado, pois isso seria, além de monopolizar a informação e DESTRUIR uma das bases do Estado Democrático de Direito, que é o debate plural de ideias e informações, uma forma de manter as pessoas informadas apenas pelo meio mais fácil, o que não muda muita coisa. No caso, eu diria que o que muda é só a corrente "que aliena" (vou discutir sobre alienação um dia, prometo), mas não a situação dos "alienados". Prosseguindo.

Eis a operação diabólica que não é visível para a maioria dos trabalhadores: a telenovela é um objeto imaterial, porém funciona como uma justificativa das condições materiais de exploração econômica. Afinal, qual é a ideologia dominante na sociedade brasileira? A jurídica do STF ou a da telenovela?

AAAAAAAAAAAAAAAAIIIIIIIII, MEU SACO!

Bom, aqui cabe uma explicação. Como o leitor se lembra, eu, até mais ou menos um ano atrás, era um blogueiro declaradamente esquerdista roxo, mas, de lá para cá, venho me tornando cada vez mais anti-esquerda. Eu compreendo que nunca expliquei o porquê disso e que, para alguns leitores, meu comportamento esteja mudado demais em tão pouco tempo. Não vou explicar isso aqui, mas um dos motivos pelos quais deixei a esquerda é o foco da minha crítica a esse trecho.

Gente, se vocês estivessem com um problema já recorrente e soubessem o "antídoto definitivo" para ele, o que fariam? Lutariam apenas contra o efeito (o problema presente) ou já acabariam com a causa de uma vez? Pois é, eu escolheria a segunda opção e a maioria de vocês, creio eu, também. Agora, sabem o que os marxistas fazem? Escolhem a primeira. Ao invés de tentarem derrubar o sistema inteiro de uma vez, que é o que o Marx mais recomenda em suas obras e algo em que radicais e moderados que conhecem de fato a ideologia que seguem concordam, os atuais marxistas preferem simples "mudanças na ordem capitalista".

Sabem, leitores, me desculpem, mas isso eu acho burrice. Se eu tenho a opção (e os marxistas têm) de derrubar o sistema e consequentemente sua ideologia de uma vez só, então qual é o nexo de tentar apenas tirar da jogada apenas um meio (pois há vários outros meios eficientes) de propagação de ideologia desse sistema?

Entendem o que falo? Essa crítica que faço aos atuais marxistas é justamente o que acontece nesse trecho. Ao invés de se focar no cerne da questão, que é a ideologia capitalista (ou, no caso, sensatamente anti-marxista), Vasconcelos se foca em apenas um dos meios de sua divulgação. Resumindo, ah, que falta faz uma boa estratégia!

Seguindo.

A primeira é uma arma da desigualdade social, pois o direito segue sendo o que sempre foi: o direito à desigualdade.

Tipo aquela nova lei que busca a inclusão social dos negros por meio das Cotas Étnicas em universidades públicas? Ah, e que tal aquela que diz que ninguém deve ser discriminado por Gênero, Etnia, Procedência Nacional ou Orientação Religiosa? Também acho essas leis muito segregatórias !(sqn)

A telenovela tece o psiquismo no cotidiano, é uma espécie de terrorismo psicológico, ainda que seja sentido como um doce terrorismo.

Resumo da ópera, só um truque retórico barato. Mas, calma, o pior vem agora.


Idiotice é afirmar que telenovela é cultura. A cultura esclarece e desvenda a realidade, enquanto a telenovela oculta, falseia e deforma as coisas e as relações sociais.

Ah, sei, tipo a novela que está passando agora, Salve, Jorge, que denuncia o TRÁFICO DE PESSOAS e que, mesmo sem isso como um de seus objetivos, consegue colocar uma série de discussões existenciais e filosóficas sobre a importância das questões de identidade para alguém?


A cultura é crítica do modo de viver da sociedade. A telenovela (como toda TV) é dinheiro, comércio, valor de troca. Por conseguinte, a televisão está dissociada da cultura, quando não é inteiramente anti-cultural, porque sua linguagem é instrumento mercantil de venda; nada aí lida com ideia e beleza. A telenovela só fala de dinheiro e de outras mercadorias.

Primeiro, a definição que Vasconcelos usa para cultura é arbitrária e, no máximo, se aplicaria à contra-cultura, essa sim necessariamente crítica do modo de viver da sociedade, ou, sei lá, a uma cultura marxista, só que aí haveria um paradoxo, afinal, como um marxista criticaria uma sociedade em que o Marxismo já se instaurou?

Na verdade, a cultura, pela definição mais abrangente (coloco, no fim do post, vários links sobre isso) e mais democrática, seria o traço da moral e dos costumes da sociedade e todas as manifestações de qualquer natureza desses costumes. Assim sendo, poderíamos considerar a religião, as artes e a própria política elementos de Cultura de uma determinada sociedade. Aliás, seguindo a definição do sociólogo, a própria religião estaria fora da Cultura, afinal, ela serve mais como guia espiritual do que como objeto de crítica social.

Sobre a "mercantilização", o argumento é basicamente uma babaquice, pois faz uma dicotomia inexistente entre o comercial e o artístico ou o cultural. Se formos encarar o mundo dessa forma tão binária, desconsideraríamos o trabalho de Saramago por este ser, até hoje, um recorde de vendas tanto em livros (!) quanto em filmes sobre os livros, e também desconsideraríamos inclusive propagadores da "contra-cultura", como os rappers, que se tornassem ricos com sua música.

Isso fora o fato de eu já ter dado exemplos de que "dinheiro e mercadorias" não serem os únicos assuntos abstraíveis de uma telenovela. Enfim, prossigamos.

A pergunta está mal formulada: se a telenovela é esse horror todo, então porque o povo gosta dela? É que a oferta  (há cinquenta anos a telenovela invade a sua casa) condiciona a demanda, convertendo-a em norma, ou seja, o hábito boçal passa a ser objeto de desejo. I love telenovela.

Discordo. O povo gosta de telenovela porque é um entretenimento intelectualmente acessível a qualquer um, mesmo aos que trabalham 12 horas por dia e querem algo divertido e não intelectualismos inúteis ao chegar em casa, o que é um desejo legítimo.

Outro argumento (vá lá a palavra) "populista" de direita é que a telenovela é o único divertimento grátis que o povo tem todos os dias, mas acontece que ela é paga pela audiência, ainda que aparentemente o telespectador não coloque a mão no bolso.

Não, a palavra não vai, pois populismo e direita, ou pelo menos a direita séria, são inconciliáveis. Além disso, a quantidade de imposto que pagamos para que as emissoras sejam pagas, se bem me lembro, é ínfima.

É o trabalho morto do trabalhador que paga a audiência e os anunciantes.

E paga também a manutenção de outros serviços até menos essenciais, como o salário de diversos secretários de ministérios cuja utilidade é completamente desconhecida ao povo. Continuemos.


A lógica do trabalho não-pago, que é o fundamento da exploração capitalista, está presente quando o trabalhador vê telenovela, porque o trabalhador trabalha grátis diante da telenovela. O trabalhador produz um excedente econômico quando está na fábrica. Então, a tela prolonga a fábrica como uma cadeia, a fábrica é cadeia, como dizia Charles Fourier.

Primeiro, gostaria de saber se, no começo, ele fala da mais-valia ou da escravidão, porque ele falou como se as duas coisas fossem equivalentes, e não são. Por mais que haja uma parte do dinheiro ganhado pelo produto que não seja paga ao trabalhador, isso não faz de todo o seu trabalho algo não-remunerado. Pode ser sub-remunerado, mas não não-remunerado.

Segundo, sinceramente, essa ideia me pareceu repeteco dos outros parágrafos, ou seja, ele parte do pressuposto de que, ao assistir a telenovela, o trabalhador aceita tudo o que lhe é imposto pelo sistema, o que eu já demonstrei, parágrafos acima, ser um engodo.

Por fim...

A noção de entretenimento é um engodo, como se a telenovela tivesse um valor de uso (serventia) para satisfazer a necessidade de fantasia do trabalhador.

E é exatamente para isso que o entretenimento serve primariamente. Por isso que entretenimento não tem didatismo ou panfletarismo por obrigação. Deve-se conhecer, antes de tudo, a situação daqueles a quem se busca a entreter, e nisso os marxistas falhariam miseravelmente, como falharam na URSS de Stalin e cia.


Socialismo ou telenovela, that's the question... (Caros Amigos, ano XVI, nº 190/2013, pág.4, Gilberto Felisberto Vasconcelos é sociólogo, jornalista e escritor)

Respondendo a essa última questão, telenovela, especialmente se o socialismo for o idealizado por esse sociólogo. Sendo franco, antes de ler esse artigo, eu achava o Marcos Bagno, aquele a quem dirigi duras críticas por seu excesso de proselitismo em artigos e no facebook em detrimento da divulgação científica (link no fim do post), o mais radical que havia nos marxistas. Pelo visto, eu estava redondamente enganado. Aliás, Gilberto Vasconcelos, nesse artigo, faz Bagno parecer um anarco-capitalista de Facebook, ou pelo menos um marxista muito moderado.

Enfim, era essa a reflexão que eu tinha a compartilhar com vocês, eu espero não achar mais nada que me faça voltar a este tema (mas voltarei sem problemas, se preciso) e peço desculpas caso o texto tenha ficado extremamente longo (só verei depois de postado, rs), mas acho que os leitores vão entender que foi necessário (certo, Antonio Amaral?).

Bom, deixo os links aqui no fim do post, despeço-me dos leitores e, como sempre, mando a vocês o meu forte abraço, fiéis leitores.

Links:

Posts sobre Telenovelas:
http://adtantumargumentandum.blogspot.com.br/2011/03/bom-pessoal-essa-vem-ser-minha-tese.html
http://adtantumargumentandum.blogspot.com.br/2012/11/telenovelas-segundo-round.html

Post sobre o ideólogo Marcos Bagno: http://adtantumargumentandum.blogspot.com.br/2013/01/docencia-e-adolescencia-argumentativa.html

Lattes do Gilberto Felisberto Vasconcelos (que, pasmem, trabalhou com cultura por um bom tempo): 


Várias explicações sobre o que é cultura:
http://www.marcelomelloweb.kinghost.net/mmtecnico_gestao_02cultura.pdf (este último mostra pelo menos três das CENTO E SESSENTA E QUATRO definições catalogadas de cultura)

Blog do Francisco Razzo: http://www.franciscorazzo.com/
Blog do Pérsio Menezes: http://peublogg.blogspot.com.br/
Blog do Luciano Henrique Ayan: http://lucianoayan.com/ 


Texto completo (desculpem, só deu para fazer isso, rs. Se alguém souber como colocar documentos de Word ou PDFs em posts de blogs, revele a mim o segredo que refaço isso aqui): 

A TV é que ti vê, seu babaca
 
Ainda não pintou parlamentar de esquerda propondo um dispositivo democrático e humanista para suprimir a telenovela da televisão. A ausência dessa iniciativa revela a mediocridade política da esquerda brasileira. É por isso que inexiste partido da classe operária. A esquerda alienada não considera a telenovela o maior obstáculo ideológico à consciência de classe do proletariado.

Curso, reunião, assembleia, sindicato, comício, organização de greve - nada disso adianta se o operário depois da fábrica vai para casa ou para o boteco ver telenovela. O mesmo seja dito em relação ao Sem-Terra deseducado politicamente pela telenovela. Nosso amigo Stédile prestaria um inestimado serviço ao desenvolvimento da consciência socialista se proibisse a telenovela nos assentamentos. Isso porque, entre outras coisas deploráveis, a telenovela é um instrumento de sacralização do latifúndio e demonização da reforma agrária no inconsciente dos Sem-Terra. Que um juiz parnasiano do STF fale e gesticule de acordo com o código telenovelístico é lamentável, porém não é tão nocivo quanto um proletariado ou um trabalhador Sem-Terra telenovelizado.

O ideal seria eliminar a propriedade privada da televisão, mas isso somente se consegue com uma revolução socialista de verdade. A televisão não faz a economia nem é o motor da história, mas esse aparelho de comunicação acaba por interferir na maneira coletiva de sentir e pensar.

Eis a operação diabólica que não é visível para a maioria dos trabalhadores: a telenovela é um objeto imaterial, porém funciona como uma justificativa das condições materiais de exploração econômica. Afinal, qual é a ideologia dominante na sociedade brasileira? A jurídica do STF ou a da telenovela? A primeira é uma arma da desigualdade social, pois o direito segue sendo o que sempre foi: o direito à desigualdade. A telenovela tece o psiquismo no cotidiano, é uma espécie de terrorismo psicológico, ainda que seja sentido como um doce terrorismo. Idiotice é afirmar que telenovela é cultura. A cultura esclarece e desvenda a realidade, enquanto a telenovela oculta, falseia e deforma as coisas e as relações sociais.

A cultura é crítica do modo de viver da sociedade. A telenovela (como toda TV) é dinheiro, comércio, valor de troca. Por conseguinte, a televisão está dissociada da cultura, quando não é inteiramente anti-cultural, porque sua linguagem é instrumento mercantil de venda; nada aí lida com ideia e beleza. A telenovela só fala de dinheiro e de outras mercadorias.

A pergunta está mal formulada: se a telenovela é esse horror todo, então porque o povo gosta dela? É que a oferta  (há cinquenta anos a telenovela invade a sua casa) condiciona a demanda, convertendo-a em norma, ou seja, o hábito boçal passa a ser objeto de desejo. I love telenovela.

Outro argumento (vá lá a palavra) "populista" de direita é que a telenovela é o único divertimento grátis que o povo tem todos os dias, mas acontece que ela é paga pela audiência, ainda que aparentemente o telespectador não coloque a mão no bolso. É o trabalho morto do trabalhador que paga a audiência e os anunciantes. A lógica do trabalho não-pago, que é o fundamento da exploração capitalista, está presente quando o trabalhador vê telenovela, porque o trabalhador trabalha grátis diante da telenovela. O trabalhador produz um excedente econômico quando está na fábrica. Então, a tela prolonga a fábrica como uma cadeia, a fábrica é cadeia, como dizia Charles Fourier. A noção de entretenimento é um engodo, como se a telenovela tivesse um valor de uso (serventia) para satisfazer a necessidade de fantasia do trabalhador. Socialismo ou telenovela, that's the question...

(Caros Amigos, ano XVI, nº 190/2013, pág.4, Gilberto Felisberto Vasconcelos é sociólogo, jornalista e escritor)

7 comentários:

  1. Você está deixando de ser de esquerda pela mesma razão dos outros: está tendo de pagar mais caro para empregados. Qualquer vislumbre de democracia econômica e os pequenos burgueses tremem.

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    1. Oswaldo,

      Primeiro: Como você deve ter visto, este texto é de 2013, quase um ano DEPOIS de eu JÁ TER DEIXADO a esquerda. Sua resposta é de 2014, ano em que eu praticamente já não tenho, em mim, qualquer traço do seu esquerdismo. Aprendi que fazer "justiça social" com genocídio não cola muito, sabe?

      Segundo: Como tenho empregados se nem conta em banco tenho?

      Terceiro: Que estrovenga metafísica é essa de "democracia econômica"? Porra, quer democratizar a economia, o que quer que isto signifique? Libera o mercado, porra. De resto, o máximo que você vai fazer é criar monopólios com cuja contribuição o Estado possa distribuir renda.

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  2. Você está deixando de ser de esquerda pela mesma razão dos outros: está tendo de pagar mais caro para empregados. Qualquer vislumbre de democracia econômica e os pequenos burgueses tremem.

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  3. Seu pequeno burguês de merda, vá aprender primeiro o significado dos conceitos do Prof. Vasconcellos para depois destilar seu ódio de classe. Imbecil.

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    1. Anônimo,

      Falou de meu "ódio de classe", mas, se for reclamar, por exemplo, do que falo sobre entretenimento em contraposição ao que diz o Gilberto, terá de chamar de pequeno burguês também ninguém mais ninguém menos do que o Antônio Cândido de "A literatura e a formação do homem".

      Mas, enfim, já que quer que eu aprenda significado de conceitos, façamos a seguinte troca: Vou lá "aprender" o que já sei (pois já fui marxista) e você aprende o significado de "direita política" lendo esses caras aqui: http://new.spring.me/#!/flaviomorgen/q/174010747423067441

      Abraços,

      Octavius

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  4. Respostas
    1. Fico aqui surpreso com a elevação desse comentário. Bobagem seria defender canalhices do tipo "todo mundo que eu não gosto é Hitler". O que eu fiz foi só refutar mentiras.

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