23 de fev de 2013

Mais uma vez o Papa: Resposta a Araramboia

E aí, amigo leitor, gostou dos últimos posts? E o que acham de continuarmos conversando sobre a renúncia do Papa?

Não, fiel leitor deste blog, não farei uma série sobre o Papa, também porque, como vocês devem ter percebido na minha série sobre Religião, minha ignorância em Teologia, da qual sou inteiramente culpado, é grande demais para querer falar sobre os dogmas "menos públicos" da Igreja Católica com um mínimo de propriedade (rs).

Na verdade, este post não foi sequer planejado antes. O que acontece é que, hoje à tarde, vi, no blog (que sigo) de uma amiga minha, chamada Bibiana Garrido, um texto sobre a renúncia do Papa com enfoque em coisas que eu acabei não abordando no meu post tanto porque uma delas é de uma nova especulação sobre a renúncia quanto porque não achei essas questões relevantes na hora de fazer o primeiro post.

O grande problema (e o que talvez faça as minhas críticas serem um pouco mais pesadas) é que, desculpa, Bibiana, mas, na boa, o post tinha algumas besteiras, e eu não poderia deixá-lo sem resposta pelo menos para mostrar para você, que é uma pessoa bem razoável quando se fala em ouvir o outro lado da questão, um outro ponto de vista sobre tudo que você falou. Portanto, espero que,  mesmo que eu seja um pouco agresssivo, meu post seja visto como uma crítica construtiva e que lhe sirva para melhorar os seus argumentos.

Bom, leitores e Bibiana (que também é leitora deste blog), o meu esquema será simples. Vou fazer as minhas reflexões em cima desse texto por parágrafos, ou seja, vou colocar um parágrafo (em negrito ou em itálico, para destacá-lo) e comentá-lo. Já vou aproveitar esse esquema para os meus próximos posts de "refutação" a textos quaisquer, então vou linkar este post com uma certa frequência para os leitores relembrarem o esquema.

Enfim, vou começar a refutar o texto, que estará linkado, assim como o blog da Bibiana e tudo aquilo a que me referir ao longo da refutação. Hora de começar. O título do texto é:  "O papa não é pop e que merda de título é esse?". Vamos lá.

O papa não é pop e que merda de título é esse?

"Depois de ler o relatório elaborado por três cardeais sobre crimes de pederastia e desvio de dinheiro entre as entidades divinas do Vaticano, o Papa decidiu renunciar ao cargo santificado e ficar de boa num monastério, longe da bagunça. O documento de míseras trezentas páginas acusa bispos, cardeais, padres e qualquer outra classe clerical, do não cumprimento do sexto e sétimo mandamentos: o sexto trata da proibição do adultério, o que é traduzido como pederastia nesse caso, e o sétimo faz menção ao furto, ou corrupção"

Bom, para começar, eu devo dizer que, sobre esse relatório, ouvi uma versão diferente. O que eu havia ouvido dizer, além dessa versão que a Bibiana deu, foi que esse foi um relatório que ia ser solto na época daquele escândalo "Vatileaks", mas que não o foi simplesmente porque o Papa cedeu algum tipo de "graça" (não sei se aqui tem um sentido de perdão ou monetário mesmo) ao  tal do ex-mordomo.

No fim, o que aconteceu é que o documento acabou sendo vazado do mesmo jeito, só que apenas alguns dias antes da renúncia de Bento XVI. Mesmo assim, o detalhe é que o Vaticano já emitiu um posicionamento sobre esse texto, dizendo que é um artigo que não deve ser levado a sério, e que, de fato, a renúncia do Papa se deu porque este não se sentiu com forças suficientes para continuar tocando a Igreja apropriadamente.

Não vou questionar aqui se o que o Vaticano está dizendo é verdade, também porque não li (e provavelmente não lerei) o documento e porque, em suas últimas aparições, realmente, parece sim que o Papa, além dos efeitos naturais da sua idade avançada, sente também os efeitos das doenças que tem. O que eu quero questionar aqui é o modo como Bibiana ironiza a vida que Ratzinger levará após a renúncia. Ao contrário do que a futura jornalista diz, o agora Bento XVI não ficará "de boa num monastério, longe da bagunça", pois, apesar de estar recluso, Joseph continuará a ser um cardeal da Igreja Católica e também terá de lutar pela vida contra as doenças. Não sei quanto à minha amiga, mas eu, sinceramente, não consigo ver alguém "de boa na lagoa" quando o mesmo precisa combater doenças sérias. Mas, enfim, vamos prosseguir.

"
E não é que os mensageiros de Deus estavam fazendo tudo isso na surdina? Há quem diga que os oficiais do Vaticano estão sendo chantageados por conta dessas escapadinhas das missas para vilas, saunas e residências nas quais os amantes se encontravam. Oficialmente a razão para a renúncia papal é a "idade avançada", mas mesmo que a mídia tradicionalista tente encobrir o escândalo da pegação clerical, todo mundo sabe o que aconteceu e acontece." 

Sobre a chantagem, realmente, parece que isto está mesmo acontecendo e que a chantagem seria inclusive o "instrumento" que alguns usariam para influenciar na eleição do próximo Sumo Pontífice. Ainda assim, para acabar com essa história do dossiê, faço uma pergunta simples. Bibiana afirma, no final do parágrafo, que a razão dada pelas fontes oficiais, a de idade avançada, é só uma desculpa da mídia tradicionalista para encobrir os escândalos sexuais dentro da Igreja. Acontece que, curiosamente, foi justamente um órgão de mídia (o jornal italiano "La Reppublica") que não só especulou como assegurou que Sua Santidade tinha renunciado por causa desse "relatório". Então, a pergunta é: Por que deveríamos descartar a versão da mídia "tradicionalista" se sequer temos uma fonte confiável (afinal, nossa fonte é um outro jornal, rs) que aponte o relatório como causa de renúncia de Bento XVI? Seria, então, a mídia apenas confiável quando ela diz o que nós queremos ouvir?

Um outro detalhe ao qual peço a atenção do meu leitor é o fato de Bibiana dizer que todo mundo SABE que acontece e aconteceu "pegação clerical" dentro da Igreja. Além de essa afirmação conter uma falácia de apelo à autoridade anônima ("todo mundo sabe"), há também a questão que eu já discuti no meu primeiro post sobre a renúncia papal, ou seja, de que não se deve fazer acusações sem provas, que é o que as pessoas fazem de fato contra qualquer instituição, seja religiosa ou não. Assim, o que temos são, no máximo, especulações acerca do ambiente em que vivem os sacerdotes, não fatos. Também posso citar aqui que o que geralmente se faz (e não falo com autoridade anônima aqui, pois isso é uma coisa bem mais provável) é generalizar, ou seja, "se provaram que há pegação clerical em uma Igreja, deve haver em todas", o que é um argumento totalmente falacioso. Bom, prosseguindo... 

"O que surpreende é a devoção cega que ainda atinge milhares, na verdade milhões, de pessoas que continuam acreditando nas lorotas da Igreja Católica (e digo isso por conviver pessoalmente com várias delas) mesmo depois de um milênio de história dessa entidade, que pode ser considerada a mais bem-sucedida que existe. Que outra instituição conseguiu prender tantos seguidores por tanto tempo? A Igreja também não está sozinha na caça pelos fiéis. O Brasil, por exemplo, que é um país considerado laico por lei, tem sua a grande mídia e governo defendendo com unhas e dentes os ideais católicos. Considerando, ou não, o quão contraditório isso parece, a Igreja tem seus amiguinhos por aí."

Bom, aqui vou ter que pegar pesado, porque, Bibiana, vai me desculpar, mas isso é conversa de militante neo-ateu e comunista, exatamente por esse parágrafo ter um espírito desnecessariamente anti-clerical e estar repleto de erros conceituais. Vamos a eles.

Primeiro, não vou discordar no caso de "devoção cega", mas quero deixar claro duas coisas, sendo uma delas o fato de que pessoas altamente intelectualizadas e críticas como Georges Lamaitre (criador da hipótese da "Teoria do Big Bang") e  Gregor Mendel (pai da Genética) acreditavam "nas lorotas da Igreja Católica", o que pode ser um sinal de que as tais lorotas (incluindo o dogma em que Lamaitre se baseou, que dizia que o Universo tem início no tempo) possam não ser lorotas, e que, sejamos francos, não é preciso ter uma religião para ser devoto cego de alguma coisa. O caso é que o oposto do Ceticismo não é principalmente a religião, mas sim a Credulidade em geral, que pode se manifestar em ideologias políticas e outras tantas coisas que muitas vezes pregam a antirreligião.

Segundo, quero pontuar também que só devemos afirmar com certeza que algo é uma "lorota" quando já foi provado, por A + B, que é informação falsa, o que não aconteceu com os dogmas do Catolicismo. Aliás, como eu já citei antes, o fato de existirem aos montes teorias científicas criadas por padres católicos baseados em princípios bíblicos é justamente o que faz essa conversa de "lorotas católicas" serem usáveis apenas por quem ainda não sabe de suas existências.

Por último, ah, a laicidade, sempre ela, sobre a qual já falei exaustivamente em um dos meus posts da série sobre Religião. O que acontece, nesse caso, é um erro de interpretação da nossa de laicidade, pois, além de não ser proibido que religiões influenciem em decisões não diretamente ADMINISTRATIVAS do Executivo, a maioria dos ideais católicos, por incrível que pareça, encontra algum tipo de respaldo em áreas das mais variadas ciências, até mesmo das Humanas, nas quais formam-se um número infinito de bestas antirreligiosas. Além disso, a mídia, por não ser órgão de governo, pode defender quem bem entender, afinal, o ônus é do leitor de consumir informações criticamente. São justamente pessoas que usam a lógica da Bibiana que propõe besteiras como "restrição da Liberdade de Imprensa", o que afeta altamente a democracia. Continuando...

É engraçado que a maioria das pessoas que se consideram católicas só o são pois foram batizadas pelos pais, e não porque frequentam a Igreja, não porque acreditam nos dogmas desta ou porque concordam com a bíblia. Só o são por preguiça e comodismo. Se nem o próprio chefe religioso conseguiu lidar com a  corrupção e desobediência de seus irmãos, que dirá aqueles que os seguem? Aqueles que os seguem continuarão na pretensão da cegueira. Talvez a metáfora de Eva e o fruto proibido tenha ganhado uma nova interpretação com o passar dos milênios, significando agora a superioridade do medo estúpido da verdade sobre a racionalidade humana.
 
Bom, este é o último parágrafo do texto, e aquele em que, curiosamente, tenho menos coisas para discordar e mais para "adendar".

Primeiro, devo dizer que concordo 100% com a Bibiana sobre o número exorbitante de católicos por conveniência, que acabam continuando na religião por uma questão de status quo ou de comodismo mesmo. Isso, porém, não significa que os católicos mais tradicionalistas (e eu suspeito que até mesmo os mais modernistas também) aprovem a atitude desses falsos católicos. Aliás, um dos maiores problemas que um grande amigo tradicionalista meu enfrenta ao discutir com companheiros cristãos sobre os dogmas da Igreja (não vou referenciá-lo porque já o fiz nos três posts anteriores e porque ele não anda lendo o blog, rsrsrsrsr) é justamente essa falta de conhecimento e de prática dos valores do cristianismo, tanto católico quanto protestante. Aqui, de fato, não tenho como discordar do que disse a Bibiana.

Porém, logo em seguida, ela usa o que nós chamamos de falácia tu quoque (você também, em tradução literal do Latim para o português),  que é quando o argumentador aponta a hipocrisia de seu oponente para dizer que ele não tem o direito de lhe cobrar nada. Trocando em miúdos para a situação aqui descrita, é falácia dizer que "se X não fez Y, então os seguidores de X também não conseguirão/ não precisam fazê-lo", pois, além de um dos objetivos principais das religiões ser guiar o seu seguidor por um caminho que o torne melhor moralmente, se fôssemos usar essa lógica a tudo, teríamos um argumento para acabar com a política em geral, afinal, se nem mesmo os políticos, que ganham para isso, conseguem fazer política de modo a melhorar a vida da população, quem dirá o cidadão comum, não é?

Por fim, eu fico muito curioso em saber o que a futura jornalista define como "verdade". Deixo, então, que ela me responda (ou não) isso, despeço-me por aqui (e coloco os links no fim do post) e mando a todos os queridos leitores o meu forte abraço.

Ah, quando virem o endereço do blog da Bibiana, saberão porque coloquei no título "araramboia".

Links:

Sobre o recente escândalo "Vatileaks lobby gay": 


Sobre Georges Lamaitre (sim, o nome dele tem várias versões, uso Lamaitre por causa de um livro do Gleiser):
Sobre Gregor Mendel:  

Nenhum comentário:

Postar um comentário