27 de fev de 2013

Refutando Gilberto Felisberto Vasconcelos (ou: Televenovelas - Round 3)

Olá, amigos leitores, como vão?

Pois é, esse é mais um post em que vou falar sobre Telenovelas. No fim deste post, vou colocar os outros dois posts, mas já destaco que o mais relevante, por ser um em que discorro mais longamente sobre a questão, é o segundo, que inclusive é uma espécie de refutação ao primeiro.

Ainda assim, nada disso explica a minha persistência em falar sobre o tema. De fato, como o leitor sabe, sempre gosto, quando posto, de trazer temas originais, ou que não tenham sido comentados por mim durante algum tempo. O detalhe é que li, há alguns dias, na revista Caros Amigos, um artigo de um sociólogo chamado Gilberto Vasconcelos (deixo o Lattes dele no final, mas espero sinceramente que ninguém me jogue um apelo à autoridade na cara) sobre o tema Telenovelas, e, sendo sincero, caros leitores, eu seria um canalha se deixasse passar sem críticas um artigo tão cheio de incongruências e de absurdos.

Inclusive, sei que existe a possibilidade de esse sociólogo acabar vendo meu post, então dou-lhe o direito de resposta mas peço, ao mesmo tempo, que não encare minhas críticas como ofensas pessoais, também porque elas não terão esse tom, mas sim como um modo de fazê-lo repensar um pouco sobre suas posições acerca do tema.

Aqui vai o artigo, cujo título é "A TV é que ti vê, seu babaca". Usarei o mesmo modelo de refutação do post anterior (que pode ser visto aqui), mas, desta vez, não refutarei parágrafo por parágrafo, mas sim por trechos curtos. Também deixo, no fim deste post, o texto completo sem meus comentários para que meus amigos Luciano Ayan, Pérsio Menezes e Francisco Razzo, aos quais o indiquei como passível de ser refutados em seus blogs (linkados no fim deste post), e para os leitores em geral analisarem-no sem os meus comentários, deixando o debate um pouco mais justo. Portanto, antes de ler este post, recomendo que o leitor dê um scroll down e vá até o fim para ler o texto "sem corrupções".

Enfim, comecemos.

A TV é que ti vê, seu babaca

Ainda não pintou parlamentar de esquerda propondo um dispositivo democrático e humanista para suprimir a telenovela da televisão. A ausência dessa iniciativa revela a mediocridade política da esquerda brasileira.

O texto já começa com besteiras. Primeira coisa, gostaria de saber o que o ilustre sociólogo entenderia por um dispositivo DEMOCRÁTICO para PROIBIR A IMPRENSA de exibir algo que não vai contra as leis brasileiras. Afinal, uma coisa seria pedir que uma telenovela determinada parasse de ser exibida porque atenta contra o pudor, o que seria normal e perfeitamente aceitável. Outra coisa é pedir que as telenovelas sejam suprimidas por um motivo tão torpe quanto o que Vasconcelos indicará no seu texto, mas isso eu comento depois.

Mesmo assim, já posso assegurar aos amigos leitores que essa não-proposição não revela "a mediocridade política da esquerda brasileira". Torna evidente, sim, que, ao contrário do que parece, ainda há vergonha na cara da esquerda brasileira. Mas isso eu explico posteriormente. Continuemos.

É por isso que inexiste partido da classe operária. 

Quanto a isso, não preciso falar muito, pois o caso não é de não existirem partidos pró-operários, pois estes existem. O problema é que partidos como esses, entre eles o PCO, sequer têm deputados na Câmara para propor qualquer tipo de projeto e, mesmo se propusessem, seriam minoria absoluta e não seriam ouvidos, pois, como os leitores verão a seguir, o argumento em prol do projeto é totalmente ridículo. Vamos a esse argumento.

A esquerda alienada não considera a telenovela o maior obstáculo ideológico à consciência de classe do proletariado.

Entenderam, caros leitores? Se não entenderam, vejam a "genialidade" da coisa toda. Basicamente, Vasconcelos, do alto de seu esquerdismo, quer propor um projeto que rompa com um dos valores mais primordiais do estado democrático de direito, valor esse que é a liberdade de imprensa, proibindo TODAS as telenovelas não por causa de motivos realmente pertinentes, ou seja, pelo fato de as telenovelas quebrarem algum tipo de lei cuja importância seja socialmente maior que a da liberdade de expressão e de imprensa (como o atentado ao pudor, por exemplo), mas porque as novelas não fazem algo que elas não são mesmo obrigadas a fazer, que é proselitismo ideológico do marxismo para a população, o que ele chama de "conscientizar o proletariado".

Ou seja, fora o absurdo de querer forçar um tipo de entretenimento a ser banido por não levar "cultura" à massa, o que não é função obrigatória do entretenimento, ele ainda quer que se troque esse entretenimento por propagandas de uma ideologia que nem sabemos se de fato tem a "verdade absoluta" que seus seguidores tanto dizem que tem. Pior, ele nos quer empurrar uma ideologia que, apesar de várias controvérsias, não funcionou plenamente em nenhum lugar em que foi implementada e ainda cerceou direitos essenciais, além de ter ceifado milhões de vidas em um período de tempo curtíssimo.

Eu tenho um nome para isso, caro leitor: CARA DE PAU!

Bom, vamos continuar, porque ainda falta muito do texto.

Curso, reunião, assembleia, sindicato, comício, organização de greve - nada disso adianta se o operário depois da fábrica vai para casa ou para o boteco ver telenovela.

Bom, essa parte aqui, se tomada isoladamente, é irrelevante no texto, pois é só a tese que Vasconcelos já mostrou anteriormente com outras palavras. Vamos então ao seu exemplo.

O mesmo seja dito em relação ao Sem-Terra deseducado politicamente pela telenovela. Nosso amigo Stédile prestaria um inestimado serviço ao desenvolvimento da consciência socialista se proibisse a telenovela nos assentamentos.

Esse é o exemplo. Dentro da lógica do sociólogo e de alguns grupos marxistas, perfeito. O problema aqui é só um. É sempre dito que os Sem-Terra (Stédile, no caso, é um coordenador do MST e também colunista da Caros Amigos) são praticamente uma comunidade dentro da nossa, mas com características diferentes, entre elas o diferente sistema educacional, que politiza as crianças desde a infância, obviamente com viés marxista, ou pelo menos pró-Sem-Terra. Ou seja, os Sem-Terra, desde a infância e até mesmo os que aderiram ao movimento quando adultos, vivem praticamente 24h/dia como um grupo militante.

Fora isso, devemos que a rede mais destacada em telenovelas e que mais as passa, a Globo, passa no máximo 4 horas de novelas (isso se contarmos Malhação). Isso significa que, no limite, um "proletário da terra" fica no máximo 4 horas fora da rotina Sem-Terra.

Cabe então a pergunta: Se considerarmos que o número mínimo de horas do dia em que um cidadão comum fica ativo são 15 horas, e que, no caso dos Sem-Terra, o máximo de tempo em que eles vão "sair da militância" é 4 horas não-seguidas, como é possível que eles sejam deseducados politicamente? Sabem, é uma questão de lógica. Como uma pessoa que já tem um pensamento militante moldado desde a infância vai se alienar por causa de uma ou duas horas de novela, e ainda assim não todo dia?

Mas, calma, leitor, ainda vem mais por aí.

Isso porque, entre outras coisas deploráveis, a telenovela é um instrumento de sacralização do latifúndio e demonização da reforma agrária no inconsciente dos Sem-Terra. Que um juiz parnasiano do STF fale e gesticule de acordo com o código telenovelístico é lamentável, porém não é tão nocivo quanto um proletariado ou um trabalhador Sem-Terra telenovelizado.

Leitor, amigo leitor, o que eu faço aqui?


Primeira coisa, eu devo dizer que assisti pelo menos às novelas da Globo, que são as de real relevância, pois têm uma audiência monstruosamente maior do que a das outras, dos últimos 10 anos no três horários (18h, 19h e 21h). Sinceramente, eu truco que o Vasconcelos tenha assistido a um capítulo sequer dessas mais de 20 telenovelas, pois eu não vi UM em que se falava, mesmo que de modo ultra-velado, sobre o movimento sem-Terra. Aliás, o único horário em que se fala alguma coisa mínima sobre latifúndios é o das 18h, e, ainda assim, existe um revezamento com o "Espiritismo" global.

Talvez o sociólogo tenha confundido a telenovela com o jornal, que também não noticia os Sem-Terra com tanta frequência assim. Ainda assim, não é porque o proletário vê o jornal ou a telenovela que ele não gosta de Sem-Terras, mas sim porque ele já foi criado desde sempre com uma mentalidade anti-revoluções.

Alguns ainda podem falar: "Ah, mas é a mídia televisiva que os aliena, mimimimimimimi". Isso não seria errado, não fosse o fato de que o brasileiro NUNCA teve uma mentalidade politizada. Não é preciso ser muito gênio para supor que, antes de qualquer mídia, a cultura do brasileiro já não era ativa politicamente. Fazer da mídia bode expiatório, então, seria nada mais que apenas acabar tolhendo ainda mais as liberdades dos civis brasileiros, pois o objetivo, que é tornar o brasileiro politicamente ativo, não seria alcançado.

Continuemos, porque vem ainda mais por aí

O ideal seria eliminar a propriedade privada da televisão, mas isso somente se consegue com uma revolução socialista de verdade.

Finalmente algo um pouco realista (considerando, lógico, uma linha de pensamento socialista, rs). Um pouco, pois eu não vejo qual seria a utilidade de o Estado manter porcamente, como quase sempre faz, um serviço caro e que não necessariamente iria fazer as pessoas começarem a gostar do Socialismo. Mas, enfim, continuando...

A televisão não faz a economia nem é o motor da história, mas esse aparelho de comunicação acaba por interferir na maneira coletiva de sentir e pensar.

Neste trecho, concordo com ele, pois é algo óbvio. É claro que a televisão, assim como quase qualquer instituição que interaja com as massas, vai influenciá-las a pensar e sentir diferente. O detalhe é que isso não é justificativa ou para proibi-la ou para dar seu controle ao Estado, pois isso seria, além de monopolizar a informação e DESTRUIR uma das bases do Estado Democrático de Direito, que é o debate plural de ideias e informações, uma forma de manter as pessoas informadas apenas pelo meio mais fácil, o que não muda muita coisa. No caso, eu diria que o que muda é só a corrente "que aliena" (vou discutir sobre alienação um dia, prometo), mas não a situação dos "alienados". Prosseguindo.

Eis a operação diabólica que não é visível para a maioria dos trabalhadores: a telenovela é um objeto imaterial, porém funciona como uma justificativa das condições materiais de exploração econômica. Afinal, qual é a ideologia dominante na sociedade brasileira? A jurídica do STF ou a da telenovela?

AAAAAAAAAAAAAAAAIIIIIIIII, MEU SACO!

Bom, aqui cabe uma explicação. Como o leitor se lembra, eu, até mais ou menos um ano atrás, era um blogueiro declaradamente esquerdista roxo, mas, de lá para cá, venho me tornando cada vez mais anti-esquerda. Eu compreendo que nunca expliquei o porquê disso e que, para alguns leitores, meu comportamento esteja mudado demais em tão pouco tempo. Não vou explicar isso aqui, mas um dos motivos pelos quais deixei a esquerda é o foco da minha crítica a esse trecho.

Gente, se vocês estivessem com um problema já recorrente e soubessem o "antídoto definitivo" para ele, o que fariam? Lutariam apenas contra o efeito (o problema presente) ou já acabariam com a causa de uma vez? Pois é, eu escolheria a segunda opção e a maioria de vocês, creio eu, também. Agora, sabem o que os marxistas fazem? Escolhem a primeira. Ao invés de tentarem derrubar o sistema inteiro de uma vez, que é o que o Marx mais recomenda em suas obras e algo em que radicais e moderados que conhecem de fato a ideologia que seguem concordam, os atuais marxistas preferem simples "mudanças na ordem capitalista".

Sabem, leitores, me desculpem, mas isso eu acho burrice. Se eu tenho a opção (e os marxistas têm) de derrubar o sistema e consequentemente sua ideologia de uma vez só, então qual é o nexo de tentar apenas tirar da jogada apenas um meio (pois há vários outros meios eficientes) de propagação de ideologia desse sistema?

Entendem o que falo? Essa crítica que faço aos atuais marxistas é justamente o que acontece nesse trecho. Ao invés de se focar no cerne da questão, que é a ideologia capitalista (ou, no caso, sensatamente anti-marxista), Vasconcelos se foca em apenas um dos meios de sua divulgação. Resumindo, ah, que falta faz uma boa estratégia!

Seguindo.

A primeira é uma arma da desigualdade social, pois o direito segue sendo o que sempre foi: o direito à desigualdade.

Tipo aquela nova lei que busca a inclusão social dos negros por meio das Cotas Étnicas em universidades públicas? Ah, e que tal aquela que diz que ninguém deve ser discriminado por Gênero, Etnia, Procedência Nacional ou Orientação Religiosa? Também acho essas leis muito segregatórias !(sqn)

A telenovela tece o psiquismo no cotidiano, é uma espécie de terrorismo psicológico, ainda que seja sentido como um doce terrorismo.

Resumo da ópera, só um truque retórico barato. Mas, calma, o pior vem agora.


Idiotice é afirmar que telenovela é cultura. A cultura esclarece e desvenda a realidade, enquanto a telenovela oculta, falseia e deforma as coisas e as relações sociais.

Ah, sei, tipo a novela que está passando agora, Salve, Jorge, que denuncia o TRÁFICO DE PESSOAS e que, mesmo sem isso como um de seus objetivos, consegue colocar uma série de discussões existenciais e filosóficas sobre a importância das questões de identidade para alguém?


A cultura é crítica do modo de viver da sociedade. A telenovela (como toda TV) é dinheiro, comércio, valor de troca. Por conseguinte, a televisão está dissociada da cultura, quando não é inteiramente anti-cultural, porque sua linguagem é instrumento mercantil de venda; nada aí lida com ideia e beleza. A telenovela só fala de dinheiro e de outras mercadorias.

Primeiro, a definição que Vasconcelos usa para cultura é arbitrária e, no máximo, se aplicaria à contra-cultura, essa sim necessariamente crítica do modo de viver da sociedade, ou, sei lá, a uma cultura marxista, só que aí haveria um paradoxo, afinal, como um marxista criticaria uma sociedade em que o Marxismo já se instaurou?

Na verdade, a cultura, pela definição mais abrangente (coloco, no fim do post, vários links sobre isso) e mais democrática, seria o traço da moral e dos costumes da sociedade e todas as manifestações de qualquer natureza desses costumes. Assim sendo, poderíamos considerar a religião, as artes e a própria política elementos de Cultura de uma determinada sociedade. Aliás, seguindo a definição do sociólogo, a própria religião estaria fora da Cultura, afinal, ela serve mais como guia espiritual do que como objeto de crítica social.

Sobre a "mercantilização", o argumento é basicamente uma babaquice, pois faz uma dicotomia inexistente entre o comercial e o artístico ou o cultural. Se formos encarar o mundo dessa forma tão binária, desconsideraríamos o trabalho de Saramago por este ser, até hoje, um recorde de vendas tanto em livros (!) quanto em filmes sobre os livros, e também desconsideraríamos inclusive propagadores da "contra-cultura", como os rappers, que se tornassem ricos com sua música.

Isso fora o fato de eu já ter dado exemplos de que "dinheiro e mercadorias" não serem os únicos assuntos abstraíveis de uma telenovela. Enfim, prossigamos.

A pergunta está mal formulada: se a telenovela é esse horror todo, então porque o povo gosta dela? É que a oferta  (há cinquenta anos a telenovela invade a sua casa) condiciona a demanda, convertendo-a em norma, ou seja, o hábito boçal passa a ser objeto de desejo. I love telenovela.

Discordo. O povo gosta de telenovela porque é um entretenimento intelectualmente acessível a qualquer um, mesmo aos que trabalham 12 horas por dia e querem algo divertido e não intelectualismos inúteis ao chegar em casa, o que é um desejo legítimo.

Outro argumento (vá lá a palavra) "populista" de direita é que a telenovela é o único divertimento grátis que o povo tem todos os dias, mas acontece que ela é paga pela audiência, ainda que aparentemente o telespectador não coloque a mão no bolso.

Não, a palavra não vai, pois populismo e direita, ou pelo menos a direita séria, são inconciliáveis. Além disso, a quantidade de imposto que pagamos para que as emissoras sejam pagas, se bem me lembro, é ínfima.

É o trabalho morto do trabalhador que paga a audiência e os anunciantes.

E paga também a manutenção de outros serviços até menos essenciais, como o salário de diversos secretários de ministérios cuja utilidade é completamente desconhecida ao povo. Continuemos.


A lógica do trabalho não-pago, que é o fundamento da exploração capitalista, está presente quando o trabalhador vê telenovela, porque o trabalhador trabalha grátis diante da telenovela. O trabalhador produz um excedente econômico quando está na fábrica. Então, a tela prolonga a fábrica como uma cadeia, a fábrica é cadeia, como dizia Charles Fourier.

Primeiro, gostaria de saber se, no começo, ele fala da mais-valia ou da escravidão, porque ele falou como se as duas coisas fossem equivalentes, e não são. Por mais que haja uma parte do dinheiro ganhado pelo produto que não seja paga ao trabalhador, isso não faz de todo o seu trabalho algo não-remunerado. Pode ser sub-remunerado, mas não não-remunerado.

Segundo, sinceramente, essa ideia me pareceu repeteco dos outros parágrafos, ou seja, ele parte do pressuposto de que, ao assistir a telenovela, o trabalhador aceita tudo o que lhe é imposto pelo sistema, o que eu já demonstrei, parágrafos acima, ser um engodo.

Por fim...

A noção de entretenimento é um engodo, como se a telenovela tivesse um valor de uso (serventia) para satisfazer a necessidade de fantasia do trabalhador.

E é exatamente para isso que o entretenimento serve primariamente. Por isso que entretenimento não tem didatismo ou panfletarismo por obrigação. Deve-se conhecer, antes de tudo, a situação daqueles a quem se busca a entreter, e nisso os marxistas falhariam miseravelmente, como falharam na URSS de Stalin e cia.


Socialismo ou telenovela, that's the question... (Caros Amigos, ano XVI, nº 190/2013, pág.4, Gilberto Felisberto Vasconcelos é sociólogo, jornalista e escritor)

Respondendo a essa última questão, telenovela, especialmente se o socialismo for o idealizado por esse sociólogo. Sendo franco, antes de ler esse artigo, eu achava o Marcos Bagno, aquele a quem dirigi duras críticas por seu excesso de proselitismo em artigos e no facebook em detrimento da divulgação científica (link no fim do post), o mais radical que havia nos marxistas. Pelo visto, eu estava redondamente enganado. Aliás, Gilberto Vasconcelos, nesse artigo, faz Bagno parecer um anarco-capitalista de Facebook, ou pelo menos um marxista muito moderado.

Enfim, era essa a reflexão que eu tinha a compartilhar com vocês, eu espero não achar mais nada que me faça voltar a este tema (mas voltarei sem problemas, se preciso) e peço desculpas caso o texto tenha ficado extremamente longo (só verei depois de postado, rs), mas acho que os leitores vão entender que foi necessário (certo, Antonio Amaral?).

Bom, deixo os links aqui no fim do post, despeço-me dos leitores e, como sempre, mando a vocês o meu forte abraço, fiéis leitores.

Links:

Posts sobre Telenovelas:
http://adtantumargumentandum.blogspot.com.br/2011/03/bom-pessoal-essa-vem-ser-minha-tese.html
http://adtantumargumentandum.blogspot.com.br/2012/11/telenovelas-segundo-round.html

Post sobre o ideólogo Marcos Bagno: http://adtantumargumentandum.blogspot.com.br/2013/01/docencia-e-adolescencia-argumentativa.html

Lattes do Gilberto Felisberto Vasconcelos (que, pasmem, trabalhou com cultura por um bom tempo): 


Várias explicações sobre o que é cultura:
http://www.marcelomelloweb.kinghost.net/mmtecnico_gestao_02cultura.pdf (este último mostra pelo menos três das CENTO E SESSENTA E QUATRO definições catalogadas de cultura)

Blog do Francisco Razzo: http://www.franciscorazzo.com/
Blog do Pérsio Menezes: http://peublogg.blogspot.com.br/
Blog do Luciano Henrique Ayan: http://lucianoayan.com/ 


Texto completo (desculpem, só deu para fazer isso, rs. Se alguém souber como colocar documentos de Word ou PDFs em posts de blogs, revele a mim o segredo que refaço isso aqui): 

A TV é que ti vê, seu babaca
 
Ainda não pintou parlamentar de esquerda propondo um dispositivo democrático e humanista para suprimir a telenovela da televisão. A ausência dessa iniciativa revela a mediocridade política da esquerda brasileira. É por isso que inexiste partido da classe operária. A esquerda alienada não considera a telenovela o maior obstáculo ideológico à consciência de classe do proletariado.

Curso, reunião, assembleia, sindicato, comício, organização de greve - nada disso adianta se o operário depois da fábrica vai para casa ou para o boteco ver telenovela. O mesmo seja dito em relação ao Sem-Terra deseducado politicamente pela telenovela. Nosso amigo Stédile prestaria um inestimado serviço ao desenvolvimento da consciência socialista se proibisse a telenovela nos assentamentos. Isso porque, entre outras coisas deploráveis, a telenovela é um instrumento de sacralização do latifúndio e demonização da reforma agrária no inconsciente dos Sem-Terra. Que um juiz parnasiano do STF fale e gesticule de acordo com o código telenovelístico é lamentável, porém não é tão nocivo quanto um proletariado ou um trabalhador Sem-Terra telenovelizado.

O ideal seria eliminar a propriedade privada da televisão, mas isso somente se consegue com uma revolução socialista de verdade. A televisão não faz a economia nem é o motor da história, mas esse aparelho de comunicação acaba por interferir na maneira coletiva de sentir e pensar.

Eis a operação diabólica que não é visível para a maioria dos trabalhadores: a telenovela é um objeto imaterial, porém funciona como uma justificativa das condições materiais de exploração econômica. Afinal, qual é a ideologia dominante na sociedade brasileira? A jurídica do STF ou a da telenovela? A primeira é uma arma da desigualdade social, pois o direito segue sendo o que sempre foi: o direito à desigualdade. A telenovela tece o psiquismo no cotidiano, é uma espécie de terrorismo psicológico, ainda que seja sentido como um doce terrorismo. Idiotice é afirmar que telenovela é cultura. A cultura esclarece e desvenda a realidade, enquanto a telenovela oculta, falseia e deforma as coisas e as relações sociais.

A cultura é crítica do modo de viver da sociedade. A telenovela (como toda TV) é dinheiro, comércio, valor de troca. Por conseguinte, a televisão está dissociada da cultura, quando não é inteiramente anti-cultural, porque sua linguagem é instrumento mercantil de venda; nada aí lida com ideia e beleza. A telenovela só fala de dinheiro e de outras mercadorias.

A pergunta está mal formulada: se a telenovela é esse horror todo, então porque o povo gosta dela? É que a oferta  (há cinquenta anos a telenovela invade a sua casa) condiciona a demanda, convertendo-a em norma, ou seja, o hábito boçal passa a ser objeto de desejo. I love telenovela.

Outro argumento (vá lá a palavra) "populista" de direita é que a telenovela é o único divertimento grátis que o povo tem todos os dias, mas acontece que ela é paga pela audiência, ainda que aparentemente o telespectador não coloque a mão no bolso. É o trabalho morto do trabalhador que paga a audiência e os anunciantes. A lógica do trabalho não-pago, que é o fundamento da exploração capitalista, está presente quando o trabalhador vê telenovela, porque o trabalhador trabalha grátis diante da telenovela. O trabalhador produz um excedente econômico quando está na fábrica. Então, a tela prolonga a fábrica como uma cadeia, a fábrica é cadeia, como dizia Charles Fourier. A noção de entretenimento é um engodo, como se a telenovela tivesse um valor de uso (serventia) para satisfazer a necessidade de fantasia do trabalhador. Socialismo ou telenovela, that's the question...

(Caros Amigos, ano XVI, nº 190/2013, pág.4, Gilberto Felisberto Vasconcelos é sociólogo, jornalista e escritor)

23 de fev de 2013

Mais uma vez o Papa: Resposta a Araramboia

E aí, amigo leitor, gostou dos últimos posts? E o que acham de continuarmos conversando sobre a renúncia do Papa?

Não, fiel leitor deste blog, não farei uma série sobre o Papa, também porque, como vocês devem ter percebido na minha série sobre Religião, minha ignorância em Teologia, da qual sou inteiramente culpado, é grande demais para querer falar sobre os dogmas "menos públicos" da Igreja Católica com um mínimo de propriedade (rs).

Na verdade, este post não foi sequer planejado antes. O que acontece é que, hoje à tarde, vi, no blog (que sigo) de uma amiga minha, chamada Bibiana Garrido, um texto sobre a renúncia do Papa com enfoque em coisas que eu acabei não abordando no meu post tanto porque uma delas é de uma nova especulação sobre a renúncia quanto porque não achei essas questões relevantes na hora de fazer o primeiro post.

O grande problema (e o que talvez faça as minhas críticas serem um pouco mais pesadas) é que, desculpa, Bibiana, mas, na boa, o post tinha algumas besteiras, e eu não poderia deixá-lo sem resposta pelo menos para mostrar para você, que é uma pessoa bem razoável quando se fala em ouvir o outro lado da questão, um outro ponto de vista sobre tudo que você falou. Portanto, espero que,  mesmo que eu seja um pouco agresssivo, meu post seja visto como uma crítica construtiva e que lhe sirva para melhorar os seus argumentos.

Bom, leitores e Bibiana (que também é leitora deste blog), o meu esquema será simples. Vou fazer as minhas reflexões em cima desse texto por parágrafos, ou seja, vou colocar um parágrafo (em negrito ou em itálico, para destacá-lo) e comentá-lo. Já vou aproveitar esse esquema para os meus próximos posts de "refutação" a textos quaisquer, então vou linkar este post com uma certa frequência para os leitores relembrarem o esquema.

Enfim, vou começar a refutar o texto, que estará linkado, assim como o blog da Bibiana e tudo aquilo a que me referir ao longo da refutação. Hora de começar. O título do texto é:  "O papa não é pop e que merda de título é esse?". Vamos lá.

O papa não é pop e que merda de título é esse?

"Depois de ler o relatório elaborado por três cardeais sobre crimes de pederastia e desvio de dinheiro entre as entidades divinas do Vaticano, o Papa decidiu renunciar ao cargo santificado e ficar de boa num monastério, longe da bagunça. O documento de míseras trezentas páginas acusa bispos, cardeais, padres e qualquer outra classe clerical, do não cumprimento do sexto e sétimo mandamentos: o sexto trata da proibição do adultério, o que é traduzido como pederastia nesse caso, e o sétimo faz menção ao furto, ou corrupção"

Bom, para começar, eu devo dizer que, sobre esse relatório, ouvi uma versão diferente. O que eu havia ouvido dizer, além dessa versão que a Bibiana deu, foi que esse foi um relatório que ia ser solto na época daquele escândalo "Vatileaks", mas que não o foi simplesmente porque o Papa cedeu algum tipo de "graça" (não sei se aqui tem um sentido de perdão ou monetário mesmo) ao  tal do ex-mordomo.

No fim, o que aconteceu é que o documento acabou sendo vazado do mesmo jeito, só que apenas alguns dias antes da renúncia de Bento XVI. Mesmo assim, o detalhe é que o Vaticano já emitiu um posicionamento sobre esse texto, dizendo que é um artigo que não deve ser levado a sério, e que, de fato, a renúncia do Papa se deu porque este não se sentiu com forças suficientes para continuar tocando a Igreja apropriadamente.

Não vou questionar aqui se o que o Vaticano está dizendo é verdade, também porque não li (e provavelmente não lerei) o documento e porque, em suas últimas aparições, realmente, parece sim que o Papa, além dos efeitos naturais da sua idade avançada, sente também os efeitos das doenças que tem. O que eu quero questionar aqui é o modo como Bibiana ironiza a vida que Ratzinger levará após a renúncia. Ao contrário do que a futura jornalista diz, o agora Bento XVI não ficará "de boa num monastério, longe da bagunça", pois, apesar de estar recluso, Joseph continuará a ser um cardeal da Igreja Católica e também terá de lutar pela vida contra as doenças. Não sei quanto à minha amiga, mas eu, sinceramente, não consigo ver alguém "de boa na lagoa" quando o mesmo precisa combater doenças sérias. Mas, enfim, vamos prosseguir.

"
E não é que os mensageiros de Deus estavam fazendo tudo isso na surdina? Há quem diga que os oficiais do Vaticano estão sendo chantageados por conta dessas escapadinhas das missas para vilas, saunas e residências nas quais os amantes se encontravam. Oficialmente a razão para a renúncia papal é a "idade avançada", mas mesmo que a mídia tradicionalista tente encobrir o escândalo da pegação clerical, todo mundo sabe o que aconteceu e acontece." 

Sobre a chantagem, realmente, parece que isto está mesmo acontecendo e que a chantagem seria inclusive o "instrumento" que alguns usariam para influenciar na eleição do próximo Sumo Pontífice. Ainda assim, para acabar com essa história do dossiê, faço uma pergunta simples. Bibiana afirma, no final do parágrafo, que a razão dada pelas fontes oficiais, a de idade avançada, é só uma desculpa da mídia tradicionalista para encobrir os escândalos sexuais dentro da Igreja. Acontece que, curiosamente, foi justamente um órgão de mídia (o jornal italiano "La Reppublica") que não só especulou como assegurou que Sua Santidade tinha renunciado por causa desse "relatório". Então, a pergunta é: Por que deveríamos descartar a versão da mídia "tradicionalista" se sequer temos uma fonte confiável (afinal, nossa fonte é um outro jornal, rs) que aponte o relatório como causa de renúncia de Bento XVI? Seria, então, a mídia apenas confiável quando ela diz o que nós queremos ouvir?

Um outro detalhe ao qual peço a atenção do meu leitor é o fato de Bibiana dizer que todo mundo SABE que acontece e aconteceu "pegação clerical" dentro da Igreja. Além de essa afirmação conter uma falácia de apelo à autoridade anônima ("todo mundo sabe"), há também a questão que eu já discuti no meu primeiro post sobre a renúncia papal, ou seja, de que não se deve fazer acusações sem provas, que é o que as pessoas fazem de fato contra qualquer instituição, seja religiosa ou não. Assim, o que temos são, no máximo, especulações acerca do ambiente em que vivem os sacerdotes, não fatos. Também posso citar aqui que o que geralmente se faz (e não falo com autoridade anônima aqui, pois isso é uma coisa bem mais provável) é generalizar, ou seja, "se provaram que há pegação clerical em uma Igreja, deve haver em todas", o que é um argumento totalmente falacioso. Bom, prosseguindo... 

"O que surpreende é a devoção cega que ainda atinge milhares, na verdade milhões, de pessoas que continuam acreditando nas lorotas da Igreja Católica (e digo isso por conviver pessoalmente com várias delas) mesmo depois de um milênio de história dessa entidade, que pode ser considerada a mais bem-sucedida que existe. Que outra instituição conseguiu prender tantos seguidores por tanto tempo? A Igreja também não está sozinha na caça pelos fiéis. O Brasil, por exemplo, que é um país considerado laico por lei, tem sua a grande mídia e governo defendendo com unhas e dentes os ideais católicos. Considerando, ou não, o quão contraditório isso parece, a Igreja tem seus amiguinhos por aí."

Bom, aqui vou ter que pegar pesado, porque, Bibiana, vai me desculpar, mas isso é conversa de militante neo-ateu e comunista, exatamente por esse parágrafo ter um espírito desnecessariamente anti-clerical e estar repleto de erros conceituais. Vamos a eles.

Primeiro, não vou discordar no caso de "devoção cega", mas quero deixar claro duas coisas, sendo uma delas o fato de que pessoas altamente intelectualizadas e críticas como Georges Lamaitre (criador da hipótese da "Teoria do Big Bang") e  Gregor Mendel (pai da Genética) acreditavam "nas lorotas da Igreja Católica", o que pode ser um sinal de que as tais lorotas (incluindo o dogma em que Lamaitre se baseou, que dizia que o Universo tem início no tempo) possam não ser lorotas, e que, sejamos francos, não é preciso ter uma religião para ser devoto cego de alguma coisa. O caso é que o oposto do Ceticismo não é principalmente a religião, mas sim a Credulidade em geral, que pode se manifestar em ideologias políticas e outras tantas coisas que muitas vezes pregam a antirreligião.

Segundo, quero pontuar também que só devemos afirmar com certeza que algo é uma "lorota" quando já foi provado, por A + B, que é informação falsa, o que não aconteceu com os dogmas do Catolicismo. Aliás, como eu já citei antes, o fato de existirem aos montes teorias científicas criadas por padres católicos baseados em princípios bíblicos é justamente o que faz essa conversa de "lorotas católicas" serem usáveis apenas por quem ainda não sabe de suas existências.

Por último, ah, a laicidade, sempre ela, sobre a qual já falei exaustivamente em um dos meus posts da série sobre Religião. O que acontece, nesse caso, é um erro de interpretação da nossa de laicidade, pois, além de não ser proibido que religiões influenciem em decisões não diretamente ADMINISTRATIVAS do Executivo, a maioria dos ideais católicos, por incrível que pareça, encontra algum tipo de respaldo em áreas das mais variadas ciências, até mesmo das Humanas, nas quais formam-se um número infinito de bestas antirreligiosas. Além disso, a mídia, por não ser órgão de governo, pode defender quem bem entender, afinal, o ônus é do leitor de consumir informações criticamente. São justamente pessoas que usam a lógica da Bibiana que propõe besteiras como "restrição da Liberdade de Imprensa", o que afeta altamente a democracia. Continuando...

É engraçado que a maioria das pessoas que se consideram católicas só o são pois foram batizadas pelos pais, e não porque frequentam a Igreja, não porque acreditam nos dogmas desta ou porque concordam com a bíblia. Só o são por preguiça e comodismo. Se nem o próprio chefe religioso conseguiu lidar com a  corrupção e desobediência de seus irmãos, que dirá aqueles que os seguem? Aqueles que os seguem continuarão na pretensão da cegueira. Talvez a metáfora de Eva e o fruto proibido tenha ganhado uma nova interpretação com o passar dos milênios, significando agora a superioridade do medo estúpido da verdade sobre a racionalidade humana.
 
Bom, este é o último parágrafo do texto, e aquele em que, curiosamente, tenho menos coisas para discordar e mais para "adendar".

Primeiro, devo dizer que concordo 100% com a Bibiana sobre o número exorbitante de católicos por conveniência, que acabam continuando na religião por uma questão de status quo ou de comodismo mesmo. Isso, porém, não significa que os católicos mais tradicionalistas (e eu suspeito que até mesmo os mais modernistas também) aprovem a atitude desses falsos católicos. Aliás, um dos maiores problemas que um grande amigo tradicionalista meu enfrenta ao discutir com companheiros cristãos sobre os dogmas da Igreja (não vou referenciá-lo porque já o fiz nos três posts anteriores e porque ele não anda lendo o blog, rsrsrsrsr) é justamente essa falta de conhecimento e de prática dos valores do cristianismo, tanto católico quanto protestante. Aqui, de fato, não tenho como discordar do que disse a Bibiana.

Porém, logo em seguida, ela usa o que nós chamamos de falácia tu quoque (você também, em tradução literal do Latim para o português),  que é quando o argumentador aponta a hipocrisia de seu oponente para dizer que ele não tem o direito de lhe cobrar nada. Trocando em miúdos para a situação aqui descrita, é falácia dizer que "se X não fez Y, então os seguidores de X também não conseguirão/ não precisam fazê-lo", pois, além de um dos objetivos principais das religiões ser guiar o seu seguidor por um caminho que o torne melhor moralmente, se fôssemos usar essa lógica a tudo, teríamos um argumento para acabar com a política em geral, afinal, se nem mesmo os políticos, que ganham para isso, conseguem fazer política de modo a melhorar a vida da população, quem dirá o cidadão comum, não é?

Por fim, eu fico muito curioso em saber o que a futura jornalista define como "verdade". Deixo, então, que ela me responda (ou não) isso, despeço-me por aqui (e coloco os links no fim do post) e mando a todos os queridos leitores o meu forte abraço.

Ah, quando virem o endereço do blog da Bibiana, saberão porque coloquei no título "araramboia".

Links:

Sobre o recente escândalo "Vatileaks lobby gay": 


Sobre Georges Lamaitre (sim, o nome dele tem várias versões, uso Lamaitre por causa de um livro do Gleiser):
Sobre Gregor Mendel:  

21 de fev de 2013

Inocência, Renúncia e um Festival de Besteiras

A Presunção de Inocência, um dos principais pilares da justiça penal brasileira, consiste em fazer com que o réu de qualquer julgamento, por qualquer crime, não precise provar sua inocência, deixando o ônus da prova de sua culpa (ou seja, de provarem que o réu é culpado) com a acusação. Assim sendo, podemos resumir esse princípios, também um dos que alicerçam o Estado Democrático de Direito, na famosa frase "todos são inocentes até que se prove o contrário". Disso deriva também o famoso princípio "in dubia pro reo", ou seja, em caso de dúvida no julgamento, deve-se inocentar o réu.

Hein? Não entendeu nada, leitor? Afinal, por que eu fiz esse (porco) resumo de um princípio jurídico, se nem estudante de Direito sou? É isso que eu vou tentar explicar agora.

Bom, olá, amigo leitor, e este será mais um daqueles nossos papos.

Para explicar o porquê da explicação do começo do post, é preciso lembrá-los de que, além de eu ser um dos maiores defensores desse princípio em qualquer caso (pois considero as "emoções", em certos tipos de julgamento, extremamente nocivas ao bom desenrolar do julgamento em si), eu já falei sobre este tema aqui neste blog, sendo a postagem, que se chamava Justiça e o Brasileiro: Pouco a ver, a segunda e última participação que o meu "alter ego cronista" fez por aqui.

Enfim, se vocês consultarem o post, que é de péssima qualidade literária para uma "crônica", verão, de qualquer jeito, a minha posição no assunto bem claramente, ou seja, que eu defendo, como já disse antes, que qualquer réu, mesmo os que mais nos causam raiva pela natureza de seus crimes, tenham o direito à defesa e à pressuposição de inocência.

Mas, por que estou dizendo tudo isso? De fato, devo dizer que os amigos leitores entenderam perfeitamente o meu propósito e responderam positivamente ao post. Porém, eu achei que isso se desse porque, como quem leu aquele post eram pessoas esclarecidas, esse esclarecimento trouxe-lhes a maturidade para não me atacar pedras. Pensei, portanto, que as pessoas "esclarecidas", que dizem ser maioria na Internet, todas soubessem da necessidade de existência e aplicação desse princípio.

No entanto, após ver alguns comentários em um vídeo do vlogger Yuri Grecco (Eu,Ateu), percebi que minha tese estava completamente errada. Acho que não preciso dizer aos meus leitores que Yuri Grecco tem o costume de criticar a religião tradicional, certo? Pois é, exatamente por isso que no título deste post tem a palavra "renúncia". Leitores, o que aconteceu ainda neste mês com essa palavra?

Exatamente, a renúncia do Papa Bento XVI. Pouco após a notícia ter sido divulgada, o "famoso" vlogger ateu (neo-ateu, melhor dizendo) resolveu ir lá e descer a lenha na figura do Sumo Pontífice. Não quero discutir, entretanto, os argumentos do Yuri, pois um outro vlogger, cujo vídeo deixarei linkado no fim do post, já discutiu isso perfeitamente. O que quero discutir, de fato, é o festival de besteiras que eu li dos seguidores do Dawkins brasileiro e até mesmo de fontes literalmente acadêmicas.

A primeira coisa de que ouvi falar, mas não no vídeo do vlogger neo-ateu, foi que "a renúncia do Papa, por este ter demonstrado fraqueza, compromete o dogma católico da infalibilidade papal". Surpreendentemente, o autor dessa frase é o mais "formado" dos que disseram besteiras. Cabe explicar aqui que a infalibilidade papal não se refere à figura do Papa em si (ou seja, no nosso caso, do ser humano Joseph Ratzinger). Se fosse isso, não seria infalibilidade papal, seria invencibilidade papal, como bem brincou meu amigo Emerson Oliveira. No caso, esse dogma se refere única e exclusivamente a questões teológicas, ou seja, a questões de fé.

Explicando melhor, se o Papa tivesse um ataque de loucura ou de amnésia completa de tudo que conhece sobre ciência e dissesse, com viés científico, que a Terra é triangular, qualquer católico teria o direito de corrigi-lo, pois o Papa não o disse como questão de fé, exatamente porque, a não ser por certos grupos criacionistas extra-Igreja, a Igreja Católica não se foca nesse tipo de questão. No entanto, se o Papa disser, com um viés teológico (ou seja, da fé), que o adultério é o pior pecado a ser cometido pelo verdadeiro cristão, esses mesmos católicos deverão simplesmente acatar o que diz o Sumo Pontífice, pois foi a ele revelada a palavra divina sobre o assunto*.

Fica simples, então, ver que quem falou besteira sobre a infalibilidade papal ou esqueceu de tudo o que aprendeu na Academia, ou palpitou em assunto que não conhecia. Mesmo assim, em se tratando de um acadêmico, fica difícil justificá-lo, pois até mesmo na internet, em discussões religiosas, uma das primeiras coisas que alguém aprende ao discutir com um católico (e coisa que nem a famigerada ATEA do Facebook deixa de saber) é exatamente o real sentido do dogma da infalibilidade papal.

Mas, enfim, essa não é a besteira que me preocupa exatamente porque teve um monte de gente que a refutou e porque não foi imputada nenhuma grave acusação civil ao Papa. As besteiras que me preocupam são, de fato, aquelas que dão rótulo criminoso ao atual chefe de Estado do Vaticano. É valendo-se do fato de Ratzinger ser chefe desse país que alguns relembram os casos de pedofilia noticiados pela mídia e acusam Ratzinger de "acobertar pedófilos", coisa injustificável para alguém que teria "poderes absolutos" dentro do Estado do Vaticano.

Com relação a isso, doo caracteres para Mário Sabino (se bem me lembro, corrijam-me se estiver errado) falar sobre o caso em seu Especial, chamado "COMO UM RAIO DIVINO", sobre a renúncia do Papa, feito para a revista VEJA em sua 2309ª Edição, que foi tornada pública em 20 de Fevereiro de 2013. Sabino diz:

"São principalmente três as razões da amargura de Bento XVI, no que concordamos mais argutos vaticanistas da Itália. Em primeiro lugar, ele se sentiu abandonado por cardeais, bispos e padres em sua disposição de dar um basta nos recorrentes casos de pedofilia que conspurcam a Igreja. O corporativismo foi mais forte que o Papa. Isso ficou claro em 2010, na Irlanda. Descobriu-se que milhares de crianças haviam sido abusadas por sacerdotes, entre 1996 e 2009, com o silêncio cúmplice dos bispos. Bento XVI escreveu uma Carta Pastoral aos católicos da Irlanda, conclamando-os a reagir e censurando os bispos do país por terem acobertado os pedófilos. Inúmeros processos foram abertos no Vaticano, mas nenhum corre com a celeridade devida. Conferências episcopais de outras nações também se fizeram de surdas aos apelos papais, para grande angústia de Bento XVI, que tinha no combate à pedofilia uma cláusula vital de seu pontificado" (grifos meus)

Desse trecho, podemos extrair que, de fato, as duas acusações (de acobertar pedofilia e de poder ter feito mais  contra esses padres) não fazem sentido, pois, como bem disse o repórter, além de ser o combate à pedofilia o foco de Bento XVI, os pedófilos em questão estavam na Irlanda e, fora o fato de faltarem todas as provas contra eles (impedindo a excomunhão e uma prisão imediata), o Papa também nada poderia fazer, pois os pedófilos estavam em um país que, se bem me lembro, não pôde extraditá-los para o Vaticano (para responder ao processo) exatamente por eles serem nascidos na Irlanda.

Fora isso, é justamente o fato de a anti-Pedofilia ser a bandeira principal de Bento XVI que contradiz a acusação de ele querer, por algum motivo, ser conivente com a pedofilia.

Mas, como eu disse, meu foco e minha preocupação aqui são o fato de, por questões puramente ideológicas, as pessoas esquecerem de que até seus inimigos políticos têm o direito à defesa. Com o Papa, que não chega a esse nível, não deve ser diferente, mesmo se fosse ele diretamente o "pedófilo-réu".

Bom, há também a acusação de o papa ter sido um nazista, mas, sobre isso, deixo a refutação por conta do meu amigo Emerson Oliveira em um link que colocarei no fim do post. Porém, antes de finalizar, acho que, já que abordei a questão, devo dar também minha opinião sobre a renúncia de Ratzinger. Sendo bem sucinto (mas bem sucinto mesmo), não me importo muito com essa renúncia no campo religioso, pois não sou católico.

O que me preocupa, de fato, foram as besteiras ditas por gente altamente qualificada, algumas das quais refutei aqui. Aliás, a situação dos nossos "filósofos" anda tão boa que foi justamente o comentário brevíssimo do comentarista Neto (!), dos Donos da Bola - BAND, tido como alguém bem desintelectualizado, que acabou sendo o melhor  tanto em termos de precisão quanto em termos de profundidade teológica (!). Neto, de fato, não precisou adquirir grande conhecimento acadêmico para perceber, melhor que muitos ditos acadêmicos, que, como ele mesmo disse, "o Papa renunciou por humildade, por conhecer seus limites, e isso, ao contrário do que fazem muitos aí que nem sabem do que falam, é um exemplo a ser seguido".

Bom, com isso encerro o meu post, mando meu forte abraço aos leitores, coloco alguns links de referência (com outros bons comentários sobre esse assunto também), peço aos leitores para sempre se lembrarem do que foi dito neste post e, ao Papa Bento XVI, só posso também imitar o Neto e dizer, mesmo não sendo católico, "Muito obrigado!". Afinal, esse grande homem nos deixou uma lição jurídico-filosófica tão simples, mas ao mesmo tempo tão desprezado.

Enfim, obrigado, Vossa Santidade, e lhe desejo felicidades de agora em diante.

Links:
 
Sobre "Presunção de Inocência": http://pt.wikipedia.org/wiki/Presun%C3%A7%C3%A3o_da_inoc%C3%AAncia

Emerson Oliveira, do Logos Apologética, destruindo quem acusa o Papa de Nazismo: http://logosapologetica.com/bento-nao-participava-das-reunioes-da-juventude-hitlerista-demonstra-georg-ratzinger/

Yuri Grecco, do canal Eu,Ateu, falando besteira como nunca (e apanhando retoricamente como sempre): http://www.youtube.com/watch?v=oYP4GHSzIfk

Conde Loppeux descendo a lenha nos argumentos do neo-ateu: http://www.youtube.com/watch?v=9KjDfBtQKh0

Comentário do filósofo Luiz Felipe Pondé sobre a renúncia do Papa: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/1232124-nem-o-papa-aguentou.shtml  

Comentários do filósofo Paulo Ghiraldelli Jr. sobre a renúncia do Papa e sobre as acusações de pedofilia dentro da Igreja: 
http://ghiraldelli.pro.br/2013/02/papa-bento-xvi-aposentadoria-de-atleta-e-na-vitoria/
http://ghiraldelli.pro.br/2013/02/nietzsche-deus-e-bento-xvi-so-o-ultimo-vai-renunciar/
http://ghiraldelli.pro.br/2013/02/por-que-e-dificil-entender-o-papa/

* Peço aos amigos católicos que, se algo errado foi dito sobre a infalibilidade, corrijam-me da forma que preferirem, que já corrijo no próprio post.

** Vocabulário (rs):

Arguto
Conspurcar
Celeridade
Episcopal

14 de fev de 2013

Carnaval, Uns Delírios

Caro leitor, imagine que você está na internet e te mandam esses dois vídeos, esse texto e essa imagem com texto:

http://www.youtube.com/watch?v=VN6Kr5jFogY
http://www.youtube.com/watch?v=7lc_IZPwG4E
http://mipolifonia.blogspot.com.br/2012/02/texto-do-danilo-gentili-sobre-o.html
http://www.facebook.com/photo.php?fbid=520899121295983&set=a.297879746931256.90538.297869120265652&type=1&theater

Viram? Se sim, quero perguntar-lhes algo: Qual é a semelhança e qual é a diferença entre essas 4 argumentações? É o que vou tentar explicar neste post.

Bom, olá, amigos leitores. Como perceberam, resolvi começar este post de uma forma diferente, também porque é um post inusitado neste blog e porque é um post que talvez leve este blogueiro a perder a fidelidade de muitos de vocês, e vão saber o porquê já já. Mas, para isso, tenho que  primeiro responder a pergunta que fiz a vocês.

Depois de terem visto os links que indiquei, fica fácil a vocês perceber a semelhança entre eles: todos atacam com ferocidade uma festa muito famosa no Brasil, o Carnaval. De fato, essa mesma festa deve ser um dos únicos alvos tanto de conservadores quanto de liberais. Enquanto estes a atacam por razões principalmente políticas, aqueles não podem defendê-la por razões morais.

Tudo isso, porém, eu explicarei no momento mais oportuno. Afinal, não respondi ainda aos amigos leitores qual era a diferença entre os links que mostrei. No caso, a diferença entre todos eles é que estão criticando um mesmo objeto por linhas argumentativas diferentes, ou seja, são quatro argumentações diferentes para atacar o Carnaval.

Eu poderia muito bem simplesmente deixar esses links aí e dizer: "Bravo, heróis da nossa mídia e do nosso facebook! Voto em vocês!". Mas, como o amigo e fiel leitor (e a booooa amiga leitora) sabe, não faz muito o meu estilo me render ao que a maioria pensa, especialmente porque sou cético à capacidade do brasileiro de escolher um posicionamento sobre um assunto após muito refletir (é inclusive esse meu ceticismo ao brasileiro que me faz defender a existência de religiões e outras coisas, mas isso eu explico em momento mais oportuno), assim como não acredito que os argumentadores dos links sejam especialistas renomados e incontestáveis no tema. Assim, neste post, farei uma coisa que pouquíssimos até hoje ousaram fazer, seja dentro das redes sociais, seja fora delas: defender o Carnaval.

Antes, porém, de começarmos, o bom senso manda que eu preste alguns esclarecimentos ao amigo leitor. Primeiro, quero deixar bem claro que, apesar de eu ter dito que sou cético à capacidade do brasileiro de escolher uma posição sobre um assunto após reflexão criteriosa, isso não significa que você, caro leitor anti-Carnaval, não possa ter escolhido esse posicionamento após uma boa reflexão. Inclusive, desconfio das capacidades do brasileiro, mas confio na de meus leitores que, pasmem, são todos brasileiros (como eu disse, explico isso melhor outra vez).

Também quero deixar claro, como sempre tento fazer, que não é porque eu discordo desses argumentos que eles estão errados. Aliás, confesso, conheço aos montes grandes argumentadores anti-Carnaval vindos de todas as posições dos espectros político e religiosos, e acho que deles, inclusive, se acabar vendo este post, poderá acabar fazendo um em resposta, sendo ele o meu amigo Emerson Oliveira, do site "Logos Apologética". O que quero dizer aqui é que não acredito ser o dono da verdade, nem acredito que haja argumento irrebatível nessa questão, especialmente porque, como diz meu grande amigo Francisco Razzo, do Fides et Ratio, argumentos são construídos pela falha razão humana.

Por fim, quero dizer que não advogo em causa própria, ou seja, que não sou um grande pulador de Carnaval. Por que digo isso? Porque percebo que é muito comum, tanto entre conservadores quanto entre liberais, desmerecer os argumentos do oponente  ou ridicularizá-lo dizendo que ele está "argumentando em causa própria". Mesmo assim, não pular o Carnaval com frequência não me faz inepto para falar sobre essa questão, especialmente porque venho procurando informações em todo lugar sobre isso (porei todos os links no fim do post, não se preocupem). Portanto, espero que nenhum espertinho venha me jogar esses dois argumentos na cara, também porque, se os jogar, confesso, não responderei por mim, pois o nível de cretinice de quem faz isso é absurdamente alto.

Bom, como diria o ilmo (ilustríssimo) Pedro Bial, aos trabalhos. Vou começar discutindo o primeiro link, que é o que tem um vídeo da famosa âncora do SBT, Rachel Sheherazade (beijo e me liga, Rachelzita,rsrsr /brinks), "falando a verdade" sobre o Carnaval em si. Dizem, inclusive, que ela foi demitida depois disso, o que, convenhamos, é uma afronta clara à liberdade de expressão. Por mais que eu discorde de Sheherazade, acho benéfico que pelo menos existam pessoas como ela na mídia, pois geram o mais importante para o debate democrático das ideias, que é um novo ponto de vista a ser debatido.

Mas, não vim aqui para falar sobre Democracia, mas sim para desmentir alguns argumentos que julgo falsos sobre o Carnaval. Então, vamos começar. Primeiro, a jornalista reclama do fato de as pessoas dizerem que o Carnaval é genuinamente brasileiro, já que este, de fato, e como ela bem apontou, foi "inventado" durante a Era Vitoriana inglesa. O detalhe a que Sheherazade não se atenta é que existe uma outra interpretação para essa fala, interpretação essa que eu, inclusive, vejo com mais frequência entre as pessoas do povo.

No caso, chamam o carnaval de "genuinamente brasileiro" não levando em conta a sua origem, mas sim o fato de ser uma festa que destaca atributos típicos do brasileiro comum, como por exemplo a alegria e a animação presentes nessa festa. Seria o mesmo que dizer, 30 ou 40 anos atrás, que o Natal é uma festa tipicamente brasileira não levando em conta sua origem história, mas sim o fato de que este realça um valor que, na época, era muito importante ao brasileiro, que é a união da família e a própria família (não vou discutir se é importante hoje, e provavelmente demorarei muito para fazer isso). Assim, não creio que quem diga que o Carnaval é tipicamente brasileiro esteja querendo cometer uma fraude histórica ou enganar o povo, mas sim que fala isso baseado na identificação que existe entre alguns atributos do brasileiros e a essência do Carnaval.

Depois, a jornalista fala que, por ser atualmente um grande negócio para as elites financeiras, o Carnaval deixou de ser popular. O detalhe é que não há a mínima relação entre uma coisa e outra. Para o Carnaval deixar de ser uma festa do povo, duas coisas precisariam acontecer: o povo teria de perder o interesse e a identificação com a festa e o Carnaval teria de ser, literalmente, privatizado, ou, melhor dizendo, tomado do povo pelos ricos. Eu, porém, não sei que razões os ricos teriam para tirar o Carnaval do povo, especialmente porque é um dos poucos entretenimentos ainda acessíveis a praticamente toda a população. Mas, não imagino outra forma de o Carnaval deixar de ser popular. Nesta questão, no entanto, eu admito que estou bem aberto a ouvir outras explicações.

Bom, prosseguindo, não vou discutir por enquanto o terceiro argumento de Sheherazade, sobre financiamento público do Carnaval, pois é um argumento que deixarei para discutir ao comentar o segundo link que postei. Assim, vamos ao quarto argumento. Aqui, Rachel mostra sua indignação com as músicas que deixam de ser tocadas no Carnaval. Segundo ela, troca-se a boa música (que ela não define, mas que eu suponho serem músicas de artistas como Caetano, Chico Buarque ou até mesmo Roberto Carlos, por exemplo) por hits do momento, o que é um absurdo. Para derrubar esse argumento, preciso apenas fazer duas perguntas ao leitor que acha que essa reclamação procede. Amigo leitor, se você estivesse em um concerto de música clássica, creio que não começaria a pedir ou a colocar um funk ou um hit do axé-music para tocar no volume máximo, não é? Afinal, a ocasião não permite isso. Essa linha de pensamento, convenhamos, está certíssima. Mas então, caro amigo, por que é que você dá razão a esse argumento da Sheherazade, que quer porque quer fazer com que o povo, as pessoas comuns, sejam moralmente obrigadas a ouvir, em uma festa POPULAR, canções que não estão "na boca do povo"?

É a mesmíssima coisa. Não quero dizer com isso que eu sou um inimigo da boa música (apesar de confessadamente sentir medo de quem se diz um defensor da "música boa que não existe hoje" por diversos motivos). Quero simplesmente dizer que é a ocasião quem faz a música, ou seja, que assim como não existe nexo em querer tocar um hit do axé-music em um concerto de música clássica, não existe nexo em querer colocar o alto da sofisticação musical e literária em uma festa destinada ao povão.

Alguns ainda poderiam me perguntar: "Ora, Octavius, você, um homem que diz que trabalha com Literatura e Educação, não quer que o povo tenha acesso ao melhor da nossa produção musical e literária? Mas que elitismo é esse?". Aos leitores curiosos (e provavelmente liberais comunistas fanáticos), esclareço que, fato, trabalho com Literatura como minha grande área de pesquisa. Exatamente por isso que devo avisá-los de que, em alguns casos, é muito arriscado usar esse argumento de "literatura de qualidade". Mas, deixo para explicar mais sobre literatura e alguns pressupostos de teoria, crítica e história literárias em outra ocasião.

Por agora, é suficiente dizer que, sim, eu quero que as pessoas tenham acesso ao melhor da nossa cultura. Porém, temos de lembrar que não é para obter cultura que as pessoas vão a festas como o Carnaval, mas sim para ter entretenimento. Devo lembrar, aliás, que eu já comentei algo mais ou menos nesse estilo quando falei de novo sobre Telenovelas (link no fim do post). Isso não significa que não se possa inserir um pouco de cultura nesse entretenimento, mas sim que uma festa, exatamente por não ter esse objetivo, não é o lugar mais adequado para se falar sobre cultura, ou sobre filosofia, ou qualquer outra arte mais erudita. Isso pode ser feito, sem problemas nem prejuízos, na escola ou na universidade, que são lugares bem mais propícios à disseminação do conhecimento.

Prosseguindo, Rachel faz, talvez, a reclamação mais pertinente do seu vídeo inteiro quando comenta sobre todo o aparato médico e policial à disposição no Carnaval para "bebuns valentões que brigam com todo mundo", enquanto, para o cidadão comum, nada há. Mesmo assim, não posso concordar com seu ponto de vista totalmente, pois, ao que me parece, a âncora fez uma correlação no mínimo estranha. Talvez eu tenha lido mal sua fala, mas soa como se o fim do Carnaval fosse resolver um problema que ocorre no Brasil desde antes da existência do Carnaval, que é a incompetência generalizada do poder público na gestão dos serviços públicos mais básicos, como saúde e segurança.

Não se resolve isso, no entanto, cancelando festas, mas sim com uma postura politicamente ativa, com cobrança e fiscalização dos que nos representam nas câmaras municipais e  no Congresso. Sim, eu sei que isso é clichê, mas é a solução que todos veem mas ninguém se propõe a tentar executar. Porém, o fato de a minha proposta ser clichê não muda as coisas. Afinal, sejamos sinceros, dizer que o fim do Carnaval por si só iria ajudar em qualquer coisa nas questões que a âncora do SBT bem apontou é o mesmo que dizer que votar nulo nas eleições municipais, estaduais e federais vai ajudar a acabar com a corrupção no Brasil, quando o efeito, neste caso, pode inclusive ser o contrário.

Enfim, depois disso, Sheherazade fala que dizer que os pequenos comerciantes lucram no Carnaval é besteira, pois, se dependessem deste para o resto do ano, passariam fome, e, portanto, o Carnaval é só prejuízo para todos e lucro para as grandes empresas. O detalhe é que esses comerciantes não vendem seus produtos só durante essa festa, eles vendem seus produtos também durante essa festa. Quando se diz que os comerciantes pequenos lucram, não se fala que eles viveriam só com o dinheiro do Carnaval, mas sim que, no mês do Carnaval, sua renda aumenta um pouco.

Isso pode parecer um tanto tolo, ou demagógico, mas, amigo leitor, exerçamos a empatia aqui. Ponhamo-nos no lugar desses comerciantes. Imaginemo-nos ganhando, nos meses normais, 1500 reais por mês, e, no mês de Carnaval, ganhando 2000 reais. Apesar de parecer pouca, essa diferença de 500 reais pode ajudar o comerciante de várias maneiras, afinal, talvez sejam 500 reais a mais para a reforma de sua casa, ou para trocar o seu carro, ou até mesmo para fazer algum reparo necessário na loja. Não estou querendo usar a falácia do apelo à emoção aqui, não me levem a mal. O que quero dizer é que, apesar de não parecer, esse dinheiro que eles ganham a mais e que nós achamos pouco talvez seja justamente a soma de que precisavam para realizar alguma ambição pessoal, ou até mesmo uma soma que os ajude a realizar algum sonho mais tarde.

Assim sendo, de fato, eu concordo com a ilustre jornalista quando ela afirma, corretamente,  que as grandes empresas terão muito mais lucro do que os pequenos comerciantes, mas o detalhe é que, com ou sem Carnaval, os lucros dos grandes não deixarão de aumentar, pois há outros modos de conseguirem isso. Já os lucros dos pequenos, aqueles 500 reais que eu citei, por exemplo, esses poderão, no fim de contas, fazer muita falta. Percebemos, então, que, por mais que o grosso dos lucros  fique com as maiores empresas, isso não faria o fim do Carnaval ser mais benéfico, pois estaríamos tirando o lucro (e talvez até alguma chance de ascensão social e de ganho de clientes "vitalícios") dos micro-empresários. Considero, então, que, nesse caso, o fim do Carnaval traria mais prejuízo do que lucro à maioria da população.

Por fim, Rachel argumenta do mesmo jeito que o fazem o terceiro e o quarto links que relacionei. Assim, prefiro deixar para discutir esse lado mais "clínico" da questão quando discutir os argumentos expostos nos links supracitados.

Vamos, então, ao segundo vídeo, produzido pelo Cauê Moura, vlogger que ficou famoso após um enfrentamento judicial com o cantor Latino. Basicamente, e como o amigo leitor pôde assistir, o argumento de Cauê Moura, com certeza muito menos sofisticado e abrangente do que os três minutos falados pela âncora do SBT, basicamente é esse: devemos acabar com o Carnaval para investir em coisas mais importantes para todos, como educação e saúde. Inclusive, é partindo do caso do prefeito de Niterói, que resolveu investir na saúde a verba que gastaria no Carnaval, que Cauê Moura monta toda a sua argumentação, apelando para o senso de empatia do brasileiro ao dizer que quem reprova a atitude do prefeito provavelmente nunca passou pelo SUS.

De fato, a lógica do vlogger, à primeira vista, é imbatível. Devo dizer que eu concordo totalmente com ele quando diz que devemos dar atenção especial à educação e à saúde, áreas-chave para o desenvolvimento das nações. Frisem bem, caros leitores, que eu disse "dar atenção", não "investir mais". Por que fiz isso? Porque a falha do argumento do Cauê Moura reside em colocar que o problema principal das duas áreas supracitadas é falta de investimento.

Quanto à saúde, não vou argumentar, pois não tenho nenhum conhecimento da área. Porém, se algum leitor meu for um profissional das Ciências da Saúde, tome a liberdade de me apresentar alguns dados ou experiências que corroborem ou refutem minha ideia. Mas, como alguém já iniciado na área da Educação, posso dizer, com certa convicção, que o problema não é falta de investimento. Aliás, os dois problemas não tem a ver com a falta de dinheiro para investir, mas sim com como o dinheiro é investido e com o fato de haver alguns desvios de verba antes de esta chegar aos diretores das escolas e universidades. Ou seja, o problema não é a falta da verba, mas sim o desvio dessa verba e o investimento contínuo em uma estrutura altamente burocrática (é ponto pacífico entre quase todos os educadores que os gastos com burocracia educacional são muito grandes para um país como o Brasil) e atrasada do ponto de vista metodológico (vou linkar, no fim do post, um texto meu no facebook sobre isso).

Outro dado interessante de se lembrar é que, ao contrário do que parece, existe uma verba específica para investimentos nessas áreas, que são PRIORITÁRIAS, ou seja, repassa-se verba primeiro para a educação, saúde e segurança, e só depois para outras coisas. Fica, então, evidente que, de fato, o problema não é a falta de verba, e que adicionar mais verba sem mudar os investimentos e sem fiscalizar o uso dessas verbas não adianta de nada.

Assim, termino minha argumentação sobre o segundo link. Vou agora argumentar sobre o terceiro link, que apresenta um texto, muito divulgado Facebook afora, de autoria do humorista Danilo Gentili, e sobre o quarto link, uma imagem de uma página conservadora que exerce seu direito democrático de lutar pela preservação dos valores tradicionais cristãos (e, sim, repito isso, pois parece que as pessoas não estão entendendo a nada sutil diferença entre conservadorismo e ser anti-minorias, mas, enfim, né?). Como a linha de argumentação dos dois links é praticamente igual, vou refutá-los de uma vez só.

Basicamente, tanto Danilo quanto a Reage Brasil apelam para todas as consequências ruins que o Carnaval traz. Não sei se o Danilo tem alguma motivação religiosa para ser contra o Carnaval, mas o que acontece é que, após conversar com o meu ilustre e velho amigo Patrick Brito, aquele mesmo do Debate entre Titãs (vou linkar no final para os leitores lembrarem), ex-ateu e agora mórmon, e, portanto, cristão, descobri que cobrar de um verdadeiro cristão o apoio ao Carnaval é ser injusto e forçá-lo a contradizer sua doutrina. (Para saber mais sobre isso, encham o saco ou do Emerson Oliveira ou do Francisco Razzo para que eles esclareçam a questão da relação entre Cristianismo e Carnaval. Eu até faria isso, mas, por uma razão óbvia (a de não ser cristão, rs), prefiro deixar esses esclarecimentos a cargo de quem sabe do assunto).

Portanto, quero deixar bem claro que não quero desconverter ninguém, nem contrariar a doutrina de ninguém. Mas, o fato é que, como não crente em Deus e muito menos crente em que a Bíblia seja sua palavra (e é um direito que o Estado me dá, rs), não tenho a menor obrigação de deixar de refutar as falácias expostas no link.

O problema de ambos os links é inferir, assim como fez Sheherazade, que, sem o Carnaval, nada dessas coisas aconteceria. O detalhe é que o brasileiro, talvez por ignorância dos valores da religião que diz seguir, ou talvez porque só use a religião como "status quo" e não esteja preocupado com o que diz sua doutrina, já transgride regras religiosas normalmente. O fato é o seguinte: o Carnaval é só mais uma desculpa para dirigir bêbado, para usar drogas, para transar com qualquer pessoa e para abortar. Assim sendo, cortar a desculpa não vai eliminar a transgressão. Aliás, a única coisa que será feita é tirar o lucro de pequenos comerciantes e a renda das pessoas que vivem para o Carnaval e que muitas vezes dependem do dinheiro que o governo investe em trios e escolas de samba pelo resto do ano, já que o trabalho recomeça tempos depois do Carnaval. Ou seja, além de não ajudar em nada a recuperar os valores da nossa sociedade, vamos trazer prejuízos a milhares que muitas vezes usam a época do Carnaval para mudar definitivamente de vida e trabalhar a sério.

Ainda assim, o próprio Patrick argumentou comigo que, se formos seguir essa lógica, teremos de liberar o tráfico de todas as drogas, pois há famílias vivendo do dinheiro do tráfico. A falha desse argumento é que, além de colocar no mesmo patamar trabalhadores honestos com traficantes declarados, podemos, no Carnaval, impedir alguns danos, por meio da melhora da fiscalização (que, junto com a nova e mais rígida Lei Seca, fazem os números de acidentes de trânsito caírem gradualmente ano a ano, como mostram algumas notícias) e da segurança dos eventos, e, depois dele, controlar ou reverter os possíveis danos. Afinal, nada impede que uma mulher prestes a abortar seja convencida do contrário, e que uma pessoa que pegou uma DST se cure ou que possa aprender a lição ao viver sob remédios fortíssimos. Já no caso das drogas, não tem como reverter os danos, que acabam sendo ainda maiores tanto ao dependente quanto à família e até mesmo ao cidadão comum, que pode ter sua carteira usada para financiar cada vez mais o tráfico.

Além disso, como eu já disse, não é acabando com o Carnaval que os valores retornarão, mas sim fazendo o trabalho constante de cultivá-los nas pessoas desde a infância. Afinal, convenhamos, muito dificilmente uma pessoa que está convicta de seus valores vai desviar-se deles. Mas, para inserir esses valores nas crianças, não se deve aplicar a lógica crente-burra, que é aquela que diz "porque papai do céu quis e pronto",  mas sim a lógica crente-esclarecida, explicando para a criança que, se ela cometer os desvios X e Y, vai sofrer, no mundo físico, as consequências W e Z, e, no mundo transcendental, as consequências A e B.

Para que não falem que, na questão de drogas, eu estou de papo furado, quero ressaltar que sou totalmente favorável à proibição do uso de todas as drogas de alta periculosidade, incluindo o álcool e o cigarro. Sim, sou declaramente um anti-alcoolista e um anti-tabagista. Portanto, não falo por falar, mas sim como alguém que talvez deteste as drogas tanto quanto os cristãos mais praticantes que conhece detestam-nas.

Por fim, refuto dois argumentos do Gentili, um sobre cortar semana ociosa para gerar renda, o que é uma besteira, visto que o brasileiro já é um dos povos que mais trabalha no mundo e que, no caso, o fim do Carnaval iria tirar muita renda até mesmo do próprio Estado, e outro sobre melhorar a imagem do Brasil no exterior. Neste último caso, eu diria que não há muito o que fazer, pois acabar com o Carnaval não vai fazer com que quem está interessado em passar uma imagem errada do Brasil para o exterior deixe de passá-la, pois há várias outras formas de fazer isso. A única solução que vejo para o caso seria regular o conteúdo que as mídias podem divulgar, mas, vamos ser sinceros, caros leitores, quase ninguém é maluco de querer isso, e eu e o Danilo, eu suspeito, menos ainda.

Enfim, era tudo isso que eu tinha para falar sobre a questão. Vou pôr os links de que falei (e mais alguns) no fim do post, mas quero que tomem a liberdade de expressar suas discordâncias ou concordâncias nos comentários e de me passarem algum link ou referência que acharem que vai adicionar algo ao tema.  Se preciso for, faço um  post adendo corrigindo algum ponto em que tenha errado e/ou adicionando as informações extras que me passaram.

Bom, despeço-me de vocês, amigos leitores, e, como sempre, agradeço-lhes pela atenção e mando-lhes meu forte abraço. Obrigado pela paciência.


Ah, só mais um recado, ao leitor mais atento, sim, este título é em referência ao famoso livro do Dawkins, "Deus, Um Delírio". E, sim, concordo que deveriam escrever "Dawkins, Uns Delírios" também, rs.

Link:

Sobre a queda nos números de acidentes durante o Carnaval:


http://www.opovo.com.br/app/opovo/fortaleza/2013/02/14/noticiasjornalfortaleza,3005468/acidentes-nas-ces-diminuem-66-neste-carnaval.shtml

http://www.midiamax.com/noticias/837478-rigor+lei+seca+reduz+10+acidentes+carnaval+aponta+balanco+pm.html
http://g1.globo.com/ro/rondonia/noticia/2013/02/numero-de-acidentes-de-transito-diminui-no-carnaval-em-porto-velho.html
http://noticiasar.terra.com.ar/tecnologia/interna/0,,OI2339896-EI10736,00.html
http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/numero-de-mortes-nas-estradas-durante-carnaval-cai-25-4

Um debate entre "titãs" (sim, ambos os nossos pontos de vista mudaram MUITO nessa questão, rs)

Outras discussões sobre o vídeo de Sheherazade e o texto de Gentili:

http://www.youtube.com/watch?v=FC-QzCRrGA4

http://revistaogrito.ne10.uol.com.br/page/blog/2011/03/12/rachel-sheherazade-hit-do-carnaval/comment-page-1/
http://umaodisseianoplanetaisolda.blogspot.com.br/2012/02/argumentando-contra-o-texto-do-danilo.html

Breve texto meu sobre a questão Carnaval X Investimento em Educação:

http://www.facebook.com/octavio.henrique.3/posts/474798359245020?

Sites mencionados:

Fides et Ratio (Francisco Razzo)

Logos Apologética (Emerson Oliveira)