7 de jan de 2013

Docência e Adolescência (Argumentativa)

E aí, amigos leitores? Como vão as vossas merecidas férias?

Bom, hoje eu vou ter que lhes pedir desculpas antecipadamente, pois serei radicalmente infiel às minhas propostas neste blog. Como vocês todos bem sabem, eu sempre ressaltei que o objetivo deste blog não é criticar pessoas, mas sim grupos e suas ideias quando estas me parecerem incoerentes com a realidade. Porém, as atitudes que um professor e linguista da UnB, o doutor Marcos Bagno, vem tomando no Facebook incomodam-me profundamente, e é sobre essas atitudes que falarei neste texto. Por isso, peço-lhes desculpas, mas vou ter que quebrar essa minha regra, por ser um caso que eu chamaria de "caso de vida ou morte intelectual", e vocês vão entender porque em breve.

Antes de tudo, quero explicar duas coisas. A primeira delas é que eu simplesmente adoro o trabalho do linguista Marcos Bagno (não o conheço como professor) quando este se propõe a falar sobre Linguística. Junto com Sírio Possenti, linguista da UNICAMP, o professor Bagno é, sem dúvida, quem eu considero autoridade no assunto. Os textos de ambos são acessíveis, fáceis de ler e fáceis de compreender até mesmo para um leigo, o que, em termos de divulgação científica, é excelente.

A segunda coisa é uma explicação ao próprio professor Bagno, caso ele venha a ver este post. Gostaria de falar-lhe, professor, que seu crítico é ateu, apolítico, liberal (nos costumes) e, falando a grosso modo, "linguista" (por preferir a Linguística à visão Normativa sobre Gramática). Portanto, por mais que eu acabe sendo um pouco grosseiro em algumas partes do texto, espero que o receba não como uma censura, mas sim como uma crítica construtiva ao seu modus operandi*, se assim posso dizer.

Por que eu expliquei tudo isso? Porque, apesar de ser um fã do professor, não posso, por uma questão de honestidade intelectual mesmo, concordar com algumas atitudes que ele tem tomado tanto em seus artigos quanto em seu perfil de Facebook quanto aos seus opositores, sejam eles intelectuais ou "meros" alunos. Por isso, decidi usar este espaço para pelo menos tentar alertar o professor sobre seus erros e sobre as prováveis consequências de seus erros argumentativos.

Primeiro, todos aqueles que já trabalharam pelo menos uma vez com a Linguística sabem que, no meio acadêmico, ela é considerada como ciência. Inclusive, o próprio professor defende-a com unhas e dentes exatamente por ser um método mais científico de análise da língua.

No entanto, a defesa de Bagno apresenta dois problemas transparentíssimos para qualquer um que já tenha lido duas ou três páginas sobre o que é ciência. Ao fazer suas defesas, Marcos Bagno ora toma a ciência como sua ideologia, e peca por desconsiderar que ciência não é ideologia, já que esta tem mais a ver com crenças pessoais ou grupais e aquela é uma das formas descobertas pela humanidade para a busca do conhecimento, ora ele insere traços de seu comunismo (sua ideologia) declarado em seus textos, esquecendo, também, que, ao ideologizar uma ciência, além de não respeitar os critérios mais básicos de metodologia científica, ele corre o risco de restringir seus conhecimentos ou sua ciência apenas ao grupo que siga a mesma ideologia, o que, em termos de conhecimento, é inaceitável.

Fora isso, Marcos Bagno cai em contradição quando despreza os normativistas por não terem embasamento científico (mas sim filosófico) para suas teses mas, ao mesmo tempo, defende as ideias de vários filósofos da linguagem. Estranho, não?

Aliás, é quando ele mostra o seu desprezo pelos normativistas que comete talvez seu maior erro. Marcos Bagno, ao atacar a visão Normativa de Gramática, apela sempre para a "idade das ideias". Explico: Muitos afirmam que foram vários filósofos gregos (ou seja, gente que viveu há pelo menos 2300 anos) que teorizaram e primeiro aplicaram essa visão à língua. O professor, então, se aproveita da antiguidade dessa linha de pensamento para inferir que está errada, ou que deve ser descartada.

Porém, o que o professor pelo visto ignora, ou não sabe, é que o que ele está fazendo é uma falácia chamada Argumentum ad Novitatem (Em Latim Clássico: Argumentum ad Nouitatem; Em Português: Apelo à Novidade), e que, por consequência, não é a "idade" de uma ideia que deve ser levada em conta quando se argumenta contra ela. Se for assim, então, teremos que banir a própria Língua Portuguesa do nosso país, afinal, ela mesma já conta seus 800 e poucos anos. O que quero demonstrar aqui é que o argumento de idade, quando assim colocado, é reduzido ao que ele é de fato: uma tolice. Deve-se argumentar contra ideias, claro, mas com base em sua eficiência social (ou seja,  se essa ideia vem dando certo para a sociedade) e na lógica da qual elas derivam.

Porém, o uso dessa falácia não para por aqui. Marcos Bagno também faz o mesmo com a moral cristã, outro objeto de seus ataques. Neste caso, o professor, exatamente por não ser filósofo ou teólogo, acaba cometendo erros ainda mais grosseiros. Além de usar a já referida falácia, o linguista ainda comete o que chamamos de "Falácia do Espantalho", pois distorce totalmente a visão cristã sobre a vida e a acusa de homofóbica e preconceituosa.

Para refutar o dizer "a moral cristã é preconceituosa", basta informar ao professor que não se trata de preconceitos, mas sim de conceitos bíblicos, e que, em um Estado Laico, é completamente legítimo defender sua moral religiosa em público desde que se dê esse direito também às outras religiões, o que, até onde eu saiba, acontece de uma forma ou outra.

 Já para refutar o dizer "a moral cristã é homofóbica", basta mostrar a definição de homofobia, que seria "o ódio extremo aos homossexuais" e não "toda e qualquer crítica ao comportamento homossexual". Bagno também cai no erro de afirmar que chamar alguém de pecador é o mesmo que demonstrar ódio. O detalhe é que essa informação não procede por duas razões:

1- Pecado é conceito bíblico e, portanto, não há como alguém que se diga cristão não chamar de pecadores  aqueles a quem sua moral dá esse rótulo. Cercear-lhes esse direito seria passar por cima da lei de liberdade religiosa, o que só se fez e só se faz em regimes comunistas.

2- Na própria Bíblia, existe um trecho em que se diz qual deve ser a atitude do cristão ante o homossexual e ante à homossexualidade: deve imperar o respeito e a inserção dos homossexuais na comunidade. Se alguns agem em desacordo com o que dita essa moral, ela não se torna errada. Aliás, isso só prova é que quem está agindo errado não está agindo por princípio religioso, mas sim por achismo sobre os desígnios divinos.

Assim sendo, fica claro que, ao contrário do que diz nosso professor, a moral a que ele se opõe não é tão horrenda assim, pelo menos não perto de outro costume bagnista, que é o de desmerecer o papel religioso e social da Igreja e de Bento XVI por causa da idade deste. Porém, sobre este nem vou comentar muito tanto porque já expliquei o erro deste tipo de raciocínio alguns parágrafos atrás e porque agora vou passar a comentar as ATROCIDADES argumentativas do professor.

A primeira delas é a de rotular todos os que discordem dele de "reacionários", "conservadores", "homofóbicos" ou "defensores do atraso". O que Marcos esquece é que os valores que ele defende não necessariamente garantem sequer a sobrevivência da humanidade, quanto mais qualquer tipo de progresso. Aliás, só de ver o número astronômico de mortes que ocorreram nos lugares em que se adotou ideias do ídolo-mor de Bagno, Karl Marx, fica perceptível que essas ideias são nocivas a quase qualquer tipo de sociedade. Além disso, desmerecer os argumentos de alguém por rótulos que você lhe deu é, sem dúvida, a forma mais argumentativamente bizarra possível de Argumentum ad Hominem (Ataque ao argumentador), algo que, por si só, já serve como indício não só da qualidade dos argumentos de quem comete essa falácia como também muito provavelmente aponta sua idade mental.

A segunda delas, e não menos bizarra, é a de apelar constantemente a autoridades sem demonstrar porque essas autoridades estão certas. Explico: é de praxe do professor citar o nome de um ou dois filósofos da linguagem em um argumento para tentar fazer o interlocutor com quem debate aceitar sua linha de pensamento. Porém, qualquer um que tenha a mínima noção sobre como se deve argumentar sabe que não basta citar o nome do filósofo, deve-se mostrar também de que premissas ele parte para chegar na conclusão de que a ideia A, B ou C é válida.

A terceira das atrocidades é a de, em um gesto de pura arrogância intelectual, se recusar a debater com determinados filósofos por eles serem "reacionários". Isso, além de um ser um ad hominem bizarro, pode ser entendido também como incapacidade de refutar quem o contesta. Vou dar um exemplo: já há algum tempo, os opositores de Bagno linkam em suas postagens textos do professor Olavo de Carvalho em que este contesta algumas visões do linguista da UnB. Porém, ao contrário do que quem tem preconceito contra os olavistas e contra o Olavo pensa, os pontos que Olavo levanta em seus textos são bem coerentes e mereceriam sim uma apreciação maior por parte não só de Bagno como de outros acadêmicos da área. Mas, Bagno prefere rotular o seu adversário e negar aprendizado aos dois lados, tanto a normativistas quanto a linguistas, além de nos negar a oportunidade de ver um debate que, sinceramente, poderia ser muito produtivo para todos, inclusive para a reputação de ambos os contestadores.

Eu falaria também sobre os apoios velados à censura da mídia, sobre o fato de mandar "à merda" quem o contesta, mas prefiro mostrar essas atrocidades no fim do post com algo que fiz em cima de algumas postagens do professor no Facebook e que chamei de "Guia 'Democrático'-Bagnista". O que importa aqui, no entanto, não são as atrocidades, mas sim as consequências delas: além de demonstrar que, argumentativamente falando, o professor ainda não passou sequer pela adolescência, atitudes como essa acabam não só queimando o filme de todos os partidários da Linguística como também acabam gerando mais opositores a essas ideias. Não é com um discurso agressivo   e até mesmo anti-científico que se consegue fazer alguém tomar o lado da Linguística, mas sim debatendo com respeito e explicando com clareza as ideias dessa ciência. Não é com coerção, com intimidação, caro professor, que se faz ciência e que se faz alguém tomar gosto por uma ciência.

Bom, isso era tudo o que eu tinha para falar ao ilustre professor e a vocês, amigos leitores. Como já sei que vocês entendem perfeitamente muitos dos meus pontos de vista, espero apenas que Bagno os entenda e que tome minhas críticas não como demonstração de ódio, mas sim como as críticas de mais um que se esforça por fazer de qualquer debate um lugar para adquirir conhecimento, não para inflar o próprio ego. Vou deixar abaixo o Guia que fiz e uns links com as falácias que citei ao longo deste post.

Enfim, agradeço pela paciência dos que leram este post até o fim e mando-lhes meu forte abraço, amigos leitores.

Guia "Democrático"- Bagnista

Lição 1: Todos os meios de comunicação deverão ser regulados.... menos quando falarem mal do Papa, das religiões ou dos "reaças-católicos-homofóbicos-racistas-conservadores- vá à merda"

Lição 2: Ao invés de responder dignamente a uma pergunta que se oponha às teses defendidas por você, rotule quem pergunta de "fascista", "antidemocrático" ou "conservador" e, para completar, ridicularize-o se falar uma variante muito culta

Lição 3: Lembrar sempre que a Lição 2, com certeza, não vai queimar o filme daqueles que defendem as mesmas ideias que você nem das ideias que são defendidas. Afinal, foi-lhe revelada a verdade absoluta do comunismo-marxista-antiteísta que, pelo visto, 95% da população não aceita. Mas isso é porque são todos reaças, óbvio

Lição 4: Se as pessoas não acatarem de cara suas ideias sobre política ou sociedade, compartilhe textos e mais textos com puro ad hominem contra os seus opositores até convencer as pessoas a seguir os ideias que você defende

Lição 5: Se as pessoas não acatarem sua ordem para que sigam esses ideais, chame-as de "fascistas"

Lição 6: As Lições 4 e 5 só valem para aqueles que querem fazer parte do comunismo-marxista-antiteísta. Reaças só têm o direito de ser esmagados pelas profecias do sacrossanto Karl Marx

Lição 7: Ao falar mal da Rede Globo ou da VEJA enquanto defende um "pobre" ditador comunista bolivariano, sempre coloque algum texto de revista de esquerda. Afinal, quem precisa de imparcialidade em Ciências Sociais/ Históricas, né?

Lição 8: Como você é um crítico do "reacionarismo-católico-homofóbico-racista-conservador vá à merda", não é desleal nem infantil que coloque, em alguma postagem, #ChupaGlobo ou #ChupaVEJA

Lição 9: Ao mesmo tempo que faz tudo isso, defenda com unhas e dentes a regulação dessa mídia golpista que só sabe defender o Papa e outras coisas que "atrasam o desenvolvimento do país"

Lição 10: Ah, não se esqueça de terminar suas "nerd rages adolescentes" com a frase "MARX SEJA LOUVADO". Inclusive, se possível, lute para que ela seja inserida nas cédulas de dinheiro, pois Deus é só uma ideia atrasada

Lição 11: Sempre dê audiência para mídias estrangeiras de lugares onde há a divina regulação. Afinal, com toda certeza, essas mídias ultrapoderosas vão ser de muita ajuda na hora da sacra revolução marxista

Lição 12: Lembre-se de que conservadorismo e neonazismo são, sem sombra de dúvida, exatamente a mesma coisa. Afinal, é óbvio que o o nazismo queria conservar a ordem ariana que predominava na Europa da época.

Lição 13: Esqueça a Lição 12, pois não era a ordem ariana que predominava na Europa, portanto não tinha como o nazismo ser conservador

Lição 14: Esqueça a lição anterior, foi escrita por um reaça

Lição 15: Quando se falar sobre "imprensa manipuladora", não se deve pôr nenhuma revista de esquerda nesse balaio, pois todas elas são idôneas, intelectualmente honestíssimas e, mais importante, apoiam a maravilhosa e superpacífica revolução marxista

Lição 16: Sempre que for homenagear uma ditadura comunista, faça-o colocando sempre o nome do ditador antes de falar sobre o povo. Afinal, não há dúvidas de que o sofrimento do povo nessas ditaduras é só mais uma conspiração que a mídia burguesa inventou para ganhar audiência em cima dos pobres governantes comunistas

Lição 17: Quando sair o menor deslize até mesmo de um familiar de um representante da elite "reacionária-católica-homofóbica-racista-conservadora vá à merda", comemore como se fosse uma grande vitória. Afinal, isso com certeza vai fazer o povão esquecer daquele boato que a mídia golpista criou de que a sacra doutrina comunista ceifou mais de 100 milhões de vidas humanas.

Lição 18: Lembre sempre que essas mortes supracitadas, por serem em nome da glória do Deus Marx, não devem ser lembradas. Afinal, opositor bom é opositor morto.

Lição 19: Amar ao trio de ferro (Marx, Stalin e Lênin) acima de qualquer outra coisa. Afinal, quaisquer outros ídolos são frutos do reacionarismo já citado nas outras lições.

Lição 20 (Última Lição): Sempre usar o nome de Marx em vão. Afinal, apelo à autoridade está aí para isso, né? Só mesmo a "zelite" não consegue entender os sacros dogmas marxistas.

Links:


Outras Falácias (Recomendo ler sobre Non Sequitur, Evidência Anedótica e Post Hoc Propter Ergo Hoc): http://ceticismo.wordpress.com/ceticismo/logica-falacias/

*modus operandi seria, em uma tradução literal, "modo de operação", ou seja, é o modo como alguém "opera", ou, melhor dizendo, "age".

7 comentários:

  1. Mudando completamente o assunto gostaria que você escrevesse algo a respeito do "Roubo do nióbio brasileiro."

    Grato.

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    1. Primeiro, queria saber o nome de quem me escreve essa sugestão, rs

      Segundo, posso fazer, mas vai demorar um tantim.

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    1. Olha, Pérsio, é o que te falei, não é um "artigo", mas talvez te dê uma ideia ou duas, rssrsrsr

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  3. Duvido que o digníssimo MB tenha tomado conhecimento deste post.
    Mas depois de todo este trabalho, você ainda continua fã dele?

    Marcel

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    1. Resposta curta: não. Nem de Olavón, o astrólogo embusteiro.

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  4. Como alguém pode admirar um desqualificado como o tal Bagno?

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