26 de jan de 2013

De Frente com o Ateu - Religião e Caráter

E aí, amigo leitor, como vai?

Hoje será o dia em que, sem dúvida, eu terei de fazer "um exercício de dar linguagem a qualquer sofista", como disse uma vez meu amigo Chico Sofista, e vocês vão entender o porquê de eu dizer isso logo na sequência deste post, que é mais um daqueles sobre os quais falei em Contestação e Merchandising

Bom, há algum tempo a ATEA e outras agremiações de ateus e agnósticos vêm sendo alvo de críticas no Facebook, e isso se dá por basicamente três motivos: O fato de ambicionarem reunir os ateus como se fossem todos membros de uma ideologia (o que o ateísmo não é, como expliquei no meu primeiro post da série), o fato de o seu comportamento ser parecido justamente com o dos alvos de suas críticas, as religiões, pois há até "depoimentos de conversão", e suas constantes demonstrações não de quererem um tratamento igual ao dos religiosos, mas sim sua tentativa constante de colocar a religião um patamar abaixo do ateísmo com falsidades históricas e distorções teológicas e filosóficas.

Porém, como eu disse, esses três motivos são apenas a base da crítica, não sua totalidade. Assim sendo, decidi abordar aqui um ponto que talvez até mesmo a religiosos menos preocupados em defender sua religiosidade passe despercebido.

Como todos sabem, o slogan mais frequentemente utilizados por essas associações é o de que "Religião não define caráter". Eu mesmo, até quando ainda era deísta agnóstico, compartilhava todo orgulhoso essa "frase linda postada pelas associações dos ateus oprimidos pelos cristãos malvados".

No entanto, chega um dia em que se cai na real, meus amigos. Não quero, com isso, dizer de forma alguma que o slogan está errado e que deve ser jogado na lata do lixo dos argumentos. Não. O que digo, e provo a vocês, é que esse slogan é bem mais vulnerável do que pensava aquele que o criou e o tornou o carro-chefe da propaganda ateia pela primeira vez.

A primeira vulnerabilidade dessa frase é que ela não "verbaliza" o sujeito "Religião". Explico: ao colocar apenas "Religião" na função de sujeito, a frase acaba ficando sujeita a duas interpretações: ou declarar uma religião não define caráter, ou praticar uma religião não define caráter. Algum leitor mais perspicaz poderia fazer uma objeção dizendo: "Ora, Octavius, mas é óbvio que a frase deve ser interpretada como 'Ter uma religião não define caráter'. Não consegue ver isso, logo você, que diz que faz Letras e tal?"

A esse meu fiel leitor, provavelmente ateu, respondo que vejo sim essa interpretação, só que até mesmo ela ficaria ambígua e retornaria às duas interpretações que dei. Exemplo: se eu me declarasse católico hoje mesmo, seria o mesmo que dizer que eu tenho fé na religião cristã católica, ou seja, que eu TENHO uma religião, mesmo que da boca para fora. E se eu praticar princípios de fé cristã mesmo sem me declarar um crente de qualquer denominação, quem me ver de fora pensará que eu TENHO uma religião, pois a pratico.

Ou seja, a interpretação que o fiel leitor me mostrou continuaria "ambígua". Aliás, neologizando, eu diria até que seria uma interpretação "antrígua", pois esse "ter" ainda poderia significar "pertencer a". Ou seja, todo mundo que fosse batizado e que não tivesse pedido a excomunhão de sua religião ainda a teria, mesmo sem praticá-la. Eu mesmo, por exemplo, poderia me declarar "católico" sem problemas, pois já tenho pelo menos dois dos sete sacramentos sagrados comprovadamente "tomados" (no caso, o Batismo e a Eucaristia).

Mas, como todos vocês sabem, não é assim que a banda toca em lugar nenhum. Assim sendo, fiquemos com as duas interpretações que eu sugeri (e que são as mais coerentes). Agora, cabe-nos um exercício de lógica para demonstrar a falibilidade desse slogan.

Se tomarmos o primeiro sentido, o que diz que "declarar religião não define caráter", não há problema com o slogan. Afinal, em um mundo democrático, a declaração de religião é livre, ou seja, qualquer um pode "ter" a religião que bem entender. Assim sendo, como exemplifiquei acima, eu mesmo, se precisasse disso por algum motivo, poderia muito bem me declarar católico e quase ninguém me questionaria, também pelo fato de a  não-praticância de uma religião não ser  usada, no Brasil, para provar que alguém não é religioso, pois temos diversos "cristãos não-praticantes" pipocando por aí.

Com isso, vemos que a declaração de uma religião não quer dizer nada além de que a pessoa se declara religiosa. Aliás, pode-se até interpretar essa "religiosidade da boca para fora" como um sinal de mau-caráter, pois, como bem dizem os religiosos sérios que conheço, "Não é Deus que deve te servir, mas sim você que deve servir a Deus". Também por isso que não me declaro católico sob circunstância alguma: por não acreditar no Deus cristão, e consequentemente por não praticar a fé católica

Bom, enfim, creio que a explicação para o fato de não haver problemas com o slogan se tomado no primeiro sentido já é suficiente. Porém, se tomarmos no segundo sentido, a frase é facilmente refutável e, portanto, altamente vulnerável a críticas.

Praticar uma religião define caráter? A resposta para essa pergunta é sim, pois toda religião tem um extenso código moral a ser cumprido pelos seus fiéis. Assim, quando eles cumprem esse código, com suas permissões e restrições diversas, não importa se os não-fiéis concordam com o código ou não, o fato será que, de fato, haverá sim um caráter definido aí, e um caráter pautado justamente pela religião.

Assim sendo, ao usar essa frase, o movimento dos ateus pode trazer para si não mais simpatizantes, mas sim mais odiadores. Afinal, ninguém é obrigado a receber com um sorriso no rosto quem lhe diz que ele não tem caráter mesmo praticando a religião que declara. Inclusive, essa é a interpretação que muitos ateus dão a essa frase, e por isso a rejeitam fortemente.

Alguém ainda poderia perguntar: "Ora, mas por que esses religiosos têm de inventar de interpretar a frase de outro jeito?". A isso, há uma resposta simples: Porque a frase é incompleta, ou seja, ela não é clara o suficiente para ser plenamente entendida. Tanto em cursos de Letras quanto na Internet, uma das primeiras lições que aprendemos é que ninguém é obrigado a entender o que você não escreveu e que, portanto, deve-se sempre dar ao leitor todas as informações de que precisa para interpretar o texto como o seu autor deseja.

Ou seja, para não dar margem ao mau entendimento, o correto a se fazer é deixar a frase mais clara quanto for possível. Afinal, "Declarar uma religião não define bom caráter" ou até mesmo "Ateísmo não define mau caráter" soam-me slogans bem menos vulneráveis a más interpretações do que o paupérrimo (do ponto de vista semântico e pragmático) "Religião não define caráter".

Enfim, o que acontece é que, na ânsia de atingir as massas, esses movimentos fazem seus slogans na pressa e economizam palavras. Porém, o que eles esquecem é que uma coisa é o processo de Economia Linguística, ou seja, o de substituir palavras por outras com menor número de sílabas (por exemplo, trocar o português "espetáculo" pelo inglês "show"), que, apesar de perigoso (explico isso em outra ocasião), não é muito danoso ao entendimento de uma frase, e outra coisa é suprimir palavras de uma frase na qual elas são absolutamente necessárias para a boa compreensão da mensagem que se deseja passar.

O detalhe é que, ao invés de contar com o que diz o dito popular, ou seja, que "para bom entendedor, um pingo é letra/meia palavra basta",  devemos, quando formadores de opinião ou representantes de alguma causa, sempre lembrar de que há os maus entendedores, ou seja, aquele que só vai entender palavras completas, o que é a coisa mais normal do mundo, convenhamos.

Bom, era isso o que tinha para conversar com os amigos leitores que tiveram a paciência de me aturar até o fim deste post. Vou deixar links que encontrei aqui embaixo e despedir-me de vocês.

Enfim, agradeço à atenção dos amigos leitores, mando-lhes meu forte abraço e até o próximo papo!

Links:

Primeiro post da Série sobre Religião: http://adtantumargumentandum.blogspot.com.br/2012/12/de-frente-com-o-ateu-ateismo-x-teismo-x.html

"Religião não define Caráter" slogan da ATEA: http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://pensandoavida.com/blog/wp-content/uploads/2011/07/Atea_religionodefine.jpg&imgrefurl=http://pensandoavida.com/blog/2011/07/28/religiao-nao-define-carater/&h=282&w=600&sz=113&tbnid=nBrFm7ctP1nQ9M:&tbnh=56&tbnw=120&zoom=1&usg=__R0trYBKYIR0_0bfRHTSZq3xrWS4=&docid=qqqgnnC_AHB7-M&hl=pt-BR&sa=X&ei=NT0DUeaeLeSL0QGDgoGICA&ved=0CDAQ9QEwAA&dur=2162

Campanha da ATEA é barrada em Porto Alegre: http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/geral/noticia/2010/12/religiao-nao-define-carater-diz-campanha-de-ateus-3147266.html
(PS: Não, Hitler não era cristão, ok?)

Post fantástico da Anja Arcanja sobre a questão: http://omundodaanja.blogspot.com.br/2012/08/religiao-nao-define-carater-mas.html

Outras coisinhas sobre o assunto em questão:
http://www.ditopelomaldito.com/2012/02/religiao-nao-define-carater.html
http://www.atea.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=225 (posicionamento da ATEA sobre a questão. Confesso que não gostei, rs).
http://oculossobreamesa.blogspot.com.br/2011/07/religiao-nao-define-carater.html
http://gospelbrasil.topicboard.net/t5982-religiao-nao-define-carater

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