4 de jan de 2013

De Frente com o Ateu - Agnosticismo

Olá, amigos leitores. Depois de algum tempo, volto a este blog para outra daquelas nossas conversas.

Hoje, vou dar sequência na minha série de posts sobre Religião, sobre a qual falei no post Contestação e Merchandising, que vocês podem procurar nos outros posts abaixo deste post. Como dito lá, o meu segundo post nessa série seria sobre o tema "Agnosticismo". Mas, antes de começar com os conceitos, preciso contar uma pequena história, e vocês entenderão porque eu farei isso logo de cara.

Bom, outro dia, comprei, em uma famosa livraria aqui da região, o "Guia Politicamente Incorreto da Filosofia - Ensaio de Ironia", do filósofo e professor da FAAP e da PUC-SP, o ilustríssimo Luiz Felipe Pondé. Como já lhes disse em dois posts anteriores, esse livro me interessou profundamente, especialmente por ter um tom provocativo, como deve ser o da boa filosofia.

Mas, não vim aqui para falar sobre essa excelente obra, mas sim sobre uma afirmação de Pondé em seu livro, afirmação essa que me trouxe inspiração para este post. Destaco sutilmente essa afirmação no meu post sobre o livro (que acabo de linkar para quem quiser saber mais sobre a obra em si), mas, por uma questão de conveniência para os leitores, vou citá-la de novo aqui. Pondé diz que "Até golfinhos conseguem ser ateus, porque o ateísmo é a visão de mundo mais fácil de ter: a vida é fruto do acaso e não tem sentido além dos pequenos sentidos que inventamos".

Mesmo com uma bibliografia com extensão pelo menos 50 vezes menor que a do ilustre professor (e isso sem exagero nenhum), desaprovei, dessa afirmação, dois pontos. Porém, só vou discutir um aqui, por ser só ele pertinente a este post, e deixarei o outro para um post que farei exclusivamente para debater as ideias do filósofo em geral.

Como Pondé (e todo mundo) deve saber, as crenças e as descrenças foram desenvolvidas por seres humanos. Como ele também sabe, a manutenção de uma crença ou de uma descrença também só pode ser feita por seres humanos. Por quê? Porque, de todos os seres vivos conhecidos, o ser humano é o único que possui a faculdade mental chamada "raciocínio", que o levou a desenvolver tanto coisas que hoje consideramos triviais quanto sistemas filosóficos, políticos, sociais, econômicos e teológicos extremamente complexos e detalhados.

Assim sendo, também é exclusiva do ser humano a capacidade de opinar sobre essas crenças, pois só consegue opinar VOLUNTARIAMENTE aquele que é racional. Ateísmo, antes de tudo, é uma opção. Então, sendo o golfinho um ser não-racional, não é possível chamá-lo "ateu", pois ele não tem como desenvolver uma opinião sobre divindades exatamente por não conhecê-las.

Isso significa, então, que o máximo que poderíamos considerar um golfinho seria como um agnóstico, ou seja, como um ser que não sabe se deus existe ou não.

Com os seres humanos, a diferença é uma só: o agnóstico humano não é agnóstico por irracionalidade, mas sim por ter pensado nas hipóteses-deus e ter chegado à conclusão de que ele não teria como provar a existência ou a inexistência de deuses, ou melhor dizendo, de que ele não pode cravar, com certeza absoluta, que deuses existem ou inexistem.

O caro leitor pode me perguntar então: Ora, então o oposto de agnóstico é teísta e ateu ao mesmo tempo?

Para isso, a resposta é não. Não existe incoerência filosófica entre ateísmo e agnosticismo, pois o ateísmo tem a ver com não crer, e o  agnosticismo tem a ver com não saber. Vejam o meu caso, por exemplo: sou agnóstico ao deus cristão e aos outros deuses, pois não SEI se sua existência ou inexistência é um fato, mas, ao mesmo tempo, sou ateu a todos eles, pois eu não CREIO, por motivos pessoais, que algum deles exista. Assim sendo, o oposto do agnóstico é o gnóstico, ou seja, aquele que, por algum motivo ou por algum tipo de evidência, não só tem convicção de que deus(es) existe(m) ou não como também o sabe. Eu tendo a pensar que ser ateu gnóstico equivale a ser um ateu positivo, pois, por uma questão de lógica, se eu sei que deuses não existem, eu  vou rejeitar sistematicamente a crença neles. O mal disso é que, como eu disse, a maioria dos ateus positivos age de um modo antiteísta, ou seja, ele acaba por não tolerar a crença alheia.

É também por isso que eu prefiro o agnosticismo nessa questão, pois eu não creio que, como ateu, eu possa, metaforicamente dizendo, declarar a morte dos deuses. Porém, ainda resta uma questão: Os teístas, então, podem dizer que tem certeza da existência de um Deus?

A essa questão eu respondo tanto sim quanto não, porque a verdadeira questão não é se eles podem ou não ter essa certeza, mas sim se eles devem ou não ter essa certeza. Explico: um teísta agnóstico, por exemplo, por não ser filiado a uma religião, pode acreditar em um deus mas não ter certeza de sua existência. No entanto, quando se trata de um teísta religioso, a coisa muda de figura, e eu explico o porquê.


Lembram que, quando eu disse que o ateísmo não é uma religião, o fiz com base no fato de que não existe dogma para ser ateu? Pois é, com as religiões, a coisa muda de figura. Não há como ser católico, evangélico, espírita, judeu, muçulmano ou hindu e não ter certeza absoluta de que sua divindade existe, pois todas essas religiões, cada uma a seu modo, afirma a existência de Deus como algo certo. E isso mesmo entre os chamados "Não-praticantes" se confirma, pois, se formos perguntar a um católico não-praticante, por exemplo, se ele está certo de que deus existe, teremos um "SIM" convicto, pois senão ele não seria católico. Se formos perguntar, por exemplo, ao meu amigo Emerson, do site Logos Apologética, ou a qualquer outro dos moderadores cristãos PRATICANTES, se eles têm certeza absoluta da existência de Deus, eles naturalmente responderão que sim, senão não estariam seguindo o Cristianismo. 

Entendem? Se uma pessoa segue uma religião, ela não tem como ser agnóstica, pois ela colocaria em dúvida o pilar mais básico da sua crença, que seria a existência de um Deus. Se essa certeza é coerente, é uma outra questão. Mas, que elas podem ter essa certeza elas podem, e isso por diversas razões filosóficas, teológicas e de outras naturezas. 

Curiosamente, há um caso de uma orientação religiosa que, pelo menos a meu ver, não pode ser praticada por um gnóstico: o Ceticismo, que prega exatamente a DÚVIDA, coisa que o gnóstico, por uma questão de obviedade, não tem. Ainda assim, falo isso segundo os meus conhecimentos, que, tanto em matéria de ceticismo quanto em matéria de religiões, devo admitir, são parcos.

Enfim, era isso o que eu tinha para conversar com vocês, amigos leitores. Vou deixar uns links aqui embaixo sobre este tema, e me despeço de vocês. Um forte abraço e até o próximo post!

Links:

Significado e Origem Etimológica de "Gnose": http://www.dicionarioinformal.com.br/gnose/

Vídeo do Pirulla sobre Agnosticismo e Ateísmo:  http://www.youtube.com/watch?v=LVkklTe77Ww

Vídeos do Clarion de Laffalot sobre Agnosticismo:
http://www.youtube.com/watch?v=B2prg7myi5Y
http://www.youtube.com/watch?v=n97BCAv0Ujk
http://www.youtube.com/watch?v=jFlXaUWh1_8

(Várias) Definições de Agnosticismo:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Agnosticismo
http://agnosticismo.com.br/
http://ceticismo.net/comportamento/entendendo-o-agnosticismo/ (Um artigo completo sobre isso)
http://www.recantodasletras.com.br/artigos/2787999

PS: Faço a mesma linha de raciocínio dos golfinhos para os recém-nascidos. Traduzindo, discordo da ideia de que nascemos ateus, e creio que nascemos todos AGNÓSTICOS, pois, como recém-nascidos, não temos como "saber Deus".





2 comentários:

  1. Interessante, eu concordo contigo, mas pensei o problema de uma maneira um pouco diferente:

    http://aoinvesdoinverso.wordpress.com/2013/12/15/nota-sobre-uma-opiniao-de-luiz-felipe-ponde/

    Eu só faria um apontamento, que é o fato de que o ceticismo não prega a dúvida, propriamente, mas a suspensão do juízo. Acho que a ideia de dúvida associada ao ceticismo tem mais relação com Descartes que com os céticos e acaba contaminando o que se entende por ceticismo.

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    1. Bruno,

      Concordo em grande parte com seu texto, apesar de não ser exatamente tão entusiasta quanto à obra de Paulo Jonas Piva. Sobre ceticismo, também não tenho nada a acrescer, pois transito entre ambas as definições, tanto porque ponho em dúvida meus próprios valores (inclusive meu ateísmo) quanto porque me abstenho de fazer julgamentos sobre assuntos que não me interesso.

      Enfim, como chegou a este blog?

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