31 de out de 2012

Halloween, Saci e o Anti-Americanismo

Boa noite, caros leitores. Como vai a vida? Andaram lendo outros blogs por aí?

Bom, como vocês todos sabem, não é um hábito meu fazer posts apenas para cumprimentá-los. Até faria, mas, sacumé, sei que vocês esperam outra coisa deste blog. Aliás, nem sei se esperam, mas, foda-se, pois quem discute questões esperando elogios ou reconhecimento é, pelo menos na minha nada humilde opinião, ou intelectualmente desonesto, ou extremamente carente. Mas, enfim, posso usar outro post para falar sobre os attention whores (1) intelectualmente desonestos  que criam blogs só para receber carinho alheio (apesar de isso contrariar TOTALMENTE minhas políticas de conduta, rs)

Creio, então, que devo ir direto ao ponto. Como todos vocês já estão carecas de saber, hoje é a data em que americanos, ingleses e afins (países de tradição anglo-saxônica) se unem para comemorar o famoso Halloween, traduzido no Brasil por Dia das Bruxas. Ocorre, porém, que alguns simplesmente não conseguem aceitar que haja qualquer vínculo entre Brasil e EUA, mesmo em uma comemoração que nem feriado é. O problema foi que, ao invés de ficarem quietos em seus cantos, esses revanchistas anti-americanos de araque preferiram, do alto de todo o seu "nacionalismo", produzir a seguinte imagem, de cunho extremamente revanchista, e a espalhar por todo o Facebook: http://www.facebook.com/photo.php?fbid=4865598403527&set=a.2084229871052.2125807.1404277465&type=1&theater

Eu poderia me delongar por parágrafos e mais parágrafos refutando a imagem, mas não o farei, pois acabaria gerando um texto extremamente prolixo e inútil. Só digo que os que compartilharam se esqueceram de que a própria cultura brasileira não foi gerada do nada, mas sim por um processo de miscigenação de culturas, dentre elas a europeia, a africana, a indígena, a asiática e a própria cultura americana, e de que, se fôssemos seguir à risca os conselhos desses PhD em Práticas de Incentivo ao Infantilismo Político no Facebook, teríamos também que abolir toda e qualquer obra estrangeira das estantes das bibliotecas (afinal, não podemos pagar pau pra gringo!), o que tornaria praticamente impossível o desenvolvimento de pesquisas nacionais em certas áreas, já que a melhor literatura científica está, de fato, em línguas estrangeiras, e, além disso, nos privaria de ter acesso a escritores da mais alta qualidade, entre eles um certo inglês, um tal de William Shakespeare, e um outro, um "poetinha" francês lá, um tal de Charles Baudelaire, não sei se conhecem.

Fora isso, não preciso me esforçar tanto, já que outros já refutaram completamente essa imagem. Cito aqui uma contra-imagem ( http://www.facebook.com/photo.php?fbid=473838522660910&set=a.353965641314866.87214.160508340660598&type=1&theater ) e um depoimento de meu grande amigo (e veterano no curso de Letras, rs) Joshua, que, em poucas palavras, foi capaz de destruir as ilusões desses "nacionalistas" sobre o que eles pensam ser cultura (link: http://www.facebook.com/joshtt5/posts/376614472420931? ).

Dito isto, hora de passar ao tema deste post. Curiosamente, vou continuar me baseando na imagem para explicar o meu propósito. Antes de tudo, façamos uma análise criteriosa sobre uma das palavras que essa imagem utiliza, a palavra "gringo". De acordo com boa parte dos dicionários (entre eles este, online, e muito bom por sinal: http://www.dicio.com.br/gringo/ ), "gringo" é uma palavra usada para se referir, de modo pejorativo, a estrangeiros, algo que, de cara, já caracterizaria uma conduta intolerante conhecida por "xenofobia", já que desmerece alguém por ter origens exteriores ao lugar em que se vive.

Ocorre, contudo, que essa imagem, durante todo o ano de 2012, foi a ÚNICA a se manifestar contra uma festividade estrangeira dentro do país, sendo que nem mesmo as práticas dos muçulmanos (cultura sobre a qual os brasileiros pouco conhecem mas que é muito perseguida por diversos setores da sociedade) durante o MÊS do Ramadã foram sequer citadas no Facebook.

Agora, esperem um pouco. Vamos raciocinar aqui. O Halloween é uma comemoração de origem celta e foi, portanto, passado aos anglos e aos saxões. Estes, por sua vez, se transformaram no que hoje chamamos de Inglaterra, nação que conquistou e colonizou alguns territórios por todo o planeta. Acontece que um desses territórios conseguiu sobrepujar o colonizador, tornando-se, inclusive, a nação mais rica do planeta e também aquela em que com mais alegria se celebra o 31 de Outubro. Qual é o nome desta nação?

Pois é, meu amigo, são os Estados Unidos da América, popularmente conhecidos como os EUA. Muito curiosamente, essa nação, talvez por ser a maior economia do planeta, é alvo de acusações históricas de imperialismo, genocídios e desrespeito aos direitos humanos. Talvez por isso, qualquer um que "ouse" levantar os pontos culturais positivos ou pelo menos não-negativos da nação americana dentro do Facebook (ó, criado por um americano, que ironia, não?(2)) é automaticamente chamado de "porco capitalista", "nazifascista", "anti-brasileiro" e outros lindos elogios vindos dos "nacionalistas". O que esse tipo de atitude promove, na verdade, é a perpetuação de uma visão que coloca o bom e pobre mundo como vítima passiva dos ricos e porcos vilões capitalistas americanos.

O que quem espalha essa visão esquece é que o mundo nunca é tão maniqueísta. Apesar de haver sim ocasiões nas quais os EUA tiveram quase toda a culpa, há também episódios pessimamente contados por nossos historiadores ocidentais. O mais famoso deles é, sem sombra de dúvida, o bombardeio atômico ao Japão na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O que mais comumente ouvimos é que o lado japonês foi cruelmente desonrado pelos imperialistas americanos. O que não nos contam, no entanto, é que os japoneses, de santos, nada tinham. Além de assassinarem entre 3 e 10 milhões de pessoas entre asiáticos e ocidentais (3), os guerreiros japoneses também tinham como  hábito, entre outras coisas, estuprar centenas de mulheres e crianças após conquistarem o país inimigo. Vemos, então, que, apesar de poder ser considerado um exagero por parte do governo norte-americano, o ato não foi totalmente injustificado.

Do mesmo modo, não adianta avisar a esses grandes conhecedores da história mundial que muitas nações que eles admiram também cometeram das suas. Podemos ver, por exemplo, que os maiores genocidas durante o período do Imperialismo/Neocolonialismo dentro dos territórios africanos não foram os americanos. Belgas, franceses e ingleses, por exemplo, cometeram crimes bem piores. Estes últimos, aliás, foram, quando eram a maior potência do planeta, bem mais imperialistas do que os próprios americanos em seu auge. Imperialismo, aliás, também cultural, que é também uma das reclamações contra os EUA. Curiosamente, nenhuma reclamação contra os britânicos. Estranho, não é?

Também não adianta avisar que, apesar de, segundo eles, o regime americano ser terrível e asqueroso, todos aqueles que tentaram sobrepujá-lo ou fazer algo "melhor" do que o modelo americano capitalista de vida falharam miseravelmente e geraram, entre outras coisas, o nazismo, o fascismo, o comunismo stalinista e as teocracias religiosas que, juntos, com certeza mataram bem mais do que qualquer "política terrorista americana". (4)

Ou seja, o que podemos ver é que, se formos justos, teremos então que fazer cobranças históricas também das nações  historicamente "opostas" (Rússia, China, Japão) ou  até mesmo "aliadas" (Inglaterra) aos americanos. Porém, como são os EUA os mais poderosos e os que mantém o "sistema" (como se derrubar uma só nação destruísse todo um sistema), somos coniventes com o malfeito dos outros e, pior, ainda os transformamos em exemplos de culturas a serem seguidas, o que nos faz até mesmo piores do que essas nações criminosas. Será esse o papel que queremos ter no mundo? E justo nós, tão "pacifistas e ordeiros"?



Enfim, com tudo isso, não é preciso muito esforço para perceber que, até mesmo em uma simples e tola imagem, temos o dom de demonstrar nosso desconhecimento sobre os fatos e de transformar uma análise complexa em algo tolo e maniqueísta.

Bom, era isso. Agradeço pela paciência e até breve, caros leitores.

Notas:
 

(1) Attention Whore: Pessoas que fazem de tudo por atenção
(2)  Artigo da Wikipédia sobre Mark Zuckerberg (para quem quiser confirmar o óbvio, rs)
(3) Algumas das atrocidades japonesas na 2ª Guerra
(4) O Comunismo, sozinho, é responsável por pelo menos 100 milhões de mortes. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Livro_Negro_do_Comunismo





Um comentário:

  1. Bem. Seus textos tão cada vez mais bem escritos, porem sou obrigado a dizer que tive a impressão de que o texto ao tentar criticar as pessoas com baixo senso crítico, acabou se desviando para um discurso quase pró-americano.

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