11 de set de 2012

Viagens da Minha Terra: Voto Nulo e (Falta de) Cidadania

Boa noite, grandiosíssimos leitores. Hoje, quero bater um papo com vocês sobre algo que parece ser sério, mas não é: O discurso rebelde sem causa a favor do voto nulo em eleições municipais, estaduais e federais brasileiras. Aliás, minto: a rebeldia do discurso até tem causa, e é uma causa até bem clara (sobre a qual discorrerei mais tarde). O que discurso não tem é nexo, é coerência, seja interna (dentro do próprio discurso), seja externa (com o mundo exterior e seus fatos e acontecimentos).

Bom, de nada adianta criticar um discurso sem mostrá-lo. No caso, os graduandos em Administração de Comunidades e Perfis Pseudopolitizados de Facebook com ênfase nas disciplinas Intelectualoidismo Xaropista Online I e II dizem o seguinte: "Aew, ci vse ñ qr cer 1 alienadu, vóta nulu, poha!"*. Mesmo com esta grafia alternativa, não nos fica difícil perceber que a intenção de quem segue essa "genial e inovadora" linha de pensamento é convencer outras pessoas a votar nulo nas eleições que citei acima.

Essa fala, apesar de parecer muito bem estruturada, tem milhares de falhas. Ainda assim, se fossem falhas mínimas ou periféricas/não-centrais, os nobres leitores poderiam me chamar de implicante, ou até mesmo de ultra-detalhista (se é que este último atributo é mesmo defeito tão grave). O problema é que as falhas se concentram nas bases do discurso, colocando, portanto, a credibilidade intelectual de quem produz essa lorota em sério risco.

Primeiro de tudo, vamos falar sobre como se criou esse discurso todo. Bom, partiu-se da premissa de que, se mais de 50% dos votos de um pleito fossem nulos, a eleição seria anulada e todos os candidatos teriam de ser trocados. Inocentemente, muitos aceitaram essa argumentação e começaram a floodar o Facebook com campanhas de "vote nulo" e  mais um monte de blá-blá-blá e mimimi dos quais não me recordo agora. Detalhe: além de ser óbvia a enorme eficiência de campanhas de Facebook (traduzindo: beira zero), a premissa estava errada, pois o que anula eleições é o chamado voto anulado, resultante de Fraude Eleitoral ou outros Crimes eleitorais. Se 70% da nossa população eleitoreira votasse nulo, a decisão das eleições seria feita pelos outros 30% de votos restantes. O que importa, na verdade, são os votos válidos. Voto nulo é voto válido, voto anulado não. Aliás, se apenas um cidadão votar, os eleitos por ele serão os que tomarão posse no próximo mandato. Ou seja, lutam por um objetivo que dificilmente será alcançado: o de acabar com os corruptos por meio de voto nulo, achando que, desse modo, eles deixarão o poder.

Não bastasse isso, há ainda outro detalhe. Quando propõem que um eleitor vá até as urnas e deposite um voto nulo, os descobridores da América dos anos 2010 ainda se esquecem de que é muito mais fácil, seja para quem está na própria cidade em que vota ou em outra, "justificar" o voto. Sendo sincero, eu diria que só mesmo alguém muito, mas muito desocupado, teria o trabalho de viajar por quilômetros e mais quilômetros apenas para votar nulo. O ponto é que, dito isso, o voto nulo se torna praticamente desnecessário e, além disso, contraproducente para quem viva muito longe de seu local de votação, tornando-o, então, um instrumento de protesto muito mais trabalhoso do que um voto mais sério e comprometido.

Apesar de aquilo que eu já falei ser argumento mais do que suficiente para refutar os engodistas sociais de Facebook**, falta ainda a última lorota básica deles: a causa de seu voto nulo. Usando-se de perguntas retóricas sobre a honestidade dos políticos**** ou monstrando as consequências da corrupção para o país****, essas pessoas justificam-se dizendo que só votariam de fato se encontrassem um candidato super-herói capaz de satisfazer seus desejos de mudança sendo, ao mesmo tempo, ético e bom administrador de recursos públicos.

De fato, haveria pouco problema com esse raciocínio, se não fosse por um pequeno detalhe. Além de ser um raciocínio paternalista (a velha mania brasileira de querer um governante-pai que tudo resolva) e extremamente infantil, exatamente porque ninguém é obrigado a ser super-herói em qualquer área das relações humanas, quanto mais em política e economia, esse tipo de pensamento também é um desserviço à noção de cidadania em si. Explico: ser cidadão, como todos sabem (ou pelo menos deveriam saber), não é apenas ir, durante um domingo, a uma urna e depositar votos em um x número de pessoas. Não. Ser cidadão é também fiscalizar essas pessoas, ir às audiências públicas, saber o que está ocorrendo na própria cidade e saber que pautas estão sendo discutidas, seja na Câmara Municipal, seja no Congresso. E isso, meus caros leitores, é difícil, demanda tempo e demanda também voluntariedade e força de vontade por parte do cidadão.

 A questão é que é muito fácil sair por aí reclamando direitos de cidadão e descendo a lenha no político A, B, C ou Z. Difícil, mas necessário, é reconhecer os próprios deveres. Mais difícil ainda(quase um trabalho hercúleo, aliás), mas ainda mais necessário, é reconhecer que , por n motivos ou sem n motivos,  falhou como cidadão e não doou um pouco do seu tempo pela própria cidade/nação. E é aqui que a lógica do votar nulo falha: ela acoberta nossos erros e nos faz descartar a possibilidade de possíveis acertos. Ela transforma o cidadão, que teria poder de decisão sobre os rumos de sua cidade/ seu país, em um simples rebelde sem causa, mais um dentre milhões de pessoas que muito "compartilham" e pouco atuam.

Bom, era isso. Termino aqui meu texto sobre essa longa questão do voto nulo dando apenas mais um lembrete: Para quem se ilude dizendo que o voto nulo demonstra a insatisfação do povo para com a situação política de um país, é sempre bom ter em mente que o voto nulo também pode demonstrar o descaso de um determinado grupo de eleitores com sua própria cidade, sua própria nação. Deixo, também, uma reflexão para vocês, nobres leitores: Será mesmo que é melhor votar nulo e nada fiscalizar do que tentar ser cidadão?

* Tradução: "Se você não quer ser um alienado, vote nulo."
** Engodismo Social: Termo cunhado e usado por Chames dos Santos (2012), vulgo Octavius, para designar todo aquele cujo objetivo é convencer alguém de que, por meio de uma tática ou ideologia furada, algo pode ser mudado ou completamente revolucionado, ou então de que algo está do jeito que está por culpa de " entidades misteriosas e terríveis" (vulgo: "O goverrrno", "A mííídia", " Os burgueses", etc)
*** Créditos à página Risadas do Dia pela foto
**** Créditos à página Lembraremos de Você na Eleição e à revista VEJA pela imagem

Um comentário:

  1. Não tinha nada indicando na foto que era da Veja, mas (não sei o porquê) identifiquei de cara! hahaha

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