1 de ago de 2012

As Redes Sociais como Fator de Disseminação de Intolerância e Preconceitos

Bom, pessoal, o título desta postagem é justamente o próprio tema. Nos últimos meses, comecei a refletir um pouco mais e perceber que, de forma mais clara do que pensamos, as famosas redes sociais estão mesmo virando um prato cheio para espalhar a intolerãncia. Para entender melhor, é só ler o texto a seguir. Boa leitura!

Falhas Nossas
Não é raro ouvir falar que a Internet é um espaço livre e democrático de divulgação e circulação de ideias. Esse é um dos poucos casos em que o senso comum é válido e não se equivoca, afinal, não há, pelo menos do que a maioria conhece, qualquer tipo de restrição ao que se põe na rede, a não ser mesmo o bom senso do usuário. Há, porém, um grande problema: é cada vez mais perceptível que falta não só o bom senso, mas também raciocínio lógico por parte de muitos, já que postam, muitas vezes, coisas tolas e desnecessárias.

Não adentrarei, entretanto, no mérito da postagem de fotos que revelam intimidades pessoais ou alheias ou das ofensas a superiores ou colegas de trabalho por meio das redes sociais, por exemplo. Refiro-me, ao falar de pessoas que não "ligam o desconfiômetro", aos que persistem em disseminar a intolerância e o preconceito redes sociais afora.

Um leitor mais questionador pode se indagar: "Ora, como assim? Onde esse articulista vê tanto preconceito e intolerância na rede se, em quase todas as ocasiões, os racistas e homofóbicos são 'fakes' de Twitter ou Facebook?". Para respondê-lo de maneira apropriada e intelectualmente honesta, é conveniente que eu delimite o conceito de "preconceito", que não se restringe apenas a etnias ou orientações sexuais, como alguns podem pensar. Aliás, se eu fosse enumerar aqui e explicar todos os tipos de preconceito existentes, mesmo sem muito me aprofundar, acabaria escrevendo um livro, não um artigo.

Enfim, com isso em mente, apresento a ideia de preconceito. Há pelo menos dois autores que o definem de forma coerente e sucinta. Uma é Lya Luft, escritora e acadêmica da ABL, que o define como "o medo do diferente". O outro é o filósofo e articulista da Folha de São Paulo Luis Felipe Pondé, que afirma ser o preconceito uma "reação moral espontânea". Pode-se, então, sintetizar isso e definir o preconceito como uma reação moral espontânea e negativa ante o diferente, clarificando, ainda assim, que não é a única definição plausível para o termo.

Partindo disso, reafirmo o que disse no início: falta, de fato, bom senso a muitos usuários da Internet não só pela exposição exagerada da própria imagem, mas também por disseminarem, mesmo que de modo inconsciente, preconceito e intolerância. Para não deixar minha tese infundada, demonstrarei a existência de três faces do preconceito.

O primeiro, e talvez mais percebido por todos, é o linguístico. Quem já não viu, em uma daquelas páginas de "humor" do Facebook, imagens em que são satirizadas pessoas que acabam fugindo à norma padrão ou à ortografia de algumas palavras? Ou então, quantos já não tiveram uma opinião ridicularizada pela mesma razão? Pelo número de posts diários que se vê nessas e em outras páginas, podemos dizer que de duas, uma: ou os satirizadores não sabem que até mesmo a norma padrão tem situações específicas em que seu uso é obrigatório - por exemplo, parafraseando Possenti, alguém brigaria na fila de supermercado porque uma outra pessoa disse que comprou  três quilo de carne?-, e que as redes sociais não são uma delas, ou não sabe que a tarefa mais essencial da língua é comunicar, o que acontece na maioria dos casos de "erro". Há, também, o fato de que o padrão foi eleito não por ser o "certo" ou o mais "bonito", mas sim porque algum tipo de elite o usava. Prova disso é que algumas construções que consideramos "erradas" não são reprovadas pela lógica interna do idioma. Não seriam, então, essas pessoas que tanto julgam a escrita alheia na internet os próprios ignorantes?

O segundo tipo, tão comum quanto o primeiro, mas menos perceptível, é o musical. O que se vê, nesse caso, são rockeiros, sertanejos, funkeiros, pagodeiros e outros trocando ofensas entre si e tentando colocar outros ritmos como musicalmente pobres ou culturalmente desprezíveis. Há, porém, uma coisa para a qual todos convergem: nos erros cometidos ao analisar as outras batidas. Afinal, nenhuma delas é monotemática e monorrítmica, especialmente ao se considerar que o rock e o funk, por exemplo, vão de temáticas amorosas e/ou sexuais às de luta contra mazelas sociais, e que o mesmo se aplica a todos os outros estilos musicais. Além disso, cabe aqui uma indagação: Como colocar um ritmo como culturalmente inferior sendo que este retrata, muitas vezes, uma cultura própria de um segmento social determinado com todos os seus problemas e realizações? Não seria mais fácil, então, lutar contra os problemas ao invés de querer reprimir uma manifestação cultural, até que se prove o contrário, válida?

Finalmente, mas não menos grave, vem o preconceito entre gerações. Deste, aliás, envergonho-me grandemente, pois não só são as pessoas da minha geração que o disseminam como também eu mesmo, antes de refletir seriamente sobre o assunto, ajudei a espalhá-lo. A questão é: Muitos dos que hoje ridicularizam pré-adolescentes que já namoram ou que sofrem por causa do fim de uma relação também foram alvo de chacota pelos mesmos motivos. Esses, que hoje riem dos animes e séries assistidos pelas novas gerações, também sofreram com isso quando mais jovens. Será, então, que vale mesmo a pena dar sequência nessa roda viva de preconceito? Não seria mais sensato ser empático com o mais jovem ou orientá-lo para não fazer as mesmas besteiras que o adulto de hoje fez? Ou melhor: Não seria uma demonstração maior de inteligência tentar avaliar o comportamento das crianças e dos pré-adolescentes de hoje com uma régua mais atual, ou seja, analisando a situação dos menores HOJE, e não de acordo com o passado em que vivemos?

Não digo, porém, para renunciarmos completamente aos valores de nossa geração ou nosso grupo social. Afinal, eu sei que é perturbador saber que meninas de 13 anos já podem ter cometido um aborto e que é frustrante, no mínimo, ter de ouvir por aí músicas machistas e que façam apologia à infidelidade. Só que apenas criticar leva a uma única situação: maiores ressentimentos e desentendimentos. É preciso, antes de tudo, analisar com calma a situação atual e procurar, partindo dessa análise, orientar, do melhor modo possível, as novas gerações.

Termino por aqui. Peço, contudo, que não me levem a mal. Quero, apenas, que as terríveis falhas minhas deixem de ser Falhas Nossas.

2 comentários:

  1. Concordo, analisar a situação dos jovens com calma a fim de poder ajudá - los. É disso que precisamos, compreensão.

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    1. É você, João Gilberto? Bom, o texto original não continha isso. Isso eu adicionei depois, na hora da edição.

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