11 de ago de 2012

Justiça e o Brasileiro: Pouco a ver

Eu os saúdo, nobilíssimos leitores. Creio que não se lembram de mim. Sou aquele cronista, aquele do post Desistória do Brasil, uma espécie de "alter ego" do cidadão que comanda, escreve para e edita este blog.

Enfim, considero adequado findar as apresentações e começar a nossa conversa. Desta vez, a confabulação com meus amigos deu-se naquela mesma mesa de bar, mas em uma data diferente: o aniversário da Proclamação da República Brasileira.

A lógica apontaria que deveríamos ter discutido sobre a questão étnica no Brasil (afinal, apesar da escravidão ter sido abolida um anos antes, é possível dizer que foi feito muito pouco por negros e indígenas) ou mesmo sobre como se deu todo o processo de "republicanização". Pensei em levantar ambas as questões, mas um de meus camaradas trouxe à tona uma problemática que nos fez refletir por horas a fio:

- Companheiros, já pensaram que, se fôssemos nos guiar não pelas demandas, mas sim pelas ações do povo, viveríamos em um estado menos democrático até mesmo do que o da época Imperial e mais caótico do que um país em guerra civil? - questionou o camarada.

- Estava quase levantando outros problemas, meu amigo, mas agora você conquistou meu interesse. Por que pensa assim sobre o nosso povo? - perguntei-lhe, com um brilho cada vez mais crescente de curiosidade nos olhos.

- Caro colega, siga o meu raciocínio, ele respondeu, e veja o exemplo do princípio jurídico da inocência. Segundo esse princípio, todos são inocentes até que se prove o contrário, certo? Pois é. Em uma monarquia absoluta, como era a dos Bragança, esse princípio é nulo pois, além de existir o Poder Moderador que pode intervir nos outros três poderes, o Imperador também pode mandar à morte, mesmo sem provas, todos aqueles que julgasse "traidores da pátria". Porém, em uma república como a nossa, ou seja, democrática, não é assim que as coisas funcionam, pois o princípio da inocência é inviolável. Ainda assim, não é o que acontece no Brasil. Por exemplo, quem aqui nunca se viu acusado (e subsequentemente coagido a confessar) de fazer algo que não fez?...

- Mas olhe só! - desdenhou outro amigo - Este senhor está achando que deveríamos julgar toda ação como se estivéssemos no Supremo Tribunal. Quanta tolice!

O colega de debate, até mais calmo que antes, replicou:

- Meu amigo, tenha a bondade de me escutar. É exatamente esse tipo de julgamento apressado que faz com que, em julgamentos reais, muitos réus já dirijam-se ao tribunal esperando apenas quantos anos de prisão terão de cumprir.

-Caríssimo, propõe aqui um absurdo. Ora, então para você, um homem reconhecidamente ético, um bárbaro como o Nardoni não mereceu todas as "injúrias", já que estamos falando em termos jurídicos, que recebeu?

- As de antes do julgamento, realmente não.

- Mas, meu amigo, a maioria já tinha certeza da culpa.

- Primeira coisa: como a maioria tinha certeza se nem mesmo a polícia tinha coletado evidências suficientes para culpar o casal Nardoni? Segunda coisa: Desde quando a maioria agora é argumento para desrespeitarmos outro princípio, o do direito a defesa?

- Mas ele ficou impassível durante todo o julgamento!

- Prezado, se ficar se descabelando fosse critério de inocência, teríamos de absolver todo político comprovadamente corrupto que já chorou durante um julgamento mesmo se ficasse provado o(s) delito(s). Imagine se um caso como o do Mensalão, por exemplo, acaba com todos sendo inocentes, mesmo se provado o esquema, só porque "não ficaram impassíveis" durante o julgamento? - respondeu o amigo

Não convém, para esta crônica, prolongar mais as falas dos dois, afinal, eles discutiram por horas e até mesmo outros vieram. Eu, porém, preferi só observar, pois foi uma discussão que nos rendeu uma nova visão sobre um velho problema. Só lamento, porém, que não discutimos os outros problemas tão importantes para o país e tão simbolicamente ligados àquele dia.

Bom, como não quero escrever um livro, e como o espaço na folha está acabando, despeço-me por aqui, deixando essa discussão para vocês leitores. O que acham? Qual dos amigos tem razão? Será que o primeiro de fato exagerou? Ou será que foi o segundo que não conseguiu ver além de sua visão de justiça?

Enfim, despeço-me cordialmente, novamente os saudando e agradecendo-lhes pela atenção.





1 de ago de 2012

As Redes Sociais como Fator de Disseminação de Intolerância e Preconceitos

Bom, pessoal, o título desta postagem é justamente o próprio tema. Nos últimos meses, comecei a refletir um pouco mais e perceber que, de forma mais clara do que pensamos, as famosas redes sociais estão mesmo virando um prato cheio para espalhar a intolerãncia. Para entender melhor, é só ler o texto a seguir. Boa leitura!

Falhas Nossas
Não é raro ouvir falar que a Internet é um espaço livre e democrático de divulgação e circulação de ideias. Esse é um dos poucos casos em que o senso comum é válido e não se equivoca, afinal, não há, pelo menos do que a maioria conhece, qualquer tipo de restrição ao que se põe na rede, a não ser mesmo o bom senso do usuário. Há, porém, um grande problema: é cada vez mais perceptível que falta não só o bom senso, mas também raciocínio lógico por parte de muitos, já que postam, muitas vezes, coisas tolas e desnecessárias.

Não adentrarei, entretanto, no mérito da postagem de fotos que revelam intimidades pessoais ou alheias ou das ofensas a superiores ou colegas de trabalho por meio das redes sociais, por exemplo. Refiro-me, ao falar de pessoas que não "ligam o desconfiômetro", aos que persistem em disseminar a intolerância e o preconceito redes sociais afora.

Um leitor mais questionador pode se indagar: "Ora, como assim? Onde esse articulista vê tanto preconceito e intolerância na rede se, em quase todas as ocasiões, os racistas e homofóbicos são 'fakes' de Twitter ou Facebook?". Para respondê-lo de maneira apropriada e intelectualmente honesta, é conveniente que eu delimite o conceito de "preconceito", que não se restringe apenas a etnias ou orientações sexuais, como alguns podem pensar. Aliás, se eu fosse enumerar aqui e explicar todos os tipos de preconceito existentes, mesmo sem muito me aprofundar, acabaria escrevendo um livro, não um artigo.

Enfim, com isso em mente, apresento a ideia de preconceito. Há pelo menos dois autores que o definem de forma coerente e sucinta. Uma é Lya Luft, escritora e acadêmica da ABL, que o define como "o medo do diferente". O outro é o filósofo e articulista da Folha de São Paulo Luis Felipe Pondé, que afirma ser o preconceito uma "reação moral espontânea". Pode-se, então, sintetizar isso e definir o preconceito como uma reação moral espontânea e negativa ante o diferente, clarificando, ainda assim, que não é a única definição plausível para o termo.

Partindo disso, reafirmo o que disse no início: falta, de fato, bom senso a muitos usuários da Internet não só pela exposição exagerada da própria imagem, mas também por disseminarem, mesmo que de modo inconsciente, preconceito e intolerância. Para não deixar minha tese infundada, demonstrarei a existência de três faces do preconceito.

O primeiro, e talvez mais percebido por todos, é o linguístico. Quem já não viu, em uma daquelas páginas de "humor" do Facebook, imagens em que são satirizadas pessoas que acabam fugindo à norma padrão ou à ortografia de algumas palavras? Ou então, quantos já não tiveram uma opinião ridicularizada pela mesma razão? Pelo número de posts diários que se vê nessas e em outras páginas, podemos dizer que de duas, uma: ou os satirizadores não sabem que até mesmo a norma padrão tem situações específicas em que seu uso é obrigatório - por exemplo, parafraseando Possenti, alguém brigaria na fila de supermercado porque uma outra pessoa disse que comprou  três quilo de carne?-, e que as redes sociais não são uma delas, ou não sabe que a tarefa mais essencial da língua é comunicar, o que acontece na maioria dos casos de "erro". Há, também, o fato de que o padrão foi eleito não por ser o "certo" ou o mais "bonito", mas sim porque algum tipo de elite o usava. Prova disso é que algumas construções que consideramos "erradas" não são reprovadas pela lógica interna do idioma. Não seriam, então, essas pessoas que tanto julgam a escrita alheia na internet os próprios ignorantes?

O segundo tipo, tão comum quanto o primeiro, mas menos perceptível, é o musical. O que se vê, nesse caso, são rockeiros, sertanejos, funkeiros, pagodeiros e outros trocando ofensas entre si e tentando colocar outros ritmos como musicalmente pobres ou culturalmente desprezíveis. Há, porém, uma coisa para a qual todos convergem: nos erros cometidos ao analisar as outras batidas. Afinal, nenhuma delas é monotemática e monorrítmica, especialmente ao se considerar que o rock e o funk, por exemplo, vão de temáticas amorosas e/ou sexuais às de luta contra mazelas sociais, e que o mesmo se aplica a todos os outros estilos musicais. Além disso, cabe aqui uma indagação: Como colocar um ritmo como culturalmente inferior sendo que este retrata, muitas vezes, uma cultura própria de um segmento social determinado com todos os seus problemas e realizações? Não seria mais fácil, então, lutar contra os problemas ao invés de querer reprimir uma manifestação cultural, até que se prove o contrário, válida?

Finalmente, mas não menos grave, vem o preconceito entre gerações. Deste, aliás, envergonho-me grandemente, pois não só são as pessoas da minha geração que o disseminam como também eu mesmo, antes de refletir seriamente sobre o assunto, ajudei a espalhá-lo. A questão é: Muitos dos que hoje ridicularizam pré-adolescentes que já namoram ou que sofrem por causa do fim de uma relação também foram alvo de chacota pelos mesmos motivos. Esses, que hoje riem dos animes e séries assistidos pelas novas gerações, também sofreram com isso quando mais jovens. Será, então, que vale mesmo a pena dar sequência nessa roda viva de preconceito? Não seria mais sensato ser empático com o mais jovem ou orientá-lo para não fazer as mesmas besteiras que o adulto de hoje fez? Ou melhor: Não seria uma demonstração maior de inteligência tentar avaliar o comportamento das crianças e dos pré-adolescentes de hoje com uma régua mais atual, ou seja, analisando a situação dos menores HOJE, e não de acordo com o passado em que vivemos?

Não digo, porém, para renunciarmos completamente aos valores de nossa geração ou nosso grupo social. Afinal, eu sei que é perturbador saber que meninas de 13 anos já podem ter cometido um aborto e que é frustrante, no mínimo, ter de ouvir por aí músicas machistas e que façam apologia à infidelidade. Só que apenas criticar leva a uma única situação: maiores ressentimentos e desentendimentos. É preciso, antes de tudo, analisar com calma a situação atual e procurar, partindo dessa análise, orientar, do melhor modo possível, as novas gerações.

Termino por aqui. Peço, contudo, que não me levem a mal. Quero, apenas, que as terríveis falhas minhas deixem de ser Falhas Nossas.