11 de out de 2015

O Caro Dinheiro, o Comportamentalismo Insuficiente e o Moralismo Barato: uma resposta a Samy Dana

Mesmo não sendo um leitor assíduo da Folha de São Paulo e de seu colunismo, tive, graças a um compartilhamento do amigo Marcos Lannes, editor-chefe e blogueiro de Minuto Produtivo, a oportunidade de ler o mais recente artigo de Samy Dana, economista (e, naturalmente, colunista sobre o assunto Economia) e professor da FGV.

Não era, todavia, apenas sobre Economia que o articulista versava no escrito em questão, mas principalmente sobre educação de crianças e jovens, tema ao qual este articulista, enquanto professor, acaba naturalmente não podendo se furtar.

Sob o título de Usar mesada como recompensa é risco para a formação dos seus filhos, a tese de Dana é clara sobre o que este articulista que digita chamaria de "comportamentalismo monetário", isto é, a ideia e a prática de promover mudanças comportamentais em crianças por meio do dinheiro ou de sua ausência. Será, contudo, que sua legitimidade é tão notável quanto sua clareza?

O comportamentalismo insuficiente, mas mal explicado

Após começar dissertando muito bem sobre os desafios dos pais ao tentarem ensinar aos filhos como lidar com o dinheiro, o professor da FGV vai ao ponto ao explicar a ideia que criticaria:
Você já deve ter visto ou ouvido falar a respeito de uma "planilha educativa" que viralizou na internet em 2013. Um casal que mora em Rondônia resolveu adotar uma estratégia diferente para dar a mesada aos dois filhos, de 6 e 8 anos, respectivamente.
A ideia foi montar uma planilha com uma lista de penalidades financeiras que as crianças estariam sujeitas em caso de desobediência ou mau comportamento. A mesada dos dois era de R$ 50, mas atitudes como fazer refeições fora da mesa, reclamar para ir à escola ou desobedecer os pais poderiam render descontos de R$ 0,25 a R$ 3,00. Ao final do mês, a quantia real da mesada ia depender da quantidade de punições, ou seja, quanto melhor o comportamento, maior a mesada.
Resumidamente, o que o pós-doutor em Business nos mostra nesse excerto é um exemplo de educação infantil tipicamente behaviorista, baseada na corrente psicológica que tem como principais expoentes Watson, Pavlov e, mais notoriamente, F. B. Skinner, e como conceitos de maior destaque o Condicionamento Respondente (desenvolvido principalmente pelos dois primeiros) e Condicionamento Operante (desenvolvido por Skinner).

Não é muito difícil para qualquer um que tenha levado a Psicologia da Educação a sério (ou nem tanto) mesmo que por apenas um curto semestre universitário entender que, como toda corrente de pensamento, o Comportamentalismo (ou Behaviorismo, como prefiram) tem suas virtudes e seus vícios, assim como os têm a Gestalt, o Construtivismo e a Psicanálise, apenas para ficar com os exemplos mais famosos. 

Apesar de ser criticada por diversas correntes pelo seu reducionismo ao desprezar, em seus estudos, os aspectos cognitivos que influenciam o comportamento, não há como se negar, por exemplo, que os comportamentalistas nos legaram uma série de noções importantes sobre a relação entre estímulos (S) e respostas (R), especialmente quando foi graças ao Cão de Pavlov e aos experimentos de Watson que se passou a perceber como comportamentos essencialmente biológicos podem ser controlados por fatores ambientes e psicológicos - ou seja, como os S podem modificar, condicionar, manipular as R -, que comportamentos não necessariamente são genéticos e que, portanto, certos S geram determinados R, o que pode ser utilizado para diversos fins, quer benéficos (e.g., auxiliar na educação infantil), quer maléficos (e.g., manipular pessoas para progressivamente perderem o senso de moralidade e fazerem tudo o que lhes for ordenado).

Dana, porém, acaba por reduzir toda a teoria comportamentalista a uma espécie de opção dos imediatistas:
Em psicologia comportamental, a prática é bem conhecida e chamada de estímulo-resposta. A cada tarefa concluída, a criança recebe uma recompensa. No exemplo dado, cada atitude de bom comportamento representa maior possibilidade da mesada integral. A técnica pode até ter eficácia para ter crianças muito bem comportadas em casa, mas será que esse tipo de didática realmente vale a pena?
O resultado imediato pode ser suficiente para convencer outros pais de que o método é interessante, mas é preciso analisar a questão pelo lado crítico. O grande problema desse tipo de ensino é o risco de as crianças assimilarem bons valores, obrigações e comportamento adequado a recompensas. E se a mesada, fator de motivação de tudo isso, for retirada? Como prever qual será o comportamento das crianças diante de tarefas básicas se não houver dinheiro no começo do mês?
Antes de tudo, cabe frisar que, para boa parte dos comportamentalistas (os clássicos, principalmente, adeptos do Condicionamento Respondente do experimento de Pavlov), o segredo para o sucesso educacional não necessariamente passa por nunca retirar o estímulo, mas sim por retirá-lo progressivamente, de modo a que a resposta continue pelo maior tempo possível mesmo sem qualquer tipo de estímulo, transformando-se em um comportamento internalizado, o que é justamente o maior objetivo de uma educação infantil que vise formar crianças bem comportadas.

Além disso, há um problema intrínseco à argumentação de Dana: como saber, a partir de uma tabela divulgada na internet, que a educação dada pelos pais às crianças é de base puramente behaviorista? Por que não é possível, por exemplo, que os pais estejam associando estímulo-resposta a conceitos de outras teorias psicológicas mesmo sem saber, que é o que muitos pais acabam fazendo ao enfrentarem o desafio que é educar crianças, ou, melhor ainda, seres humanos que viverão em um mundo que se torna cada vez mais complexo e cada vez menos receptivo aos pouco adaptáveis?

Mais ainda: se a educação de base puramente comportamentalista (o que não temos dados suficientes para afirmar com segurança que de fato ocorre nesse caso) é um risco, o que diremos, então, da proposta do professor da FGV?

Educação por princípios... princípios do século

Segundo o doutor em ADM, "distribuir recompensas pode ser uma forma de incentivo em algumas situações, mas transformar isso em regra para tudo é um risco muito grande a longo prazo". Lógica indefectível, como deve ocorrer com todo argumento pautado em lógica.

O que não se sustenta, entretanto, é a alternativa que Dana propõe ao comportamentalismo rastaquera:
Bom comportamento é uma questão de princípios, a criança não pode esperar uma recompensa por isso. Se essa mensagem é a que fica impressa ao longo de sua formação, como adulta, ela desejará ser recompensada por qualquer atitude positiva que tenha em sociedade. 
O professor da FGV é, como muitos brasileiros, o adepto do lema "educar para princípios e por princípios". Tal slogan pode parecer muito nobre e totalmente exequível, mas uma análise mais atenta nos mostrará que a conversa pode muito bem ser outra.

Percebam: por mais que seja virtuoso tentar educar uma criança baseando-se em princípios, o problema intrínseco a esse tipo de educação é que, na realidade, o próprio conceito de princípios assim como os princípios são tão frágeis e flutuantes que, muitas vezes, até mesmo adultos que foram educados por pessoas que indiscutivelmente não eram sem princípios têm sérias dificuldades até mesmo em compreendê-los, quem dirá ao aplicá-los no mundo real.

Princípios, por mais que sejam necessários para o convívio em sociedade e por mais que, portanto, precisem ser cultivados desde cedo, são desafiadores para todos não apenas porque muitas vezes é impossível cumpri-los, mas também porque é necessária uma imensa maturidade para compreender não só sua essência como, outrossim, que e porque muitas vezes são esquecidos em nome de justificativas muito boas e de razões não tão boas assim.

Seguindo o mesmo raciocínio reducionista de Dana, ou melhor, o raciocínio endossado por muitos de que seguir um método educacional necessariamente excluir seguir outros simultaneamente, pode-se argumentar, então, que a educação por e para princípios também é um risco, posto que nem todas as individualidades são capazes de suportar um mundo em que os seus princípios não sejam respeitados integralmente, por mais que isto seja impossível, o que poderia gerar uma geração de ressentidos que, munidos de blogs e vlogs na internet e de milhares de fãs, espalham o ódio a favor de um mundo melhor, preterindo o humano real e pensando, sempre, no ideal intangível que, inevitavelmente, não será alcançado e perpetuará esse ciclo interminável de ódio e loucura.

Does that ring any bells?

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Se acreditou algum dia em "educação por princípios", esse dia certamente era um de princípios do século. Mantém, na plataforma WordPress, o blog Apoliticamente Incorreto.

9 de ago de 2015

Juca Kfouri no banco dos réus: o discurso de ódio e o preconceito classista dos coxinhas esquerdistas contra os manifestantes anti-PT

A revista esquerdista Fórum, uma Caros Amigos sem versão impressa, decidiu republicar, devido à proximidade de novas manifestações pró-impeachment de Dilma, um artigo - se é que um texto tão mal paragrafado pode ser categorizado dessa maneira - do jornalista esportivo Juca Kfouri sobre os panelaços que ocorreram em Março de 2015, pouco antes das primeiras manifestações anti-PT tomarem as ruas do Brasil neste ano.

No texto, intitulado O panelaço da barriga cheia e do ódio, Kfouri, mais desconhecido por ter enchido o saco de Kaká e, anos depois, de Neymar do modo mais ateu Toddynho possível por causa de faixas e camisetas com os dizeres "100% Jesus", escancara de maneira tão grotesca o seu medo e o seu ódio a qualquer manifestação mais contundente de antipetismo que faz até mesmo um antidireitista declarado como este que vos escreve partir em defesa dos adeptos do panelaço e das manifestações, por mais que deles divirja em um milhão de tópicos, desde ideologia política até métodos de divulgação dessa ideologia.

Enfim, vamos às bizarrices.

O coxinha esquerdista, como sempre, adora o dinheiro dos outros

Já de início, Juca nos brinda com uma prova do tom de sua crítica:

Nós, brasileiros, somos capazes de sonegar meio trilhão de reais de Imposto de Renda só no ano passado.
Como somos capazes de vender e comprar DVDs piratas, cuspir no chão, desrespeitar o sinal vermelho, andar pelo acostamento e, ainda por cima, votar no Collor, no Maluf, no Newtão Cardoso, na Roseana, no Marconi Perillo ou no Palocci.

Se Juca fosse minimamente honesto, teria dito não apenas a quantia de dinheiro que foi sonegada, mas também o tanto que foi pago de impostos por parte dos brasileiros sem qualquer distinção de classe. 

Para seguir a lógica de Juca, só no ano passado fomos capazes de entregar a uma burocracia estatal repressora e ineficiente a bagatela de 1,8 trilhão de reais, mais do que o triplo da quantia sonegada e mais do que suficiente para que um governo minimamente competente e honesto mantivesse não só as contas em dia como também fosse capaz de investir satisfatoriamente, isto é, investir sem precisar fazer qualquer tipo de corte de verba em setores estratégicos como educação ou saúde.

Juca Kfouri e o coxinhismo de esquerda: fala tão bem sobre política quanto sabe tocar bateria. Juca Kfouri não sabe tocar bateria.
O neoateu, porém, não quer saber de responsabilidade fiscal, tema desde o início do ano espinhoso para o séquito de puxa-sacos do partido governante. O que ele quer, amigo leitor, é o seu dinheiro, que servirá para alimentar desde ONGs de idoneidade duvidosa até megacapitalistas que não querem mais saber de concorrência e que, por isso, procuram o Estado para obter uma grana fácil oferecendo serviços de péssima qualidade. 

Juca, como todo bom coxinha de esquerda, adora o dinheiro dos outros e, por isso, sempre fará campanhas por mais e mais direitos, sem se interessar por como esses direitos incham a máquina estatal por meio de impostos, tornando-a não necessariamente mais eficiente, mas certamente mais endinheirada para reprimir todos aqueles que divirjam do projeto de poder do momento e, claro, mais tentadora para aqueles que quiserem fazer da corrupção o seu método de governar.

Ele, porém, não para por aí e se utiliza da tática esquerdista ao dizer que, ao endossar pequenas corrupções, o "brasileiro" (como se João, Maria e outros 200 milhões fossem todos homogêneos em seus pensamentos e ações) não teria qualquer moral para se manifestar contra a corrupção governamental.

A falta de vergonha na cara é tamanha que Juca se esquece de que as pequenas corrupções que cita são frutos muitas vezes justamente de tentativas de escape ou de subversão de uma burocracia estatal que a todos sufoca, tornando o país cada vez menos produtivo e atrativo para se ser um cidadão cumpridor do número exorbitante de leis que temos. 

Além disso, o comunista da ESPN (quase um pleonasmo) se esquece de que a corrupção estatal é, justamente pelo grande papel que o Estado historicamente representa no Brasil, muito mais fatal do que pequenas corrupções feitas muitas vezes exatamente para fugir do jugo autoritário dessa burocracia falida. Para alguém tão chegado da turma dos relativistas totais, Juca parece um exemplo perfeito de alguém que não sabe julgar os fatos dentro de seu contexto, o que quer que isso ande significando hoje em dia.

Juca Kfouri, a Marilena Chauí de calças

Nos trechos seguintes, Juca prova que, para uma esquerda vigarista, o modus operandi Marilena Chauí de vociferar contra uma classe média abstrata e "reacionária" não será posto de lado facilmente. Segundo Kfouri, 

O panelaço nas varandas gourmet de ontem não foi contra a corrupção.
Foi contra o incômodo que a elite branca sente ao disputar espaço com esta gente diferenciada que anda frequentando  aeroportos, congestionando o trânsito e disputando vaga na universidade.
Elite branca que não se assume como tal, embora seja elite e branca.

Antes de tudo, é surpreendente a habilidade de Juca e dos esquerdistas em geral de, do alto de sua vigia de pensamento, declararem que quem protestou necessariamente era dono de uma varanda gourmet e que era, necessariamente, uma elite branca, como se a crise desencadeada pela corrupção petista como método de governo não estivesse afetando a todos, inclusive àqueles que esperavam, pelo FIES, o acesso à universidade nos anos restantes de sua graduação, mas que, se não tiveram suas bolsas suspensas, apenas conseguiram-nas com uma dificuldade injustificável quando se oferece qualquer programa ao povo.

A crise afeta, senhor Kfouri, justamente aqueles que, segundo seu raciocínio, não protestariam contra Dilma. Aqueles que não mais podem colocar carne no prato com uma frequência saudável, posto que a carne só fica mais cara. Aqueles que, agora, precisam fazer contas aos borbotões antes mesmo de comprar pão pela manhã, já que mesmo este produto básico da mesa do brasileiro não vem saindo nada barato nem compensatório para o bolso de quem recebe um salário mínimo.

Não, senhor Kfouri, o que surgiu no Brasil nos últimos dois anos não foi "a luta de classes" ou "o ódio coletivo da classe alta, dos ricos, a um partido e a um presidente", muito menos contra um "governo que revelou  uma preferência forte e clara pelos trabalhadores e pelos pobres". Governo que prefere o trabalhador é governo que, antes de tudo, deixa o dinheiro no bolso do trabalhador, seja não o sobretaxando, seja com uma política econômica responsável pela qual esse mesmo governo de fato seja capaz de honrar os compromissos que assumiu, fatos que, ao contrário do que foi dito nesse arrazoado de bizarrices que a esquerda brasileira tem coragem de compartilhar como se fosse um texto de Dostoiévski redivivo, não vêm ocorrendo durante o mandato de Dilma Rousseff.

Por fim, se o coxinha de esquerda diz:

Sejamos francos: tão legítimo como protestar contra o governo é a falta de senso do ridículo de quem bate panelas de barriga cheia, mesmo sob o risco de riscar as de teflon, como bem observou o jornalista Leonardo Sakamoto.

Eu tenho o direito a empregar o mesmo raciocínio e dizer que, perto de gente que escreve um artigo repleto de discurso de ódio e de preconceito classista em que sugerem que pessoas que pegam em panelas para exercer o legítimo direito de protestar cometem uma imoralidade tão grande quanto quem se levanta em armas para derrubar um governo, qualquer panelaço ou xingamento a um chefe de Estado é não só legítimo, como mandatório.

Em suma, se quem bate panelas de barriga cheia precisa exercer o senso do ridículo, quem escreve de barriga cheia um texto recheado de ódio e de preconceito classista precisa deixar de ser um cãozinho amestrado do governo enquanto se diz isento, precisa parar de pensar ideologicamente e voltar os olhos à realidade, precisa exercitar o pensamento lógico e perceber que o fato de o oposicionista ser rico ou pobre não faz a menor diferença para se sua causa é verdadeira ou falsa, precisa, enfim, aprender o que de fato é "senso do ridículo" e "vergonha na cara" antes de aconselhar seus adversários políticos a descobrir o que essas duas expressões significam.

Se "Dilma Rousseff, gostemos ou não, foi democraticamente eleita em outubro passado", então cabe a seus partidários o ônus de admitir, sem concessões vigaristas nem falsas condescendências (muito menos acusações de golpismos ou udenismos, porque estas só colam mesmo para nossa esquerda que, mais do que cretina, é totalitária), que os panelaços e as manifestações são nada mais do que o esperado em um país em que a palavra "liberdade" de fato significa algo mais do que a liberdade de defender as causas de que nós gostamos. 

São, portanto, o protesto democraticamente legitimado que só não está sendo ouvido em muitos lugares pela esquerda porque esta fecha, como sempre, os ouvidos ao que não lhe serve ideologicamente, e nada prova melhor isso do que a série de asneiras e sandices escritas por Juca Kfouri e requentadas por blogs de esquerda que se fingem de malucos ao disfarçarem que não entendem que os protestos não são direcionados, neste momento específico, contra a abstrata corrupção de todos, a ser investigada posteriormente, mas contra a real corrupção do partido que, por ter em mãos os órgãos de repressão estatal em sua força máxima e por ter em mãos praticamente os três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário), representa um perigo ao qual ninguém pode mais vendar os olhos. Muito menos os ditos esquerdistas a favor do povo.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Pensa sinceramente, como ateu, que Juca Kfouri anda crendo demais no Deus-ParTido.

17 de jun de 2015

Legalismo, um delírio

Este é um texto antigo postado em Sociedade Alternativa de Letras quando por lá fui autor. Desta vez, será prefaciado por um adendo do amigo Roger Scar no Facebook meses depois de o texto original ter sido publicado.

PREFÁCIO - O que é um legalista e porque não sê-lo?

O legalista é aquele indivíduo que olha para uma lei, interpreta e assimila-a como se a própria fosse condição real imutável. Ele diz que "se a lei proíbe, é errado." Por corolário ele também diz que "se a lei permite, então está tudo certo."
Há muitos legalistas no mundo. Mas, na área do direito eles se concentram. Meu palpite é que seja algum tipo de lavagem cerebral sofrida, só que eu precisaria cursar direito para ter certeza, e isso não farei. A questão é que ser legalista e advogado ao mesmo tempo torna a situação mais trágica por duas razões.
A primeira razão, é claro, resume-se ao fato de que quem cursa direito estuda - ou deveria - filosofia, o que por si só já deveria resolver o problema. E a segunda razão é que, em nosso sistema, leis não são feitas por quem estudou direito, mas por deputados e senadores que nem precisam ter cursado a quinta série.
Ou seja: ser legalista é depositar toda sua fé nos parlamentares.

Por Roger A. Scar

TEXTO ORIGINAL - Legalismo, um delírio

Escrevi, recentemente, um texto sobre quão incautos são aqueles que defendem a tese de que, por ser o Comunismo (ou, na linguagem esquerdista, "Socialismo real") um sistema tão ou mais mortífero do que o Nazismo, e sendo a apologia a esta doutrina criminalizada, a apologia às "doutrinas vermelhas" também deveria ser considerada um crime.
 
No texto, abordei as diversas facetas do problema, entre elas a de que não há uma cultura que sustente essa criminalização e a de que esse tipo de projeto apenas reforça a ideia de que somos necessitados de um Estado-babá que nos diga em que pensar ou não, mas uma em especial, aquela que intitulei Legalismo, um delírio, merece um texto exclusivamente seu, pois não é difícil ver que, em muitos outros casos e em ambos os lados do espectro político-ideológico, esse é um erro comum.
 
Como no texto supracitado, defino legalismo não tanto como o sentimento de que as leis devem ser cumpridas a qualquer custo, mas principalmente como a crença de que são elas, e não a moral, a cultura ou outro fator de coesão social, que fazem as pessoas serem capazes de discernir entre o certo e o errado, o bom e o mau (e o bem e o mal, por corolário), o verdadeiro e o falso, o belo e o grotesco et cetera.
 
Não é muito difícil perceber que, a não ser que se creia em direitos naturais (e, portanto, em moral objetiva), este tipo de pensamento faria seus defensores caírem automaticamente no relativismo, pois lugares e culturas diferentes, por mais que tenham algumas leis em comum, inevitavelmente terão muitas que diferirão por causa de suas necessidades de momento, das diferentes ideias que sustentam e até mesmo dos gostos pessoais dos seus líderes de momento.
 
O problema, porém, é que quando se fala em "o certo", "o bom", "o verdadeiro", "o belo", especialmente para essas mesmas pessoas que defendem a criminalização de certas condutas ou doutrinas por não se encaixarem em qualquer dessas características - e aqui não falo com o neutralismo tedioso de muitos dos meios intelectuais, pois acho comunismo algo abominável em quase todos os sentidos -, não se intenciona discutir sobre o que é mutável até mesmo por simples preferências pessoais, e sim sobre o que, independente de tempo e de espaço, serve como regra universal de julgamento moral, factual, político e estético.
 
Aliás, falando em tempo, volto às necessidades de momento e pergunto aos legalistas: se são as leis o principal instrumento para discernir o certo do errado, seria a Pena Capital certa durante o Regime Militar e errada em nossos tempos? E, principalmente, se esta mudança se deu pela mudança de percepção da verdade (como de fato ocorreu), como garantir que as atuais leis são as melhores e mais corretas? Seria a verdade, novamente, dependente do que o personagem O'Brien, do genial 1984, escrito pelo mais genial ainda George Orwell, chama de "solipsismo coletivo", isto é, do julgamento de um coletivo determinado sobre o que é verdadeiro e o que é falso?
 
Já se o apelo for aos direitos naturais, essa crença na força das leis como elementos de geração de repúdio ou apoio moral a determinado item fica ainda mais fragilizada, pois, se os direitos naturais pressupõem (como de fato ocorre) uma moral objetiva, isto significa justamente que, antes de qualquer direito ou dever existir, deve haver uma moral imutável e universalmente válida que o sustente. Como seria, então, o direito responsável pela moral se é a moral que dá origem ao direito, e não o contrário?
 
O legalismo nos termos aqui colocados, entretanto, é tão frágil que apenas a observação atenta da realidade que nos cerca já seria mais do que suficiente para desmontá-lo. Afinal, se pirataria é crime, por exemplo, por que tantos não só a toleram e dela se utilizam como, em determinadas circunstâncias, também a apoiam moralmente? Será, também, que se certas condutas já não fossem repudiadas quase que por todos em nossa sociedade haveria como sustentar, apenas pela lei, que estão erradas sem cair em uma argumentação circular?
 
E enquanto os legalistas tentam nos mostrar o mistério de sua fé, os que queriam ver criminalizados e mandados para a lata de lixo da história é que, tão politicamente habilidosos de tão estratégicos e tão estratégicos de tão politicamente habilidosos, sequer precisam se esforçar muito para mostrar quaisquer mistérios que bem prefiram. Eis, meus amigos, o triste fim de quem não acredita no conselho de Goethe: "é urgente ter paciência".
 
Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Pede desculpas à humanidade se algum dia já foi um legalista.

1 de jun de 2015

Uma tirinha da pesada: Marcos Lannes sob o espectro da desconstrução e da reconstrução

Circula já há algum tempo no Facebook uma tirinha provavelmente criada pela neoesquerda americana e imediatamente comprada pela neoesquerda brasileira em que, por meio dos personagens Richard (um garoto com boas condições financeiras e com pais presentes) e Paula (uma garota que nasceu em família com condições financeiras mais baixas e que, por isso, convive com piores oportunidades), se contesta a ideia de meritocracia, ou seja, a ideia de que aquele que traz mais vantagens a todos é o que naturalmente deve se sobressair na vida e de que, muitas vezes, o esforço pessoal é o fator mais decisivo nesse bom sucesso.

Não sou esquerdista e, por isso, nada tenho contra a meritocracia em essência. Considero, por exemplo, um desserviço ao debate público a existência de uma esquerda que meramente contesta a democracia e a meritocracia sem dizer explícita e honestamente não só qual é o sistema melhor do que o atual, mas por que meios (e, mais ainda, se estes meios são todos honestos ou se são necessários os meios desonestos) iremos alcançá-lo, o que significa, para qualquer um que entenda o que é política, que tratamos muito provavelmente com pilantras, e não com debatedores que se deva levar a sério.

O problema, porém, é que, justamente por não ter assumido fidelidade ideológica para com o lado destro do espectro político, não consigo ficar calado quando leio um texto defendendo a meritocracia de modo apenas parcialmente verdadeiro. Pior ainda é quando, como autor deste texto, está alguém que considero não só como amigo, mas também como uma das poucas mentes sensatas do debate político.

Falo de ninguém mais ninguém menos do que o ainda injustamente pouco conhecido Marcos Lannes, do blog Minuto Produtivo. Apesar de conservador declarado, Marcos acaba sendo uma das poucas vozes das quais raramente ouvimos palavras que não soam como o puro e barato moralismo típico da tribo de manés que se autodeclaram "conservadores brasileiros". Como, no entanto, ninguém é perfeito, também Marcos cometeu seus erros em certos comentários que compõem o bom artigo A meritocracia NÃO precisa de oportunidades iguais para funcionar.

Desejo, então, por meio do sistema que o leitor já conhece, expor o que penso (e deve ser esta, justamente, a única "autoridade" de minhas palavras) sobre certos pontos para, talvez, acrescentar ao leitor de ambos os artigos uma visão que ainda não tinha sido exposta tanto na tirinha quanto no artigo de meu amigo.

Minuto construtivo

Começo contestando uma das premissas que Lannes assume para que o debate seja iniciado. Segundo o futuro engenheiro de produção:
"A premissa importante antes de se debater esse assunto, é que, diferente da tirinha, que resume os seres humanos em dois grupos de espantalhos homogêneos, a verdade é que existem bilhões de indivíduos diferentes, com perfis diferentes, aspirações diferentes e visões de mundo diferentes."
É óbvio para qualquer um que pense fora da caixa progressista que vem cada dia mais tentando ser a única caixa de bombom do universo o que Marcos bem diz: ora, uma análise rigorosa nos faria perceber que o mundo não se divide apenas em Richards e Paulas. O problema para Lannes, porém, começa justamente quando vamos tentando destrinchar os outros agrupamentos possivelmente existentes, sendo que um deles é justamente o das pessoas que, tendo nascido em berço de ouro, desperdiçam suas oportunidades ao máximo mas que, ainda assim, conseguem, por meio de herança, passar uma vida inteira vadiando sem maiores problemas, o que definitivamente nenhum dos que não nasceram nesse tipo de berço pode fazer se quiser aumentar suas chances de sobrevida no mundo caótico em que vivemos.

Mais óbvio ainda é que, com isso, não quero propor a solução esquerdista para o dilema, ou seja, a estatização dos meios de não sei quem ou o fuzilamento dos grupos x, w e y. O problema, porém, é que, por mais que, como Lannes bem pontua, "existem filhos de pais ricos que possuem carreiras medíocres (se levar em conta o que seus genitores investiram), e existem filhos de pais pobres que construíram ótimas e sólidas carreiras (principalmente se levar em conta algumas limitações de investimento)", persiste o problema moral de que, quando o primeiro se mantém rico e quando o segundo se mantém pobre, o julgamento tanto das pessoas quanto dos tribunais sobre os dois dificilmente terminará em favor do segundo, o que pode, a depender das circunstâncias, minar todas essas conquistas e, de certa forma, até premiar as falhas do outro. É claro que, para mudar esse quadro, é necessário mudar a mentalidade geral pelas vias democráticas, mas o problema é: que setor da direita consegue reagir adequadamente a isso, ou seja, sem gritar acusações de marxismo cultural a quem propõe essa mudança óbvia?

Minuto desconstrutivo

Passo, agora, aos limites da semiótica lannesiana, ou seja, a certos equívocos que notei na interpretação de meu amigo da tirinha sobre a qual teceu comentários:

"A tirinha tão elogiada por alguns passa a impressão de que Richard tem menos mérito em conseguir as coisas pelo fato dos pais serem ricos. Ou, melhor dizendo, os pais do garoto de classe média/alta são culpados pelo simples fato de terem mais recursos e uma melhor rede de relacionamentos - no mundo dos negócios é conhecida como networking - que lhe permita chegar onde chegou."

Além do fato de não necessariamente ser errado dizer que Richard tem menos mérito do que teria, por exemplo, um "Bob" de origem não-rica ao conseguir o que quer, o problema das impressões é que, justamente, estas variam de leitor para leitor. Enquanto para Lannes, que do que eu saiba não teve raízes esquerdistas em sua formação política, a impressão se resumiu apenas à questão do mérito, minha impressão foi de que, além de contestar a ideia de meritocracia, o que se quis expor foi a crescente cegueira (porque me recuso a usar o confusíssimo termo "alienação" da esquerda imbecil do Brasil varonil) de Richard à totalidade das razões que o fizeram chegar ao ponto em que chegou, esquecendo-se, por exemplo, de que conseguir um estágio graças ao networking paterno citado pelo graduando em engenharia é algo bem mais "de bandeja" do que ter de cuidar dos pais doentes, sacrificar parte dos estudos e, com isso, conseguir um emprego de baixa remuneração em que também se é vigiado, inclusive com mais fervor, constantemente.

Nada, contudo, supera a inferência errada de Marcos quanto ao que se julga sobre os pais de Richard: não há, em nenhum lugar do texto (no caso, da tirinha), trechos que nos permitam inferir qualquer juízo de valor negativo com relação às posses dos pais de Richard, sendo que nem mesmo a questão do estágio, eticamente questionável, é profundamente questionada na tirinha. Lannes, então, ainda deve ao leitor uma resposta, com base no texto da tirinha, sobre de onde sua interpretação foi tirada, isto porque, momentos depois, o articulista diz que os pais de Richard teriam adquirido sua riqueza necessariamente de forma meritocrática, o que também não é colocado na tirinha, ou seja, o que configura mais um salto de fé do amigo conservador.

Minuto reconstrutivo

Termino implicando com a maneira com que o futuro engenheiro de produção interpretou a finalidade a que se propõe a tirinha. Segundo Lannes, o objetivo da tirinha é "contestar a ideia de meritocracia, a invalidando pelo fato de não existir igualdade de oportunidades". É claro que, por mais que a ideia de me tornar um dos melhores sofistas do século ainda me atraia, não sou relativista a ponto de negar o que vejo diante de meus olhos, ou seja, que o que Marcos subentendeu não poderia estar mais correto, apesar de certamente haver aqueles que dirão que a tirinha só quis "problematizar" a ideia de meritocracia, como se "problematizar" já não fosse um primeiro passo político para se invalidar determinada ideia.

Não quero, então, contestar a interpretação de Lannes neste ponto em específico, mas propor uma discussão que poderá ajudar muitos direitistas, e isso inclui Marcos, a militarem ou a pensarem de modo um pouco diferente sobre essa questão. Dou enfoque, para isso, à última fala do personagem Richard, então um homem de sucesso cercado por seu séquito de puxa-sacos (as usual, diga-se de passagem). Seja honesto comigo, leitor: não é justamente o ar de superioridade arrogante de Richard nesse último quadrinho que o faz uma figura que dificilmente ganharia a nossa simpatia e cujos argumentos, portanto, rejeitaríamos ou teríamos pelo menos a tendência a rejeitar logo de cara? Ao mesmo tempo, esse comportamento não é, em termos, muito parecido inclusive com o das pessoas que superaram o binarismo Richard x Paula e, tendo origem pobre, se deram muito bem na vida, quando falam sobre como quem não venceu na vida é necessariamente preguiçoso ou burro, mesmo sem conhecer a história de vida dessas pessoas?

Penso, então, que o leitor já sabe onde quero chegar: por menos que se possa condenar generalizações em essência - afinal, uma parte considerável da guerra política consiste justamente em pegar condutas particulares de um membro de um grupo e generalizá-la para todos, seja para defesa, seja para ataque -, não há momento em que deveríamos pelo menos tomar cuidado para generalizarmos de um mal jeito justamente aqueles de cujo apoio precisamos? Quem das "Paulas", afinal, votaria, em sã consciência, em um político que é apoiado por pessoas que as veem de uma maneira totalmente distorcida, enxergando-a como pouco mais do que lixo humano?

Essa, então, é minha proposta para uma direita mais tenaz: não tentar necessariamente defender Richard, mas, antes, aproveitar a desconstrução esquerdista de Richard para, com isso, reconstruir um "Robert", um "John" ou mesmo um "Will" que, inevitavelmente, possa virar o jogo e, progressivamente, tirar a ideia de meritocracia do limbo da história das ideias perante o grande público. Isso, lógico, aos que irem, neste artigo, para além do "marxismo cultural" que aparentemente é apoiado.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Por algum motivo, pensou que este post cairia melhor em Blogger do que em WordPress. Espera, então, não estar enganado.

PS: Lannes respondeu a meu texto. Quem quiser pode acompanhar o final da discussão em Apoliticamente Incorreto.

4 de fev de 2014

O fim de "O Homem e a Crítica" e as surpresas do Wordpress

Bom, amigos leitores, é isto. Como prometido há alguns meses, finda-se "O Homem e a Crítica" e, como presumem, o novo blog será chamado "Octagon", pois foi este o nome que venceu a enquete, certo?

Errado. Mas vamos ao novo blog para saber o porquê. O endereço é o que segue: http://apoliticamenteincorreto.wordpress.com/

Enfim, só posso agradecer-lhes pelo apoio que me vem dando, pedir que continuem apoiando e deixar registrado que todos os posts que aqui estão permanecerão aqui, mesmo os que forem transpostos ao Wordpress, para permitir, assim, que, caso ocorra algo no Wordpress, o Blogger ainda me sirva de refúgio.

Bom, agradeço pela audiência então e até mais.

Sobre o Autor: Octavius é graduando em Letras, mas prefere, francamente, os caminhos da Filosofia. Criou um blog por curiosidade, manteve-se blogueiro por vontade de ser famoso, daí percebeu que nada disso ia ocorrer e começou a simplesmente se divertir rindo da cara dos mais diversos tipos de ineptos internet afora.

Requiescat in Pace: 2011-2014

31 de jan de 2014

Teste de cegueira ideológica

Apresento ao leitor a seguinte citação, retirada de um livro não muito famoso:

"Quando é o poder que diz ao povo aquilo em que é preciso crer, está se referindo a uma 'espécie de religião política', raramente preferível à precedente [...] Ao fim e ao cabo, o conteúdo específico do novo dogma importa pouco [...] O essencial é a nova 'plenitude de poder', já que o poder temporal impõe também as crenças que lhe convêm. Controlando a escola, ele transforma a instrução, que supostamente deveria trazer a liberação, em ferramenta de uma submissão ainda maior; ele apresenta como dogmas imutáveis ou, pior, verdades científicas, as últimas decisões políticas [...] A religião tradicional queria controlar a consciência do indivíduo, fosse exercendo ela mesma o poder temporal, ou delegando a este a tarefa de reprimir. A religião política, por sua vez, poderá vigiar e orientar diretamente tudo. [...] O território da nova religião ultrapassa de longe o do antigo; em consequência aumenta também aquele que o indivíduo terá de defender."

Lanço, agora, três perguntas:

1- Você concorda até que ponto com o autor?

2- Quem você acha que é o autor de cujo livro a citação foi retirada?

a) Mestre (e, para alguns, uma deidade) Olavão, em "O Imbecil Coletivo"
b) O libertário Marcos Bagno, em "A Norma Oculta"
c) A maior filósofa do hemisfério, Marilena Chauí, em "O que é Ideologia?"
d) O filósofo búlgaro Tzvetan Todorov, em "O espírito das Luzes"
e) O reaciotário Luciano Henrique Ayan, em "Desvendando o Esquerdismo - Guia para Iniciantes".

3- Você considera que este autor tem o DIREITO de continuar a escrever livros (caso discorde dele)?

Saberão a segunda resposta em breve (ou nos comentários mesmo).

Sobre o Autor: Octavius é graduando em Letras e, obstinadamente, procura desvendar os enigmas da Filosofia. Perguntaria a um certo membro do Ad Hominem como é ser odiado por olavettes e esquerdistas ao mesmo tempo, mas, além de já conhecer esta sensação, só se mistura com libertários durante o happy hour.

23 de jan de 2014

Explicando para meus filhos porque nem tudo é passível de discussão - Uma breve reflexão sobre a necessidade da existência de "tabus"

Facebook afora (e também fora do Facebook), não é difícil ver pessoas propagando uma ideia que, de antemão, parece ser muito interessante: A de que tudo é passível de discussão, sendo que o problema, na verdade, não estaria nas ideias a serem discutidas, mas nas pessoas com quem se discutiria. Relevante, também, é perceber como muitas das pessoas que julgam ter descoberto a América quando puderam "desafiar o senso comum" e propor o livre debate de qualquer ideia usam desse tipo de discurso não só para promover as causas que defendem, mas para promover a si próprias como portadoras da máxima virtude, a "tolerância" - o que, para a linguagem progressista, como aponta Olavo de Carvalho, significa o mesmo que pregar a visão única, mas isto é outra conversa.

Ocorre, no entanto, que, como nos diz o filósofo Luiz Felipe Pondé em seu Guia Politicamente Incorreto da Filosofia - Ensaios de Ironia, não sou dos que costumam confiar em gente que promove demais as próprias virtudes (ou, em linguagem mais aristotélica, não creio que um homem deva sair enunciando as próprias virtudes por aí). Vamos, então, aos trabalhos de mostrar, sucintamente, para os advogados do mundo melhor em que todos debatam tudo, uma visão pessimista e realista (ou seja, distópica) dos efeitos possíveis de convencer as pessoas de que tudo é passível de discussão.

Pondé ao saber da nova moda dos intelectuais facebookianos.
Falsos relativistas - Um adendo (Ou: Politicamente corretos, socialmente burros)

Vejamos, então, as implicações de propor que não existem tabus, ou seja, que não existem assuntos ou tópicos que não se possa discutir por meio de lógica pura e simples. Primeiro, uma das consequências de se colocar qualquer objeto ou ideia em discussão para indivíduos é que, mesmo com uma discussão inadequada, estes indivíduos podem vir a repensar suas crenças sobre o que está sendo discutido.

Se isso ocorre com indivíduos, então imaginem com uma sociedade inteira, composta, justamente, por indivíduos. Ou seja, isto significa que, caso consigamos convencer uma parte relevante de uma sociedade de que tudo pode ser discutido, estaremos a convencendo, por corolário, que tudo, inclusive os dogmas morais sob os quais ela se assenta, podem ser repensados.

Acontece que, para a maior parte dos que advogam por esta causa, o que acontecerá será simples: A sociedade provavelmente será convencida, por exemplo e por causa da virtuosidade natural dessa proposição, de que é um absurdo fazer piadas com negros, gays e ateus, mas que não é fazê-las com brancos, héteros e cristãos. Da mesma forma, obviamente se convencerá, de novo pela virtuosidade da proposta, que causas como o casamento gay, a legalização do Aborto, a legalização da maconha, a institucionalização das Cotas Raciais e/ou Sociais em universidades et cetera são naturalmente boas e que é um sinal de atraso e de "reacionarismo" não concordar com elas e não implementá-las de imediato no país.

Entretanto, toda esta situação tem dois agravantes e, por incrível que pareça, o menor deles é o político. O detalhe é que, normalmente, as mesmas pessoas que advogam em favor dessa tese claramente relativista não conseguem suportá-la quando se deparam com o "atraso" ou com a "reação", ou seja, não conseguem sequer admitir que suas ideias para um mundo melhor não sejam amplamente aceitas por todos, e que ainda haja quem tenha a petulância e a ousadia de ridicularizá-las ou mesmo de expressar um temor puro e simples com relação às consequências possíveis dessas ideias quando aplicadas na realidade concreta.

O que ocorrerá, então, é que, ao invés de se dar realmente voz para todos os lados de uma questão, a voz será progressivamente cedida, seja por meio de caricaturas do oponente ou de cerceamento de voz mesmo, apenas ao lado que obtiver a hegemonia, ou seja, o domínio dos meios de mídia e de cultura em um país, e isto se dá por um motivo bem simples e que foi muito bem detectado por Olavo: o de que o relativismo real e total é, na verdade, insuportável e inconveniente, pois ele pressupõe que se seja politicamente capaz não só de aceitar a divergência como também de aceitar a possibilidade de que o lado contrário esteja certo em alguns pontos. O problema é que, com o passar do tempo, este lado não será eliminado, mas sim poderá se fortalecer especialmente se vier a sofrer as supracitadas caricaturizações  e censuras (mais ou menos como ocorre com a atual "direita" no Brasil), o que trará, naturalmente, ao lado hegemônico a necessidade de jogar os perdedores no ostracismo. Para isso ocorrer sem maiores problemas, dever-se-á criar justamente o quê? Bingo, leitor, novos tabus, ou seja, o que mudará será apenas o lado que controla o que é tabu ou não.

Esse, no entanto, é, como já dito, o agravante político e, portanto, o menor dos agravantes, pois o maior é, sem dúvida, o social. Suponhamos, então, que o relativismo real foi alcançado e que há, de fato, discussão equilibrada sobre todos os tipos de assunto. Caímos, então, em uma segunda consequência. Se todos os assuntos podem ser discutidos sem nenhum tipo de restrição a não ser a de "pessoas ignorantes com que não se discute" e se dogmas morais que formam a nossa sociedade podem ser contestados igualmente sem nenhum tipo de restrição, então, eventualmente, isto significa que o próprio pensamento sobre outros dogmas que pareceriam até então incontestáveis também pode mudar. 

Ou seja, se não há assunto indiscutível e, principalmente, se não há, para um povo, por mais bem instruído e preparado que este seja contra fraudes ambulantes, tese impossível de se defender, o que acontece é que não há, da mesma maneira, posicionamento impossível de se adotar ou de se mudar, o que quer dizer que se pode abrir brechas, em nosso caso, para discutir e aceitar como corretas a pedofilia, a zoofilia, a necrofilia, o abandono de menores, o estupro de incapazes ou até mesmo o assassinato.

Tudo isto, por sua vez, causa, em uma sociedade organizada, exatamente a desorganização de sua moral e, por consequência, a deixa desorganizada em todos os aspectos, pois não terá qualquer valor seguro pelo qual possa se guiar e, portanto, progredir. Ocorre, no entanto, que, hora ou outra, será necessário, para se manter o mínimo de sanidade e de ordem, de início, coagir as pessoas para que vivam ordeiramente. Isto, porém, por si só não será suficiente, pois não existem valores em que os cidadãos se possam fiar e, portanto, não saberão como chegar ao modus vivendi mais ordeiro. Precisaremos, então, criar o quê? Bingo de novo, amigo leitor.

Percebemos, então, que, por mais lindo que seja em teoria, o discurso de que qualquer coisa pode ser discutida terá, na prática, dois caminhos mais prováveis e que levarão, finalmente, à necessidade de, justamente, negar o discurso de que tudo pode ser discutido (que, aliás, como bem notou um amigo leitor, Rudy Souza, parece ser indiscutível atualmente). Mas, enfim, né, devo pensar essas coisas por ser "de extrema-direita", não?

Sobre o Autor: Octavius é graduando em Letras e, nas horas vagas, amante diletante da Filosofia. Foi chamado pela esquerda de "polemistazinho de merda" e pela direita de "progressista safado". Ficou agradecido, então, pela preferência.

21 de jan de 2014

Eu, Apolítico - O curioso (aliás, curiosíssimo) caso de Rachel Sheherazade... e da "nova direita brasileira" (Ou: A volta das perguntas que não foram)

Rachel Sheherazade: Jornalismo "de direita"?
Sim, amigos leitores. Depois de muito tempo (mais especificamente, desde o Carnaval de 2013), sinto-me obrigado a voltar a falar da figura sempre polêmica de Rachel Sheherazade, jornalista sbtana (muito gata, por sinal) que, como diria um nobre amigo, dia-sim-e-o-outro-também irrita os mais diversos grupos de fanáticos ideológicos, desde neo-ateus a feministas, marxistas que não assumem o Marxismo, marxistas declarados, secularistas, defensores da causa LGBT et caterva.

Não é difícil de se prever, então, o número imenso de ataques que a jornalista sofre, Facebook afora, por parte desses grupos, incluindo, aliás, ataques de ditos "filósofos" sem ideologia mas que, estranhamente, só aparentam discordar do esquerdismo mais radical na questão do método para construir o "mundo melhor" - o que quer que isto signifique na linguagem progressista. A onda mais recente, por exemplo, foi causada pela notícia de que os colegas de redação e de emissora de Sheherazade sentiriam vergonha de trabalhar com esta, posto que tem uma "postura muito opinativa", expressando "pensamentos com os quais nem todos concordam".

Traduzindo, o que Sheherazade faz, então, é expressar as opiniões de que a mídia progressista, em geral, não gosta, e, com isso, além de ganhar o rótulo de "direitista conservadora alienada homofóbica racista machista transfóbica gordofóbica ateofóbica cristã evangélica", cativar para si um público que, na verdade, se sente pessimamente representado não só pela política mas também pela mídia brasileira, muito pusilânime para sequer cogitar a possibilidade de existirem jornalistas com opinião própria, quanto mais a possibilidade de esses jornalistas expressarem essa opinião para o grande público.

Não vou, apesar disso, gastar saliva - no caso, caracteres - demonstrando o totalitarismo do tipo de pessoa (ou seja, do militante "por um mundo melhor", do "progressista" do progresso inalcançável) que, com essa espécie de boicote sorrateiro, tenta, na verdade, retirar dos órgãos de mídia qualquer tipo de pensamento que fuja à cartilha que o totalitarista resolveu seguir, pois, com brilhantismo, homens declaradamente de direita (e com fama bem maior e bem melhor entre a própria direita que a deste blogueiro anti-direitista) como Rodrigo Constantino, Luciano Henrique Ayan e, mais recentemente, Flávio Morgenstern já o fizeram cada um a seu modo e cada um com o seu tamanho de texto, indo desde o brevíssimo Constantino ao elaboradíssimo Morgenstern.

Ocorre, porém, que, em todos esses textos, apesar de uma abordagem perfeita do papelão protagonizado pelas esquerdas (mais uma vez, diga-se de passagem), faltou ainda abordar o outro lado do espectro: O papelão da direita política. O que quero dizer com isso? Explico já. Vamos, então, aos trabalhos.

Um problema de definição: O fanatismo de direita 

Olavo de Carvalho sobre a "nova direita brasileira"
Diz o filósofo campinense Olavo de Carvalho em seu O Mínimo que você precisa saber para não ser um Idiota, assim como em diversas outras oportunidades, que a melhor forma de reconhecer um fanático de qualquer tipo, em especial o fanático ideológico, é ver como ele se porta perante as atitudes de outras pessoas, ou seja, como ele lida com a divergência de opinião, de crença e do escambau-a-quatro que, por uma razão óbvia de existirem, sempre, indivíduos com as mais diversas experiências de vida, sempre existirão. Nos termos olavianos:
O que o fanático nega aos demais seres humanos é o direito de definir-se nos seus próprios termos, de explicar-se segundo suas próprias categorias. Só valem os termos dele, as categorias do pensamento partidário. Para ele, em suma, você não existe como indivíduo real e independente. Só existe como tipo: "amigo" ou "inimigo". Uma vez definido como "inimigo", você se torna, para todos os fins, idêntico e indiscernível de todos os demais "inimigos", por mais estranhos e repelentes que você próprio os julgue.
Isto significa, então, que, antes da fervorosidade pura e simples, o que caracteriza um real fanático e o que o diferencia de um mero entusiasmado é, de fato, o grau de cegueira que aquele tem em relação a tudo e todos que pareçam não se enquadrar nas categorias com as quais ele está acostumado a pensar. Só que, ao contrário do que ocorre no artigo linkado, Olavo, normalmente, não para por aí e põe em jogo outro elemento essencial: o fanático não hesita, em benefício de seus fins político-ideológicos, em enquadrar dentro do seu esquema de pensamento todo e qualquer indivíduo que venha a divulgar opiniões para a plateia, seja ele filósofo de fato (e, provavelmente, um não-adepto de ideologias), analista político especializado, professor escolar, cronista, articulista ou mesmo ÂNCORA DE UM PROGRAMA DE TV VISTO PELO BRASIL EM MASSA.

Dito isto, cabem duas perguntas aos direitistas que defendem a jornalista de todo esquerdismo e incitam outras pessoas a defendê-la dizendo que Sheherazade seria, na verdade, um verdadeiro pilar da direita e do conservadorismo¹ dentro do jornalismo brasileiro: Vocês já viram ou ouviram, por algum acaso, Rachel Sheherazade se declarar "de direita" ou mesmo "conservadora"? E mais: Vocês pensaram na possibilidade de que, como boa parte do jornalismo brasileiro, Rachel, na verdade, não tenha lido boa parte da literatura direitista e conservadora e, portanto, NÃO SAIBA DIREITO o que significa ser, de fato, um direitista e conservador?

Não pensem, entretanto, que indago-lhes sobre isso por puro preciosismo. De forma alguma. O detalhe é que, quando se navega por muito tempo no Facebook, vê-se, na verdade, que o número de pessoas influentes na mídia que os direitistas dizem ser de direita mas que, na verdade, negam ou mesmo repudiam totalmente este rótulo quando indagados sobre o assunto é um tanto maior, tanto em notoriedade quanto em termos de números mesmo, do que os que o aceitam e o abraçam. Para se ter uma dimensão do problema, entre os famosos que já foram chamados de direita e negaram ou mesmo simplesmente não confirmaram esta informação, vemos gente como o mais influente sociólogo anti-Cotas no Brasil, Demétrio Magnoli - que chegou, inclusive, a dar entrevista se dizendo de esquerda -, a própria Rachel Sheherazade, o jornalista Luiz Carlos Prates (também do SBT) e os roqueiros Lobão Elétrico e Roger Moreira (ex-Ultraje a Rigor), este último, aliás, tendo dito, em hangout com Lobão e Danilo Gentili, que se alinharia ao centro se fosse forçado a escolher, para si, uma ideologia política.² Enquanto isso, entre os que confirmaram ser de direita, ao menos do que eu saiba, estão apenas os articulistas Olavo de Carvalho, Rodrigo Constantino e Reinaldo Azevedo, bem menos conhecidos do que os outros cinco e do que deveriam.

Percebe-se, então, que, para quem diz adotar a prudência perante os fatos, essa parcela do conservadorismo facebookiano (e lembro sempre, não uso "conservador" como xingamento de forma alguma), quando da definição de seus próprios aliados políticos, não parece ser muito prudente. Isto, no entanto, é apenas a ponta do iceberg de todo o papelão da direita facebookiana. Sim, amigo leitor, o pior ainda está por vir. Vamos, então, a ele.

A direita e a "luta contra si mesmo" (Ou: A demanda injusta e totalitarista da opinião única)

Tendo explicado, então, o problema de se enquadrar um famoso ideologicamente sem consultá-lo sobre o assunto (problema este, aliás, quase insignificante perante o próximo que tratarei), falta explicar um problema que geralmente ocorre depois de a maioria dos membros do grupo ideológico que se julga privilegiado pelas opiniões do famoso enquadrado reconhecê-lo como seu representante legítimo.

Ocorre que, como já dito de diversas formas por mim, por Olavo de Carvalho e, fora deste artigo, também por Francisco Razzo, por Gustavo Nogy e pelo libertário radical Joel Pinheiro da Fonseca (contra quem só posso, até o momento, usar o fato de ele ser libertário e nada mais), o que o fanático de qualquer tipo de seita não consegue perceber é não só que existe vida fora de sua crença, mas que mesmo pessoas que compartilham com ele a mesma crença podem, sim, ter opiniões muito diferentes sobre assuntos diferentes. Um católico, por exemplo, pode ou não considerar válido o Concílio Vaticano II, dependendo, lógico, do modo como interpreta a tradição (essencial, aliás, para o entendimento do Catecismo católico como um todo) e mesmo o próprio livro sagrado. Do mesmo modo, protestantes podem divergir quanto à legitimidade de trabalhar para ter lucro³, ateus podem divergir quanto à  importância de se legalizar o Aborto ou o Casamento Gay e assim sucessivamente.

O problema é que, como também já dito aqui, Rachel Sheherazade não foi, de forma alguma, consultada previamente sobre suas crenças políticas. A única coisa que se poderia afirmar sobre ela, diga-se de passagem, é que seu pensamento é, legitimamente, um pensamento tipicamente evangélico, pois esta crença, a religiosa, era a única que ela havia assumido publicamente.

Aconteceu, então, o que era previsível. Após um comentário no Jornal do SBT sobre a sociedade "machista" e "patriarcal", Rachel se viu diante do fogo cruzado: Uns, totalmente abobalhados pela ideologia, consideraram-na "traidora da causa" (qualquer que esta fosse, pois a direita política brasileira, até hoje, também por falta de espaço midiático, não mostrou a que veio), enquanto outros, hipnotizados pelas ideias previamente espalhadas pela "musa da direita"*, sequer toleraram, em seus blogs e páginas de Facebook, as críticas que, naturalmente, surgiram contra a opinião sheherazadiana. O que se demonstrou com isso foi, justamente, o que todo analista político de direita ou mesmo mero ex-militante de esquerda já percebeu: que a direita ainda está, em termos de estratégia política, engatinhando, enquanto a esquerda, mais experiente, disso se aproveita para continuar com ridicularizações infantiloides e acusações vigaristas (conhecem a do "nazismo de direita"?**). Eis o mistério da fé direitista na superioridade de suas teorias econômicas como chave única para o sucesso garantido.

O leitor, então, poderia me perguntar: Como a direita conservadora deve resolver isso? Eu, por enquanto, não darei todo um esquema, mas apenas um conselho, pois o melhor a se fazer, nesses casos, é cada vez mais adotar justamente o princípio que esses ditos conservadores já dizem adotar: a prudência.

Sobre o Autor: Octavius é graduando em Letras, mas também faz suas excursões, ocasionalmente, pelas bandas da Filosofia. Até pensou em virar à direita, mas foi frustrado pela (in)capacidade cognitiva de alguns de seus membros. Na briga entre as duas ideologias, aliás, torce mais e mais por uma geração apolítica.

NOVOS PODCASTS:

60º Podcast de Octavius: Eleições 2014 - A opinião de um Apolítico (Ou: Direita é a mãe!)

¹Detalhe: Não foi justamente a esquerda quem primeiro chamou Sheherazade de "reacionária" e "representante do ultra-conservadorismo brasileiro"? Falta, então, autonomia à direita de Facebook para distinguir entre quem são seus afins e quem a esquerda diz serem seus afins?

²Aliás, do que eu saiba, o próprio Danilo Gentili TAMBÉM NÃO DISSE, até hoje, se era ou não de direita.

³Sobre isso, aliás, um ótimo livro é "A ética protestante e o espírito do capitalismo", do sociólogo Max Weber, talvez o único deles, aliás, que realmente preste. Lá, o leitor poderá entender um pouco melhor o quão conflitantes eram e ainda são as visões sobre o trabalho de religiões como o Luteranismo, o Calvinismo, o Metodismo e o Anabatismo, todos, pelo menos em tese, cristãos.

*Nota: Até concordo com o "musa", mas não com o "da direita". Simplesmente não.

**No post anterior, um anônimo, muito provavelmente esquerdista, reclamou que, em seu post sobre o nazismo ser de esquerda, Luciano Ayan se esqueceu do conselho dos "historiadores sérios" de "analisar o nazismo na prática". Cabem, então, duas perguntas:
1- Desde quando somos obrigados a nos pautar no que historiadores escandalosamente progressistas (e, portanto, tendenciosos) falam para analisar a lógica do nazismo?
2- O que Marx diria sobre essa separação BIZARRA entre práxis e teoria?

15 de jan de 2014

Manifesto Jaaviano contra Olavo de Carvalho e outros arrogantes, inconsistentes, desonestos intelectuais e "fechados à diversidade da experiência humana e da realidade que nos constitui"

Caros amigos leitores, tenho um anúncio a fazer. Após ver o vídeo sobre o jornalista campinense Olavo de Carvalho feito pelo doutor em Psicologia Adriano Facioli (mais conhecido como Frank Jaava), membro da Tropa Lanterna Verde, resolvi seguir seu conselho e não mais considerar como filósofo ou como referência filosófica em qualquer assunto ou para qualquer abordagem séria de qualquer assunto os ditos filósofos que não possuírem consistência, humildade e honestidade intelectual, assim como não considerarei os que não forem, como ele disse mesmo?, "abertos para diversidade da experiência humana e para a riqueza da realidade que nos constitui".

Frank Jaava explicando ao telespectador sobre "conservadores extremos e rancorosos"
Vejamos, então, quem seria excluído desse grupo. O primeiro, sem dúvida, seria Friedrich Nietzsche, autor com importantes contribuições principalmente no que se refere ao estudo do mundo clássico (em especial grego) e da estética como um todo. Afinal, além de sua obra ser muito dispersa em termos filosóficos, que história é essa de, em Ecce Homo, escrever um capítulo intitulado Por que escrevo livros tão bons? E quanta falta de educação ele teve ao chamar Kant de imbecil em O Anticristo, não é? Fora o que fala dos cristãos em Crepúsculo dos Ídolos e Além do Bem e do Mal, um absurdo total! E mesmo que sejam artifícios de retórica e (segundo Jaava) "sofística", um homem desses jamais pode ser considerado um filósofo. Apenas "conservadores extremos e rancorosos" podem considerar um cara desses filósofo mesmo!

Já o segundo, sem dúvida, é ainda mais fraquinho e, com certeza, não deve ter contribuído muito para o estudo da retórica clássica, da estética e da moral de um ponto de vista ateu. Falo de ninguém mais do que Arthur Schopenhauer, pessimista alemão. Afinal, que história é essa de crer na teoria da conspiração de que só não entrou para a Academia na Alemanha porque a maioria (senão todos) os acadêmicos influentes da época eram partidários de Hegel, a quem Schopenhauer se opunha ferrenhamente? E esse negócio de passar metade do A arte de conhecer a si mesmo falando sobre como sua obra, por não se pautar no querer puro e simples, será eternizada? É muita falta de humildade!

Caramba, já ia até me esquecendo: E quando esse pessimista, em A arte de envelhecer, escreve que Hegel, Fichte e Schelling, seus contemporâneos, tinham sido o que de pior aconteceu para a Filosofia até então? E em A arte de escrever, então, quando ele fala que tudo o que Hegel consegue fazer são apenas floreios e mais floreios para que sua escrita pareça menos medíocre? Mas esse homem, além de não ter uma visão aberta "para a diversidade da experiência humana e para a riqueza da realidade que nos constitui", só xinga seus opositores! Como assim ele é considerado filósofo por alguém? Esses "conservadores extremos e rancorosos" só podem estar de brincadeira!

Schopenhauer: "Eu paguei net para ouvir essas porra?"
O que dizer, então, de gente como Sartre, um dos que mais contribuíram, em sua época, para a mudança de paradigma do estudo das artes em geral, que, ao apoiar o Stalinismo, mesmo que por pouco tempo e mesmo se arrependendo depois, e ao afirmar que poesia não é gênero literário para engajamento político, não percebe "a diversidade da experiência humana" e deseja apequenar o leitor ante os fatos? De Kant, que, arrogantemente, quis fazer excursões pela Biologia e pela Física mesmo sem manjar nada de nenhuma dessas áreas e depois nem teve a honestidade intelectual de reconhecer seu erro e pedir desculpas? De Foucault, que acreditava, como demonstra em A Ordem do Discurso, obra indispensável para quem quer entender como até mesmo a ciência pode se reduzir a um simples discurso em que o que vale é a vaidade dos cientistas e não a verdade, nesse conspiracionismo maluco de que cientistas podem, sim, excluir o que vá contra as suas ideias pessoais do rol das verdades científicas? De Rousseau, que, em Do Contrato Social, ao se pronunciar favorável à Pena Capital, desconsidera "a riqueza da realidade que nos constitui"?

E é isso aí! Como sou um homem que sabe reconhecer a "diversidade da experiência humana e para a riqueza da realidade que nos constitui", não posso levar a sério esse tipo de gente tão pouco humilde, tão inconsistente e tão desonesta intelectualmente!

Epa, espera... Como é esse negócio de "eles estavam tentando entender a realidade que os cercava mesmo"? Ah, deve ser só besteira dos "conservadores extremos e rancorosos."

Sobre o Autor: Octavius é graduando em Letras e caminha, mesmo que a passos tímidos, na trilha da Filosofia. Se ganhasse 1 centavo por cada vez que ouvisse a palavra diversidade empregada por psicólogos, sociólogos, antropólogos, sociolinguistas e afins, já teria feito, há pelo menos um ano, Gates e Slim parecerem pobretões.

12 de jan de 2014

Eu, Apolítico - A imbecilidade do Desarmamentismo Civil (Ou: O "filósofo" da cidade de São Paulo, o pai da Psicanálise e as estatísticas de mesa de bar)

Já há um bom tempo, venho observando e relatando, por estas bandas, as "genialidades" pronunciadas e/ou escritas pelo ilustríssimo "filósofo da cidade de São Paulo" (e isso porque outros muito mais ilustres, como Miguel Reale e Mário Ferreira dos Santos, também lá viveram e filosofaram), Paulo Ghiraldelli Jr., dentre elas a de que se deve ler um conservador sem considerá-lo conservador, ou seja, sem se atentar, justamente, às premissas filosóficas de que parte para dizer A ou B, a de que um filósofo de verdade só pode ser assim considerado se apoiar todo tipo de manifestação por mais imatura e provavelmente infrutífera que seja, e, finalmente, e talvez a maior de todas, a genialidade de dizer que todo o problema da escola pública se resume a dinheiro, e não, também, ao óbvio erro, inerente a toda e qualquer pedagogia progressista, de, ao invés de querer formar um cidadão capaz de  exercer alguma função técnica que lhe permita, então, não se tornar refém do acaso e de qualquer patrão, digamos, menos "generoso", querer que o cidadão saia da escola "crítico", ou, em linguagem de pessoas normais, desejoso de transformar a realidade e a sociedade sem nem mesmo conhecê-las (e muito menos entendê-las) a fundo.


Mário Ferreira tentando achar a "filosofia da cidade de São Paulo" de Ghiraldelli
Quando acho, porém, que a vastíssima erudição do ilustre "filósofo" chegou ao seu limite, eis que ele me surpreende e escreve um artigo sobre a questão do Desarmamento Civil, intitulado, por ele, de A arma faz xixi na mão de criança, em que coloca, dentro e fora de seu artigo, uma série de pontos interessantes para o crivo de um cético, ou pelo menos de um cético em formação, como este que vos fala. Então, como diria o grande poeta pós-moderno brasileiro Pedro Bial, "aos trabalhos". Hora de analisar a posição de Guiraldelli¹ sobre a questão das armas no Brasil.

O complexo de Freud e a deslegitimação preventiva do oponente

Antes, porém, de irmos à análise do artigo em si, cabe a mim explicar porque havia dito que há pontos interessantes a serem analisados mesmo fora do artigo de Ghiraldelli. Para isso, recorro ao já citado por estas bandas blog Ceticismo Político, cujo dono, Luciano Henrique Ayan, é, reconhecidamente, um especialista em desnudar estratégias de propaganda política, fraudes e muitas outros elementos mais que estão inseridos no contexto das disputas políticas como as conhecemos (e até como não as conhecemos).

Lá, há, no mínimo, dois posts que descrevem, com precisão, duas das táticas usadas pelo "filósofo" são-paulino paulistano não só no artigo aqui analisado como também em outros, entre eles o Onze tópicos sobre o energúmeno, em que o professor da UFRRJ (por enquanto), antes de começar, nos avisa, sobre o energúmeno, que:
Você pode encontrá-lo em vários lugares. Mas sei que se vier me ofender, é porque o encontrou no espelho.
Da mesma forma, no fim do artigo sobre desarmamento, Ghiraldelli nos alerta, com um Post Scriptum sucedido apenas por um ponto, e não por dois-pontos, como se esperaria de qualquer pessoa que dominasse as regras de pontuação do próprio idioma, que:
essa questão da posse de arma irá fazer alguns virem aqui apenas para agredir.
Eis, então, o momento para a primeira entrada de Ayan. Em um seu post do início de Abril do ano passado, o investigador de fraudes conversa com o leitor sobre a "deslegitimação do oponente de forma preventiva", técnica em que, segundo Ayan, o que se faz é "um ataque duplo, em que o primeiro ataque é baseado em rotinas para infligir dano ao outro lado, e o segundo ataque, em paralelo, para atacar e tirar a legitimidade de um possível revide.", ou seja, em que se diz, como no caso dos artigos de Ghiraldelli, que quem vier a "ofendê-lo" - o que, para Paulo, parece significar apenas expressar qualquer discordância, dada a maneira como modera, a seu bel-prazer e com um critério que, no mínimo, faz a balança pesar a seu favor sempre, os comentários dos leitores que vão contrapor o que ele diz - não o fará por causa do tom jocoso com que o "filósofo" se dirige a seus adversários (e veremos isso mais adiante), mas sim porque é "energúmeno", incivilizado, barbaresco, inculto, sem bom ensino médio, "autodidata" (o que, para Ghiraldelli, é uma ofensa pior do que o comportamento de Maria do Rosário quanto à violência, sobre o qual ele, até agora, nada disse), etc.

Pena, para o "filósofo", que todos esses xingamentos (ou não) que usa não são mais do que puras suposições sobre as vidas de seus comentaristas ou mesmo fruto de leitura mental, e que, no reino da lógica, ainda é permitido discordar de "filósofos", pois não são os títulos de alguém que definem a veracidade do que este venha a dizer, mas sim a coerência de suas ideias não só internamente como também com o mundo exterior.

Há, porém, um segundo truque a ser desmascarado antes de partirmos para o exame das ideias do "filósofo da cidade de São Paulo". Ainda no Post Scriptum sucedido de um ponto e não de dois-pontos, após começar a desqualificação preventiva de todos os que venham a discordar dele, Ghiraldelli completa:
É que quando eu ponho pingos nos “is”, os mais imaturos me veem como pai disciplinador, e ficam doidos para se comportarem como adolescentes rebeldes. O desejo de posse de arma talvez mostre um Édipo mal equacionado, pessimamente elaborado.
Aqui, então, além da desqualificação barata, vemos um típico caso do freudianismo, também relatado por Ayan, técnica esta em que as teorias do pai da Psicanálise são usadas, sem maiores provas, como argumentos para desqualificar o oponente. No caso, o que Ghiraldelli usa é a contestadíssima teoria do Complexo de Édipo para dizer não só que seus detratores não tiveram, como costuma afirmar, "o bom ensino médio", mas também que sua psique, durante a infância, foi perturbada por alguma sorte de eventos envolvendo as figuras paterna e materna. Obviamente, só falta a Ghiraldelli lembrar que, ao contrário do que pode parecer ao retoricista incauto, a psicanálise, assim como qualquer teoria científica, psicológica, sociológica, literária, filosófica e o escambau a quatro, não prescinde de comprovação, ou seja, que é necessário, para que um argumento de fundo psicanalítico valha, que ou o argumentador a prove verdadeira, ou a plateia a aceite, previamente, como verdadeira, o que, considerando o número de opositores a Dr. Freud, não parece ser o caso.

"Porra, Ghira, não força, cara" - Dr. Freud sobre os psicanalismos histriônicos ghiraldellianos
Dito isto, encerro, por aqui, a parte dos truques extra-artigo usados por Ghiraldelli. É tempo, então, de passar à análise do artigo em si.

Enlouquecendo Ghiraldelli: Contra as estatísticas, não há argumentos... Será? E onde estão as estatísticas?

Na introdução de seu artigo, Ghiraldelli, de cara, já dá seu primeiro salto metafísico:
Algumas pessoas acreditam que de posse de uma arma de fogo elas estarão seguras diante da violência urbana. O problema que elas não percebem é que possuindo uma arma de fogo elas estarão logo integradas às estatísticas de aumento da violência urbana.
Ou seja, para Ghiraldelli, o simples fato de portar uma arma de fogo levará, necessariamente, uma pessoa para as estatísticas de aumento da violência urbana. Pena, porém, que não existe como saber se uma pessoa não só quererá usá-la - para quais fins, francamente, não sei, pois o "filósofo" nada explica sobre como pessoas sem motivos fortes para usar uma arma necessariamente irão usá-la - como se realmente precisará da arma em alguma situação. Afinal, não se pode prever, com exatidão total, se quem será assaltado necessariamente portará uma arma de fogo, visto que não é possível prever quem será vítima de assalto.

Ghiraldelli, porém, cita um dado interessante já nesse primeiro parágrafo: as estatísticas. É nelas que ele, então, confia no parágrafo seguinte, quando afirma que:
As melhores estatísticas brasileiras mostram correlações que, em resumo, nos dão quatro informações: a posse da arma de fogo não aumenta a segurança do cidadão; a arma de fogo do cidadão tem um caminho fácil, que é a mão de bandido; a arma de fogo nas mãos do cidadão, tendo ele dito que sabe atirar ou não, aumenta a probabilidade dele ferir pessoas inocentes; a posse da arma de fogo envolve quem a utiliza em situações jurídicas (e outras) tão terríveis que, não raro, muitos dos que fazem uso dela acabam por se arrepender.
Primeiro, cabe perguntar: O que seriam "as melhores estatísticas"? Seriam aquelas que corroboram com o que afirma Ghiraldelli, ou aquelas levantadas por institutos com real credibilidade no assunto?

É com pesar que digo, porém, que não é Ghiraldelli que pode responder a essas perguntas, porque, infelizmente, em seu texto, ele não mostra nenhuma dessas estatísticas. Um leitor seu, então, lhe pede alguma estatística que possa usar para argumentar contra os armamentistas, mas Ghiraldelli apenas responde que "não faz artigos acadêmicos em blog"². Mas, ora, será que o ilustre "filósofo" não descobriu, até hoje, que é possível inserir links em um post das mais diversas maneiras? Caso leia este meu texto, por exemplo, poderá ver que, ao passar o mouse sobre algumas palavras ou frases (uma delas, inclusive, neste mesmo parágrafo), estas estarão destoando do restante do texto e poderão ser clicadas sobre para levá-lo a outras páginas web afora. Não é preciso, então, escrever qualquer artigo acadêmico para mostrar, ao seu leitor, estatísticas ou links externos. Ou será que, para nosso ilustre "filósofo" paulistano, essa tarefa demandaria excessivo esforço sináptico?

Enfim, deixemos que ele responda depois, pois, agora, Paulo Ghiraldelli continua, em seu texto, subestimando a capacidade de seus adversários e afirmando que:
Essas estatísticas são fáceis de entender, mas há gente que não pode entender estatística. Trata-se de uma matéria do campo matemático, uma área na qual o brasileiro médio sofre. Essa dificuldade com a matemática acoplada a um pensamento conservador, às vezes de forte tendência mágica, alimenta não só tradicionais direitistas, mas também muitos da esquerda.
Fora a citação bizarra do "pensamento mágico" - que, aliás, parece ser algo mais inerente à revolução do que à conservação, pois é aquela e não esta que acredita em mudança súbita da sociedade por meio da força - sem maiores esclarecimentos e a pressuposição de que todo armamentista é "um brasileiro médio" e que, portanto, "não entende  de matemática", Ghiraldelli, então, chega ao ponto-chave: não basta ter as estatísticas, é preciso compreender as estatísticas. O problema é que, como já dito, NÃO TEMOS, por parte de Ghiraldelli, qualquer estatística para analisar - pergunto-me se seria por medo de que a análise "filosófica" não tenha sido tão bem construída assim, mas deixemos isto para outra ocasião.

Tomo, então, a liberdade de apresentar, eu mesmo, algumas estatísticas - que, aliás, a princípio, parecem corroborar as assertivas ghiraldellianas sobre armas - extraídas de um verdadeiro dossiê da revista VEJA sobre a questão³. , podemos ver que, de fato, a maioria das armas de fogo dos cidadãos caíram na mão de bandidos... no Rio de Janeiro entre 1999 e 2005. E também podemos ver, já no início da reportagem, que, ao contrário do que pressupõe Ghiraldelli ao se fiar nas estatísticas como argumento, "As estatísticas sobre porte e uso de arma de fogo no país são consideradas incompletas e pouco confiáveis por especialistas das áreas de criminalidade e segurança pública.", havendo apenas pesquisas isoladas falando sobre o assunto e não havendo, sequer, um levantamento confiável de quantas armas existem circulando pelo país.

Isso significa que, até que o "filósofo" prove ao contrário, o que as estatísticas provam, por melhor que sejam interpretadas, é, a priori, nada. O detalhe é que, a posteriori, podemos esboçar algum tipo de interpretação para certos dados apresentados. Podemos perceber, por exemplo, que havendo armas em apenas 3,5% dos domicílios no Brasil, não há, nem de longe, como dizer que é a arma que o cidadão porta que impulsiona a criminalidade no Brasil (e dizer isto, aliás, seria de uma leviandade enorme, pois o tráfico, que financia boa parte das armas de criminosos, não teria sido posto em questão).

Do mesmo modo, não se deve interpretar a grande perda de armas dos cidadãos para bandidos tão literalmente quanto Ghiraldelli fez, posto que é preciso considerar que, ao contrário dos bandidos, o cidadão comum NÃO TEM como desenvolver propriamente as habilidades com as armas nem como manter essas habilidades polidas, já que, fora o Tiro de Guerra, que se frequenta por, no máximo, dois anos, e alguns clubes de tiro que não existem em todos os lugares do Brasil - em minha cidade, por exemplo, talvez apenas os membros de famílias mais ricas saibam da existência de algum-, não existem lugares em que se possa aprimorar as habilidades com armas. Ou seja, não é preciso realmente das estatísticas... para perceber que o cidadão comum (para não falar em "cidadão de bem", já que a turma progressista é alérgica a essa expressão mesmo quando usada englobando também o proletariado) está, no quesito treinamento, em óbvia desvantagem.

Para outros tópicos, porém, a estatística, de fato, não é necessária, como, por exemplo, no caso de sabermos que a arma de fogo, de fato, NÃO aumenta a segurança do cidadão, isto porque, estando nós em uma sociedade sob domínio de um Estado, a segurança não é algo que depende apenas da vontade e dos recursos de um indivíduo, mas sim da própria competência do Estado em usar o monopólio da violência (sobre o qual voltarei a falar mais no final do texto) para assegurar que seus cidadãos possam encostar a cabeça no travesseiro com o menor medo possível de serem assaltados e/ou mortos durante o sono.

Do mesmo modo, não é preciso de muito esforço sináptico nem de estatísticas para saber que, ao facilitarmos ao cidadão o acesso às armas, estaremos incorrendo no risco de ele ferir inocentes, pois esta é uma consequência mais do que óbvia do que acontece quando é permitido ao cidadão acessar com mais facilidade qualquer objeto que possa levar um ser humano ao óbito, mesmo que esta não seja sua função primordial. Explicando melhor e parafraseando Bene Barbosa, porta-voz do movimento armamentista Movimento Viva Brasil, se formos proibir os cidadãos de ter algo simplesmente porque este algo pode, em algum momento, levar o cidadão a ceifar vidas inocentes, teríamos de proibir, então, até mesmo os automóveis (e teríamos argumentos até melhores, visto que a imaturidade do brasileiro com automóveis é bem mais visível do que com armas, dado o número de mortes por imprudência no trânsito).


Bene Barbosa surpreso com a "filosofia" de Ghira

Também não é preciso de qualquer estatística para perceber que, fazendo ou não uso adequado das armas de fogo, o cidadão se verá envolvido em um imbróglio jurídico de proporções escatológicas, só que isto se dá não porque o problema esteja nas armas, mas sim porque a justiça brasileira, além de extremamente morosa, aparenta, nos últimos tempos, estar ficando cada vez mais bizarra, especialmente quando se vê que, em alguns casos, o literalismo jurídico manda, enquanto, em outros, o que vige é uma interpretação extremamente divergente do que a lei aparenta dizer sobre certo caso.

Vê-se, então, que, para alguém que se crê um grande intérprete não só das estatísticas como também da realidade em que elas se inserem, o "filósofo" está mais é para filodoxo do que para um filósofo propriamente dito. Mais adiante em seu texto, porém, levanta um ponto pertinente ao escrever que:
As coisas começam realmente a ficar preocupantes, especialmente para o filósofo, quando a questão da posse de arma em sociedades como a nossa se apresenta antes de tudo pelo desejo de realmente combater o crime.
Pena, porém, que a relevância não dura muito (isso sem contar o fato de a única prova de ser filósofo que Ghiraldelli deu até hoje é o título de doutor em Filosofia e algumas interpretações de Rorty e Paulo Freire), pois Ghiraldelli, então, se apoia, novamente, nas estatísticas "bem feitas":
 Quando as pesquisas são bem feitas, elas assustadoramente exibem que a segurança não é tão prioridade quanto aparece à primeira vista. O brasileiro realmente acredita que ele pode ser um agente de combate ao crime [...]
 Mas, como de costume, não apresenta qualquer uma dessas "pesquisas bem feitas" para que o seu leitor possa tirar suas próprias conclusões, o que, aliás, reforça minha tese inicial de que o que Ghiraldelli realmente quer é que concordem com as conclusões dele, apesar de se esforçar homericamente em provar o contrário.

Voltando ao texto, depois dessa ladainha sobre pesquisas, o "filósofo" paulistano tenta voltar à retórica por si própria e afirma, categoricamente, que:
O brasileiro realmente acredita que ele pode ser um agente de combate ao crime, que ele mata o bandido e pronto, está tudo resolvido, ou seja, que não haverá vingança de outros bandidos e que ele não sofrerá nada na própria justiça. 
Primeiro, sem mostrar qualquer pesquisa, como ele disse, "bem feita", não é justo pedir ao leitor que acredite no que se fala, então, sobre o brasileiro. Segundo, mesmo que Ghiraldelli esteja certo sobre o brasileiro não saber das consequências na justiça, isto se dá porque, simplesmente, o brasileiro não procura, desde cedo, o conhecimento sobre seus direitos e deveres, isto porque NÃO PRECISA deles a não ser em raríssimas ocasiões em que, se for mais afortunado, poderá ter um advogado para tratar de seu caso e, se for pobre, já entrará para o julgamento sem ilusões, mesmo tendo garantidos pela Constituição os seus direitos*. Por fim, o cidadão não pensa que haverá vingança de outros bandidos:

1- Porque o bandido, mesmo que armado, pode não ter outros aliados
2- Porque não há como prever qual bandido é membro de quadrilha ou não.

E, lógico, um cidadão que não tem treinamento constante com armas certamente será presa fácil da possível quadrilha, podendo, então, como diz Ghiraldelli posteriormente, ser colocado, junto com sua família (que, curiosamente, está toda, necessariamente, desarmada, mesmo que haja pelo menos mais um adulto na família), em um inferno. Só que, caso se facilite o acesso às armas por parte do cidadão (visto que elas já são legalizadas, apesar da terrível burocracia necessária para adquirir e manter uma em posse), deve-se, também, facilitar o treinamento deste cidadão e instruí-lo, melhor e mais extensivamente do que fez Ghiraldelli, sobre os riscos e as responsabilidades de andar armado. Porém, aí caímos em outra questão, que é a do monopólio da violência por parte do Estado. Hora, então, de cumprir minha promessa e terminar este texto.


Ghiraldelli, o energúmeno?

Voltando brevemente aos onze tópicos sobre o energúmeno, que Ghiraldelli insiste em definir como todo aquele que não sabe que suas demandas e suas ideias podem se voltar contra ele próprio**, ao responder a um leitor que, pertinentemente, colocou em questão a auto-defesa, Ghiraldelli cita, sem pensar duas vezes, a discussão weberiana sobre o "monopólio da violência" pelo Estado, monopólio este derivado, justamente, do contrato social como descrito por Hobbes e Rousseau. Ou seja, isto significa, na prática, que, pressupondo a concordância de todos sobre a necessidade de regras comuns a todos e de um Estado que garanta a aplicação dessas regras (o que, aliás, pode ser quebrado ao se ver o crescimento até notável no número de libertários, alguns até exageradamente anti-Estado), este mesmo Estado também deveria, necessariamente, ser o único grande portador de todos os meios possíveis para coibir, entre outras coisas, a violência e a criminalidade dentro do seu território.

Ocorre, porém, que, apesar de nobre em princípio, esta ideia pode levar a uma grande falha, à qual o "filósofo da cidade de São Paulo", pelo visto, não se atentou. Obviamente, por mais que se tente, é impossível que o Estado, sozinho, seja o único que tenha poder para matar ou prender todo aquele que interfira com suas políticas, e isto se dá tanto porque existe o comércio ilegal de armas, instrumentos usados para a violência, quanto porque há os criminosos, que fazem da violência suas principais armas.

Entretanto, existem alguns casos em que o que se forma ou o que se pretende obter não é um Estado Democrático de Direito, uma Monarquia Constitucional, uma República Federativa ou algum desses governos em que se privilegie a liberdade e o poder de escolha dos cidadãos sobre as suas vidas e sobre quem deve administrar os bens comuns por determinado período de tempo, mas sim um Leviatã, uma Monarquia Absoluta, uma República Nazista, um tipo de Estado em que a preocupação é, justamente, controlar o máximo possível a vida dos cidadãos (autoritarismo), quando não todos os aspectos da vida dos cidadãos, incluindo o que estes podem ou não pensar (totalitarismo).

Acontece que, quando um Estado desses se forma, considerando que não se formará sem oposição e sem o mínimo de atritos, é muito perigoso para seus líderes que os cidadãos comuns ou mesmo seus opositores tenham como se defender das arbitrariedades que virão a perpetrar quando dentro do governo. É para evitar esses riscos, então, que esses estatistas procuram o monopólio absoluto de todo e qualquer tipo de instrumento que possa servir para, justamente, deflagrar a violência não apenas contra civis, mas contra o próprio Estado.

Percebe-se, então, que também o "filósofo" deveria repensar um pouco mais toda sua certeza sobre o quão bom é o desarmamento civil e, por corolário, o monopólio da violência por parte do Estado. Afinal, se, como ele disse, um tiro de um cidadão comum "é no mínimo três tiros. Um sai pelo cano, dois pela culatra. Os do cano tiram uma vida de uma vez, os outros dois funcionam como uma longa e tenebrosa tortura capaz de destruir não só o atirador, mas sua família e tudo o mais ao seu redor.", posso dizer, então, que nenhum tiro também pode ser três tiros ou mais. Resta saber quantos desses tiros serão usados pelo crime e quantos serão usados pelo Estado.

Sobre o Autor: Octavius é graduando em Letras e percorre, ainda timidamente, os caminhos da Filosofia. Se, para ser filósofo, precisar se formar e analisar o mundo como o fazem Ghiraldelli e outros acadêmicos, morrerá feliz se for para sempre chamado de polemista medíocre.

¹ Escrevo o nome do "filósofo" com "u" porque ele, por sua vez, já chegou ao cúmulo de escrever o sobrenome de José Guilherme Merquior com "ch" e com "lch", transformando o diplomata e ensaísta brasileiro (ou seja, alguém que deveria ser conhecido para um doutor em Filosofia a ponto de saber grafar seu nome sem maiores problemas), assim, em "José Guilherme MerCHior" e em "José Guilherme MeLCHior", o que deveria fazer, então, até mesmo o leitor mais fanático do "filósofo da cidade de São Paulo" colocar em dúvida as capacidades cognitivas deste. 

² Muito curiosamente, um blog também não precisaria estar condicionado do mesmo modo que um jornal impresso, plataforma na qual, por questões óbvias (leia-se: o impresso), não se pode colocar links tão acessíveis quanto na rede, mas Ghiraldelli, pelo visto, parece pensar que deve escrever como se fosse para um jornal ou revista. Ainda mais curiosamente e, desta vez, ironicamente, é justamente um dos piores escribas da imprensa brasileira, o também "filósofo" Emir Sader, que dá um bom exemplo de como, sim, se pode colocar alguma referência externa em um artigo, quando, ao fim de alguns de seus artigos na Caros Amigos, coloca, bem ou mal, livros que o leitor possa consultar sobre as questões por ele abordadas. Será que nem Emir, então, o "filósofo da cidade de São Paulo" consegue imitar?

³ A você que demerita um artigo pela fonte, só posso mandar ir para a Conchinchina, para não falar algo pior.

* Curiosamente, a escola, tão louvada por Ghiraldelli em seus artigos mais recentes, quase nunca procura inserir o estudante na discussão sobre como procurar os próprios direitos, ou mesmo traz palestrantes que saibam do assunto para discuti-lo com os alunos, mesmo que tenha poder aquisitivo para isso. Ué, mas o problema da escola não era apenas dinheiro, senhor Paulo Ghiraldelli Jr.?

** Ainda sobre este tópico, aliás, é curioso que, em resposta a outro leitor, Ghiraldelli fala que "a civilização vai pelo caminho do desarmamento", enquanto se esquece de que, como denunciado constantemente pelo jornalista britânico Pat Condell e por outros, a mesma civilização (Leia-se: Europa) também caminha para a islamização, o que, creio que Ghiraldelli saiba, não necessariamente trará apenas bons resultados, especialmente para as minorias que Ghiraldelli defende (porcamente, por sinal). E então, Dr. Paulo Ghiraldelli Jr., qual era aquela conversa sobre civilização e energúmenos mesmo?